Da janela do meu quarto

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 5:24 pm

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Da janela do meu quarto

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A janela deixa-se invadir pelo casario e ruas arborizadas. Na sombra das nuvens, a manhã acordou-me, cinzenta, na minha frente.                                                            Não se nota que é Primavera, mas ela chegou no calendário. Hoje é domingo, e a meteorologia promete chuva.                                                                                      Queria sair. Sair de casa. Mas estás longe e não há como ir ao teu encontro.

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O meu apartamento fica num andar alto. Visto a partir desta perspectiva, o casario tem a sua beleza. Primeiro, os telhados vermelhos das vivendas do bairro antigo a demarcarem a rua alcatroada. Atrás, os prédios altos na sua monotonia acinzentada; atrás destes, os prédios vermelhos. Um pouco mais ao fundo, uma paleta de amarelos. De onde em onde, sobressaem as copas das árvores. Algumas já renovaram a folhagem que fresca e transparente se baloiça ao ritmo da aragem.

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Ainda é cedo, mas os carros começam a invadir o espaço com os seus ruídos monocórdicos.                                                                                                            Acho que são horas do meu chá matinal. Talvez a seguir regresse um pouco de sono.

© Myriam Jubilot de Carvalho

Inédito, 6 de Abril de 2019

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Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 11 de Abril de 2019, pelas 18h 25m

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AMOS OZ

* Notas Breves — Myriam de Carvalho @ 11:52 pm

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Morreu Amos Oz

Não acredito…
Morreu Amos Oz…
Foi em 2018, no dia 28 de Dezembro. Mas eu só soube agora…
O autor de um dos grandes livros da minha vida: “O Mesmo Mar” (1).
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Conforme é dito no artigo abaixo citado:
Nasceu em 1939.
“De seu verdadeiro nome Amos Klausner – ao apelido do pai, preferiu Oz, que significa “força” ou “coragem”” …
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“Recebi prémios suficientes”, respondeu, segundo o jornal israelita Haaretz, numa das vezes em que lhe perguntaram o que sentia sobre o facto de ainda não lhe ter sido atribuído o Nobel. “Se deixar este mundo sem nunca ter recebido o Nobel, ficarei bem. Vou contar-lhe um segredo: os prémios literários são uma coisa estranha. Eu escrevo livros tal como bebo água ou respiro. Eu não posso deixar de beber água, de respirar nem de escrever. Depois, as pessoas vêm e dizem: ‘Respiras lindamente’ ou ‘Bebes água tão bem que vamos dar-te um prémio.’ Escreveria os mesmos livros, ainda que tivesse de pagar multa por cada um deles – e há pessoas que gostavam de me ver pagá-la, eu sei disso.”
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Ele era um pacifista. Isso é sabido. Foi o fundador do movimento “Paz Agora”. No entanto, limitou-se a condenar apenas a ocupação de Faixa de Gaza e da chamada West Bank; nunca condenou a ocupação inicial do território Palestiniano.
Conforme é referido no artigo abaixo citado: apesar de tudo, o seu pacifismo …”lhe valeu muitas vezes o epíteto de traidor. “Tendo a olhar isso como uma honra. Tem acontecido a muito boa gente ao longo da História. Quando me chamam traidor, sei que estou em excelente companhia”, “…
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A sua humanidade: e se eu fosse o outro?
… “Acho que uma pessoa curiosa tem um pouco mais de moral do que um não-curioso, porque por vezes coloca-se na pele do outro. Penso ainda que um curioso é também um melhor amante. Até a minha abordagem à questão palestiniana, por exemplo, nasceu da curiosidade. Não sou um especialista em Médio Oriente, nem um historiador ou um estratego. Simplesmente perguntei a mim mesmo, desde muito novo, como seria se eu fosse um deles. É o que faço – levanto-me de manhã e pergunto-me: E se? É assim que vivo e é assim que escrevo.” 

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VER artigo no PÚBLICO:

Título: Morreu o escritor Amos Oz, uma das principais vozes israelitas do campo da paz

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(1)- O Mesmo Mar, de Amos Oz

Editores ASA, 1ª edição – 2003

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Publicado por

Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 9 de Abril, por volta da 1h

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Dia 8 de Março – Dia Internacional da Mulher, em 2019

* Notas Breves — Myriam de Carvalho @ 2:31 pm

Mulheres quase desconhecidas, e certamente esquecidas
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A origem da expressão “banho-Maria”
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Maria foi uma alquimista judia, do século III aC. Inventou várias técnicas e utensílios de laboratório.
Uma dessas técnicas passou à posteridade sob a designação de “Balneum Mariae”.
A cozedura em “banho-maria” foi muito utilizada nas experiências químicas, ao longo dos tempos.
No entanto, foi muito vulgarizada por Albertus Magnus, no século XIII, e muita gente pensou que teria sido ele o seu inventor…

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Hipátia de Alexandria
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Hypatia foi grande matemática e astrónoma, bem como filósofa. Nasceu cerca de 355, e morreu em 415, em Alexandria.
A polaca Maria Dzielska estudou a história e o fim trágico de Hypatia.
Hypatia viveu num tempo perturbado. Foi brilhante no seu ensino das Matemáticas e Astronomia.
A sua formação filosófica inscreve-se no Neoplatonismo.
Mas escandalizou o ambiente do cristianismo nascente.
Foi assassinada.
O seu nome e memória tornaram-se símbolos do Feminismo.
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Referências:

Sobre a alquimista Maria, citei de memória.

Sobre Hypatia de Alexandria, há o livrinho da relógio de Água ou aqui na Net, a Enciclopédia Britânica:

Hipátia de Alexandria, de Maria Dzielska, Relógio de Água, 2009

https://www.britannica.com/biography/Hypatia

Publicado por 

Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 8 de Março de 2019, pelas 14h 24m

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A Vida não é lugar

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 2:39 pm

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Penso muito nas teses de Marc Augé sobre o tema do “Não-Lugar”.

Tomei contacto com elas a partir do filme The Terminal (Terminal de aeroporto) com Tom Hanks e Catherine Zeta-Jones. Guião por Sacha Gervasi  e Jeff Nathanson, baseado numa história de Andrew Niccol e Gervasi. Realização de Steven Spielberg. 2004.

Depois disso, outras leituras vierem à minha memória, e outros filmes se lhes juntaram.

Cada homem é uma ilha” – Buda

“El Gran Zoo” – Nicolás Guillén, 1967.

The Magic of Belle Isle (Um Lugar Especial) com Morgan Freeman e Virginia Madsen. Guião de Guy Thomas. Realização de Rob Reiner. 2012. No Canal Hollywood, dia 5 de Março de 2019, às 9h 50m.

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A Vida não é lugar

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A vida não é lugar.

Labirinto às escuras, onde

entramos ao nascer.

E porque havemos de morrer,

nunca se torna nosso.

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Mas não é um sítio neutro.

Gafaria lazarenta, onde

a massa cinzenta opera

maravilhas. Serão boas? Umas, poucas…

…muitas, não… A céu-aberto.

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Um não-lugar de penosa travessia,

um frio deserto… Onde

cada qual é uma ilha.

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Mas quando encontro o teu sorriso

é então que me liberto –

Ergo o meu espírito,

e o céu distante fica perto.

Entro em casa,

abro as janelas.

E quanto mais ganhamos asas

mais acordes ganhas no meu voo.

Viramos costas às cancelas

das estreitas capelas,

e dos zoos.

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Já não é um não-lugar – o supermercado

universal, o centro comercial onde

a honra está à venda e tudo

pode ser comprado.

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É a casa do Amor,

onde sabe bem ficar

© Myriam Jubilot de Carvalho

6 de Março de 2019

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Publicado por Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 7 de Março de 2019, pelas 14h 40m

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Preconceitos

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 5:10 am
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Do meu livro
“O Livro das Actas
Ex annis 70 et 80
in loco vehementer in calorem”
Myriam Jubilot
Cadernos Literários vuJonga, 2016
Edição de Autora
pág 67.
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Os preconceitos são como os figos tunos
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– A partir de uma conversa entre Amigos –
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Os preconceitos são como os picos
dos figos tunos
Nunca mais saem
É preciso queimar as pestanas
como quem passa pelas brasas –
E mesmo assim,
sempre sobra uma raiz
mais renitente
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Quem quer ver-se livre
dos preconceitos
tem que estar sempre alerta!
Sempre:
Eles irrompem pelas frinchas do caruncho
das velhas palavras –
da forma aparentemente
mais inócua, e inocente.
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E conseguem trair as raízes
que pensávamos arrancadas
e lançadas ao fogo…
Porque fomos inoculados na infância – vacinas
eficazes
destinadas a preservarem o ‘establishment’.
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Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 25 de Fevereiro de 2019, pelas 5h 10m

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A notável intervenção da socióloga Luzia Moniz na Assembleia da República

* Antologia — Myriam de Carvalho @ 3:53 pm

A notável intervenção da socióloga Luzia Moniz, na Assembleia da República, vem publicada no jornalO Autarca:

Editorial do jornal “O Autarca”:

Primeiro jornal electrónico editado na cidade da Beira – Ano XIX – Nº 3634 – Quarta-feira – 06 de Fevereiro de 2019 – página 08/09.

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Luzia Moniz é líder associativa africana, em Portugal, onde reside há décadas. Natural de Angola, foi jornalista em Maputo, Moçambique, na década de 1980. Formada em Sociologia. Tem participado em Conferências sobre os Direitos Humanos pela Europa.

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CPLP ESCOLHE ESCRAVOCRATA – RACISTA PARA PATRONO DE PROJECTO JUVENIL

por Luzia Moniz

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[Fernando Pessoa ] Aos 28 anos escreveu: “A escravatura é lógica e legítima; um zulu (negro da África do Sul) ou um landim (moçambicano) não representa coisa alguma de útil neste mundo. Civilizá-lo, quer religiosamente, quer de outra forma qualquer, é querer-lhe dar aquilo que ele não pode ter. O legítimo é obriga-lo, visto que não é gente, a servir aos fins da civilização. Escravizá-lo é que é lógico. O degenerado conceito igualitário, com que o cristianismo envenenou os nossos conceitos sociais, prejudicou, porém, esta lógica atitude.”

Em 1917, aos 29 anos, continua: “A escravatura é a lei da vida, e não há outra lei, porque esta tem que cumprir-se, sem revolta possível. Uns nascem escravos, e a outros a escravidão é dada.”

Aos 40 anos consolida a sua ideologia racista, escrevendo: “Ninguém ainda provou que a abolição da escravatura fosse um bem social”. E ainda: “Quem nos diz que a escravatura não seja uma lei natural da vida das sociedades sãs?”

Fernando pessoa, dono desse ignóbil pensamento, é a figura escolhida pela CPLP para patrono de um projecto de intercâmbio universitário no Espaço de Língua Portuguesa.

Essa iniciativa, cópia do programa europeu Erasmus, visa a educação, formação e mobilidade de jovens do espaço de língua portuguesa, oferecendo-lhes oportunidades de estudo, aquisição de experiência e voluntariado por um período curto num dos países da CPLP à sua escolha.

Que Portugal, país onde a mentalidade esclavagista fascista ainda é dominante, tenha escolhido promover, branquear essa figura sinistra não me espanta.

Agora, o que verdadeiramente me deixa perplexa é a aceitação pelos países africanos, as vítimas da escravatura.

Se foi para isso que Portugal fez a guerra para assumir o secretariado exclusivo da CPLP, tudo indica que a coisa começa mal.

Denunciei isso mesmo, esta quarta-feira na Assembleia da república de Portugal, durante a cerimónia de abertura do ano da CPLP para a Juventude, onde estavam deputados portugueses, governantes dos estado da CPLP, jovens, activistas, intelectuais e académicos afrodescendentes, brasileiros, portugueses e africanos.

Não sei se Pessoa é ou não bom poeta. Isso pouco interessa para o caso. A minha inquietação é o uso da CPLP para branquear o pensamento de um acérrimo defensor do mais hediondo crime contra a Humanidade: a escravatura.

Atribuir o seu nome a um projecto que envolve jovens, descendentes dos escravizados, configura um insulto fascista.

Na AR alguém, para tentar justificar o injustificável, alegou que as convicções esclavagistas fascistas de Pessoa reflectem o pensamento da Época, ignorando que, por exemplo, Eça de Queirós, contemporâneo de Pessoa, era contra a Escravatura e que quando pessoa escreve tais alarvidades já a escravatura tinha sido abolida oficialmente. Outros diziam que precisamos de olhar para o futuro, esquecendo o passado. Como se Pessoa fosse futuro. Como construir um futuro salutar sem olhar para os erros do passado?

E se nos cingirmos apenas ao “pensamento de Época” qualquer dia, temos o nome de outro colonialista-fascista António de oliveira Salazar atribuído ao Conselho de Finanças da CPLP, com o argumento de que “tinha as contas em ordem” e de que foi “fascista à Época”.

Se se pretende criar uma comunidade envolvendo as populações e não se limitando aos políticos, mais ou menos distraídos, é imperativo que o nome de Fernando Pessoa não figure em projectos comuns. Em sua substituição sugeri Mário Pinto de Andrade, académico, um dos mais brilhantes intelectuais do espaço de língua portuguesa. Angolano que iniciou o seu percurso académico em Angola, passando por Portugal antes de ser ministro da Informação e Cultura na Guiné Bissau, que teve passaporte cabo-verdiano e deu aulas em Moçambique.

Dos países africanos membros espera-se que revertam essa situação, opondo-se ao nome de Fernando Pessoa, mesmo que com esse digno gesto se crie um novo irritante. Os irmãos de Cabo Verde, que neste momento presidem a CPLP, têm uma responsabilidade acrescida nesta questão.

Se Portugal olha para a CPLP como um instrumento de dominação dos outros, cabe-nos a nós, africanos, impedir que isso aconteça.

Da minha parte, estou aqui, em nome dos meus antepassados e protegendo o futuro dos meus descendentes. Luzia Moniz

(Quarta-feira, 30 de Janeiro de 2019; Lisboa, Assembleia da República Portuguesa, sessão da manhã).

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Publicado por

Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 11 de Fevereiro de 2019

pelas 16 horas

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Sobre a intervenção de Luzia Moniz na Assembleia da República do País dos Brandos Costumes

* Notas Breves — Myriam de Carvalho @ 3:50 pm

A intervenção de Luzia Moniz sobre Fernando Pessoa na CPLP

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No país dos Brandos Costumes, a ‘intelligensia’ machista toma por ídolos, personagens que só têm cérebro – seres individualistas, mutilados de coração, narcisos absolutos.

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No regime salazarista, a juventude estudantil era alvo da massificação com a injecção forçada dos Lusíadas. Celebrava-se o “Camões Épico”.
Ignorando que o grande poeta que Camões foi, foi o Lírico. Aí, sim, Camões é universal.
Actualmente, afronta-se a juventude, com Fernando Pessoa.
Pessoa pode ter sido um grande poeta. Disso não teremos dúvidas. Mas escolhê-lo para patrono da juventude da CPLP?!
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Poucas mulheres tenho visto capazes de afrontarem a ‘intelligensia’ portuguesa, machista e conservadora. Natália Correia terá sido a mais notável.
Recordo Natália Correia na Assembleia da República. Ia ser tomada a decisão sobre o destino de Isabel do Carmo e Carlos Antunes, então na prisão, em greve de fome.
E ao ver que os ânimos continuavam de pedra, Natália Correia levantou-se, e da tribuna apontou o dedo aos presentes, clamando-lhes:
– Seus corporativos! Seus corporativos!
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No dia 30 de Janeiro, Luzia Moniz, socióloga, africana, afrontou a ‘intelligensia’ machista, com o denodo de uma voz que se ergue no deserto.
Recordou que Fernando Pessoa considerou a escravatura como uma necessidade.
Os textos em que ele o afirmou estão publicados, não constituem segredo.
A afirmação de Pessoa foi uma afirmação consciente, dura, irreplicável, determinada, e repetida.
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No entanto, essa escolha não nos deve admirar. Num país onde uma das praças públicas da capital continua a chamar-se “Praça do Império”.
O sentimento imperialista, colonialista, continua vivo entre nós.
Só não entendemos como os outros representantes dos países africanos aceitaram tal designação.
Que espécie de modelo se pretende apontar aos nossos jovens?!
Pretende-se regredir ao nosso passado colonialista?!
Ou esse Passado nunca deixou de ser Presente?
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Como não se mudam as vontades, os tempos ainda não mudaram. “Como construir um futuro salutar sem olhar para os erros do passado?” – é a grande interrogação de Luzia Moniz. E eu assino por baixo.

Deixo no post seguinte, a intervenção a que aqui me refiro.

Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 11 de Fevereiro de 2019, pelas 15h 50m

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Como começa a Violência Doméstica?

* Notas Breves — Myriam de Carvalho @ 4:29 pm
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O país dos brandos costumes
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Como começa a Violência Doméstica?
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O país à beira-mar plantado, pacífico, feliz e despreocupado, não passa de uma poética ficção. Precisa de se ver ao espelho, precisa de enfrentar a realidade.
Há poucos dias, um Amigo do FB recordava MIGUEL DE UNAMUNO, com esta citação:
“A brandura, a meiguice portuguesa, não está senão à superfície; raspai-a e encontrareis uma violência plebeia que chegará a assustar-vos. Oliveira Martins conhecia bem os seus compatriotas. A brandura é uma máscara.” (1)
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Na verdade, a violência doméstica em Portugal é um cancro que começa a ser encarado com a devida frontalidade. É alarmante este aspecto da nossa vida social, conforme se poderá comprovar com uma breve visita ao espelho das estatísticas da APAV. Segundo se tem noticiado, só no mês de Janeiro deste ano que acaba de começar, já foram assassinadas 9 (nove) mulheres.

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Quais são então os sinais de alarme de que um relacionamento poderá tornar-se violento?

Oprah Winfrey, nos seus programas, insistia em cinco indícios:
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1- Sinais muito precoces de compromisso ou co-dependência. O futuro agressor enreda precocemente a outra pessoa em laços que não são propriamente afectivos, mas emocionais;
2- Ciúme exacerbado, fruto de um exageradíssimo sentimento de posse;
3- O futuro agressor está acima do bem e do mal, faz tudo “por bem” e “por amor” argumentando com chantagens emocionais; não admite observações nem críticas, e reverte todo o mal-estar culpabilizando o ou a companheiro/a.
4-A futura vítima deixa-se tomar pelo medo. Aos poucos deixa de reagir.
5- O futuro agressor isola a pessoa com quem vive: evita e com o tempo consegue impedir que a (futura) vítima mantenha ligações com a família, e com as amizades anteriores ao relacionamento.
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Quanto a mim, os piores sintomas são o ciúme delirante, a culpabilização do outro, e o isolamento a que a futura vítima se vê confinada. Fica completamente à mercê de um acto tresloucado.
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E há um outro pormenor que eu acrescento:
A presença de armas em casa. Mesmo que o futuro agressor pareça que não virá a ser capaz de as usar… Nunca se sabe.
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A violência física é um estádio avançado da violência psicológica.
Nos casos em que a violência fica “apenas” pela violência psicológica, a ordem dos indícios atrás apontados será diferente. Pode até nem se passar à violência física. 
Quando se trata “apenas” de violência psicológica, a chantagem emocional e consequente culpabilização do lado mais fraco definem o comportamento do agressor. E estas, exercidas sistematicamente, frequentemente acompanhadas de troça e escárnio, retiram à vítima a possibilidade de formar uma auto-imagem positiva.
E assim:
Crianças que sejam educadas neste clima, estarão condenadas, na grande maioria dos casos, a ficarem sempre dependentes de futuros predadores e agressores.
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(1) –
Excerto de ‘Por terras de Portugal e da Espanha’, tradução de José Bento, Assírio & Alvim, 1989 / original de 1911.
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Publicado por:

© Myriam Jubilot de Carvalho

Em 7 de Fevereiro de 2019, pelas 16h 29m

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Centro Comercial ? oh, um não-lugar

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 10:14 pm

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Em geral vou postando aqui no blogue um ou outro poema

que vou recuperando em papéis antigos. 

Mas hoje fica um poema actualíssimo.

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Centro Comercial – não lugar

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O corrupio não pára.

E não há sítio onde

descansar os pés.

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Não há nada mais

inóspito do que um

centro comercial.

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Só te poderás sentar

se te dispuseres

a petiscar –

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Oh, aí, sim, tens

por onde

escolher –

Leve e pesado,

doce e salgado!

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É como a banha-da-cobra

Enchem-te o prato

de

vento

É penitência de convento

Comes tudo

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E é tão mau

que ainda sobra

© Myriam Jubilot de Carvalho

(inédito)

Num Centro Comercial

algures, em Lisboa, 17 de Janeiro de 2019

Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 6 de Fevereiro de 2019, pelas 22h 15m

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A Poesia tem género?

* Notas Breves — Myriam de Carvalho @ 2:02 pm

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A Poesia tem género?

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À minha Amiga Marina Tadeu

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Surgiu no FB alguém que defendeu o uso da expressão Mulher-Poeta.

Marina Tadeu, concordo consigo – é uma falsa questão.

A Língua Portuguesa compreende o uso de um mesmo substantivo (ou “nome”) nas duas formas, o Masculino e o Feminino. Daí, sempre tenho achado que esta é uma falsa questão. Um exemplo: Eu vou à “médica”, vou à “advogada”, falo de uma dada “escritora”, “ou escultora”, ou “actriz”; eu fui “professora” (não fui “professor”).
Então qual o problema de ser “Poetisa”?

Diz-se que as “poetisas” não fazem “grande poesia”. Mas isso é puro Machismo. Porque a cada passo vemos “poetisos” que não escrevem “grande poesia”.

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A Poesia, como qualquer outra Arte, é a “grande”. E a Arte, em si, não tem género, nem sexo.
Quem é representante do género, são as pessoas que a praticam. Se à noite, quando faço amor, sou Mulher, porque não o serei quando escrevo?

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Não é por se dizer “Mulher-Poeta” que aquilo que dada mulher escreve será de melhor qualidade!
Há quem diga que há que evitar a confusão com as Poetisas do séc XIX. Mas isso é pura Ignorância. Cada um e cada uma de nós exprime-se de acordo com o seu tempo!

As excepções (os “grandes” e as “grandes”) são daqueles, e daquelas, que vão à frente do seu tempo.

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Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 5 de Fevereiro de 2019, pelas 14h.

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