Greta Thunberg

* Notas Breves — Myriam de Carvalho @ 2:58 pm

Esta Menina comove-me duplamente:

=Por um lado, encontrou maneira de converter o seu handicap em energia e actividade positiva;

=Por outro lado, iniciou uma luta maior do que ela e que nos compromete a todos nós!

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Publicado por Myriam Jubilot de Carvalho, em 11 de setembro de 2019,

pelas 16h.

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Doce Caparica

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 10:43 am

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Mais um poema dos meus arquivos.

Doce Caparica 

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Não se faz ouvir a cava rouquidão das ondas

A maré está calma e o mar azul claro

está chão, apenas afagado pelo vento.

Não há céu.

Apenas o brilho esbranquiçado

da neblina. E a linha do horizonte é uma estreita faixa 

fosforescente donde

se destaca o vulto impreciso dos petroleiros

.

Estou como sempre 

nesta larga esplanada 

separada da praia

pelo paredão.

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Metade da cidade 

vem para aqui 

gozar-se deste perverso

sol de inverno

que não deixa chover

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Jovens e velhos. Famílias inteiras. Crianças que correm 

desforrando-se

da prisão dos infantários,

guinchando de alegria.

Cães puxam os donos 

pela trela.

Desportistas e

aleijados.

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E cada vez é mais avantajado

o punhado de mulheres sós

onde me incluo.

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Jovens trazem os livros de estudo

e resolvem os TPCs.

As velhotas trazem

as revistas do coração

e os homens,

os semanários.

.

…Mas com livros pesados, talvez romances, e folhas A4 –

só me verás a mim…

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O sol desce.

É um sol de ficção.

Um sol de Fim dos Tempos…

Apenas uma auréola coada 

pela estufa…

…Mas como diria o Poeta, 

continua a espelhar-se na superfície 

azul mate ondulada pela brisa…

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E chega a apoteose do meu dia solitário!

…O céu tinge-se de vermelho!

…E eu pago a despesa e

vou andando pois 

a noite é falsa e

não tenho companheiro nem

cão de guarda

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© Myriam Jubilot de Carvalho

No antigo Café do Mar – Costa, 29 de Janeiro de 2005

Publicado por Myriam Jubilot de Carvalho, em 4 de Setembro de 2019

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O País dos Brandos Costumes

* Antologia — Myriam de Carvalho @ 2:37 pm

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Ora aqui está muito bem explicado:

Excerto da entrevista de Joana Amaral Dias à revista Máxima, em 23.08.2019

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Portugal dos brandos costumes foi um mito criado por Salazar e a sua ditadura que queriam que o povo fosse subserviente e obediente.

Se os portugueses tivessem a crença de que, no coração da sua identidade, estavam os brandos costumes, se interiorizassem essa autoimagem de dóceis e pacíficos, a probabilidade de se comportarem como rebanho servil seria maior.

Todas as ditaduras apostaram na reescrita da História, na releitura do calendário, ao fim e ao cabo na reinvenção do espaço e do tempo.

O Estado Novo salazarento não foi exceção.

Contudo, os tempos da Inquisição e a época dos linchamentos na rua de pessoas suspeitas de “jacobinismo” foram sinistros.

Depois, só nos séculos XIX e XX contam-se por milhares os mortos em guerras civis e revoluções. Desde o regicídio de 1908, passando a guerra civil de 1919, até às vésperas do regime ditatorial amordaçar o país, o país esvaiu-se em sangue.”

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Publicado por Myriam Jubilot de Carvalho ( 24 de Agosto de 2019)

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Vento

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 10:38 pm

 Mais um poema acabado de sair – não da forja – mas da arca das coisas que ficaram para trás…

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Vento

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Somente um grande amor poderia trazer-me

até aqui.

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Está vento, um vento frio, cortante,

um vento que nos trespassa como rajadas de balas,

que nos arrasta como folhas de outono,

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Um vento secreto, húmido e pegajoso,

um vento poderoso, orgulhoso,

tumultuoso

como as ondas – que acima da praia as levanta

e faz estrondosamente rebentar,

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Um vento oculto, motor acelerado

como o galope de um coração atormentado

pela alta voltagem dos cabos de distribuição

saídos da central,

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Um vento animal. Obscuro, como a força

com que o infante se torna adulto,

com que a leoa surpreende a presa

ou a cheetaha persegue ou a hiena

se precipita sobre a carcaça já explorada,

ou a gazela pasta sob os espinheiros das acácias

descansando à espera das horas refrescantes do entardecer.

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Um vento trivial. Como as conversas que

emergem do ruído de fundo

na esplanada onde me encontro sobre a marginal.

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Somente a ventania poderia trazer-me

aqui,

até ti

© Myriam Jubilot de Carvalho

27 de Março de 2004

Publicado por

Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 20 de Agosto de 2019, pelas 23h 37m

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I am not your negro – no Canal 2

* Antologia,* Notas Breves — Myriam de Carvalho @ 12:41 am

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O grande, notável, James Baldwin acaba de passar no Canal 2, nesta noite de Domingo.
“I am not your negro” é um estudo-documentário impressionante de lucidez.

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I am not your negro termina com estas palavras que, de certo modo, podem muito bem ajustar-se ao “País dos Brandos Costumes” que ainda se encontra em psicose de negação:
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“Vocês não podem linchar-me e manter-me em guetos sem se tornarem vós mesmos qualquer coisa de monstruoso. Além disso, oferecem-me uma vantagem aterradora. Vocês nunca tiveram que olhar para mim. Eu tive que olhar para vós. Sei mais sobre vocês do que vocês sabem sobre mim.

Nem tudo o que pode ser encarado, pode ser alterado. Mas nada pode ser alterado, sem ter sido encarado.

A História não é o passado. É o presente. Transportamos a nossa História connosco. Se fingirmos o contrário, somos literalmente criminosos.

Eu testemunho isto: O mundo não é branco. Branco é uma metáfora para o poder.”

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“I Am Not Your Negro: Race, Identity, and Baldwin” with Raoul Peck, Academy award-nominated director of the documentary “I Am Not Your Negro”. Based on James Baldwin’s unfinished manuscript. October 18, 2017.

Com a devida vénia,

publicado por

Myriam Jubilot de Carvalho

Segunda -feira, 19 de Agosto de 2’19, cerca de 1h 40m

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Histórias

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 12:20 pm

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Histórias

‘Omnia mea mecum port’o (Tudo o que tenho, trago comigo)

atribuído por Cícero, a Bias de Priene,

um dos Sete Sábios da Grécia

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Todos temos a mesma história

Nascemos, crescemos…

Sucessos, revezes, glórias

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Só que a contamos com

diferentes variantes, zique-zagues,

Esquecendo que somos todos

navegantes

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E se um dia a história há-de acabar

Oh, acabe com esta lufada de ar!

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Um garoto vai para a escola, e vai

arranhando a aspereza da parede

com a unha

como quem não quer ir e sabe

que não pode desistir…

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Quantas vezes na minha infância

fui para a escola arranhando a parede

Parecia-me que não ia aprender nada…

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E de facto, a única coisa que aprendi na vida –

foi isto…

…não foi na escola…

…nasceu comigo…

© Myriam Jubilot de Carvalho

2 de Agosto de 2019 

Publicado por

Myriam Jubilot de Carvalho

Igualmente no FB e no site brasileiro Recanto das Letras

Dia 5 de Agosto de 2019, pelas 13h 18m

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[Nunca madre a filha bon conselho deu] – Cantiga d’Amigo

* Antologia — Myriam de Carvalho @ 1:15 pm

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Poemas sem idade
Que dizer desta CANTIGA D’AMIGO?
Que dizer da raiva bem evidente com que a jovem se queixa da mãe?
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[Nunca madre a filha bom conselho deu]
de
FERNAN Rodriguez de Calheiros – 6
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Estava meu amig’ atenden<d>’ e chegou
mha madr’ e fez m’ end’ ir tal que me pesou;
alá me tornarei
e i lo atenderei
.
Nunca madr<e> a filha bon conselho deu
nen a min fez a minha, mais que farei eu?
alá me tornarei
<e i lo atenderei>
.
Pesar lh’ ia a mha madre quen quer que lh’ assi
fezesse, mais direi vos que farei eu i:
alá me tornarei
<e i lo atenderei
.
in:
“500 Cantigas d’Amigo”
Edição Crítica de Rip Cohen
Obras Clássicas da Literatura Portuguesa – Literatura Medieval
Coordenação editorial da colecção:
Instituto Português do Livro e das Bibliotecas
Campo das Letras, 1ª edição, Maio de 2003
página 116
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Publicado por

Myriam Jubilot de Carvalho

28 de Julho de 2019, pelas 14h 15

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Um poema sem idade

* Antologia — Myriam de Carvalho @ 8:42 pm

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Há poemas que são eternos.

Poemas a que recorremos quando o nosso coração precisa de conforto, poemas a que recorremos como quem abre uma janela ao esplendor do sol nascente.

O poema que aqui fica hoje, é um desses poemas eternos.

ARQUÍLOCO de PÁROS, o seu autor, veio ter ao meu conhecimento no primeiro ano da Faculdade, nas aulas de História da Cultura Clássica, do saudoso Professor Padre Manuel Antunes.
Na impossibilidade de encontrar agora a tradução do poema que se segue, que ele nos deu nas suas aulas, aqui fica esta outra:
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ARQUÍLOCO de PÁROS – séc VII aC
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O RITMO DA VIDA
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Coração, meu coração, que afligem penas sem remédio,
eia! Afasta os inimigos, opondo-lhes um peito
adverso. Mantém-te firme ao pé das ciladas
dos contrários. Se venceres, não exultes abertamente.
Vencido, não te deites em casa a gemer.
Mas goza as alegrias, dói-te com as desgraças,
sem exagero. Aprende a conhecer o ritmo que governa os homens.
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in ROSA DO MUNDO, tradução de Maria Helena da Rocha Pereira, Asssírio, 2001
pág. 419.
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Publicado aqui e igualmente no FB

por Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 26 de Julho de 2019, pelas 21h 41m

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PROFESSORES A MAIS?!

* Educação e Criatividade,* Notas Breves — Myriam de Carvalho @ 1:13 pm

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PROFESSORES A MAIS?!
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ESTA GENTE DIZ CADA UMA!
Já algum deles deu aulas a 30 miúdos ou jovens, todos na mesma sala, cada turma com a sua percentagem de mal-educados e desinteressados?! Com programas e métodos por vezes, desajustados. Sem lugar para a criatividade quer na Escrita, quer  nas Artes visuais, na Música, na Expressão corporal…
SABEM do que FALAM?
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O ENSINO PÚBLICO é para ser ACARINHADO, É o FUTURO do País que é posto em causa! Não pode nem deve ser AMESQUINHADO!
O Ensino Público é um investimento inestimável cuja rentabilidade não é visível no imediato. Esta afirmação é tão notória e evidente que até poderíamos dizer que já o Senhor de La Palice diria o mesmo!
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Já diminuíram os programas de Humanidades! Como se fosse possível formar jovens sem lhes apresentar a marcha cultural da Humanidade…

No actual retrocesso a que o Ensino está a ser sujeito, só conta o Ensino técnico baseado no domínio da Informática?

HOJE, tal como ONTEM – De que valem a informática ou qualquer outra Técnica – se o seu utilizador não tiver a sua sensibilidade educada?!

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Por que não pensam os políticos em diminuir as suas rendas ou ordenados? Se há famílias inteiras a sobreviverem com os miseráveis 600€ por mês, porque não se pensa que certas carreiras auferem demasiado?
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Por que motivo não se oferecem os livros escolares, vendidos a preços exorbitantes, a todos os níveis de Ensino? Vi reportagens na TV em que vários casais afirmavam que poupavam durante todo o ano (!) para poderem adquirir os livros escolares dos filhos…
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Por que é que as Artes e os Artistas, a Investigação Científica e os Investigadores, não têm melhor protecção e incentivos?
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Há países em que os Professores e o Ensino são objecto de verdadeiro respeito!
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Sempre tive tanta consideração por Rui Rio, mas por vezes, desilude-me.

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VER:

Rui Rio. “Temos de emagrecer, se possível, a Administração Pública”

https://sol.sapo.pt/artigo/666118/rui-rio-temos-de-emagrecer-se-possivel-a-administracao-p-blica-

“Ou seja, é preciso avaliar a Administração Pública, perceber onde há carências ou não. E até deu exemplos: “Há professores a mais, infelizmente, o que significa que temos um problema de natalidade”.”

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Publicado aqui no Blogue e no FB, por

Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 25 de Julho de 2019, pelas 14h 12m

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A Edvard Munch

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 11:42 am

Quer se trate dos incêndios ateados por mão criminosa em Portugal,

ou da devastação da Amazónia,

ou da destruição da Palestina,

O GRITO de EDVARD MUNCH continua actual.

 

100 anos depois
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A Edvard Munch (1893)

Boca escancarada,
a criança grita –
Grita – sozinha na noite.
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Por muito que a boca abra – ninguém
a ouve.
É apenas seu grito
um gesto impotente.
Nem aviso – nem premonição –
nem queixa.
Nem acusação.
Apenas reacção inconsequente
a atrapalhar o expectador da galeria.
Apenas um gesto
impotente.
.
Não está perdida na noite,
não.
Quem a possa ouvir
está oculto
na escuridão.
Não virá dar a cara
nem a mão à palmatória.
Avança
com os tanques, conduz os canhões,
alimenta os fornos.
.
E não apodrece nas prisões.
.
– Pintaste um grito inútil!
Um grito fútil.
Pintaste apenas o teu medo,
ou o meu.
.
Nem Deus te ouviu –
Deus não ouve os pacifistas
– E até dizem que morreu.
.
Mas esse teu Grito continua a ecoar
pelos quatro cantos dos sete céus!
Talvez um dia Deus acorde…
E ponha pimenta na língua
de todo o cão tinhoso que – escondido – morde

© Myriam Jubilot de Carvalho, 2004

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Publicado – tanto neste Blogue como no FB –

Dia 25 de Julho de 2019, pelas 12h 45m

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