Vento

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 10:38 pm

 Mais um poema acabado de sair – não da forja – mas da arca das coisas que ficaram para trás…

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Vento

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Somente um grande amor poderia trazer-me

até aqui.

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Está vento, um vento frio, cortante,

um vento que nos trespassa como rajadas de balas,

que nos arrasta como folhas de outono,

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Um vento secreto, húmido e pegajoso,

um vento poderoso, orgulhoso,

tumultuoso

como as ondas – que acima da praia as levanta

e faz estrondosamente rebentar,

.

Um vento oculto, motor acelerado

como o galope de um coração atormentado

pela alta voltagem dos cabos de distribuição

saídos da central,

.

Um vento animal. Obscuro, como a força

com que o infante se torna adulto,

com que a leoa surpreende a presa

ou a cheetaha persegue ou a hiena

se precipita sobre a carcaça já explorada,

ou a gazela pasta sob os espinheiros das acácias

descansando à espera das horas refrescantes do entardecer.

.

Um vento trivial. Como as conversas que

emergem do ruído de fundo

na esplanada onde me encontro sobre a marginal.

.

Somente a ventania poderia trazer-me

aqui,

até ti

© Myriam Jubilot de Carvalho

27 de Março de 2004

Publicado por

Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 20 de Agosto de 2019, pelas 23h 37m

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