O País dos Brandos Costumes

* Antologia — Myriam de Carvalho @ 2:37 pm

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Ora aqui está muito bem explicado:

Excerto da entrevista de Joana Amaral Dias à revista Máxima, em 23.08.2019

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Portugal dos brandos costumes foi um mito criado por Salazar e a sua ditadura que queriam que o povo fosse subserviente e obediente.

Se os portugueses tivessem a crença de que, no coração da sua identidade, estavam os brandos costumes, se interiorizassem essa autoimagem de dóceis e pacíficos, a probabilidade de se comportarem como rebanho servil seria maior.

Todas as ditaduras apostaram na reescrita da História, na releitura do calendário, ao fim e ao cabo na reinvenção do espaço e do tempo.

O Estado Novo salazarento não foi exceção.

Contudo, os tempos da Inquisição e a época dos linchamentos na rua de pessoas suspeitas de “jacobinismo” foram sinistros.

Depois, só nos séculos XIX e XX contam-se por milhares os mortos em guerras civis e revoluções. Desde o regicídio de 1908, passando a guerra civil de 1919, até às vésperas do regime ditatorial amordaçar o país, o país esvaiu-se em sangue.”

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Publicado por Myriam Jubilot de Carvalho ( 24 de Agosto de 2019)

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Vento

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 10:38 pm

 Mais um poema acabado de sair – não da forja – mas da arca das coisas que ficaram para trás…

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Vento

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Somente um grande amor poderia trazer-me

até aqui.

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Está vento, um vento frio, cortante,

um vento que nos trespassa como rajadas de balas,

que nos arrasta como folhas de outono,

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Um vento secreto, húmido e pegajoso,

um vento poderoso, orgulhoso,

tumultuoso

como as ondas – que acima da praia as levanta

e faz estrondosamente rebentar,

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Um vento oculto, motor acelerado

como o galope de um coração atormentado

pela alta voltagem dos cabos de distribuição

saídos da central,

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Um vento animal. Obscuro, como a força

com que o infante se torna adulto,

com que a leoa surpreende a presa

ou a cheetaha persegue ou a hiena

se precipita sobre a carcaça já explorada,

ou a gazela pasta sob os espinheiros das acácias

descansando à espera das horas refrescantes do entardecer.

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Um vento trivial. Como as conversas que

emergem do ruído de fundo

na esplanada onde me encontro sobre a marginal.

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Somente a ventania poderia trazer-me

aqui,

até ti

© Myriam Jubilot de Carvalho

27 de Março de 2004

Publicado por

Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 20 de Agosto de 2019, pelas 23h 37m

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I am not your negro – no Canal 2

* Antologia,* Notas Breves — Myriam de Carvalho @ 12:41 am

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O grande, notável, James Baldwin acaba de passar no Canal 2, nesta noite de Domingo.
“I am not your negro” é um estudo-documentário impressionante de lucidez.

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I am not your negro termina com estas palavras que, de certo modo, podem muito bem ajustar-se ao “País dos Brandos Costumes” que ainda se encontra em psicose de negação:
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“Vocês não podem linchar-me e manter-me em guetos sem se tornarem vós mesmos qualquer coisa de monstruoso. Além disso, oferecem-me uma vantagem aterradora. Vocês nunca tiveram que olhar para mim. Eu tive que olhar para vós. Sei mais sobre vocês do que vocês sabem sobre mim.

Nem tudo o que pode ser encarado, pode ser alterado. Mas nada pode ser alterado, sem ter sido encarado.

A História não é o passado. É o presente. Transportamos a nossa História connosco. Se fingirmos o contrário, somos literalmente criminosos.

Eu testemunho isto: O mundo não é branco. Branco é uma metáfora para o poder.”

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“I Am Not Your Negro: Race, Identity, and Baldwin” with Raoul Peck, Academy award-nominated director of the documentary “I Am Not Your Negro”. Based on James Baldwin’s unfinished manuscript. October 18, 2017.

Com a devida vénia,

publicado por

Myriam Jubilot de Carvalho

Segunda -feira, 19 de Agosto de 2’19, cerca de 1h 40m

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Histórias

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 12:20 pm

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Histórias

‘Omnia mea mecum port’o (Tudo o que tenho, trago comigo)

atribuído por Cícero, a Bias de Priene,

um dos Sete Sábios da Grécia

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Todos temos a mesma história

Nascemos, crescemos…

Sucessos, revezes, glórias

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Só que a contamos com

diferentes variantes, zique-zagues,

Esquecendo que somos todos

navegantes

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E se um dia a história há-de acabar

Oh, acabe com esta lufada de ar!

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Um garoto vai para a escola, e vai

arranhando a aspereza da parede

com a unha

como quem não quer ir e sabe

que não pode desistir…

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Quantas vezes na minha infância

fui para a escola arranhando a parede

Parecia-me que não ia aprender nada…

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E de facto, a única coisa que aprendi na vida –

foi isto…

…não foi na escola…

…nasceu comigo…

© Myriam Jubilot de Carvalho

2 de Agosto de 2019 

Publicado por

Myriam Jubilot de Carvalho

Igualmente no FB e no site brasileiro Recanto das Letras

Dia 5 de Agosto de 2019, pelas 13h 18m

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