Já sei como vou redigir a minha Tese

* Contos — Myriam de Carvalho @ 3:24 am

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JÁ SEI COMO VOU REDIGIR A MINHA TESE
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Para redigir a minha Tese, eu vou seguir à risca os ensinamentos da Menina Lourdinhas, no início dos anos 50. A Menina Lourdinhas já tinha 44 anos de idade. A Menina Lourdinhas era a nossa professora primária. A Menina Lourdinhas foi a nossa professora, da 1ª à 4ª classe. A Menina Lourinhas dizia assim:
– Concêçanita, vem ao quadro!
A Concêçanita ia ao quadro e pegava no giz. A Concêçanita era muito magrinha e transparente porque tinha fome. A Concêçanita, de verão e de inverno, usava o mesmo vestido de chita da tabela muito apertadinho e muito curtinho, de mangas curtas, porque tinha crescido uns quantos centímetros e o vestido não tinha. Acho que a Concêçanita também tinha frio. A Concêçanita andava sempre descalça, porque naquele tempo as crianças que vinham dos montes em volta da aldeia não tinham sapatos. Mas alguns rapazes usavam botas cardadas. E tapavam-se da chuva com uma saca de batatas vazia por cima da cabeça.
A Menina Lourdinhas dizia:
– Meninas, vamos treinar a redacção para o exame. Concêçanita, escreve!
A Concêçanita escrevia no quadro, e as outras meninas copiavam nos seus cadernos..
A menina Lourdinhas ditava assim:
-Concêção, escreve aí, ao meio do quadro:
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REDACÇÃO DO CÃO
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“O cão é um animal doméstico porque vive na companhia do homem.
“O cão tem o corpo coberto de pêlos para ser macio.
“O cão é o melhor amigo do homem porque guarda a casa. O cão também ajuda os pastores a guardar os rebanhos.
“O cão é muito útil porque ajuda os ceguinhos a atravessarem a rua.
“O cão é bom companheiro porque gosta de brincar com as crianças e acompanha os homens à caça.
“Nós devemos estimar os nossos cães.”
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A Menina Lourdinhas contava:
-Quantas linhas já temos? 6? Então já chega.
No dia seguinte, a Menina Lourdinhas mudava o tema da redacção. A Menina Lourdinhas chamava:
-Mari’míla, vem ao quadro.
A Mari’míla, um tanto desajeitada, levantava-se da sua carteira, sacudia umas ancas um pouco avantajadas, arrastava os pés descalços, subia o estrado com ar contrariado, e ficava em frente do quadro.
A Menina Lourdinhas dizia:
-Meninas, hoje vamos treinar a redacção da vaca. Mari’míla, escreve o título, aí, bem ao meio do quadro:
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REDACÇÃO DA VACA
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“A Vaca é um animal doméstico porque vive na companhia do homem.”
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…Aqui, levantava-se um problema filosófico:
A vaca não vive na companhia do homem. A vaca vive num estábulo…
A Menina Lourdinhas corrigia-se:
-Mari’míla, apaga. Temos que dizer doutra maneira:
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“A vaca é um animal doméstico porque vive num estábulo ao fundo da quinta do dono, para não cheirar mal.
“A vaca é muito útil porque dá os bezerrinhos, e dá o leite para a nossa alimentação.
“A vaca dá a pele e os chifres…
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(Aqui, levantava-se outro problema…)
-Mari’míla, apaga. Não pode ser. Agora, escreve:
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“A vaca é muito útil porque, depois de morta, nos dá a pele e os chifres para fazer os cabos dos talheres.”
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Penso que assim, com as linhas bem contadas, nem muitas nem poucas; e a estrutura linear da frase de Sujeito + Predicado, sem profusão de complementos, sem arquitecturas filosóficas, sem conceitos inovadores, sem rasgos de espécie alguma, a minha Tese vai ficar dentro do figurino!

Vou propor-me a Coimbra, à Universidade do Portugal dos Pequeninos, mimoso enquadramento do nosso jardim à beirinha do formoso Atlântico, que é sempre calmo desde que o vento não levante ondas.

E proponho aos futuros doutorandos que não se atrevam a ter um estilo próprio, não se atrevam a formular nenhum conceito que vá além da formatação ideal da redacção do cão, sob pena de serem massacrados por um elegante narciso com ganas de buldózer enraivecido com receio de se ver ofuscado pelo brilho do examinando.

Pois esta será a melhor forma de congregarmos esforços para que o nosso país se engrandeça e seja digno continuador da cagadela de mosca que tão olimpicamente vem ocupando no mupa-mundi.
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© Myriam Jubilot de Carvalho

 15 de Novembro de 2015

Imagem:

http://restosdecoleccao.blogspot.pt/2012/06/ensino-primario.html

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© Myriam Jubilot de Carvalho

Segunda-feira, 16 de Novembro de 2015, pela 3h 15m

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Renascer

* Contos — Myriam de Carvalho @ 11:45 pm

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Renascer

Nem PROSA nem POESIA – E não lhe chamem “prosa poética”, que eu não gosto!!! Apenas um texto, informe, como um embrião antes de ser feto, como um corpo antes de ser húmus, como um balanço antes de ser voo –

Alguns textos são assim, um ensaio antes da estreia, uma criança a encher um balão antes de se convencer que não tem força bastante e vai ter que pedir ajuda ao adulto mais próximo –

Alguns textos são assim. Papa-açorda antes de ser assado, coisa nenhuma nos limbos do mistério… E um dia, se vida houver, serão luz!

*

Tenho sono. Meu corpo está cansado. Julgava-me a transcorrer o imenso túnel do deserto imenso… E de repente, o túnel terminou.

Saio à luz. Meus olhos de morcego choram de ofuscados. Tenho medo, fico à deriva de mim. Hesitante, vacilante, os olhos piscos – quem sou eu?

Não tenho bengala. As pontas dos dedos passam-me por qualquer coisa… Tento apoiar-me….

São picos! Agarrei-me a uma piteira –

Cobro ânimo. Abro os olhos à luz intensa que mos fere. Onde estou?

Começo a distinguir o meu novo caminho. No fundo mais fundo do limitado desfiladeiro, escoltada por rochedos acerados, enraivecidos, ancilosados, com suas farpas arrancadas às cabeleiras das eríneas –

…Lá em cima, um mar de luz!

*

Respiro fundo, cobro ânimo.

Olhar para trás, para o túnel percorrido, refúgio que foi opaco, na noite escura? Para quê – Já lá não estou –

*

Eu sei que agora, só tenho este caminho. Cerca-me o silvo das serpentes, o farpear das faenas loucas dos rochedos –

…Mas há silêncio dentro de mim. Um silêncio feito dos cânticos da luz que se expande, lá em cima –

Presa ao chão, terei que prosseguir. Mas as feridas, de tão fundas e sangradas, já não doem, já não maçam.

…Presa ao chão. E no entanto, a fénix relança o voo! E sobe, sobe, e passa além das nuvens. Não há calor que lhe dissolva as asas, é preciso procurar a fonte desta luz!

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© Myriam Jubilot de Carvalho

Costa de Caparica, 13 de Novembro de 1989

Texto publicado no Boletim da APCA, o Profalmada,

Nº 33, em Março de 2014

Foto é dos álbuns de Anne Geddes, que tanto admiro:

http://pruneviolette.unblog.fr/category/fond-ecran-bebe/

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© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 18 de Julho de 2015, pelas 00.45

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A hora dos pardais

* Contos — Myriam de Carvalho @ 4:33 pm

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É a hora dos pardais

Acordo com o chilrear da passarada do largo, canto desenfreado, anúncio de que a hora das trevas já passou. Nem sequer falo das trevas habitadas pelas presenças incómodas, indesejáveis, que povoam a noite escura. Falo das trevas que nos habitam, atormentam, e tiram o sono, essas sim, as mais temíveis. Penso que falo de mim.

O Sol ainda não rompeu completamente atrás dos prédios do outro lado do largo. As brumas que eu tanto gosto de absorver com os olhos, ainda envolvem as distâncias que encobrem o Rio, o Barreiro, e toda a margem do Mar-da-Palha. O Rio é ainda esse calmo espelho horizontal vagamente sulcado pelas miniaturas de paquetes da CP. Os guindastes da Lisnave ainda não se animaram para outras oito horas intensas de esforço e de suor.

É a hora dos pardais! Do seu canto estonteado, neste seu diário hino à vida. Como se possuíssem os segredos dos seus destinos. Ou como se este momento fosse o último. Como trinam estas gargantinhas minúsculas.

Todos os dias os oiço. Sempre com esta mesma comoção. Porque assim que o Sol finalmente se erguer, eles vão calar-se, vão retirar-se nem se sabe para onde, vão andar pelas ruas à procura de migalhas, sujeitos aos atropelamentos dos carros e às arremetidas dos gatos vadios.

…E eu fico sem saber. Se a hora das trevas passou por hoje, ou se vai agora começar…

© Myriam Jubilot de Carvalho

 1989

Publicado no Boletim Nº36,

da Associação de Prof. de Almada,

de Março de 2015

Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 30 de Junho de 2015, pelas 17h 30m

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O comboio da noite

* Contos — Myriam de Carvalho @ 8:47 pm

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O comboio da noite

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Eles apanham o comboio da noite. Este, o ronceiro, que transporta mercadorias e gado. E gente cansada. Cheirando ao suor das horas extraordinárias, feitas sem encanto, nem sonho, nem paixão.

O rápido saiu de manhã cedo, com o erguer do sol. Enquanto eu estudava, na larga praia, as mensagens ocultas nos ecrãs da Natureza. Saiu engalanado, ledo e lesto. Apinhado de turistas descontraídos, dos que se contentam com a paisagem fugidia para chegarem ao hotel a tempo de tomarem duche antes do jantar.

O foguete partiu ao meio-dia. É um comboio-expresso. Híper, híper-veloz. Eu tinha-me refugiado na biblioteca, a estudar as mensagens de ouro dos livros sábios. É o comboio dos executivos, suas pastas prenhes de negócios e contratos. Donde o segredo e urgência são a chave do lucro e garantia de êxito. Galga a mesma distância dos outros, em metade do tempo. Suas-Excelências aproveitarão o caminho em encontros casuais de futura utilidade. Jantarão com tranquilidade aparente. E do mesmo modo adormecerão, preparando durante o sono a reunião da manhã seguinte.

Gastei o dia. Procurei nos olhares enigmáticos das pessoas com quem me cruzava, um sinal, ainda que indistinto, de um grão de luz. Mas gastei as mãos em dádivas sem retorno.

Sempre pensei que na minha praia, o sol não se pusesse nunca. Mas também aqui o sol se pôs, indiferente à minha procura. E a noite desceu sobre mim, como sobre tudo o mais!

A escuridão encontrou-me igual a um grão de areia batido pelas ondas, ou uma gota de espuma fundindo-se no ar.

Vou, pois, apanhar, eu também, o comboio da noite. O ronceiro. O mais barato. Este que transporta mercadorias e gado. E gente tão cansada, semblante fechado, carregado, inóspito.

Daquilo que sempre procurei, já não me lembro. Daquilo que sempre me inquietou, já não quero saber.

Sei apenas que já não me assombras pelas sendas da noite, pelos caminhos incógnitos da longa viagem. Sei que poderei descer em qualquer estação, olhar as estrelas do céu sem fim (as estrelas sem fim do céu), esperar sozinha pelo amanhecer.

Sei que já não me acompanharás…

… poderei talvez aspirar enfim o esplendor nascente do sol. Inspirando o oxigénio livre da montanha que desce até à praia. Poderei ir ao mercado, e comprar provisões. Poderei esperar novamente a noite, e retomar a viagem.

Retomar a viagem, quantas vezes forem precisas. Pelas sendas esquivas da noite? E há outras? Caminhos incógnitos da longa viagem.

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© Myriam Jubilot de Carvalho

Inédito

Junho de 1991

Imagem, ver:

http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/3609819.html

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© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 6 de Junho de 2015, pelas 21h 45m

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Encontros

* Alandalus,* Contos — Myriam de Carvalho @ 3:24 pm

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Encontros

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Anos 80, já para o fim da década.

Avião Bruxelas – Oslo.

Senta-se ao meu lado uma velhinha, magrinha, cabelo cinza já ralo, ondulado.

Vê que estou a ler o magazine littéraire, e comenta comigo que falo francês. Digo-lhe que é a minha segunda língua.

Pergunta-me porquê o magazine littéraire…

– Estudei literatura – respondo.

Pergunta-me se sou professora.

Que sim, que sou professora de crianças entre os 10 e os 12, ou 13, mais ou menos.

– Então – diz ela, sorrindo para mim – essa literatura tão avançada não lhe faz falta, profissionalmente.

– Pois não – tenho que concordar. – Mas não me interesso só pelas minhas aulas, tenho mais interesses na vida – Ela sorri – Interesso-me por literatura em geral…

–Você deve ser uma professora interessada – interrompe-me ela, com um olhar perspicaz.

E começa um longo diálogo! Tínhamos muitas coisas em comum! O modo de encarar a disciplina, o prazer em trabalhar com crianças…

– Você não encontra muitas professoras iguais a si, pois não?

E foi a minha vez de sorrir… Pergunto-lhe por que faz tal dedução…

– Experiência, ma petite – diz-me ela.

Ela também tinha sido professora. De língua materna, tal como eu.

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…mas não era belga; era polaca. Casada com um norueguês, de quem tinha três filhos. Viviam na Bélgica, onde o marido tinha negócios, mas ia agora para Oslo ter com todos eles. O marido estaria à espera dela, à chegada.

…polaca. Foi apanhada pela Guerra. Teria aí uns 17 anos quando a guerra acabou… Era muito nova…

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Falou-me do campo (de concentração). Viu o meu trejeito de horror, e levantou a manga do braço esquerdo. Mostrou-me o número – não estava a inventar histórias.

Mostrou-me o BI especial para as vítimas do Nazismo, com cartão que permitia viajar graciosamente. O marido estaria à espera dela no aeroporto, em Oslo – repetiu.

Fiz-lhe a pergunta mais óbvia que se pode fazer, provavelmente a mais estúpida também: Perguntei-lhe como se resiste a uma barbaridade daquelas…

Encolheu os ombros:

– As raparigas comunistas eram excepcionais. As lituanas. Eram estóicas, disciplinadas. Não criavam confusões. – E continuou – Fui apanhada naquela engrenagem infernal, já bastante no fim da guerra. Senão, decerto que neste momento não estaria aqui, agora, a falar consigo…

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Queria que eu fosse jantar nessa noite a casa dela. Mas isso ser-me-ia impossível, tinha os meus compromissos e estava um casal amigo igualmente à minha espera. E eu ia apenas por dois dias, uma conferência já não me lembro sobre o quê…

Trocámos endereços. Ficámos a corresponder-nos durante algum tempo, alguns anos. Até que uma última carta não mais obteve resposta…

Chamava-se Débora – aliás, um nome de remota ascendência peninsular.

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© Myriam Jubilot de Carvalho

27 de Janeiro de 2015,

dia em que se recorda a libertação dos prisioneiros dos nazis

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Foto:

Nazi war criminals tried the defence that they were ‘following orders’.

Pictured are concentration camp prisoners as US troops liberate the Nazi concentration camp in Dachau,

Germany, 30 April 1945

Read more:

http://www.dailymail.co.uk/sciencetech/article-2236916/Not-just-following-orders–

Nazi-prison-camp-bosses-took-pride-doing-new-study-claimed.html#ixzz3Q88g7LCi

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Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 28 de Janeiro de 2015, pelas 15h 25m

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Rock na Esplanada

* Contos — Myriam de Carvalho @ 3:49 pm

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Dança do Fogo_10

ROCK NA ESPLANADA

Mini-Narrativa
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A esplanada rústica, junto da Ribeira, instalada na estreita faixa da margem mais larga e plana entre os quatro cerros.
Ela usava calças de jardineira muito estilo négligé, de forçada aparência usada e desbotada, e uma Tshirt branca leve e folgada. Do conjunto, toda a sensualidade das curvas sobressaia. Parecia uma peregrina urbana perdida no meio da serra.
O altofalante da esplanada espalhava um rock que ecoava pelas penedias que recobrem os cerros encosta acima, por entre moitas de alecrim e estevas e amendoeiras raquíticas que não encontram água para matar a sede.
Ela fez um movimento brusco, deixou a mesa onde tinha pousado o lanche e a câmara fotográfica, saltou para o espaço que havia entre as mesas e o balcão, e começou a dançar. Na verdade, o rock entrelaçava-se no vento que fazia luzir as folhinhas transparentes das amendoeiras ou se pendurava desequilibrado nas ramadas verde-escuro das alfarrobeiras e figueiras, fazendo-as descer até ao ondulado das estevas e das carquejas, dos alecrins e rosmaninhos, desprendendo-lhes o aroma quente na tarde límpida. O rock invadia a tarde e reflectia-se de rocha em rocha. E atingia-a na boca entreaberta e no oscilar desengonçado das grandes mamas redondas, no bamboleado alternado das ancas ora para a esquerda ora para a direita, dobrando-a num ângulo que lhe pendurava a cabeça displicente para trás.
Os homens começaram a juntar-se. Não sei donde apareceram, não sei que faro os atraiu! Alguns mais velhotes, outros ainda na meia-idade, mirrados, os dentes ralos e comidos do tabaco mata-ratos, cabelos grisalhos, os rostos enrugados de muitos sóis a cavar as hortas. Calças pretas, camisa branca mareada de muitas lavagens, colete. Na maioria, aquela aparência sefardim que ainda tanto se vê na serra algarvia. E ela, incansável, sem um olhar à assistência, dançando sempre, continuava a bambolear-se. Indiferente ao desejo que eu via prestes a romper as comportas da tradicional repressão que o trazia acorrentado e que agora ali estava vibrando, a rebentar com as amarras naquela meia-dúzia de rostos que a admiravam sôfregos e impacientes.
O altoflante estava endiabrado. Os rocks sucediam-se, não davam descanso. Nem ela precisava. Porque continuava dançando, os olhos fechados, e os homens agora de pé, abriam clareira à volta dela para a verem melhor. Lambiam os beiços e estalavam os dedos em castanholas, a baterem-lhe o ritmo.
Crescia o comentário surdo “Nunca vi nada assim”…
O meu companheiro disse-me ao ouvido – Vamos embora daqui antes que isto acabe mal…
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Alte, esplanada da Fonte Grande, Verão de 1986

© Myriam Jubilot de Carvalho.

Conto também

partilhado pela página do FB, Confraria dos Poetas Algarvios.

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Myriam Jubilot de Carvalho

Post do dia 26 de Janeiro de 2015, pelas 15h 45m

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Enigmas do tempo

* Contos — Myriam de Carvalho @ 2:18 pm

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Enigmas do Tempo

é o título que Leila Andrade deu a estes meus dois contos que publicou na sua excelente revista literária, online, DIVERSOS AFINS:

Enigmas do tempo nos contos de Myriam Carvalho:

http://diversosafins.com.br/?p=9068

Home » 97ª Leva – 11/2014 » Dedos de Prosa II

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Saiu hoje, no página do FB, de Leila Andrade,

com ilustração da artista brasileira Cristina Arruda

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Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 9 de Dezembro de 2014, pelas 14h 18m

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Rêve d’amour, nas Flautas Mágicas dos Andes

* Contos — Myriam de Carvalho @ 10:02 am

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Quem não gosta de ouvir as flautas dos Andes? Quem não se sente condor, símbolo do poder dos povos nativos dos Andes contra o intruso invasor europeu?

Quem não sente a nostalgia de poder abrir as asas de par em par, e pairar, planando, imponente, senhor silencioso do ar azul, sobre as montanhas a 4000 metros de altitude?

Quem não se sente na pele do Outro, seu Semelhante, ao escutar as melodias veladas, subtis, das flautas andinas?

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Contam as lendas dos Andes a origem das flautas. Todos os povos que fizeram pastoreio tiveram flautas, certamente. Tenho a certeza que o inocente Daphnis colheu algumas canas e nelas soprou, com maior ou menor intensidade, esforçando-se por delas tirar harmonias com que seduzisse a atenção da pequena Cloé, enquanto ovelhas e cabras do seu rebanho tosavam nos áridos arbustos de alguma encosta da Ática, donde se avistasse, azul, o Mar Egeu…

Estou persuadida que em todas as culturas primitivas terão sido preparadas flautas – tipo de instrumento tão fácil de intuir a partir da oferta da Mãe Natureza em materiais que pudessem fazer vibrar a veia inventiva do Ser Humano!

Contam as lendas dos Andes a origem das flautas. Ora eu li, em tempos de juventude, que os povos ameríndios não tinham Música, nem Poesia…

Enfim, há décadas atrás, era nestes termos levianos que grosso modo eram apresentados aos estudantes os povos não-europeus, incutindo nas mentes em formação, informação inexacta, tendenciosamente grosseira, que desde cedo inoculasse o sentimento venenoso da superioridade dos povos europeus sobre os povos dos outros continentes, apenas porque dá trabalho o esforço de perceber, e admitir, ou aceitar, que é na diferença que reside a riqueza da Humanidade.

Contam as lendas dos povos dos Andes a origem das flautas. E quando pela primeira vez li esta lenda, perguntei-me a mim própria:

“Então, uma lenda como esta – não é isto Poesia? Porque é que dizem que os povos Americanos não tinham Poesia?”

…E fiquei alerta…

Só muito mais tarde pude perceber que faltava um pormenor à descrição: “…não têm Poesia num conceito de produção individualizada, à maneira europeia…”

Mas obviamente que têm Poesia.

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Contam as lendas dos Andes que havia, no tempo antigo, um casal de pastores, unido por um tal sentimento de Amor tão profundo, se é que se pode comparar, como as fundas ravinas entre as agrestes montanhas. Eram jovens, alegres, e enquanto as cabritas pastavam, o jovem enamorado colhia corolas com que fazia coroas à sua gentil esposa, ou deitavam-se ambos na sombra de alguma rocha, de algum arbusto, sobre as mantas coloridas, vendo o correr das nuvens brancas, brilhando ao sol…

E os dias passavam, serenos como o voar do condor.

Acontece que a jovem adoeceu. E não houve remédios capazes de a curarem, nem os mais sábios xamans conseguiram identificar o estranho mal que a enfraquecia, e minava… Inexplicavelmente, a jovem foi perdendo as forças, foi desistindo de se agarrar à vida, e acabou por falecer.

…Mas a vida era impossível sem aquela companheira! Sem a sua bela esposa, o pastor não podia sobreviver! Os dias, e as noites, a montanha, e o céu azul, o rebanho e as ravinas, e tudo era um desespero, um desespero mudo, um desespero sem expressão possível nem alívio, uma solidão insustentável, e o futuro apresentava-se como uma gruta profunda no íntimo das montanhas onde o sol não tinha entrada…

…Então, certa tarde, ao declinar do dia, quando as sombras se alongam e a solidão com elas cresce, o jovem  retirou uma tíbia ao corpo amado, e amorosamente, lavou-a na água fresca da ribeira que descia a encosta…

…Depois, sentou-se… Pacientemente, abriu no osso uns pequenos orifícios… E levou-o a aflorar-lhe os lábios, enquanto delicadamente obliterava ora um ora outro dos pequenos buraquinhos, impedindo a saída do ar ora por um, ora por outro… E não é que belos sons começaram a desprender-se-lhe daquele mágico instrumento?… Belos sons começaram a delinear-se na sua frente, e era a esposa amada que voltava à sua presença…

Em todas as épocas os poetas e os músicos, e todos os artistas,  se serviram das palavras, dos sons, das cores, para manterem a seu lado a presença perene e eterna da amada que o destino lhes arrebatara…

…Pelas encostas, pelas ravinas, pelas nuvens, pelo céu azul, a jovem pairava num voo planado, lado a lado com os condores, ou vinha em seguida repousar junto dele, calmamente, serenamente, muda para não interromper a doce melodia que se desprendia daquele instrumento em tão boa hora criado que a trazia a ela de novo à vida, e a ele restituía a doçura da sua companhia…

…E tudo o mais, à sua volta, tudo o mais para além deles, tudo o mais para além da melodia saída daquela flauta mágica, era um lugar vazio…

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…E se a celebração do Amor não é Poesia – o que o será então?…

Poesia, e Amor, são universais.

O resto, é que continua a haver quem estude Literatura, quer Oral e Tradicional, quer escrita ou dita erudita, numa postura formal, presa de preconceitos e sem sensibilidade poética nem artística, e pior ainda, sem aquele sentimento de Liberdade e Respeito que, penso eu, faz a única ponte possível entre as diferentes culturas!

…Mesmo o Amor cristão me deixa perplexa e de sobreaviso… O Cristianismo continua a sentir-se a si próprio como a única verdade possível, que olha caritativamente para o lado, lamentando quem ainda não teve a sorte da conversão…

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Bibliografia:

= Native American Songs and Poems; Edited by Brian Swann – Dover Publications, Inc.; Mineola, New York

= The Sky Clears, Poetry of the American Indians – by A. Grove Day; University of Nebraska Press. Lincoln

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Imagens:

http://1.bp.blogspot.com/_r74vxoo9V2U/TCS6vc7tmKI/AAAAAAAAA6k/                                                                                                                                                                                                            XuBr7tugIHs/s1600/condor_vuela.jpg

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http://4.bp.blogspot.com/-dgr7N1iFSfE/UXrfbsVD3uI/AAAAAAAABhs                                                                                                                                                                              /EDc9MkuUhE0/s1600/Cravos+vermelhos.jpg

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Publicado por Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 28 de Outubro de 2013, pelas 10h

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Love Story

* Contos — Myriam de Carvalho @ 9:35 pm

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Love Story

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Om. Por vezes, acontecem milagres. Hoje, aconteceu mais um. Acabo de salvar um pardalito.

Estava preso na lareira… Por isso que as lareiras são peças armadilhadas – as avezitas entram, descem, e ficam presas…

Ganhei o meu dia! Ele esvoaçava num canto, descontrolado, com risco de se magoar… Mas consegui segurá-lo nas minhas mãos, e senti o seu coraçãozinho a bater…

Dei-lhe beijinhos ao de leve, fiz-lhe festas na cabecita.

Levei-o até à janela: – Consegues voar?

E abri as mãos, suavemente…

Ele, ele virou para mim a cabecita, mirou-me, e esperou breves instantes…

Depois, num repentino movimento de hélice, bateu as asas e voou direito aos eucaliptos do outro lado da estrada.

Às vezes, dias que parecem nublados, têm momentos destes que me restituem à ternura da Vida

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Myriam Jubilot de Carvalho

Inédito

Imagem:

http://3.bp.blogspot.com/-djYwpcHXVU0/UHlUzmyZy2I/AAAAAAAADEY/GPI8xlOfXzc/s1600/pardais.jpg

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Publicado por Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 3 de Julho de 2013, pelas 22h 45m

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Oh, Mãe

* Contos — Myriam de Carvalho @ 5:13 am

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Poucos contos tenho publicado aqui…

Hoje, trago um, muito pequeno, que publiquei no suplemento literário do extinto jornal Correio Beirão.

E como é Verão, é este:

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Oh, Mãe

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No meio da confusão. Guarda-sóis, toalhas, a areia levantada pelo vento soprando ora de N, ora de W, picando-nos o corpo desprotegido e arrepiado. O menino. Dois anos, dois anos e meio, não mais. Um menino. Cabelo loiro, liso, um tanto grifo. Um pouco de celta, um pouco de viking. Tacteante, assustado. Embora os meus filhos sejam morenos e já crescidos, foi a eles que eu senti na ansiedade do garoto perdido e reacendeu-se-me aquela luz vermelha sempre latente no coração das mães.

O garoto veio acolher-se nos meus braços, e antes que eu percebesse como, agarrou-se-me ao pescoço, “Mamã, mamã”. Peguei-lhe ao colo calmamente, pedindo aos deuses que ele não se assustasse. Saí da linha limítrofe dos guarda-sóis, onde me encontrava, para o areal livre, de maneira que quem o procurasse, pudesse vê-lo sem dificuldade.

Para o distrair, fui improvisando uma conversa que me permitisse ajudá-lo.

– Esta não é a mamã. Onde está a mamã do menino?

– Mamã, mamã – repetia, agarrando-se-me com mais força ao pescoço.

– Reconheces-me, é? – gracejei. – De onde?

– Mamã!

– Ai é? Quando foi?

– …

– Foi há muito tempo, foi?…

– Foi, foi há muito tempo – disse-me nítida e claramente uma voz junto ao ouvido, para minha total surpresa.

Num ápice, intuí que exploraria a situação ao máximo, antes que chegasse alguém.

– Ainda te lembras. É? Como é que eu era?

– Bonita. Eras muito bonita – e a voz veio novamente nítida e clara junto ao meu ouvido.

– E amiga? Achas que eu fui amiga, boa para ti?

– …

– Já não te lembras? E tu, quem eras tu?

– Cítaras…

– Cítaras? Eu tocava cítara? Tocava bem, era? Ou eras tu quem tocava?…

– As liras, flautas… As serpen…

– Zezinho! – um grito aflito surpreendeu-me, assustou-me… O garoto olhou a mãe e virou para ela os bracinhos trémulos, inseguros. Mamã, Mamã!

– O menino agarrou-se a mim – expliquei –, parece que pressentiu que eu percebi que ele andava aflito…

– Eu, minha senhora, eu é que tenho andado aflita. Foi um quarto-de-hora que pareceu um século!

– Calculo… – e não consegui dizer mais nada.

A mulher ia a tirar-mo do colo. Mas num gesto repentino, ele agarrou-se-me com força e uma voz irrompeu na minha mente – o mêtér! (1)

A mãe tirou-mo, ternamente. Ele agarrou-se-lhe ao pescoço, com intensidade. E começou a choramingar.

Lá se foram afastando. Ele soluçando copiosamente e ela dando-lhe beijos e fazendo-lhe festas, a acalmá-lo “meu menino, meu menino”.

Enquanto eu por ali fiquei, petrificada, no meio daquela confusão toda de gente que vai ao banho, que joga à bola num campo de futebol improvisado ou num rugby trapalhão, no meio da confusão dos guarda-sóis, das toalhas que não deixam um canto livre onde assentar sequer a unha do dedo grande. No meio da areia levantada pelo vento. Picando-nos o corpo desprotegido. E arrepiado.

Refugiei o olhar na grande massa azul que me fascina e tranquiliza. O mar, com os seus ciclos de marés, réplica da eternidade. Como eu entendo o pescador de Loti, os viajantes pacientes e solitários. Como gostaria de ter a sua coragem e enfronhar-me numa jangada, mares fora, em busca da derradeira aventura.

*

As breves ondas da última fase da vazante deixam brincar os veraneantes, adultos ou crianças, numa mesma inocência. O grande mar, a sua força contida, esse seu tremendo desafio que passa despercebido na despreocupação do mês de Agosto. Percorro o horizonte e os olhos esbarram-me na faixa esbrazeante que reflecte o sol. A água e o fogo defrontando-se em poder, energia e beleza, cooperando uma e outro, em geral, competindo, por vezes, sem se darem tréguas. Quero contemplar, absorver, sorver, a faixa brilhante mas os meus olhos não o suportam, e tenho que os desviar.

O que foi que aconteceu? Havia um menino, perdido, na praia? Havia, sim. Havia. E eu? Eu, ajudei-o a encontrar a mãe. Foi isso. As coisas acontecem tal como a gente as narra, ou a gente narra-as tal como as imagina, ou como desejaria que acontecessem? O menino falou-me tal como a minha memória fixou, ou fui eu que delirei enquanto o distraía para ele não chorar? Ou então, ou então, foi aquela zona inexplorada da consciência que por momentos se reacendeu, aquela zona onde palavras ecoam dentro de nós, essa zona indefinida lá muito dentro do ouvido interno, ou do coração…

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Costa de Caparica, 30 de Agosto de 1993

(1) – Grego, mãe

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 Suplemento NAVE, Nº 28, de 31 de Julho de 1994

Assinado Fátima Oliveira

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Imagem:

http://2.bp.blogspot.com/-fnY_SZZqn74/Tj7E0JnsYKI/AAAAAAAABlM/1TggI_hpKZw/s1600/caparica.jpg.

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Publicado por Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 2 de Julho de 2012, pelas 6h 20m

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