* E No Fim Era A Poesia – por Manuela Rosado.

— Myriam de Carvalho @ 6:48 pm

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APRESENTAÇÃO DO LIVRO DE POEMAS

de

MYRIAM JUBILOT DE CARVALHO

Por Manuela Rosado *

SESSSÃO NA BIBLIOTECA MUNICIPAL ÁLVARO DE CAMPOS

EM TAVIRA

EM

21 DE MAIO DE 2008

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O título do presente livro é bastante sugestivo – ele contém em si a própria poesia como núcleo fundamental da escrita, parecendo remeter para uma situação única, existencial – tudo na vida se pode reduzir a poesia, ou a finalidade última da poesia é a própria vida. Na verdade, a poesia é a linguagem dos sentimentos, ela aborda a intimidade e a actividade do homem. É a linguagem universal que põe a descoberto a relação do mesmo com o que o rodeia, é a linguagem com que a parte afectiva do homem se liga à Natureza e estabelece relações com os outros homens. É a linguagem da própria vida.

Este livro inicia-se com os versos de Ommar Khayyam, filósofo, matemático, e astrónomo, em cuja obra, os Rubaiyat, se nos depara essa preocupação com a vida, a alegria de a cantar, o júbilo de a viver, as alegrias e as mágoas de amar, a efemeridade da própria vida, assumindo, assim, o presente, como forma prioritária de existência, como podemos verificar pela sua leitura: “Porquê inquietar-me (…)\E é no vento que passa que eu vejo os seus sinais”. Sinais da vida que se revelam no vento que passa, porque ele também sabe escrever poesia, quando manifesta a sua presença no balançar melancólico ou inquieto dos ramos e das folhas das árvores.

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O livro “E no fim era a Poesia” encontra-se estruturado em quatro partes que, pela sua leitura e por asserções do sujeito da enunciação, se podem associar à presença do mito na obra.

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O sujeito da enunciação começa por afirmar , tendo em conta a primeira parte – “No princípio era a Poesia” – que “o mito é a essência própria da Poesia, solene magia das noites dos bardos e dos aedos”, (p. 69), o que nos leva a concluir que o mito aparece aqui no sentido da origem da Poesia, tendo como função explicar todas as suas manifestações, desde as mais rudimentares, quando o homem ainda não tinha consciência de que as suas palavras ou o próprio canto, associado às forças e fenómenos da Natureza, como o vento, chuva, relâmpago, sol, eram já uma manifestação de um sentido para a vida.

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O subtítulo “Caos”, da segunda parte, evidencia o vazio primordial que precedeu o nascimento de todos os seres e realidades, do Universo, e que não se pode dissociar necessariamente do “Cosmos”, ou seja, da harmonia universal, do universo sujeito a uma ordem, a uma racionalidade e inteligibilidade, o que não é de todo impossível ver no poema da p. 48 “Os colibris esvoaçam sem poisar”, onde a ordem, a regra, já contaminam os animais, o homem, a própria Natureza. É a formação da ordem do Universo, a sua própria vida.

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O subtítulo “Hades” da terceira parte evidencia o submundo, o rio que conduz ao esquecimento, à morte e ao respectivo espaço da morte – o inferno. Os poemas representativos desta realidade de morte ou submundo são o poema da p. 68, “Lá dentro, o silêncio era \ o ghetto (…) \ Lá dentro, \ era o sepulcro”, e o poema da p. 76 “ Das sombras e do pânico, nasceu-me esta noite”, entre outros.

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Na última parte, “E no fim era a Poesia”, temos a revivificação representada pela deusa Deméter, deusa da terra cultivada, das colheitas que deixaram de germinar, da terra que se tornou estéril e os grãos não germinaram, quando esta Deusa se ausentou do Olimpo para ir buscar a sua filha Perséfone que tinha sido raptada por Hades, que a levara para o seu submundo. Com esta situação caótica, Zeus ordenou a Hades que devolvesse Perséfone , mas esta ficou condenada a viver uma parte do ano com a mãe – com o nome próprio –, no período que corresponde à Primavera, em que os grãos brotam da terra, e a outra parte com Hades – Proserpina – , quando os grãos são enterrados. Por isso, depois da morte, surge a ressurreição, a revivificação, a vida.

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Podemos, pois, afirmar que a obra apresenta a estrutura de um mito – o nascimento (No princípio era a Poesia), a vida e a ordem universal (Caos e Cosmos), a morte (Hades), seguida da ressurreição, representada pelo mito da deusa Deméter. Nesta última parte, temos, então, o mito da Terra que se abre em flores e frutos, em vida, portanto, e que o sujeito poético identifica com a própria Poesia que floresce em palavras e pensamentos, em vida.  Como diz a escritora Maria Alberta Meneres, in “Imaginação”, “As escritas que afinal vivem ao nosso lado, são tão naturais como a escrita do vento (… “como  arado, símbolo primeiro da poesia – escrevendo na terra-mãe que esta há-de produzir frutos.”

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Quanto às temáticas, neste livro de Myriam Jubilot de Carvalho, é muito nítida a aliança entre a formulação do amor e a referência aos vários elementos da Natureza, os quais consubstanciam a manifestação desse mesmo amor, na temática relativa, por exemplo, à composição dos olhos “Hoje, vou compor a moldura dos teus olhos” (p.11). Outra temática a referir, na primeira parte do livro, é a temática relativa à casa. Mas a que mais se impõe, a mais recorrente, é a temática do amor, essa relação eu/tu de encontro ou desencontro, de procura incessante do “tu”, na busca da plena realização e da partilha, mas sempre um distanciamento se impõe, como se o “tu” jamais pudesse habitar o mundo do “eu”, porque esse mundo só pelo “eu” é tecido. Sendo assim, o sujeito poético domina todo o universo referencial, extremamente nele envolvido, com uma necessidade de aglutinar, de congregar, de unificar, todos os elementos já referidos, numa escrita fragmentária, que não se esgota num só poema, antes continua noutros poemas, como se o sujeito poético interrompesse a escrita de uma temática para a continuar noutro poema, que intercala com outra temática, retomando a temática anterior num outro poema, num cruzar de escritas, extremamente interessante, que possibilita a multiplicidade de escritas e de releituras, onde nada se perde porque o “eu” lá está para presidir à sua unificação. Este cruzar de escritas pode exemplificar-se, tendo em conta a temática dos olhos, com os poemas

“Hoje, vou compor a moldura dos teus olhos”, (p.11); a moldura dos teus olhos, (p.13);

“A maresia dourada dos teus olhos”, (p. 17);

“O fogo condutor \ são os teus olhos – “, (p. 19);

“O labirinto dos teus olhos”, (p. 20); entre outros.

Quanto à temática da casa, são exemplo do que anteriormente ficou referido, os poemas

“As paredes exteriores da minha antiga casa eram forradas de trepadeiras”, (p. 12);

“só lá em cima habito”, (p. 14);

“Mas vagueio / nas margens do sono, pelas ramadas assoalhadas, envernizadas”, (p. 27);

“É debaixo das cinzas, na lareira, que se conservam escaldantes, vermelhas, vibrantes, as brasas que durante a noite, mantêm quente o salão vazio” (p. P 31);

“quando a chuva rompia por entre as telhas do meu telhado e vinha precipitar-se na minha cama”, (p. 39).

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Resta-me dar os parabéns à Autora pela sua escrita imaginativa, dotada de um grande sentido poético e de uma grande vontade de festejar a vida, e a poesia, ou a de festejar a vida através da Poesia. A Autora o dirá.

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*  Manuela Rosado

Professora de Português do Ensino Secundário,

em Tavira

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“E no fim era a Poesia”

Editorial Nova Vega, Lx, 2007

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Publicado por Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 15 de Outubro de 2013, pelas 19h 45m

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