Machado de Assis e a sua obra “Dom Casmurro”

* Estudos e Comunicações — Myriam de Carvalho @ 5:51 pm

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Como verifiquei, com a prática, que postar aqui a página autêntica do jornal O AUTARCA, acaba por não resultar, pois a imagem acabará por desaparecer, reproduzo apenas o texto do artigo que publiquei no mesmo jornal, de que sou colaboradora regular, como já várias vezes aqui indiquei.

A página tem layout, como de costume, do Artista, meu amigo, Mphumo João Kraveirinya:

O AUTARCA . Primeiro jornal electrónico editado na cidade da Beira

Ano XIX – Nº 3723 – Quarta-feira, 17 de Julho de 2019

páginas 6/9 até 9/9

sendo a última destas páginas, preenchida com a reprodução da capa da primeira edição brasileira, e a capa do livro que li, em edição da Universitária Editora, Lisboa, 1997.

Sendo um artigo para um jornal diário, o texto é muito sucinto.

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Machado de Assis

Machado de Assis (1839-1908) é considerado um dos grandes escritores do Brasil, senão o maior.

Foi ele o iniciador da corrente realista no Brasil. Assim, sendo um autor realista – através das suas personagens, ele retrata a sociedade tal como ele a vê. Mas escreve num estilo muito próprio, ironizando e por vezes mesmo, ridicularizando, as hipocrisias e misérias humanas que vai fazendo desfilar perante os seus leitores.

Dom Casmurro, o romance

Em “Dom Casmurro”, Machado de Assis conta a vida de Bentinho. A história é contada pelo próprio protagonista.

As narrativas na primeira pessoa são, como se sabe, muito mais sugestivas. Dom Casmurro é a alcunha que as pessoas dão a Bentinho, mais tarde, quando, já adulto marcado pela grande desilusão que atingiu a sua vida, ele se torna um homem calado e taciturno.

A época em que decorre a “acção” em DOM CASMURRO:

A “acção” passa-se  no decurso do século XIX, no Brasil.

 O início da “acção” reporta-se a 1857. É o tempo do Romantismo.

Vive-se sob o prestígio da Igreja católica e sua influência sobre a educação feminina; o tempo da autoridade dos progenitores, e de um currículo escolar específico para as meninas.  Ainda tem grande peso a cultura clássica greco-latina. Reina o imperador D. Pedro II. É o Ciclo do Café, já se notando a presença italiana. Ainda se morre de lepra (o que ainda hoje, na nossa actualidade, se verifica). É o tempo de Pio IX; da Guerra da Crimeia.  E também de  disputas entre a Europa e os EEUU sobre a posse de algumas ilhas.  

A Escravatura

A Escravatura vigorou no Brasil logo a partir do século XVI. Foi a mão de obra por excelência do Ciclo do Açúcar. Só terminaria após a Lei do Ventre Livre, datada de 1871; e definitivamente, após a Lei Áurea, de 1888.

Por seu lado, a presença italiana está relacionada com o Ciclo do Café. Conheceu o seu ponto máximo entre 1880 e 1930, coincidindo esta última data com o final deste ciclo.

Na sociedade portuguesa, os escravos foram, como diz José Ramos Tinhorão, “uma presença silenciosa”. Em “Dom Casmurro”, Machado de Assis ilustra bem essa afirmação: o Autor regista a existência dos escravos. Refere a sua condição, sem tecer comentários. Aliás, quaisquer comentários seriam dispensáveis.

Logo no início da obra, ao apresentar D. Glória, o Autor faz-nos encarar a realidade de uma senhora muito religiosa mas que não se perturba com a crueldade que é vender pessoas (escravos) ou alugá-las, pondo-as “a ganho”.

Por outro lado, logo no início desta obra, no capítulo 9º, capítulo muito importante, o Autor compara a vida a uma ópera. Deus é o autor do libreto, mas o Inferno é o autor da partitura. E portanto, “assim se explicam a guilhotina e a escravidão”. Com este capítulo magistral, Machado de Assis diz tudo.

Como é retratada a “presença silenciosa” dos escravos

A- Muitos escravos vivem com a família. Comportam-se com conformismo e há momentos em que demonstram respeitosa ternura ou familiaridade para com Bentinho, o protagonista-narrador.

Mas em geral, são “o pau mandado” a que se manda executar alguma tarefa.

Capítulos: cap. XX (pág 46), cap XXXIX (pág 74), cap LIII (pág 90), cap LXXI (pág 116), cap LXXXVI (pág133), cap XC (pág 149), cap CXXI (pág 176).

B- Os nomes dos escravos são-lhes atribuídos pelos senhores, e substituem os seus nomes originais. Por vezes, os nomes indicam a sua origem geográfica:

cap XCIII (página 140).

C- Outros, são “escravos de ganho”: cap VII (p. 25), cap XCIII (p.140).

Nos capítulos VII (p. 25), e XCIII (pp. 140/141) fica claro que ter “escravos de ganho” era equivalente a ter uma pequena empresa.

D- Aparece ainda um ex-escravo, que vende na rua. cap CX (p. 162).

E- Finalmente, no capítulo CXLV (p. 198) o Autor já não fala em “escravo”, mas sim em “criado”. O que situa o fim do romance após a abolição da Escravatura.

A Mulher

A figura feminina é moldada pelo ideal Romântico:

A Mulher é representada segundo dois extremos: D. Glória, mãe de Bentinho (o protagonista), profundamente religiosa; e Capitú, uma jovem “laica”.

A Mulher ideal toca piano, é sempre alegre e dinâmica, dirige a criadagem, sabe dar um conselho e aclarar as hesitações profissionais ou de negócios do marido. A Mulher deve pois, ser delicada, pura, e dedicadíssima.

Enfim, é o tempo em que se idealizava a mulher dentro do paradoxo da “virgem e mãe”, ignorante em formação escolar geral, mas religiosa até à superstição.

O que a torna egoísta, possessiva, narcísica, manipuladora.

Assim, educado com medo da mãe, Bentinho (mais tarde o Dr. Bento) fica um homem frágil, que se coloca sucessiva e acriticamente, sob a protecção de José Dias, de Capitú e, finalmente, do amigo Escobar. Por isso, é manipulado e, provavelmente, traído.

A terminar

Neste excerto do capítulo IX, “A Ópera”, o Autor  compara a vida das sociedades humanas ao libreto de uma ópera. Conforme referimos atrás, esta ópera seria escrita por Deus e musicada por Lúcifer.

Este capítulo é uma brevíssima obra-prima. Nele, vemos a ironia e crítica social de Machado de Assis no seu tom mais amargo:

(p. 27):

“Deus é o poeta. A música é de Satanás (…)

“Satanás suplicou ainda, sem melhor fortuna, até que Deus, cansado e cheio de misericórdia, consentiu em que a ópera fosse executada, mas fora do céu. Criou um teatro especial, este planeta, e inventou uma companhia inteira, com todas as partes, primárias e comprimárias, coros e bailarinos.

– Ouvi agora alguns ensaios!

– Não, não quero saber de ensaios. Basta-me haver composto o libreto; estou pronto a dividir contigo os direitos de autor.

Foi talvez um mal esta recusa; dela resultaram alguns desconcertos que a audiência prévia e a colaboração amiga teriam evitado. Com efeito, há lugares em que o verso vai para a direita e a música para a esquerda. Não falta quem diga que nisso mesmo está a beleza da composição, fugindo à monotonia, e assim explicam o terceto do Éden, a ária de Abel, os coros da guilhotina e da escravidão.” (…)

© Myriam Jubilot de Carvalho – Julho, 2019

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Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 18 de Julho de 2019,  pelas 18h 50m

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Sobre a Associação Cultural ‘SOL XXI’

* Estudos e Comunicações — Myriam de Carvalho @ 11:09 am

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Várias vezes, Luísa Andrade Leite e eu falámos da necessidade de escrevermos a história da Associação Cultural SOL XXI. Mas morávamos longe, cada uma tinha as suas actividades, e o tempo foi passando. Até que há cerca de uns dois anos, Luísa adoeceu gravemente, e a partir daí tornou-se impossível trabalhar com ela.

Ela partiu. E ficou-me um terrível peso na consciência por não ter posto de lado a inércia e não ter posto à frente de tudo a elaboração de um memorial sobre essa associação que foi tão importante.

Então, agora, tive que fazer tudo sozinha… Mas está feito . E tenho o gosto de partilhar este artigo que foi gentilmente publicado pela revista online Triplov.

Junto também os comentários de dois Amigos:

= Olá, Fátima. Gostei do que li. É importante que o nome da Luísa fique na memória. O seu a seu dono. Como bem dizes uma parte importante da Sol XXI foi a Luísa. As questões práticas e estratégicas repousavam sobre ela. Sem ela não teria sido possível essa maravilhosa aventura que foi a Sol XXI. Obrigada amiga por pores os pontos nos is.”

= Obrigado, por me teres refrescado a memória, permitindo-me viajar no tempo, regressar a tempos e lugares com gente muito boa, de dias felizes e culturais. um abraço. muito obrigado.

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A Associação Cultural SOL XXI

e

Homenagem a Orlando Neves, Vítor Wladimiro e, muito em especial, a Luísa d’Andrade Leite

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1- A Associação Cultural SOL XXI

A SOL XXI foi uma Associação Cultural, fundada e dirigida pelo grande poeta e cidadão que foi Orlando Neves.

Orlando Neves foi o seu fundador e presidente, e Luísa d’Andrade Leite sempre desempenhou a função de secretária da associação.

A Associação Cultural SOL XXI viveu cerca de 20 anos, sendo os primeiros 10 de intensa actividade. Não “usufruindo de apoios de nenhuma espécie”, tinha por objectivo “dar voz e presença” aos poetas portugueses, tanto aos consagrados como àqueles em princípio de carreira, como àqueles que “radicados na chamada Província raramente têm acesso à comunicação, num tempo em que os jovens de poucos estímulos dispõem para iniciar o seu percurso criativo” – conforme as palavras de Orlando Neves na NOTA DE ABERTURA da Revista Nºs 1 e 2, em Setembro de 1992. Pelo que congregava poetas de todo o País.

Produzíamos uma revista mensal ou, por vezes, bi-mensal; tínhamos um encontro anual, nacional, com o patrocínio de alguma Câmara que nos quisesse acolher. Houve encontros destes em Vila Viçosa (vários), em Albufeira, em Condeixa, vários também em Moimenta da Beira…

Tínhamos ainda, aqui em Lisboa (neste caso para os residentes em Lisboa e arredores e todos os que viessem a comparecer) um almoço mensal ou com periodicidade equivalente.

A Associação tinha um órgão mensal, a Revista Literária Sol XXI, que era feita com toda a seriedade. Integrava ensaio, produção poética e em prosa, e recensão de livros publicados.

Havia quem se queixasse (ou acusasse) que a produção (literária) publicada era por vezes de nível literário ‘inferior’. Mas Orlando Neves sempre defendia que:

“São todos sócios, pagam as quotas, têm o direito de ver os seus textos publicados.”

2 – Como nasceu a SOL XXI. Orlando Neves

Orlando Loureiro Neves (1935-2005), nome prestigiado de poeta, romancista e ensaísta, também dicionarista, ligado ao teatro e ao jornalismo, tinha feito parte da Associação Amigos dos Castelos e, simultaneamente, tinha fundado a Associação Património XXI, ligada especificamente à Literatura. Mas a certa altura, algumas das exigências legais não estavam a ser preenchidas como devido, como por exemplo, a manutenção de um livro de actas

Sem grandes alternativas, deu-se por extinta a Património XXI, e deu-se início, com todos os RR e FF à sua sucessora, a Associação Cultural SOL XXI.

Foram seus fundadores ‘oficiais’ o marido de Luísa d’Andrade Leite – Vítor Manuel Manique da Silva Neves, e Margarida Lucena Sampaio Sanches, declamadora e membro do Grupo Dizer (posteriormente, Jograis SOL XXI), pois foram eles quem subescreveu todos os documentos oficiais. Um pró-forma. Orlando Neves continuou a ser a alma da Associação, de que foi o primeiro presidente e grande dinamizador.

A tarefa burocrática de organização dos livros oficiais de contabilidade e registo de actas ficou a cargo de Luísa d’Andrade Leite, bem como todo o contacto com os sócios; e depois da fundação da Revista, os contactos com as tipografias, analisando preços e prazos, propiciando depois o seu envio a todos os sócios.

Orlando Neves gostava de se ver rodeado de amigos. Essa foi uma das razões para o surgimento da mencionada Revista. Reunia os amigos em sua casa, na Rua do Sol, ao Rato (em Lisboa). Desse convívio nascia algo de visível e útil – a “Sol XXI – Revista Literária”.

Aí aconteceram grandes serões de trabalho, muito informais, com discussão de propostas e de opiniões. E éramos vários – Luísa de Andrade Leite, João Orlando Travanca-Rêgo, José Manuel Capêlo, José do Carmo Francisco, Margarida Sanches, eu própria. Mais tarde, também Ulisses Duarte. Mas apesar de serem ouvidas e ponderadas as opiniões e sugestões de todos os participantes, o expert era Orlando Neves, e num acordo tácito, ele tinha o respeito, admiração e confiança de todos, e a última palavra.

Os diferentes pelouros da redacção de uma revista eram atribuídos aos nossos nomes:

Director: Orlando Neves

Directores-adjuntos – António Rebordão Navarro e J. O. Travanca Rêgo

Editor: Henrique Madeira

Chefe de redacção – José do Carmo Francisco

Redactor principal – José Fernando Tavares

Editores artísticos – Pedro Massano e Ulisses Duarte

Redactores – Fátima Oliveira (nome com que eu assinava, nessa época), Luísa d’Andrade Leite, Leonilda Alfarrobinha, Inês Sousa Gomes, Ulisses Duarte

Secretária de redacção – Fátima Oliveira

Como disse atrás a propósito da refundação da Associação, tudo isto eram pró-formas. As reuniões decorriam em óptima camaradagem. E o trabalho duro ficou sobre os ombros de Luísa Leite. Era ela quem chamava Orlando Neves a baixar à realidade e a manter os livros oficiais em dia. Quanto à planificação da Revista, decorria pelas mãos de ambos.

Ainda da mesma NOTA DE ABERTURA, cito estas palavras de Orlando Neves:

“Num tempo em que os demais órgãos de imprensa pouco relevo dão à literatura e em que, sobretudo, não abrem as suas páginas à publicação de ficção, poesia, teatro […] surge SOL XXI com intenção de ser (até onde puder) veículo de divulgação e local de acolhimento, sem quaisquer baias limitativas que não sejam as de uma qualidade minimamente defensável, se bem que, absolutamente, discutível. SOL XXI é tão só isso – espaço amplo, incensurado e não sectário, à disposição de todos os que escrevem.”

Ainda no âmbito da SOL XXI, Orlando Neves conseguiu uma página literária no jornal “Correio Beirão”, de Moimenta Beira, para onde a certa altura mudou a sua residência, e onde os sócios puderam publicar contos, ensaios, e poesia.

3- A dinamização e o secretariado. Luísa d’Andrade Leite

 Como atrás ficou dito, a actividade da Associação traduzia-se nos encontros anuais, e na produção da Revista.

No entanto, a SOL XXI nunca teria existido ou sobrevivido se não tivesse sido o apoio contínuo, dedicado e competente, da Vice-Presidente, a poetisa Luísa d’Andrade Leite. Ela secretariava tudo – as reuniões, os livros oficiais, a tesouraria, os contactos com a tipografia para a publicação da Revista, os contactos com os sócios. E também a distribuição da Revista estava a seu cargo…

Entretanto, Orlando Neves mudou de casa e as reuniões passaram a efectuar-se em casa de Luísa d’Andrade Leite. O grupo redactorial alargou-se, e já não sou capaz de reproduzir de memória quantas pessoas nos juntávamos em volta da ampla mesa da sala de Luísa Leite. Na verdade, as reuniões de trabalho continuavam a traduzir-se em tardes de tertúlia extremamente agradável.

Luísa sempre nos acolheu com delicadeza inexcedível. Tinha sempre um mimo para o lanche. Era tudo tão natural que nem se reparava na sua gentileza… Um belo dia apercebi-me da nossa ingratidão, e passei a levar alguma contribuição para esse chá que a todos sabia tão bem.

Nunca será demais salientar que a SOL XXI não teria vivido tantos anos de actividade intensa sem a abnegação generosíssima de Luísa Leite. Na verdade, repito, ela desempenhava-se de todo o trabalho pesado – todos os livros oficiais estavam à sua responsabilidade, todo o contacto com as tipografias, avaliando preços, qualidade dos serviços e pontualidade, todo o contacto com os sócios, a organização dos almoços mensais.

Apenas para a organização dos encontros anuais, Orlando e ela pediam a colaboração a alguns sócios mais próximos e disponíveis.

No depoimento do seu grande amigo que foi Cândido da Velha, Luísa Leite foi “uma excelente pessoa, intelectual de muito valor, amiga do seu amigo”. Uma das características mais marcantes que definiam Luísa Leite, era a sua modéstia. Depois da renúncia de Orlando Neves à direcção da Associação e da Revista, várias vezes muitos Amigos sugeriram que fosse Luísa Leite a assumir a direcção. Alegando que “não se sentia competente bastante para o cargo e para as funções”, Luísa sempre recusou a direcção da associação.

No entanto, a sua modéstia não a impediu de que se propusesse elaborar uma antologia de poesia. Um projecto que lhe ocupou os últimos vinte anos da sua existência e que, infelizmente, dada a sua elevada exigência de perfeição, não deixou concluído.

Maria Luísa Leite Gonçalves da Silva Neves nasceu a 14 de Janeiro de 1934, em Angola. Aos 10 anos veio para um colégio interno, em Benfica. Contava ela que nunca foi a férias – “as outras meninas iam a férias, tinham família; tinham natal, tinham férias de verão; eu era como se não tivesse ninguém, ficava sozinha no colégio”… Só voltou a Angola quando atingiu a maioridade. Formou-se em Educação Física, e deu aulas no Liceu de Luanda. Tinha um ginásio particular para aulas de ginástica correctiva.

Casou. Não teve filhos. Mas adoptou e educou uma sobrinha – que foi a sua acompanhante ao longo da sua vida.

Depois da Independência, ela e o marido recusaram a ideia de vir para Portugal. Mas isso acabou por acontecer, e instalaram-se em Lisboa em 1979. Devido à sua situação de regressada de um país em guerra, Luísa pôde ter a sua “reforma antecipada”.

Já em Lisboa, fez cursos de ourivesaria, pintura, cerâmica, no IADE e no ARCO. Muitas revistas, e algumas capas, têm ilustrações da sua autoria.

Luísa Andrade Leite publicou vários livros de poesia. Era dotada de um muito subtil sentido de humor, tendo-nos deixado uma amostra desse seu dom em “Dicionário Proveta”.

Não sei como conheceu Orlando Neves. Mas foi ele quem a convidou para a Património XXI.

Maria Luísa Leite Gonçalves da Silva Neves faleceu em 2 de Maio de 2017. Luísa d’Andrade Leite foi o nome que adoptou para assinar a sua obra.

Luísa Leite tinha a paixão dos gatos. Tinha sempre três ou quatro. Se algum morria, resgatava do abandono da rua mais um infeliz, e tratava-os a todos com cuidados mais que maternais.

4- A segunda fase da Associação e da Revista. Vítor Wladimiro Ferreira

E os anos continuaram a passar. Ao fim de dez anos de estar à frente da Associação, somando os anos anteriores de actividade, Orlando Neves abdicou da Presidência. Dada a recusa de Luísa Leite em lhe suceder, Orlando convidou outra grande figura cultural de reconhecido prestígio, Vítor Wladimiro Ferreira.

Vítor Wladimiro Ferreira (1934-2012), da Faculdade de Letras de Lisboa, onde era professor de História da Cultura Portuguesa Moderna e Contemporânea, e com valiosa obra publicada. E um homem igualmente generoso.

Orlando Neves escolheu bem o seu sucessor, e a direcção de Vítor Wladimiro foi igualmente muito importante. Mas com o somar dos anos, os sócios foram-se cansando, talvez tenham surgido novos desafios; as dificuldades económicas da associação foram-se agravando, e a SOL XXI foi chegando ao fim…

Vítor Wladimiro Ferreira dirigiu a Associação desde Setembro de 1998 até 2007. Quanto à revista, a ficha técnica apontou Vítor Wladimiro como seu director até ao número 27, de Dezembro de 1997. A partir do número 28, a sua direcção é assumida por ambos, Vítor Wladimiro Ferreira e Luísa d’Andrade Leite.

O editorial da revista nº 28/29/30 é revelador quanto às causas do esmorecimento desta publicação. Aí se diz que as “dificuldades [económicas] crescem como nuvens encastelando-se”. E que assim, “resolveu-se, depois de ouvir quantos connosco falam mais frequentemente, passar a editar apenas dois números anualmente, com um maior número de páginas”.

Na revista 38/39, ambos os directores apontam para a impossibilidade de encontrarem sócios que se propusessem apresentar uma nova lista para os corpos gerentes, pelo que têm que dar por extintas tanto a associação como a revista, propondo-se contudo elaborar um índice de toda a colaboração recebida desde o numero 1.

Esse índice foi realizado, e foi publicado em 2007, sob o número de Revista Nº 40.

A capa da revista nº 36/37 é da autoria da artista Ana Maria Castelo Branco, descendente de D. Ana Plácido, e esposa de Vítor Wladimiro.

5- A concluir

 Agora, desapareceram do nosso convívio. Primeiro, Orlando Neves (1935-2005). Algum tempo depois, Vítor Wladimiro Ferreira (1934-2012).

Por último, em Maio passado, faz agora um ano, Luísa d’Andrade Leite…

Muitos outros nomes desapareceram. António Rebordão Navarro, Mário Machado Fraião, Joaquim Evónio, Ulisses Duarte, António Vera, Manuel Madeira… Também o meu excelente amigo, João Orlando Travanca-Rêgo…

A Associação Cultural SOL XXI foi muito importante. Durante cerca de quinze anos funcionou como um ponto de encontro, único – um local de diálogo –, pois congregou poetas de todo o País. Encontrávamo-nos todos virtualmente, nesse órgão de comunicação, a Revista. Não havia censura. E tínhamos esses encontros anuais, de dois ou três dias, onde quem queria apresentava as suas comunicações sobre algum tema proposto pela Direcção ou do agrado individual do participante. Nos almoços mensais, muito concorridos e animados, encontrávamo-nos os residentes em Lisboa e cercanias. E se alguém quisesse levar um convidado, seria sempre bem-vindo.

Deixo este registo, como homenagem a esses Amigos que tinham por lema usarem o seu tempo livre numa actividade com utilidade para a comunidade. Mas sobretudo a Orlando Loureiro Neves, Vítor Wladimiro Ferreira, e Luísa Andrade Leite.

Deixo como testemunho da minha participação na SOL XXI, dois editoriais. A revista nº 18, de Setembro de 1996 apresenta a despedida de Orlando Neves e a entrada em funções de Vítor Wladimiro Ferreira.

No entanto, não posso deixar de sublinhar três pormenores de relevo.

O primeiro – Orlando Neves foi grande amigo de Luísa Leite e sempre reconheceu o seu desempenho como suporte efectivo de toda a actividade da Associação. É no entanto constrangedor ver que no seu editorial de despedida, ele não tenha uma palavra de gratidão e reconhecimento para com a sua grande colaboradora. E a razão já foi apontada acima – na sua extrema modéstia, Luísa Leite apagava-se, não se fazia sobressair. A sua actividade e presença eram tão naturais como o ar que se respira – eram um dado adquirido.

O segundo – Orlando Neves apresenta em traços largos uma avaliação da actividade e importância da SOL XXI.

O terceiro – a interessante definição de Cultura, aqui apresentada por Vítor Wladimiro.

Em 2000, um amigo de Orlando Neves – o Dr. Jorge Monteiro, seu antigo companheiro nas lides da Associação dos Amigos dos Castelos – promoveu um último encontro dos associados da SOL XXI, em homenagem a Orlando Neves. Nunca, que eu saiba, alguém se lembrou de homenagear Luísa Andrade Leite.

Fica aqui então o editorial de Orlando Neves na revista Nº 18, Setembro de 1996 (mantendo-se os sublinhados do autor):

EDITORIAL

O projecto imaginou-se. O projecto fez-se.

Num tempo (que ainda hoje continua), em que a cultura e, mais especificamente, a literatura, estava entregue ao juízo e tirania de vários grupelhos cosmopolitas, sectários, herméticos e fanáticos da sua verdade, auto-inventada, surgiu a revista Sol XXI /Setembro de 1992) para dar voz e presença aos excomungados por essas facções. Literalmente esmagados, silenciados, postergados, muitos escritores jovens ou não, da província ou das duas cidades mais importantes, não tinham um órgão de imprensa que os acolhesse e estimulasse.

A Associação Cultural SOL XXI inscrevia entre as suas finalidades iniciais a publicação de uma revista.

Ela surgiu, mercê de inúmeras boas-vontades. O ter surgido não é fenómeno invulgar. Quantas dezenas de revistas literárias não apareceram e desapareceram em períodos breves de tempo?

SOL XXI entra no 5º ano de edição. Mantendo, em 18 números, uma média de 100 páginas, pode afirmar-se que é um caso único no panorama literário português deste século, pelo menos. Porque SOL XXI nunca recebeu qualquer apoio das instituições que tinham a obrigatoriedade de a apoiar, nunca se baseou numa estrutura comercial, fundacional ou universitária. Os 700 exemplares que regularmente tirou em cada número foram adquiridos pelos sócios, fundadores e amigos da Associação espalhados por todo o país e por vários países estrangeiros. Esta regularidade, esta tiragem, os mais de 400 colaboradores que acolheu exigiriam que as entidades culturais oficiais deste país a tivessem auxiliado e divulgado. Não o fizeram. Uma cabala montada pelas mencionadas seitas ignorou a sua existência, com algumas excepções. Mesmo assim, muitos nomes das nossas Letras, dos que têm nome feito, aqui colaboraram.

Não tenho a menor dúvida de que o tempo mudará as coisas e que, no futuro, muitos dos que se estrearam nesta revista ou nela firmaram algum do seu prestígio se lembrarão do acolhimento aberto, livre, democrático que aqui tiveram.

Coube-me a mim assumir a direcção de SOL XXI, com António Rebordão Navarro e J. O. Travanca-Rêgo, além dos outros membros da redacçãoo. Fi-lo com entusiasmo e com prazer. Permitir que estas páginas estivessem ao dispor de todos os escritores portugueses, sobretudo dos ignorados, esquecidos, mal tratados ou no começo de carreira, foi o único lema a que obedeci. Julgo que o fiz, com as minhas próprias limitações.

Saio, a partir de hoje, da ficha técnica de SOL XXI, por razões ponderosas de saúde. E de mágoa, também. Dificilmente perdoarei aos que se apregoam solidários, democratas e utópicos – como convém na “coisa cultiral” – e depois se negam, se furtam e pior, injuriam e caluniam.

Mas não saio do projecto, nem da Associação, nem da revista. Talvez até possa, agora, nela escrever (o que sempre evitei) para, com clareza, denunciar a podridão do nosso meio literário.

Sucede-me no cargo um homem de cultura. Vítor Wladimiro Ferreira, escritor e historiador literário, prosseguirá os fins da SOL XXI. E virá, pletórico de vontade e exaltação. Que, em mim, estavam a fenecer.

Um apelo aos sócios, colaboradores e amigos: continuem o vosso apoio. SOL XXI será, no futuro, um marco da história literária do nosso tempo e continuará a ser a vossa porta sempre aberta.

De Vítor Wladimiro Ferreira, as “PRIMEIRAS PALAVRAS”:

Duas linhas apenas.

Vamos, todos, tentar continuar uma obra que tem a marca de um Homem, Orlando Neves, distante das teias intelectuais que quase sempre pouco têm a ver com a ideia de Cultura, um oceano sem limites em que deveria ser possível navegar sem troncos perdidos nem barcos abandonados, sem vagas poderosas nem icebergues.

No projecto SOL XXI, somos poucos, unidos num mesmo objectivo, com as nossas páginas abertas à colaboração de quantos comungam do afecto à Língua e à Cultura Portuguesa, a teia que nos juntou e nos faz caminhar em frente contra os que, derrotistas , nunca acreditam ser possível viver som o esteio de grupos económicos e/ou “lobbys” intelectuais só por si redutores e violadores dum campo que não pode ter fronteiras.

Conto, portanto, com um apoio constante e firme de todos os sócios da SOL XXI, com o conselho, mesmo que telefónico, de quantos fazem parte da nossa estrutura artesanal e em que é indispensável destacar os nossos Amigos Luísa de Andrade Leite, Joaquim Evónio, Luís Dantas, e a insubstituível visão crítica de Orlando Neves.

Vamos continuar a simplicidade e força da nossa Associação e, para tal, há que retomar e reforçar uma velha e decidida expressão: Vamos a isto!

6 – Finalmente

Orlando Neves e Vítor Wladimiro Ferreira estão documentados na Internet. Sobre Vítor Wladimiro Ferreira, nomeadamente, há o tocante mas objectivo testemunho de seu Filho, no blogue “Combustões”.

Sobre Luísa Leite não existe nada. Por isso aqui deixo o essencial que pude coligir da sua biografia, e uma foto recente.

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Publicações de Luísa de Andrade Leite ou Luísa d’Andrade Leite

País-Raíz – Colecção SOL/POESIA, 1988

Anquinha de Moringa – Colecção SOL/POESIA, 1991

Livro de Horas e Eternidades – Colecção SOL XXI, 1993

O Ser Único e Outros – Colecção SOL XXI / FICÇÃO, 1994

RÉQUIE por uma Flor Colecção SOL /POESIA, 1994

Dicionário Proveta – dicionário-bébé de matéria confusa – Colecção SOL XXI / FICÇÃO, 1998

por

Myriam Jubilot de Carvalho

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Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 1º de Julho de 2018, pelas 11h 55m

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Prefácio da obra “Kapulana, tecido de Moçambique, a verdadeira história”

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Apresento em seguida o Prefácio da obra

KaPulana – tecido de Moçambique – a verdadeira história

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Como este texto é um pouco longo para ser lido no ecran,

vou reparti-lo em pequenos segmentos.

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Prefácio |

 

O têxtil ‘Dutch Java’, imitação holandesa, oitocentista, do tecido ‘Java Print’, ou “batik” – originário da ilha indonésia de Java – é a origem do pano que se designaria como “KaPulana” na capital de Moçambique, a partir do século XIX. (Kraveirinya 2017, 23)

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          Nesta sua obra, Mphumo Kraveirinya debruça-se sobre a origem, sobretudo indonésia, e a actualidade, europeia, dos tecidos conhecidos em Portugal, e no sul de Moçambique, como ‘KaPulana’ – ou Capulana na grafia à portuguesa. Pelas suas cores exuberantes, a Capulana contrasta vivamente com o vestuário tradicional da mulher portuguesa, muito mais sombrio.

Sobriedade, quem sabe, herdada dos tempos mouriscos do al-Andaluz, situado na periferia ocidental do império abássida:(2) o vestuário preto, tradicional, virá da influência xiita  (muçulmana), porventura reforçada mais tarde pela sobriedade inquisitorial cristã.

Aliás, conforme nota Mphumo Kraveirinya, “poderemos encontrar algum paralelismo à cultura persa xiita (Shiraz) em relação ao vestuário feminino totalmente negro da costa oriental de África – o tradicional ‘Buibui’ de Mombaça e de Zanzibar, e de Muhipiti essura (aliás Ilha de Moçambique), encontrado pelos portugueses nos finais do século XIV e depois pelos holandeses, a partir do século XVII, aquando do seu avanço para o Oriente, via Cabo da Boa-Esperança, no sul de África, e passagem por Muhipiti.”

Na realidade, o autor oferece-nos uma narrativa da viagem da Capulana por mares já dantes navegados, mas neste caso a partir do oriente e em direcção ao ocidente. A beleza destes tecidos de algodão, e o conforto que o algodão proporciona, exerceu grande atracção sobre africanos e europeus, desde 1846.

Segundo o autor, tudo teria começado quando um jovem comerciante Holandês, Pieter Fentener van Vlissingen de Amsterdão, aceita o desafio do tio, Fredrik Hendrik, para investir na área têxtil numa colónia holandesa na Ásia – na ilha de Java, Indonésia, nas chamadas ‘Índias Orientais Holandesas.”

Produzir em série uma imitação do estampados (a cera), conhecidos como ‘Batik de Java’ sairia mais barato se substituindo os meios artesanais tradicionais por meios mecânicos. Estava-se na era da inovação da revolução industrial. Essa concorrência desleal não vingou entre os nativos indonésios.

No fundo, certamente “uma questão de rejeição identitária, sociológica e psicológica, de uma cultura visual endógena em relação a uma estrangeira,” como o autor frisa no decurso da sua narrativa. Esses tecidos que já não obedeciam ao design e técnica do ‘Java Print’ original, ganharam o apreço das populações africanas, e disso tirariam partido mais tarde, os comerciantes indianos da África Oriental e Central, através do Uganda e do Congo, fronteiriços a Tanganica, e por sua vez a Zanzibar, e Moçambique.

Uma vez que ganhava mercado em África, Vlissingen e posteriormente os seus herdeiros adaptaram-se às exigências do gosto dos seus novos destinatários conforme nos é revelado nesta “verdadeira história” da Kapulana.

Actualmente, a Kapulana globalizada conquistou lugar na indústria da Moda. Desde há muito que sabíamos como é poderosa esta indústria que movimenta milhões, pois emprega grande leque de profissões, desde a produção de tecidos à comercialização.

Mas, a leitura da obra que ora apresentamos, e a pesquisa adicional que fizemos para a elaboração deste prefácio, deixaram-nos surpreendida. Pois, segundo o relatório de 2016, do senador do Congresso dos Estados Unidos, Martin Heinrich, (3) só em 2015, os consumidores norte-americanos despenderam 380 biliões de dólares em tecidos de moda. E, em França, por exemplo, esta indústria gera mais riqueza financeira do que as da aviação e automóveis em conjunto.(4)

De tudo isto se ocupa Mphumo Kraveirinya, que há muito desejava publicar este seu estudo sobre o tecido Capulana de Moçambique «para desvanecer confusões de protagonismos alheios, sobre a origem da kaPulana, a começar pelo nome (…)», conforme nos confidenciou em tempos. (p. 23)

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          Não sabemos o que mais admirar neste autor. Se a sua capacidade de comunicar o seu vasto saber, se o seu inabalável amor à sua terra natal, Moçambique.

Conhecedor como poucos dos meandros dos costumes, da Etno-História, e da História contemporânea da terra onde nasceu,  Kraveirinya é incansável na divulgação dessas memórias “para que não se percam com apagões ideológicos mal-intencionados.”

Por outro lado, é estudioso e entende as línguas Jonga, em extinção, e o Suaíli, que comporta cerca de 150 milhões de falantes, actualmente. Pesquisador eclético de outras línguas, é através do que ele chama de “etno-etimologia” que busca paralelismos comuns, culturais e universais.

Exemplo é o seu estudo do antigo idioma Emacuá (padrão), o mais falado de Moçambique, estimado em  cerca de 12 milhões de falantes, e suas 9 variantes, entre os rios Rovuma e Zambeze, e em Maputo.

Apaixonado pelo imenso Continente Africano, é através da sua escrita esclarecida que o autor tenta dar a conhecer os detalhes do vasto e trágico caleidoscópio de injustiças da expansão europeia, nomeadamente a portuguesa, que iniciou o tráfico negreiro no Atlântico, exponenciando a prática da Escravatura. E também toda a História Colonial, e suas posteriores sequelas. Sem esquecer a expansão árabe em terras africanas.

Nesse âmbito, segundo este autor “as ilhas de Zanzibar e de Muhipiti (ilha de Moçambique) foram mercados árabes sunitas e persas xiitas (Shiraz) de mercadorias, de tecidos, e de escravos.”

No caso concreto da Capulana, entrelaçam-se a História, em si, e a história dos próprios antepassados do autor, do seu lado africano baNto, pois o nome desse tecido ou pano, tão apreciado por europeus como por africanos, recorda o nome do rei Pulana (ou Polana à Portuguesa), da família dos reis Mphumo – que co-habitava com seu povo no promontório adjacente à Baía dos Mphumos, hoje em dia designada como Baía de Maputo.

Terrenos das povoações ‘kaPulana’ ou do soberano Pulana que viria a ser espoliado e ocupado para a construção do Hotel Polana, a partir de 1922, segundo o autor deste livro que lemos com agrado.

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          Quem é, pois, Mphumo Kraveirinya? É geneticamente um luso-moçambicano, Moçambicano de nascença (1947). Ou como ele próprio costuma dizer com graça, “duplamente moçambicano, por ter nascido na Ilha de Moçambique e na colónia portuguesa do mesmo nome”.

Um moçambicano português, que “nunca precisou de pedir a nacionalidade portuguesa,” uma vez que nasceu em tempo colonial, quando as antigas colónias eram designadas como “províncias ultramarinas”, integrantes “de jure” (!) do território nacional europeu, português.

Portanto, por direito natural de sangue e de solo: jus sanguinis et jus solis, um homem completo, sem que o seu coração ficasse “dividido” nessa diversidade cultural. Ou, nas palavras do próprio Mphumo Kraveirinya, ter – uma Pátria baNto africana, Moçambique; uma Mátria europeia ibérica, Portugal; e uma Fratria mestiça sul-americana, o Brasil.

Mphumo Kraveirinya, além de investigador da História social de Moçambique, é ainda dramaturgo, poeta, autor de romance de não-ficção (investigação) e de contos para crianças. É também jornalista, colaborando pro bono com o jornal ‘O Autarca’ da cidade da Beira – Sofala, Moçambique, dando-nos a conhecer excelentes crónicas de análise político-social e de relações internacionais num mundo crispado.

É Doutor em Ciências da Cultura, especialização em Comunicação e Cultura, pela Universidade de Lisboa. Sociólogo e investigador, cujos centros de interesse são o estudo aprofundado da Diáspora, forçada, Africana, e das implicações da disseminação da alimentação tropical com a Escravatura, e posteriormente, com a Economia globalizada do mundo actual.

Como artista plástico, no seu exílio político em Zâmbia e Tanzânia (1967-1972), Mphumo Kraveirinya fez parte da equipa do DIP – Departamento de Informação e Propaganda da Frente de Libertação de Moçambique, concretamente na elaboração da estratégia e táctica de acção psicológica para mobilização das populações moçambicanas na resistência ao colonialismo português e de sensibilização internacional para a causa em prol da independência. A sua participação como ‘cartoonista’ de panfletos e desenhador gráfico, e de mapas militares, foi proveitosa.

Efectuou maquetizações, capas, e desenhos originais para livros de Poesia de Combate e História de Moçambique, nomeadamente a primeira de sempre, publicada em Dar-se-Salam pela Frelimo, no Instituto Moçambicano, em 1970, com apoio de organizações nórdicas europeias. Mais tarde, outro livro de História de Moçambique, em que participou, foi publicado em 1982 pelo Departamento de História da Universidade Eduardo Mondlane – UEM. Na segunda edição, de 1988, por algum motivo que desconhecemos, foi eliminada da ficha técnica essa participaçãoo de arranjo gráfico e de recolha de ilustrações de obras da sua colecção.

O detalhe que mais me fascina na personalidade e no currículo deste autor, ainda pouco reconhecido em Portugal, é a sua versatilidade e perseverança. Mphumo Kraveirinya é ainda o autor do monumental mural épico realizado em 1979 na Praça dos Heróis, em Maputo, e um dos maiores do mundo. Ainda que omitida a sua autoria em Moçambique, esta obra mereceu o interesse de uma académica britânica, a Professora Polly Savage, da Universidade de Londres. O seu capítulo 2. Os Heróis – da sua tese de de PHD (Doutoramento),de cerca de 94 páginas, foi inteiramente dedicado ao estudo, interpretação e restituição de autoria de toda a obra artística e percurso no exílio anti-colonial de MpHumo Kraveirinya, aliás João Craveirinha, Jr.

 

Lisboa, Novembro de 2017

Myriam Jubilot de Carvalho

Lic em Filologia Românica. Professora jubilada.

Pesquisadora da História da Literatura e do paríodo do al-Andalus. Poetisa e Contista.

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NOTA: Entre o seu percurso pelo exílio anti-colonial em Botswana, Zâmbia, Tanzânia, Quénia (1967-1972), e a realização da pintura Mural (1979), Mphumo Kraveirinya foi dissidente da Frelimo. Segundo o autor e confirmado por outras fontes, foi por essa sua ‘dissidência’ torturado e condenado a trabalhos forçados e à morte nos “campos de reeducação de máxima segurança”, entre 1975-1976, em Nachingwea (sul de Tanzânia), e Niassa (norte de Moçambique), dos quais é o único sobrevivente do grupo de que fez parte, em 1976. O Presidente de Moçambique, Samora Machel, amnistiou-o em abril de 1976.

(Vide notas, pp 119-120, de excertos de memórias sugeridas para inserção neste livro. Poderão esclarecer certas omissões à sua obra em Moçambique.)

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REFERÊNCIAS :

  1. Batik:  https://en.wikipedia.org/wiki/Batik
  2. O Poder Abássida, Sunita, perseguia os Xiitas e forçava-os a refugiarem-se nas periferias do império árabe. Daí que a islamização dos territórios afastados dos centros de poder, como por exemplo a Península Ibérica, tenham sofrido em grande parte, a influência xiita. [Eventualmente na África oriental essa influência seria trazida pelos persas Shiraz. Vestígios visíveis na ilha de Zanzibar]

(Professor Abdallah Khawali, curso “A Identidade Islâmica de Portugal, séculos VIII-XIII,” 2009 e 2010)

  1. Made in Holland: The Chanel of Africa

http://www.messynessychic.com/2015/10/30/made-in-holland-the-chanel-of-africa/

  1. Senator Martin Heinrich, September 2016.

The Economic Impact of the Fashion Industry

https://www.jec.senate.gov/public/index.cfm/democrats/reports?ID=034A47B7-D82A-4509-A75B-00522C863653

  1. 150 milliards d’euros! La mode crée plus de richesse que l’aviation et l’automobile réunis – http://www.latribune.fr/economie/france/150-milliards-d-euros-la-mode-cree-plus-de-richesse-que-l-aviation-et-l-automobile-reunis-605060.html

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Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 5 de Abril de 2018, pelas 2 h 15m

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Filme da UNESCO “A Rota do Escravo”

* Estudos e Comunicações — Myriam de Carvalho @ 11:00 pm

Filme da UNESCO “A Rota do Escravo”

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Como passou no dia 23 de Agosto, o Dia Internacional de Recordar a Escravatura, para que tal flagelo nunca seja esquecido, trago aqui este filme que encontrei por acaso.
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No entanto, anoto três pormenores que são evidentes:
= Intencionalmente, ou não, há um branqueamento no que toca ao comércio de escravos em África:
O filme diz que os entrepostos instaurados na costa africana, o foram por consentimento dos reis africanos.
Esse consentimento existiu.
Mas só existiram negociantes e vendedores, porque surgiram os compradores.
A ganância humana existe por todo o lado; não tem fronteiras nem limites.
Entretanto, houve reis africanos que se opuseram ao tráfico.
= O outro detalhe que notei, intencionalmente ou não, é um outro branqueamento, agora no que diz respeito à abolição da Escravatura. Parece que ficou a dever-se à liderança de idealistas e beneméritos. De facto, eles existiram. Mas a abolição foi uma necessidade económica, surgida da revolução industrial. Com o aparecimento e evolução das máquinas, o trabalho braçal deixava de ser rentável. E prejudicava a indústria nascente. Tanto que a abolição aconteceu, sem que tivessem surgido medidas de protecção e integração social e económica para os milhares de pessoas que ficavam sem meios de subsistência. Houve o papel relevante de pessoas generosas e justas que se opunham ao tráfico. Mas a abolição não foi um acto de generosidade, nem de justiça; foi apenas uma medida económica.
= O último detalhe a apontar, diz respeito a um facto muito esquecido. Havia grande procura de escravos/as “brancos”, que eram capturados em razias devastadoras na Europa do Norte, nas regiões desprotegidas, da Finlândia.

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A Rota do Escravo – A Alma da Resistência
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ONU Brasil
Published on Mar 25, 2013
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No filme “A Rota do Escravo – A Alma da Resistência”, a história do comércio de seres humanos é contada através das vozes de escravos, mas também dos mestres e comerciantes de escravos.

Cada um conta sua experiência: da deportação de homens e mulheres para as plantações até o cotidiano do trabalho e os movimentos de abolição.

Produzido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), traduzido e dublado pelo Centro de Informação das Nações Unidas para o Brasil (UNIC Rio).

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© Myriam Jubilot de Carvalho

Noite de 2 de setembro de 2017, pelas 24

Publicado igualmente, na minha página do FB

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Marc Chagall, mais uma vez

* Estudos e Comunicações — Myriam de Carvalho @ 10:05 pm

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Visita à exposição das Madonas

= no Museu de Arte Antiga, no dia 30 de Julho de 2017.

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1- Descrição do quadro

Um crucifixo, do lado esquerdo da tela, no primeiro plano. Ocupa toda a margem esquerda do quadro, desde a base até quase ao topo.

O crucificado é um homem, e está nu da cintura para cima. Só lhe vemos o braço esquerdo. Mas o braço da cruz, onde o braço do homem deveria estar pregado, mal se distingue.

A cabeça do homem pende, à semelhança das representações da morte de Jesus Cristo.

Em fundo, uma cidade em chamas.

Figura central – uma mulher amamenta o filho que traz ao colo. À maneira tradicional, a mulher usa um lenço na cabeça. O lenço é azul.

O seu olhar dirige-se para o lado direito (do espectador), para alguma coisa que, de fora do quadro, lhe prendeu a atenção.

A figura da mulher emerge de um rio em torrente.

No canto inferior direito, emerge uma cabeça de um animal de certo modo parecida com a cabeça de um burro.

A cabeça do animal ergue-se, azul, com expressão angustiada, a boca aberta de ansiedade.

Tem nas mãos um livro aberto.

O quadro data de 1943.

Figura no Museu do Vaticano, na colecção de Arte Religiosa Moderna.

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2 – Interpretação

São três os primeiros pormenores que me chamam a atenção:

= a cabeça azul do burro

= a cidade em chamas

= o rio em corrente torrencial, arrastando a mulher com o seu filhinho.

Então, quanto a mim, a cidade em chamas, como pano de fundo, é o tempo da II Guerra Mundial. E, por extensão, de todas as guerras.

A desgraça arrasta as pessoas numa torrente invencível, mesmo as pessoas inocentes, simbolizadas na mãe que amamenta a criança.

O burro, com a sua cabeça azul e um livro nas mãos, simboliza o Saber, seja científico, seja humanístico. O seu olhar é angustiado porque as pessoas de Saber, e de Bem, não podem opor-se à torrente.

A cabeça azul faz-me pensar na representação de Shiva: Shiva é todo azul porque engoliu todo o sofrimento do Mundo, para salvar a Humanidade. Também no período da Arte Nova, ainda marcada pelo Decadentismo, a Morte é representada em tons de azul mais ou menos desvanecido.

Mas esta representação é mais trágica que a de Shiva, pois neste mundo em catástrofe não há salvação.

Quem será o crucificado?

Por um lado, será toda a Humanidade, que por sinédoque (variante da metonímia) designamos simplesmente como “o Homem”. Por outro lado, será simultaneamente o próprio Autor, dentro do quadro. Ele, na sua sensibilidade, está aniquilado, e impotente, pois sente-se nas mãos de quem promove a destruição de vidas e bens.

Há ainda um outro pormenor:

O olhar. Tanto o do burro, como o da mulher. Olham em direcções desencontradas. As pessoas eruditas e as pessoas simples não olham na mesma direcção. E isso é um abismo. Que nos abrange a todos.

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3 – Conclusão

O quadro devia chamar-se Impotência.

Os responsáveis pelo museu do Vaticano, certamente, incluiram-no na colecção de arte religiosa moderna porque não se deram ao trabalho de pensar, de interpretar, e ficaram-se pelas aparências… Viram um crucifixo, uma mulher a amamentar, e pensaram: “Este judeu é dos nossos”. E adquiriram o quadro.

Na verdade, o Pintor usou o crucifixo livremente, como um símbolo, tal como usou outros símbolos tanto da tradição cultural europeia como de outras tradições culturais. O quadro exprime um sentimento de profundo desgosto e profunda impotência. E é também uma acusação. Os nossos destinos não estão nas nossas mãos, mas sim nas de quem promove a destruição, seja qual for a época e sejam quais forem a forma e o meio. Perante a loucura da destruição, ninguém consegue sobreviver, e nós, os artistas, os criadores – artistas ou cientistas – não podemos criar. Poderíamos contribuir para o progresso da Humanidade! Mas de facto não podemos fazer nada. Ou pior ainda, qualquer contributo que possamos dar para o Progresso será aniquilado pela Barbárie, como diria Edgar Morin.

O significado do quadro é pois profano, universal e intemporal.

© Myriam Jubilot de Carvalho

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Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 31 de Julho, pelas 23h.

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Camille Claudel

* Estudos e Comunicações — Myriam de Carvalho @ 11:22 pm

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Dia 8 de Março de um ano qualquer – Dia Internacional da Mulher

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A igualdade de género, na verdade, tem muito que se lhe diga.

Um caso típico é a história dramática de Camille Claudel – cuja vida decorre entre as datas de 8 de Dezembro de 1864 e 19 de Outubro de 1943. Uma história extremamente próxima da minha, pois Camille Claudel morreu apenas um ano antes do meu nascimento.

Era irmã mais velha do poeta e diplomata Paul Claudel.03 08 Camille Claudel

Quanto a Paul Claudel, não sei se ele foi um poeta que para ganhar a vida com gabarito se meteu na Diplomacia, ou se era um diplomata que versejava nas horas vagas.

Porque apesar de se tratar de um poeta que nos deixou escritos de alta espiritualidade, eu considero-o destituído de coração.

Camille Claudel foi revelando algumas dificuldades de comportamento. No seu tempo a psiquiatria estava embrionária… Lembremos que o próprio Freud só era mais velho que Camille uns escassos 8 anos – Freud nasceu em 1856. E nessa época, se uma mulher perturbava, o remédio podia ser simplesmente o internamento num hospício. Isso foi bem documentado na novela brasileira “Lado A Lado” – havia muitas formas de incomodar, e uma delas era o exercício de uma actividade artística. Menos de um século antes, Jane Austen (1775-1817) não assinava os seus livros. George Sand, uns escassos 60 anos antes de Camille, optou por assinar a sua obra com pseudónimo masculino.

E Camille Claudel perturbava demasiado. Porque sendo menina de uma família de católicos pergaminhos, era escultora, e ainda por cima envolveu-se seriamente com o grande Auguste Rodin (1840-1917), mais velho que ela, e por sua vez com a estabilidade familiar mais ou menos organizada…

Foram Paul Claudel e a mãe de ambos quem colocou Camille num hospício, e segundo li numa biografia aqui na Net, sem sequer permissão de lhe fornecerem papel ou lápis que mais não fosse para se entreter… E as freiras do dito hospício, veneradoras e obrigadas, obedientemente, cumpriam a prescrição à risca.

Diz-se que quando por acaso pintava ou desenhava, ela mantinha-se calma. Mas o peso dos preconceitos falou mais alto. Esculturas e desenhos “realistas” podiam manchar a honorabilidade do irmão diplomata…

Com algumas variantes e talvez atenuantes, ainda se verificam histórias destas nesta transição do século XX para o século XXI. Quando penso nisto, nem sei bem se estremeço de horror, ou se me sinto grata ao Criador…

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© Myriam Jubilot de Carvalho

2017 – 03 – 08

Fonte da Imagem:

Na biografia de Camille Claudel, na Wikipedia.

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© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 8 de Março de 2017, pelas 23 horas.

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Esta expressão “Amar como um bicho” – 3

* Antologia,* Estudos e Comunicações — Myriam de Carvalho @ 1:37 pm

VINICIUS de MORAES

O soneto do Amor total, na voz do próprio Poeta:

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Marcus Vinicius da Cruz e Mello Moraes

Nasceu em 1913, no Rio de Janeiro;

Em 1946, assumiu o seu primeiro posto diplomático como vice-cônsul, em Los Angeles;

O seu valor literário começou a ser prestigiado com a peça “Orfeu da Conceição” (1956).

Os seus grandes parceiros musicais foram o maestro António Carlos Jobim, na década de ’60,

e na década seguinte, o violinista Toquinho.

O poeta viveu numa época difícil da História do Brasil. Foi destituído das suas funções no corpo diplomático quando se encontrava em Lisboa, a dar espectáculos com Chico Buarque e Nara Leão, tendo sido invocada a justificação de que “o seu comportamento boémio o impedia de cumprir as suas funções”. Esta posição do Governo brasileiro de então foi posteriormente rectificada, em 1998, rectificação que o poeta já não pôde presenciar, pois o seu falecimente tinha ocorrido na manhã de 8 de Junho de 1980.

A sua carreira artística começou na década de ’20.

Foi mais tarde, o iniciador da Bossa Nova, já no fim da década ’50.

Recordo até a emissão da RTP onde ele foi introduzido ao público português! Infelizmente, não encontro essa emissão ho YouTube.

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© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 29 de Outubro de 2016, pelas 14h 30m

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Esta expressão “Amar como um bicho” – 2

* Antologia,* Estudos e Comunicações — Myriam de Carvalho @ 11:42 am

Nota biográfica sobre  RENATO DE MATTOS MOTTA1 –

A nota biográfica que encontro na Net, sobre este poeta e artista gráfico, não indica a sua data de nascimento. Mas conforme se diz que “os Anjos não precisam de ter asas, pois são anjos”, também poderemos dizer que “os Artistas não precisam de idade, pois são eternos”.

No entanto, calculo que tenha nascido na década de 50, do século XX.

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RENATO DE MATTOS MOTTA — Nasceu e vive em Porto Alegre.

É publicitário, poeta, faz xilogravuras, fotografias e histórias-em- quadrinhos, além de já ter trabalhado em teatro. Atuou nas peças “De como Raízes Transformam-se em Asas” de Cairo Trindade e “A Casa da Suplicação”, de Carlos Carvalho, 2º lugar em Conto no I Concurso Mario Quintana de Literatura DCE/ADUNISINOS; publicou “Pau de Poemas”, álbum de poesias ilustradas em xilogravura; “Salamanca”, adaptação para quadrinhos de uma lenda recolhida por J. S. Lopes Neto; além de uma coleção de fotopoemas e da “Coleção Fogo do Verbo” – caixas de fósforos com poemas. Junto com Alexandre Brito e Cláudia Gonçalves, criou a República da Poesia, sarau aberto ao público que acontece mensalmente. Participa como apoiador além de realizar leituras e oficinas nos festivais Porto Poesia e Porto Alegre dá Poesia.

Aqui deixo dois exemplos do seu sentido de humor:

renato_de_mattos_motta4

XEQUE

Quando a vida ia me dar um xeque-mate,

a gata pulou sobre o tabuleiro!

Fez a maior bagunça!

Saiu pela casa

com o rei adversário

transformado em joguete

entre suas patas.

Foi aí que me dei conta

que a vida

é um cheque…

em

branco!

SONETINHO SOLITÁRIO

Sem ti, a vida

não tem graça

não tem graça

não tem graça

não tem graça

não tem graça

não tem graça

não tem graça

não tem graça

não tem graça

não tem graça.

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Sem ti,

a vida

é só desgraça.

Fonte:

A fonte de toda a informação que aqui transcrevo, encontra-se no site

Poetas do Brasil

cujo link não se deixa copiar:

No entanto, é fácil de encontrar na pesquisa do Google.

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© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 29 de Outubro de 2016, pelas 14h

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Esta expressão “Amar como um bicho”… – 1

* Antologia,* Estudos e Comunicações — Myriam de Carvalho @ 11:31 am

A expressão que considero muito forte e por isso, muito expressiva, erótica e apaixonada – “amar-te como um bicho” – encontrei-a nestes dois poetas: Vinicius de Moraes e Renato de Mattos Motta.

Vejamos os dois poemas.

Primeiramente, o de Vinicius de Moraes:

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Amo-te tanto, meu amor… não cante
O humano coração com mais verdade…
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude

(1)

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E agora, o poema de Renato de Mattos Motta:

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Quero beijar tua boca

Morder tua nuca

Invadir teu ventre

Penetrar teu nicho

Te amar como um bicho

(2)

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Fontes:

(1) Retirado da Net.

(2) “Pau de Poemas” – 2ª edição, Porto Alegre, Setembro de 2007

Edição do Autor.

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Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 29 de Outubro de 2016, pelas 13h.

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WA THIONG’O, NGUGI

* Antologia,* Estudos e Comunicações — Myriam de Carvalho @ 1:56 pm

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Com a devida vénia, tomo nota deste artigo que analisa os temas principais da obra do escritor keniano Ngugi wa Thiong’o

e que se encontra no link abaixo:

WA THIONG’O, NGUGI

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Publicado por

Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 16 de Outubro, pelas 14h.55m

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