Doce Caparica

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 10:43 am

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Mais um poema dos meus arquivos.

Doce Caparica 

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Não se faz ouvir a cava rouquidão das ondas

A maré está calma e o mar azul claro

está chão, apenas afagado pelo vento.

Não há céu.

Apenas o brilho esbranquiçado

da neblina. E a linha do horizonte é uma estreita faixa 

fosforescente donde

se destaca o vulto impreciso dos petroleiros

.

Estou como sempre 

nesta larga esplanada 

separada da praia

pelo paredão.

.

Metade da cidade 

vem para aqui 

gozar-se deste perverso

sol de inverno

que não deixa chover

.

Jovens e velhos. Famílias inteiras. Crianças que correm 

desforrando-se

da prisão dos infantários,

guinchando de alegria.

Cães puxam os donos 

pela trela.

Desportistas e

aleijados.

.

E cada vez é mais avantajado

o punhado de mulheres sós

onde me incluo.

.

Jovens trazem os livros de estudo

e resolvem os TPCs.

As velhotas trazem

as revistas do coração

e os homens,

os semanários.

.

…Mas com livros pesados, talvez romances, e folhas A4 –

só me verás a mim…

.

O sol desce.

É um sol de ficção.

Um sol de Fim dos Tempos…

Apenas uma auréola coada 

pela estufa…

…Mas como diria o Poeta, 

continua a espelhar-se na superfície 

azul mate ondulada pela brisa…

.

E chega a apoteose do meu dia solitário!

…O céu tinge-se de vermelho!

…E eu pago a despesa e

vou andando pois 

a noite é falsa e

não tenho companheiro nem

cão de guarda

.

© Myriam Jubilot de Carvalho

No antigo Café do Mar – Costa, 29 de Janeiro de 2005

Publicado por Myriam Jubilot de Carvalho, em 4 de Setembro de 2019

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