Homenagem a Greta Thunberg

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 12:17 pm

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Os Antepassados e o Presente

Homenagem a Greta Thunberg

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Re-encontrámos alguns dos elos que 

têm andado perdidos!

Ignorávamos até que tivessem existido

E no entanto, eles têm continuado vivos! 

Ficaram em marca indelével no nosso ADN! 

Neandertais entre nós, Europeus…

Denisovianos, entre Asiáticos e Oceânicos…

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Se os Tibetanos resistem à altitude,

e os Inuits aos gelos,

devem-no aos seus antepassados 

Denisovianos….

Ninguém morre,

poisnada se perdeu –

E isto me fascina!

–Esta é a nossa Eternidade!

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A marcha da Humanidade tem sido 

feita a partir de um ponto zero?

Talvez…

Civilizações desapareceram?

Talvez… E em seu lugar, 

outras surgiram…

Talvez…

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Agora, porém, caminhamos para 

um fim…

Não uma finalidade, não qualquer coisa como

um objectivo…

…Mas um fim, um final, 

– um terminus

bem definido – Nós,

nós não vamos deixar nada…

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E são as Crianças, oh Deuses, são as Crianças

que se erguem em todo o Mundo para

lembrarem aos adultos 

(adultos?)

que precisam de espaço para terem “futuro”!

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© Myriam Jubilot de Carvalho, 20 de Setembro de 2019

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Publicado por Myriam Jubilot de Carvalho, em 22 de Setembro de 2019, pelas 13h 17m

Publicado igualmente no FB e em Recanto das Letras

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Doce Caparica

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 10:43 am

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Mais um poema dos meus arquivos.

Doce Caparica 

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Não se faz ouvir a cava rouquidão das ondas

A maré está calma e o mar azul claro

está chão, apenas afagado pelo vento.

Não há céu.

Apenas o brilho esbranquiçado

da neblina. E a linha do horizonte é uma estreita faixa 

fosforescente donde

se destaca o vulto impreciso dos petroleiros

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Estou como sempre 

nesta larga esplanada 

separada da praia

pelo paredão.

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Metade da cidade 

vem para aqui 

gozar-se deste perverso

sol de inverno

que não deixa chover

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Jovens e velhos. Famílias inteiras. Crianças que correm 

desforrando-se

da prisão dos infantários,

guinchando de alegria.

Cães puxam os donos 

pela trela.

Desportistas e

aleijados.

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E cada vez é mais avantajado

o punhado de mulheres sós

onde me incluo.

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Jovens trazem os livros de estudo

e resolvem os TPCs.

As velhotas trazem

as revistas do coração

e os homens,

os semanários.

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…Mas com livros pesados, talvez romances, e folhas A4 –

só me verás a mim…

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O sol desce.

É um sol de ficção.

Um sol de Fim dos Tempos…

Apenas uma auréola coada 

pela estufa…

…Mas como diria o Poeta, 

continua a espelhar-se na superfície 

azul mate ondulada pela brisa…

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E chega a apoteose do meu dia solitário!

…O céu tinge-se de vermelho!

…E eu pago a despesa e

vou andando pois 

a noite é falsa e

não tenho companheiro nem

cão de guarda

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© Myriam Jubilot de Carvalho

No antigo Café do Mar – Costa, 29 de Janeiro de 2005

Publicado por Myriam Jubilot de Carvalho, em 4 de Setembro de 2019

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Vento

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 10:38 pm

 Mais um poema acabado de sair – não da forja – mas da arca das coisas que ficaram para trás…

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Vento

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Somente um grande amor poderia trazer-me

até aqui.

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Está vento, um vento frio, cortante,

um vento que nos trespassa como rajadas de balas,

que nos arrasta como folhas de outono,

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Um vento secreto, húmido e pegajoso,

um vento poderoso, orgulhoso,

tumultuoso

como as ondas – que acima da praia as levanta

e faz estrondosamente rebentar,

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Um vento oculto, motor acelerado

como o galope de um coração atormentado

pela alta voltagem dos cabos de distribuição

saídos da central,

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Um vento animal. Obscuro, como a força

com que o infante se torna adulto,

com que a leoa surpreende a presa

ou a cheetaha persegue ou a hiena

se precipita sobre a carcaça já explorada,

ou a gazela pasta sob os espinheiros das acácias

descansando à espera das horas refrescantes do entardecer.

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Um vento trivial. Como as conversas que

emergem do ruído de fundo

na esplanada onde me encontro sobre a marginal.

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Somente a ventania poderia trazer-me

aqui,

até ti

© Myriam Jubilot de Carvalho

27 de Março de 2004

Publicado por

Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 20 de Agosto de 2019, pelas 23h 37m

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Histórias

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 12:20 pm

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Histórias

‘Omnia mea mecum port’o (Tudo o que tenho, trago comigo)

atribuído por Cícero, a Bias de Priene,

um dos Sete Sábios da Grécia

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Todos temos a mesma história

Nascemos, crescemos…

Sucessos, revezes, glórias

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Só que a contamos com

diferentes variantes, zique-zagues,

Esquecendo que somos todos

navegantes

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E se um dia a história há-de acabar

Oh, acabe com esta lufada de ar!

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Um garoto vai para a escola, e vai

arranhando a aspereza da parede

com a unha

como quem não quer ir e sabe

que não pode desistir…

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Quantas vezes na minha infância

fui para a escola arranhando a parede

Parecia-me que não ia aprender nada…

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E de facto, a única coisa que aprendi na vida –

foi isto…

…não foi na escola…

…nasceu comigo…

© Myriam Jubilot de Carvalho

2 de Agosto de 2019 

Publicado por

Myriam Jubilot de Carvalho

Igualmente no FB e no site brasileiro Recanto das Letras

Dia 5 de Agosto de 2019, pelas 13h 18m

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A Edvard Munch

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 11:42 am

Quer se trate dos incêndios ateados por mão criminosa em Portugal,

ou da devastação da Amazónia,

ou da destruição da Palestina,

O GRITO de EDVARD MUNCH continua actual.

 

100 anos depois
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A Edvard Munch (1893)

Boca escancarada,
a criança grita –
Grita – sozinha na noite.
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Por muito que a boca abra – ninguém
a ouve.
É apenas seu grito
um gesto impotente.
Nem aviso – nem premonição –
nem queixa.
Nem acusação.
Apenas reacção inconsequente
a atrapalhar o expectador da galeria.
Apenas um gesto
impotente.
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Não está perdida na noite,
não.
Quem a possa ouvir
está oculto
na escuridão.
Não virá dar a cara
nem a mão à palmatória.
Avança
com os tanques, conduz os canhões,
alimenta os fornos.
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E não apodrece nas prisões.
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– Pintaste um grito inútil!
Um grito fútil.
Pintaste apenas o teu medo,
ou o meu.
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Nem Deus te ouviu –
Deus não ouve os pacifistas
– E até dizem que morreu.
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Mas esse teu Grito continua a ecoar
pelos quatro cantos dos sete céus!
Talvez um dia Deus acorde…
E ponha pimenta na língua
de todo o cão tinhoso que – escondido – morde

© Myriam Jubilot de Carvalho, 2004

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Publicado – tanto neste Blogue como no FB –

Dia 25 de Julho de 2019, pelas 12h 45m

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Arqueologia

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 2:59 pm

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Arqueologia

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Somos o resto de uma civilização perdida

Rastejamos no solo à procura de restos,

indícios da sabedoria de ouro de antigos sábios

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Abrimos buracos nas grutas ocultas

Escavamos na terra preciosa os ossos de antanho

Nas pedras eloquentes, nos papiros amarelecidos

procuramos registos da vida passada

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Enquanto sem futuro nos destruímos

A Terra nos deu

A Terra nos engole. E de vez em quando

renascemos, e rastejamos…

Rastejamos, sempre

até nos perdermos novamente

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Quase à beira da morosa

conquista de uma sabedoria

Quase a ponto

de aceitarmos a nossa origem remota

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E quase a ponto de nova destruição

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© Myriam Jubilot de Carvalho

18 de Janeiro de 2018

Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 16 de Junho de 2019, pelas 16h

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Dia das Mães, 5 de Maio de 2019

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 12:51 pm

 

Minha Mãe

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Fala comigo, Deusa minha Mãe – Grande Mãe Universal.

Tens-me mantido acordada, tens-me dado a mão amada,

Tens sido a minha Guia, a minha mão-de-fada,

Só tu me livraste da erosão total.

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Fala comigo, Deusa minha Mãe, Rainha do Universo,

Inspiração das grandes obras – dos feitos dos grandes homens

no tempo em que as mulheres não tinham direito ao Verbo,

E vem dançar comigo nas raízes fecundas dos meus versos.

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Somos a grande Música espalhada pelo Vento,

as grandes cores de afrescos e painéis

e os Davides contemplando o seu próprio Pensamento.

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Somos a voz frenética das ondas, dos pinhais vagabundos na lonjura,

o chilrar das aves apelando por parceiros de ventura,

os sinos que dobram ou repicam nas torres aladas do Palácio da Grande Aventura.

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Como viver sem ti se a noite vai longa e tenebrosa,

se os deveres são duros e penosos?

Como viver longe de ti,

ó minha grande Mãe, amada e única Mãe Gloriosa?

Chamaram-te Ísis – Deméter –

Sophia –

Virgem Maria !

Mas eu só te sei um nome –

Poesia

Myriam Jubilot de Carvalho

Poema final de “E no fim era a Poesia”, pág 81

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Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 5 de Maio de 2019, pelas 13h 50m

 

 

 

Da janela do meu quarto

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 5:24 pm

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Da janela do meu quarto

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A janela deixa-se invadir pelo casario e ruas arborizadas. Na sombra das nuvens, a manhã acordou-me, cinzenta, na minha frente.                                                            Não se nota que é Primavera, mas ela chegou no calendário. Hoje é domingo, e a meteorologia promete chuva.                                                                                      Queria sair. Sair de casa. Mas estás longe e não há como ir ao teu encontro.

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O meu apartamento fica num andar alto. Visto a partir desta perspectiva, o casario tem a sua beleza. Primeiro, os telhados vermelhos das vivendas do bairro antigo a demarcarem a rua alcatroada. Atrás, os prédios altos na sua monotonia acinzentada; atrás destes, os prédios vermelhos. Um pouco mais ao fundo, uma paleta de amarelos. De onde em onde, sobressaem as copas das árvores. Algumas já renovaram a folhagem que fresca e transparente se baloiça ao ritmo da aragem.

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Ainda é cedo, mas os carros começam a invadir o espaço com os seus ruídos monocórdicos.                                                                                                            Acho que são horas do meu chá matinal. Talvez a seguir regresse um pouco de sono.

© Myriam Jubilot de Carvalho

Inédito, 6 de Abril de 2019

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Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 11 de Abril de 2019, pelas 18h 25m

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A Vida não é lugar

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 2:39 pm

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Penso muito nas teses de Marc Augé sobre o tema do “Não-Lugar”.

Tomei contacto com elas a partir do filme The Terminal (Terminal de aeroporto) com Tom Hanks e Catherine Zeta-Jones. Guião por Sacha Gervasi  e Jeff Nathanson, baseado numa história de Andrew Niccol e Gervasi. Realização de Steven Spielberg. 2004.

Depois disso, outras leituras vierem à minha memória, e outros filmes se lhes juntaram.

Cada homem é uma ilha” – Buda

“El Gran Zoo” – Nicolás Guillén, 1967.

The Magic of Belle Isle (Um Lugar Especial) com Morgan Freeman e Virginia Madsen. Guião de Guy Thomas. Realização de Rob Reiner. 2012. No Canal Hollywood, dia 5 de Março de 2019, às 9h 50m.

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A Vida não é lugar

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A vida não é lugar.

Labirinto às escuras, onde

entramos ao nascer.

E porque havemos de morrer,

nunca se torna nosso.

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Mas não é um sítio neutro.

Gafaria lazarenta, onde

a massa cinzenta opera

maravilhas. Serão boas? Umas, poucas…

…muitas, não… A céu-aberto.

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Um não-lugar de penosa travessia,

um frio deserto… Onde

cada qual é uma ilha.

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Mas quando encontro o teu sorriso

é então que me liberto –

Ergo o meu espírito,

e o céu distante fica perto.

Entro em casa,

abro as janelas.

E quanto mais ganhamos asas

mais acordes ganhas no meu voo.

Viramos costas às cancelas

das estreitas capelas,

e dos zoos.

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Já não é um não-lugar – o supermercado

universal, o centro comercial onde

a honra está à venda e tudo

pode ser comprado.

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É a casa do Amor,

onde sabe bem ficar

© Myriam Jubilot de Carvalho

6 de Março de 2019

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Publicado por Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 7 de Março de 2019, pelas 14h 40m

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Preconceitos

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 5:10 am
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Do meu livro
“O Livro das Actas
Ex annis 70 et 80
in loco vehementer in calorem”
Myriam Jubilot
Cadernos Literários vuJonga, 2016
Edição de Autora
pág 67.
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Os preconceitos são como os figos tunos
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– A partir de uma conversa entre Amigos –
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Os preconceitos são como os picos
dos figos tunos
Nunca mais saem
É preciso queimar as pestanas
como quem passa pelas brasas –
E mesmo assim,
sempre sobra uma raiz
mais renitente
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Quem quer ver-se livre
dos preconceitos
tem que estar sempre alerta!
Sempre:
Eles irrompem pelas frinchas do caruncho
das velhas palavras –
da forma aparentemente
mais inócua, e inocente.
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E conseguem trair as raízes
que pensávamos arrancadas
e lançadas ao fogo…
Porque fomos inoculados na infância – vacinas
eficazes
destinadas a preservarem o ‘establishment’.
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Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 25 de Fevereiro de 2019, pelas 5h 10m

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