Mais um poema de Rumi

* Antologia — Myriam de Carvalho @ 10:07 am

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RUMI, poeta persa do séc XIII, grande mestre espiritual., exprimiu-se através da Poesia. E os seus poemas não têm idade

Poema de Rumi (1207-1273)

    “Aquele que quer contemplar a glória de Deus 

contempla uma rosa vermelha; 

e da mesma forma que a realidade última 

pode ser percebida na contemplação imóvel 

duma rosa vermelha, 

assim também quando uma flor delicada encanta o coração, 

sentimo-nos de novo por um instante 

como uma planta. 

O místico vê Deus no jardim, 

e vê-se a si próprio na erva.”

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Publicado por Myriam Jubilot de Carvalho, em 17 de Setembro de 2019, pelas 11h 06m

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O País dos Brandos Costumes

* Antologia — Myriam de Carvalho @ 2:37 pm

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Ora aqui está muito bem explicado:

Excerto da entrevista de Joana Amaral Dias à revista Máxima, em 23.08.2019

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Portugal dos brandos costumes foi um mito criado por Salazar e a sua ditadura que queriam que o povo fosse subserviente e obediente.

Se os portugueses tivessem a crença de que, no coração da sua identidade, estavam os brandos costumes, se interiorizassem essa autoimagem de dóceis e pacíficos, a probabilidade de se comportarem como rebanho servil seria maior.

Todas as ditaduras apostaram na reescrita da História, na releitura do calendário, ao fim e ao cabo na reinvenção do espaço e do tempo.

O Estado Novo salazarento não foi exceção.

Contudo, os tempos da Inquisição e a época dos linchamentos na rua de pessoas suspeitas de “jacobinismo” foram sinistros.

Depois, só nos séculos XIX e XX contam-se por milhares os mortos em guerras civis e revoluções. Desde o regicídio de 1908, passando a guerra civil de 1919, até às vésperas do regime ditatorial amordaçar o país, o país esvaiu-se em sangue.”

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Publicado por Myriam Jubilot de Carvalho ( 24 de Agosto de 2019)

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I am not your negro – no Canal 2

* Antologia,* Notas Breves — Myriam de Carvalho @ 12:41 am

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O grande, notável, James Baldwin acaba de passar no Canal 2, nesta noite de Domingo.
“I am not your negro” é um estudo-documentário impressionante de lucidez.

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I am not your negro termina com estas palavras que, de certo modo, podem muito bem ajustar-se ao “País dos Brandos Costumes” que ainda se encontra em psicose de negação:
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“Vocês não podem linchar-me e manter-me em guetos sem se tornarem vós mesmos qualquer coisa de monstruoso. Além disso, oferecem-me uma vantagem aterradora. Vocês nunca tiveram que olhar para mim. Eu tive que olhar para vós. Sei mais sobre vocês do que vocês sabem sobre mim.

Nem tudo o que pode ser encarado, pode ser alterado. Mas nada pode ser alterado, sem ter sido encarado.

A História não é o passado. É o presente. Transportamos a nossa História connosco. Se fingirmos o contrário, somos literalmente criminosos.

Eu testemunho isto: O mundo não é branco. Branco é uma metáfora para o poder.”

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“I Am Not Your Negro: Race, Identity, and Baldwin” with Raoul Peck, Academy award-nominated director of the documentary “I Am Not Your Negro”. Based on James Baldwin’s unfinished manuscript. October 18, 2017.

Com a devida vénia,

publicado por

Myriam Jubilot de Carvalho

Segunda -feira, 19 de Agosto de 2’19, cerca de 1h 40m

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[Nunca madre a filha bon conselho deu] – Cantiga d’Amigo

* Antologia — Myriam de Carvalho @ 1:15 pm

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Poemas sem idade
Que dizer desta CANTIGA D’AMIGO?
Que dizer da raiva bem evidente com que a jovem se queixa da mãe?
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[Nunca madre a filha bom conselho deu]
de
FERNAN Rodriguez de Calheiros – 6
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Estava meu amig’ atenden<d>’ e chegou
mha madr’ e fez m’ end’ ir tal que me pesou;
alá me tornarei
e i lo atenderei
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Nunca madr<e> a filha bon conselho deu
nen a min fez a minha, mais que farei eu?
alá me tornarei
<e i lo atenderei>
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Pesar lh’ ia a mha madre quen quer que lh’ assi
fezesse, mais direi vos que farei eu i:
alá me tornarei
<e i lo atenderei
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in:
“500 Cantigas d’Amigo”
Edição Crítica de Rip Cohen
Obras Clássicas da Literatura Portuguesa – Literatura Medieval
Coordenação editorial da colecção:
Instituto Português do Livro e das Bibliotecas
Campo das Letras, 1ª edição, Maio de 2003
página 116
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Publicado por

Myriam Jubilot de Carvalho

28 de Julho de 2019, pelas 14h 15

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Um poema sem idade

* Antologia — Myriam de Carvalho @ 8:42 pm

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Há poemas que são eternos.

Poemas a que recorremos quando o nosso coração precisa de conforto, poemas a que recorremos como quem abre uma janela ao esplendor do sol nascente.

O poema que aqui fica hoje, é um desses poemas eternos.

ARQUÍLOCO de PÁROS, o seu autor, veio ter ao meu conhecimento no primeiro ano da Faculdade, nas aulas de História da Cultura Clássica, do saudoso Professor Padre Manuel Antunes.
Na impossibilidade de encontrar agora a tradução do poema que se segue, que ele nos deu nas suas aulas, aqui fica esta outra:
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ARQUÍLOCO de PÁROS – séc VII aC
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O RITMO DA VIDA
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Coração, meu coração, que afligem penas sem remédio,
eia! Afasta os inimigos, opondo-lhes um peito
adverso. Mantém-te firme ao pé das ciladas
dos contrários. Se venceres, não exultes abertamente.
Vencido, não te deites em casa a gemer.
Mas goza as alegrias, dói-te com as desgraças,
sem exagero. Aprende a conhecer o ritmo que governa os homens.
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in ROSA DO MUNDO, tradução de Maria Helena da Rocha Pereira, Asssírio, 2001
pág. 419.
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Publicado aqui e igualmente no FB

por Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 26 de Julho de 2019, pelas 21h 41m

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Le Clézio, na TV5 Monde, falando sobre Cultura

* Antologia — Myriam de Carvalho @ 3:02 pm

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Le Clézio, Nobel da Literatura em 2008, sobre Cultura, afirma:

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«  Il faut métisser la Culture; c’est la seule manière de la rendre universelle.

Dans ce monde égoïste  et cupide, tout s’exporte. Sauf l’humanisme. »

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Jean-Marie Gustave Le Clézio

Na sua participação no programa La Librairie Francophone, da TV5 Monde, no passado dia 7 de Julho de 2019.

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Publicado por

Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 16 de Julho de 2019, pelas 16h

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A árvore, segundo Susanna Tamaro

* Antologia — Myriam de Carvalho @ 11:19 pm

 

A árvore

… “Desde que desponta até que morre, está sempre parada no mesmo sítio. As raízes fazem-na estar mais perto do coração da terra do que qualquer outra coisa, a copa fá-la estar mais perto do céu. A linfa corre no seu interior de cima para baixo, de baixo para cima. Expande-se e retrai-se em função da luz do dia. Espera pela chuva, espera pelo sol, espera por uma estação e depois por outra, espera pela morte. Nenhuma das coisas que lhe permitem viver depende da sua vontade. Existe e mais nada. Compreendes agora porque é belo acariciá-las? Pela sua solidez, pela sua respiração tão longa, tão tranquila, tão profunda. Algures na Bíblia está escrito que Deus tem as narinas largas. Embora seja um tanto irreverente, sempre que tentei imaginar uma parecença para o Ser Divino veio-me à ideia a forma de um carvalho.

Na casa da minha infância havia um, tão grande que eram precisas duas pessoas para lhe abraçar o tronco. Aos quatro ou cinco anos, já gostava muito de ir ter com ele. E lá ficava, sentia a humidade da erva debaixo do traseiro, o vento fresco nos cabelos e na cara. Respirava e sabia que havia uma ordem superior das coisas e que eu estava incluída nessa ordem juntamente com tudo aquilo que via. Embora não soubesse música, algo cantava dentro de mim.”

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in Vai até onde te leva o coração

de Susanna Tamaro

Editorial Presença

11ª edição, Lisboa, Novembro 1998;

pág 41

Publicado por Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 25 de Junho, pelas 00h 18m

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A notável intervenção da socióloga Luzia Moniz na Assembleia da República

* Antologia — Myriam de Carvalho @ 3:53 pm

A notável intervenção da socióloga Luzia Moniz, na Assembleia da República, vem publicada no jornalO Autarca:

Editorial do jornal “O Autarca”:

Primeiro jornal electrónico editado na cidade da Beira – Ano XIX – Nº 3634 – Quarta-feira – 06 de Fevereiro de 2019 – página 08/09.

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Luzia Moniz é líder associativa africana, em Portugal, onde reside há décadas. Natural de Angola, foi jornalista em Maputo, Moçambique, na década de 1980. Formada em Sociologia. Tem participado em Conferências sobre os Direitos Humanos pela Europa.

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CPLP ESCOLHE ESCRAVOCRATA – RACISTA PARA PATRONO DE PROJECTO JUVENIL

por Luzia Moniz

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[Fernando Pessoa ] Aos 28 anos escreveu: “A escravatura é lógica e legítima; um zulu (negro da África do Sul) ou um landim (moçambicano) não representa coisa alguma de útil neste mundo. Civilizá-lo, quer religiosamente, quer de outra forma qualquer, é querer-lhe dar aquilo que ele não pode ter. O legítimo é obriga-lo, visto que não é gente, a servir aos fins da civilização. Escravizá-lo é que é lógico. O degenerado conceito igualitário, com que o cristianismo envenenou os nossos conceitos sociais, prejudicou, porém, esta lógica atitude.”

Em 1917, aos 29 anos, continua: “A escravatura é a lei da vida, e não há outra lei, porque esta tem que cumprir-se, sem revolta possível. Uns nascem escravos, e a outros a escravidão é dada.”

Aos 40 anos consolida a sua ideologia racista, escrevendo: “Ninguém ainda provou que a abolição da escravatura fosse um bem social”. E ainda: “Quem nos diz que a escravatura não seja uma lei natural da vida das sociedades sãs?”

Fernando pessoa, dono desse ignóbil pensamento, é a figura escolhida pela CPLP para patrono de um projecto de intercâmbio universitário no Espaço de Língua Portuguesa.

Essa iniciativa, cópia do programa europeu Erasmus, visa a educação, formação e mobilidade de jovens do espaço de língua portuguesa, oferecendo-lhes oportunidades de estudo, aquisição de experiência e voluntariado por um período curto num dos países da CPLP à sua escolha.

Que Portugal, país onde a mentalidade esclavagista fascista ainda é dominante, tenha escolhido promover, branquear essa figura sinistra não me espanta.

Agora, o que verdadeiramente me deixa perplexa é a aceitação pelos países africanos, as vítimas da escravatura.

Se foi para isso que Portugal fez a guerra para assumir o secretariado exclusivo da CPLP, tudo indica que a coisa começa mal.

Denunciei isso mesmo, esta quarta-feira na Assembleia da república de Portugal, durante a cerimónia de abertura do ano da CPLP para a Juventude, onde estavam deputados portugueses, governantes dos estado da CPLP, jovens, activistas, intelectuais e académicos afrodescendentes, brasileiros, portugueses e africanos.

Não sei se Pessoa é ou não bom poeta. Isso pouco interessa para o caso. A minha inquietação é o uso da CPLP para branquear o pensamento de um acérrimo defensor do mais hediondo crime contra a Humanidade: a escravatura.

Atribuir o seu nome a um projecto que envolve jovens, descendentes dos escravizados, configura um insulto fascista.

Na AR alguém, para tentar justificar o injustificável, alegou que as convicções esclavagistas fascistas de Pessoa reflectem o pensamento da Época, ignorando que, por exemplo, Eça de Queirós, contemporâneo de Pessoa, era contra a Escravatura e que quando pessoa escreve tais alarvidades já a escravatura tinha sido abolida oficialmente. Outros diziam que precisamos de olhar para o futuro, esquecendo o passado. Como se Pessoa fosse futuro. Como construir um futuro salutar sem olhar para os erros do passado?

E se nos cingirmos apenas ao “pensamento de Época” qualquer dia, temos o nome de outro colonialista-fascista António de oliveira Salazar atribuído ao Conselho de Finanças da CPLP, com o argumento de que “tinha as contas em ordem” e de que foi “fascista à Época”.

Se se pretende criar uma comunidade envolvendo as populações e não se limitando aos políticos, mais ou menos distraídos, é imperativo que o nome de Fernando Pessoa não figure em projectos comuns. Em sua substituição sugeri Mário Pinto de Andrade, académico, um dos mais brilhantes intelectuais do espaço de língua portuguesa. Angolano que iniciou o seu percurso académico em Angola, passando por Portugal antes de ser ministro da Informação e Cultura na Guiné Bissau, que teve passaporte cabo-verdiano e deu aulas em Moçambique.

Dos países africanos membros espera-se que revertam essa situação, opondo-se ao nome de Fernando Pessoa, mesmo que com esse digno gesto se crie um novo irritante. Os irmãos de Cabo Verde, que neste momento presidem a CPLP, têm uma responsabilidade acrescida nesta questão.

Se Portugal olha para a CPLP como um instrumento de dominação dos outros, cabe-nos a nós, africanos, impedir que isso aconteça.

Da minha parte, estou aqui, em nome dos meus antepassados e protegendo o futuro dos meus descendentes. Luzia Moniz

(Quarta-feira, 30 de Janeiro de 2019; Lisboa, Assembleia da República Portuguesa, sessão da manhã).

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Publicado por

Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 11 de Fevereiro de 2019

pelas 16 horas

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Miguel Torga, o Solstício de Inverno, e o Natal

* Antologia — Myriam de Carvalho @ 12:48 am

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Este poema de Miguel Torga – um belo poema, como todos os poemas deste Poeta que tanto admiro.

Um poema que celebra o Solstício de Inverno, que o Cristianismo converteu em celebração do nascimento de Jesus Cristo.

Por mim, sou fiel à celebração pagã, mais autêntica, fiel aos ciclos, ou ritmos, da Natureza.

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Solstício de Inverno

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Aqui estou de novo a festejá-lo

À fogueira dos meus antepassados

Das cavernas.

Neva-me na lembrança.

E sonho a primavera

Florida nos sentidos.

Consciente da fera

Que esses tempos idos

Também era.

Imagino um segundo nascimento

Sobrenatural

Da minha humanidade.

Na humildade

Dum presépio ideal,

Emblematizo essa virtualidade.

E chamo-lhe Natal.

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Só não sei a que obra pertence… Procuro na NET, mas embora o encontre reproduzido em diferentes páginas, em nenhuma o vi identificado…

Programa de Luís Caetano, na noite de 26 de Dezembro de 2018, na Antena 2

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Publicado por Myriam Jubilot de Carvalho

Noite de de 26 para 27 de Dezembro de 2018, pelas 00h 47m

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Tarde de vento

* Antologia,* Poesia — Myriam de Carvalho @ 2:04 pm

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Tarde de vento

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É o vento da nossa estação.

Ladeira abaixo, assobia, espalha brasas, pingos de chuva, pólenes tresmalhados, pétalas que voam.

É um vento hostil. Eu sei. Sei muito bem. Afia as unhas na carpete como um gato selvagem nas folhas caídas, nas cascas desgastadas dos troncos mortos da floresta húmida.

É um som surdo. Como o das unhas dos gatos nos sofás de veludo de seda, nas pernas das cadeiras de pau-rosa, nos pés das mesas de laca da China, nas minhas mãos de âmbar dos Bálticos.

Se eu soubesse donde vem o vento…

Só sei que é o vento do entardecer. Levanta as ondas, as areias da praia, as unhas dos peixes, as garras dos tanques sobre as casas de adobe dos montes sagrados… Sobre as pedras do deserto… Se eu percebesse donde vem este vento…

Mas há um outro! Um vento sem idade. Todo ele a imaginação, a liberdade, a capacidade de sonhar e dar as mãos. Um vento-brisa, vento-aragem, vento-leve, a crescer em espiral, a direito, para o alto. Vento mágico, sim, um ventinho-brisa-aragem que me toma a alma e leva por aí, turista espacial a ver tão de cima, tão do alto, que o mundo é mesmo uma bola azul, azul e púrpura, madre pérola, e jade… Quer dizer, o nosso mundo é um milagre.

…Há, de facto, vários ventos… Porque lá vem esse que arrasa as casas do deserto.

Quem pode ficar indiferente às casas desventradas, um pé aqui, uma cabeça decepada, os mortos enterrados à pressa no jardim público? É este o vento que me faz asma, bloqueia o coração num aperto sem palavras e afunda crateras à minha volta…

Se eu pudesse mandar nesses ventos de morte, mandava-os ir buscar o arco-íris. Mandava-os repetir, repetir mesmo, palavra-por-palavra, letra-a-letra – “O arco-íris é o símbolo da aliança entre Deus e os homens e as mulheres e as crianças, os jovens e os idosos”. Mas olho para as nossas mãos de granito – pouco importa –, e já lá não está, já se perdeu essa aliança de ouro…

Há um vento terrível. Sem tempo, senhor dos exércitos, também dos predadores…

… Mas ainda há jardins. Jardins de rosas. Rosas-mãos de todas as cores. Basta erguê-las no ar, e aí está o seu perfume.

“Nós somos rubis

no meio do granito,

definhamos nesta prisão de poeira.

Por que não nos tornarmos frescos

da gentileza da primavera do coração?

Por que não espalhar

perfume

como uma rosa?”

Poema atribuído a Rumi.

© Myriam Jubilot de Carvalho,

5 de Maio de 2002

Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 4 de Dezembro de 2018, pelas 14h 10m

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