Arqueologia

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 2:59 pm

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Arqueologia

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Somos o resto de uma civilização perdida

Rastejamos no solo à procura de restos,

indícios da sabedoria de ouro de antigos sábios

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Abrimos buracos nas grutas ocultas

Escavamos na terra preciosa os ossos de antanho

Nas pedras eloquentes, nos papiros amarelecidos

procuramos registos da vida passada

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Enquanto sem futuro nos destruímos

A Terra nos deu

A Terra nos engole. E de vez em quando

renascemos, e rastejamos…

Rastejamos, sempre

até nos perdermos novamente

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Quase à beira da morosa

conquista de uma sabedoria

Quase a ponto

de aceitarmos a nossa origem remota

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E quase a ponto de nova destruição

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© Myriam Jubilot de Carvalho

18 de Janeiro de 2018

Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 16 de Junho de 2019, pelas 16h

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Dia das Mães, 5 de Maio de 2019

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 12:51 pm

 

Minha Mãe

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Fala comigo, Deusa minha Mãe – Grande Mãe Universal.

Tens-me mantido acordada, tens-me dado a mão amada,

Tens sido a minha Guia, a minha mão-de-fada,

Só tu me livraste da erosão total.

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Fala comigo, Deusa minha Mãe, Rainha do Universo,

Inspiração das grandes obras – dos feitos dos grandes homens

no tempo em que as mulheres não tinham direito ao Verbo,

E vem dançar comigo nas raízes fecundas dos meus versos.

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Somos a grande Música espalhada pelo Vento,

as grandes cores de afrescos e painéis

e os Davides contemplando o seu próprio Pensamento.

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Somos a voz frenética das ondas, dos pinhais vagabundos na lonjura,

o chilrar das aves apelando por parceiros de ventura,

os sinos que dobram ou repicam nas torres aladas do Palácio da Grande Aventura.

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Como viver sem ti se a noite vai longa e tenebrosa,

se os deveres são duros e penosos?

Como viver longe de ti,

ó minha grande Mãe, amada e única Mãe Gloriosa?

Chamaram-te Ísis – Deméter –

Sophia –

Virgem Maria !

Mas eu só te sei um nome –

Poesia

Myriam Jubilot de Carvalho

Poema final de “E no fim era a Poesia”, pág 81

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Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 5 de Maio de 2019, pelas 13h 50m

 

 

 

Da janela do meu quarto

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 5:24 pm

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Da janela do meu quarto

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A janela deixa-se invadir pelo casario e ruas arborizadas. Na sombra das nuvens, a manhã acordou-me, cinzenta, na minha frente.                                                            Não se nota que é Primavera, mas ela chegou no calendário. Hoje é domingo, e a meteorologia promete chuva.                                                                                      Queria sair. Sair de casa. Mas estás longe e não há como ir ao teu encontro.

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O meu apartamento fica num andar alto. Visto a partir desta perspectiva, o casario tem a sua beleza. Primeiro, os telhados vermelhos das vivendas do bairro antigo a demarcarem a rua alcatroada. Atrás, os prédios altos na sua monotonia acinzentada; atrás destes, os prédios vermelhos. Um pouco mais ao fundo, uma paleta de amarelos. De onde em onde, sobressaem as copas das árvores. Algumas já renovaram a folhagem que fresca e transparente se baloiça ao ritmo da aragem.

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Ainda é cedo, mas os carros começam a invadir o espaço com os seus ruídos monocórdicos.                                                                                                            Acho que são horas do meu chá matinal. Talvez a seguir regresse um pouco de sono.

© Myriam Jubilot de Carvalho

Inédito, 6 de Abril de 2019

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Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 11 de Abril de 2019, pelas 18h 25m

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A Vida não é lugar

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 2:39 pm

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Penso muito nas teses de Marc Augé sobre o tema do “Não-Lugar”.

Tomei contacto com elas a partir do filme The Terminal (Terminal de aeroporto) com Tom Hanks e Catherine Zeta-Jones. Guião por Sacha Gervasi  e Jeff Nathanson, baseado numa história de Andrew Niccol e Gervasi. Realização de Steven Spielberg. 2004.

Depois disso, outras leituras vierem à minha memória, e outros filmes se lhes juntaram.

Cada homem é uma ilha” – Buda

“El Gran Zoo” – Nicolás Guillén, 1967.

The Magic of Belle Isle (Um Lugar Especial) com Morgan Freeman e Virginia Madsen. Guião de Guy Thomas. Realização de Rob Reiner. 2012. No Canal Hollywood, dia 5 de Março de 2019, às 9h 50m.

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A Vida não é lugar

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A vida não é lugar.

Labirinto às escuras, onde

entramos ao nascer.

E porque havemos de morrer,

nunca se torna nosso.

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Mas não é um sítio neutro.

Gafaria lazarenta, onde

a massa cinzenta opera

maravilhas. Serão boas? Umas, poucas…

…muitas, não… A céu-aberto.

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Um não-lugar de penosa travessia,

um frio deserto… Onde

cada qual é uma ilha.

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Mas quando encontro o teu sorriso

é então que me liberto –

Ergo o meu espírito,

e o céu distante fica perto.

Entro em casa,

abro as janelas.

E quanto mais ganhamos asas

mais acordes ganhas no meu voo.

Viramos costas às cancelas

das estreitas capelas,

e dos zoos.

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Já não é um não-lugar – o supermercado

universal, o centro comercial onde

a honra está à venda e tudo

pode ser comprado.

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É a casa do Amor,

onde sabe bem ficar

© Myriam Jubilot de Carvalho

6 de Março de 2019

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Publicado por Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 7 de Março de 2019, pelas 14h 40m

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Preconceitos

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 5:10 am
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Do meu livro
“O Livro das Actas
Ex annis 70 et 80
in loco vehementer in calorem”
Myriam Jubilot
Cadernos Literários vuJonga, 2016
Edição de Autora
pág 67.
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Os preconceitos são como os figos tunos
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– A partir de uma conversa entre Amigos –
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Os preconceitos são como os picos
dos figos tunos
Nunca mais saem
É preciso queimar as pestanas
como quem passa pelas brasas –
E mesmo assim,
sempre sobra uma raiz
mais renitente
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Quem quer ver-se livre
dos preconceitos
tem que estar sempre alerta!
Sempre:
Eles irrompem pelas frinchas do caruncho
das velhas palavras –
da forma aparentemente
mais inócua, e inocente.
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E conseguem trair as raízes
que pensávamos arrancadas
e lançadas ao fogo…
Porque fomos inoculados na infância – vacinas
eficazes
destinadas a preservarem o ‘establishment’.
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Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 25 de Fevereiro de 2019, pelas 5h 10m

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Centro Comercial ? oh, um não-lugar

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 10:14 pm

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Em geral vou postando aqui no blogue um ou outro poema

que vou recuperando em papéis antigos. 

Mas hoje fica um poema actualíssimo.

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Centro Comercial – não lugar

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O corrupio não pára.

E não há sítio onde

descansar os pés.

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Não há nada mais

inóspito do que um

centro comercial.

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Só te poderás sentar

se te dispuseres

a petiscar –

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Oh, aí, sim, tens

por onde

escolher –

Leve e pesado,

doce e salgado!

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É como a banha-da-cobra

Enchem-te o prato

de

vento

É penitência de convento

Comes tudo

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E é tão mau

que ainda sobra

© Myriam Jubilot de Carvalho

(inédito)

Num Centro Comercial

algures, em Lisboa, 17 de Janeiro de 2019

Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 6 de Fevereiro de 2019, pelas 22h 15m

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Mais um achado

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 1:52 pm

Continuando a organizar papéis antigos, encontrei este poema de que já não me lembrava

Comentário ao poema

Improviso

de Eugénio de Andrade:

Uma rosa depois da neve.

Não sei que fazer

de uma rosa no inverno.

Se não for para arder

ser rosa no inverno de que serve?

Rosa vermelha

.

Rosa vermelha

Procura-se

.

Tem de ser de seda pura

e espinhos de picar

Se não for rosa completa

onde terá a centelha?

Como poderei voar?

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Rosas de inverno em botão

a decorar o salão

.

Já mesmo a murchar

ainda lá estão a abrir-se ao sol

e para além das vidraças

o vão beijar

.

Se eu fosse a rosa vermelha

se eu fosse a rosa em botão

se eu fosse a rosa na neve

sabia para que ferve

a raiz na minha mão

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© Myriam Jubilot de Carvalho

22 de Agosto de 2003

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Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 9 de Janeiro de 2019, pelas 13h 55m

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Solstício de Inverno

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 1:14 am

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Dedico este poema a todos e todas quantos visitarem esta página – e a todo o Mundo.

Com votos de Festas Felizes e FELIZ  2019

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Solstício de Inverno

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Ritmos da Natureza

Ritmos da nossa vida

Onde a riqueza da Terra

é digna de ser vivida

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Solstício de Inverno

Longos segredos da noite invernosa

Despiram-te da ancestral plenitude

de magia milagrosa

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Mentiram-nos uma verdade

e voltámos-te as costas

Ficou mais pobre a Humanidade

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Eu ergo a eterna candeia

de chama pagã

A essa perene ideia

de que a Terra é minha irmã

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“Finda”:

Eu sou devedor à Terra

E a Terra me está devendo

A Terra paga-me em vida

E eu pago à Terra em morrendo

 © Myriam Jubilot de Carvalho

Noite de 26 para 27 de Dezembro de 2018

 

Nota: A quadra que compõe a Finda –

encontrei-a no cancioneiro de Serpa

 

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Publicado por Myriam Jubilot de Carvalho

Noite de 26 para 27 de Dezembro de 2018

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Tarde de vento

* Antologia,* Poesia — Myriam de Carvalho @ 2:04 pm

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Tarde de vento

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É o vento da nossa estação.

Ladeira abaixo, assobia, espalha brasas, pingos de chuva, pólenes tresmalhados, pétalas que voam.

É um vento hostil. Eu sei. Sei muito bem. Afia as unhas na carpete como um gato selvagem nas folhas caídas, nas cascas desgastadas dos troncos mortos da floresta húmida.

É um som surdo. Como o das unhas dos gatos nos sofás de veludo de seda, nas pernas das cadeiras de pau-rosa, nos pés das mesas de laca da China, nas minhas mãos de âmbar dos Bálticos.

Se eu soubesse donde vem o vento…

Só sei que é o vento do entardecer. Levanta as ondas, as areias da praia, as unhas dos peixes, as garras dos tanques sobre as casas de adobe dos montes sagrados… Sobre as pedras do deserto… Se eu percebesse donde vem este vento…

Mas há um outro! Um vento sem idade. Todo ele a imaginação, a liberdade, a capacidade de sonhar e dar as mãos. Um vento-brisa, vento-aragem, vento-leve, a crescer em espiral, a direito, para o alto. Vento mágico, sim, um ventinho-brisa-aragem que me toma a alma e leva por aí, turista espacial a ver tão de cima, tão do alto, que o mundo é mesmo uma bola azul, azul e púrpura, madre pérola, e jade… Quer dizer, o nosso mundo é um milagre.

…Há, de facto, vários ventos… Porque lá vem esse que arrasa as casas do deserto.

Quem pode ficar indiferente às casas desventradas, um pé aqui, uma cabeça decepada, os mortos enterrados à pressa no jardim público? É este o vento que me faz asma, bloqueia o coração num aperto sem palavras e afunda crateras à minha volta…

Se eu pudesse mandar nesses ventos de morte, mandava-os ir buscar o arco-íris. Mandava-os repetir, repetir mesmo, palavra-por-palavra, letra-a-letra – “O arco-íris é o símbolo da aliança entre Deus e os homens e as mulheres e as crianças, os jovens e os idosos”. Mas olho para as nossas mãos de granito – pouco importa –, e já lá não está, já se perdeu essa aliança de ouro…

Há um vento terrível. Sem tempo, senhor dos exércitos, também dos predadores…

… Mas ainda há jardins. Jardins de rosas. Rosas-mãos de todas as cores. Basta erguê-las no ar, e aí está o seu perfume.

“Nós somos rubis

no meio do granito,

definhamos nesta prisão de poeira.

Por que não nos tornarmos frescos

da gentileza da primavera do coração?

Por que não espalhar

perfume

como uma rosa?”

Poema atribuído a Rumi.

© Myriam Jubilot de Carvalho,

5 de Maio de 2002

Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 4 de Dezembro de 2018, pelas 14h 10m

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Travessia

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 2:19 pm

Travessia
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O Rio, o meu Rio maravilhoso,
reflecte o céu.
Hoje o meu mundo vai cinzento
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Nem as nuvens
nem o vento
impedem de velejar
o ‘snipe’ de velas brancas
E o cacilheiro
cumpre a sua rota
ronceiro e franco
.
Do lado de lá da ponte
no poente
brilha o céu

.

À maneira de FINDA:

“Não pensem por eu cantar

Que a vida alegre me corre

Eu sou como o passarinho

Tanto canta até que morre”

E fujo à cinza do dia

com a luz da Poesia

© Myriam Jubilot de Carvalho

2 de Novembro de 2018

……

NOTA – A quadra popular pertence ao Cancioneiro de Serpa

…mas o seu link é tão longo que nem me atrevo a transcrevê-lo aqui…

Fica no entanto a minha homenagem a(os) Professores que organizaram esta maravilhosa recolha com as suas Crianças!

…E o passarinho, como já é do conhecimento geral,

transpôs o Tempo e acaba de chegar de Pompeia

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Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 3 de Novembro de 2018, pelas 14h 50m

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