Machado de Assis e a sua obra “Dom Casmurro”

* Estudos e Comunicações — Myriam de Carvalho @ 5:51 pm

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Como verifiquei, com a prática, que postar aqui a página autêntica do jornal O AUTARCA, acaba por não resultar, pois a imagem acabará por desaparecer, reproduzo apenas o texto do artigo que publiquei no mesmo jornal, de que sou colaboradora regular, como já várias vezes aqui indiquei.

A página tem layout, como de costume, do Artista, meu amigo, Mphumo João Kraveirinya:

O AUTARCA . Primeiro jornal electrónico editado na cidade da Beira

Ano XIX – Nº 3723 – Quarta-feira, 17 de Julho de 2019

páginas 6/9 até 9/9

sendo a última destas páginas, preenchida com a reprodução da capa da primeira edição brasileira, e a capa do livro que li, em edição da Universitária Editora, Lisboa, 1997.

Sendo um artigo para um jornal diário, o texto é muito sucinto.

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Machado de Assis

Machado de Assis (1839-1908) é considerado um dos grandes escritores do Brasil, senão o maior.

Foi ele o iniciador da corrente realista no Brasil. Assim, sendo um autor realista – através das suas personagens, ele retrata a sociedade tal como ele a vê. Mas escreve num estilo muito próprio, ironizando e por vezes mesmo, ridicularizando, as hipocrisias e misérias humanas que vai fazendo desfilar perante os seus leitores.

Dom Casmurro, o romance

Em “Dom Casmurro”, Machado de Assis conta a vida de Bentinho. A história é contada pelo próprio protagonista.

As narrativas na primeira pessoa são, como se sabe, muito mais sugestivas. Dom Casmurro é a alcunha que as pessoas dão a Bentinho, mais tarde, quando, já adulto marcado pela grande desilusão que atingiu a sua vida, ele se torna um homem calado e taciturno.

A época em que decorre a “acção” em DOM CASMURRO:

A “acção” passa-se  no decurso do século XIX, no Brasil.

 O início da “acção” reporta-se a 1857. É o tempo do Romantismo.

Vive-se sob o prestígio da Igreja católica e sua influência sobre a educação feminina; o tempo da autoridade dos progenitores, e de um currículo escolar específico para as meninas.  Ainda tem grande peso a cultura clássica greco-latina. Reina o imperador D. Pedro II. É o Ciclo do Café, já se notando a presença italiana. Ainda se morre de lepra (o que ainda hoje, na nossa actualidade, se verifica). É o tempo de Pio IX; da Guerra da Crimeia.  E também de  disputas entre a Europa e os EEUU sobre a posse de algumas ilhas.  

A Escravatura

A Escravatura vigorou no Brasil logo a partir do século XVI. Foi a mão de obra por excelência do Ciclo do Açúcar. Só terminaria após a Lei do Ventre Livre, datada de 1871; e definitivamente, após a Lei Áurea, de 1888.

Por seu lado, a presença italiana está relacionada com o Ciclo do Café. Conheceu o seu ponto máximo entre 1880 e 1930, coincidindo esta última data com o final deste ciclo.

Na sociedade portuguesa, os escravos foram, como diz José Ramos Tinhorão, “uma presença silenciosa”. Em “Dom Casmurro”, Machado de Assis ilustra bem essa afirmação: o Autor regista a existência dos escravos. Refere a sua condição, sem tecer comentários. Aliás, quaisquer comentários seriam dispensáveis.

Logo no início da obra, ao apresentar D. Glória, o Autor faz-nos encarar a realidade de uma senhora muito religiosa mas que não se perturba com a crueldade que é vender pessoas (escravos) ou alugá-las, pondo-as “a ganho”.

Por outro lado, logo no início desta obra, no capítulo 9º, capítulo muito importante, o Autor compara a vida a uma ópera. Deus é o autor do libreto, mas o Inferno é o autor da partitura. E portanto, “assim se explicam a guilhotina e a escravidão”. Com este capítulo magistral, Machado de Assis diz tudo.

Como é retratada a “presença silenciosa” dos escravos

A- Muitos escravos vivem com a família. Comportam-se com conformismo e há momentos em que demonstram respeitosa ternura ou familiaridade para com Bentinho, o protagonista-narrador.

Mas em geral, são “o pau mandado” a que se manda executar alguma tarefa.

Capítulos: cap. XX (pág 46), cap XXXIX (pág 74), cap LIII (pág 90), cap LXXI (pág 116), cap LXXXVI (pág133), cap XC (pág 149), cap CXXI (pág 176).

B- Os nomes dos escravos são-lhes atribuídos pelos senhores, e substituem os seus nomes originais. Por vezes, os nomes indicam a sua origem geográfica:

cap XCIII (página 140).

C- Outros, são “escravos de ganho”: cap VII (p. 25), cap XCIII (p.140).

Nos capítulos VII (p. 25), e XCIII (pp. 140/141) fica claro que ter “escravos de ganho” era equivalente a ter uma pequena empresa.

D- Aparece ainda um ex-escravo, que vende na rua. cap CX (p. 162).

E- Finalmente, no capítulo CXLV (p. 198) o Autor já não fala em “escravo”, mas sim em “criado”. O que situa o fim do romance após a abolição da Escravatura.

A Mulher

A figura feminina é moldada pelo ideal Romântico:

A Mulher é representada segundo dois extremos: D. Glória, mãe de Bentinho (o protagonista), profundamente religiosa; e Capitú, uma jovem “laica”.

A Mulher ideal toca piano, é sempre alegre e dinâmica, dirige a criadagem, sabe dar um conselho e aclarar as hesitações profissionais ou de negócios do marido. A Mulher deve pois, ser delicada, pura, e dedicadíssima.

Enfim, é o tempo em que se idealizava a mulher dentro do paradoxo da “virgem e mãe”, ignorante em formação escolar geral, mas religiosa até à superstição.

O que a torna egoísta, possessiva, narcísica, manipuladora.

Assim, educado com medo da mãe, Bentinho (mais tarde o Dr. Bento) fica um homem frágil, que se coloca sucessiva e acriticamente, sob a protecção de José Dias, de Capitú e, finalmente, do amigo Escobar. Por isso, é manipulado e, provavelmente, traído.

A terminar

Neste excerto do capítulo IX, “A Ópera”, o Autor  compara a vida das sociedades humanas ao libreto de uma ópera. Conforme referimos atrás, esta ópera seria escrita por Deus e musicada por Lúcifer.

Este capítulo é uma brevíssima obra-prima. Nele, vemos a ironia e crítica social de Machado de Assis no seu tom mais amargo:

(p. 27):

“Deus é o poeta. A música é de Satanás (…)

“Satanás suplicou ainda, sem melhor fortuna, até que Deus, cansado e cheio de misericórdia, consentiu em que a ópera fosse executada, mas fora do céu. Criou um teatro especial, este planeta, e inventou uma companhia inteira, com todas as partes, primárias e comprimárias, coros e bailarinos.

– Ouvi agora alguns ensaios!

– Não, não quero saber de ensaios. Basta-me haver composto o libreto; estou pronto a dividir contigo os direitos de autor.

Foi talvez um mal esta recusa; dela resultaram alguns desconcertos que a audiência prévia e a colaboração amiga teriam evitado. Com efeito, há lugares em que o verso vai para a direita e a música para a esquerda. Não falta quem diga que nisso mesmo está a beleza da composição, fugindo à monotonia, e assim explicam o terceto do Éden, a ária de Abel, os coros da guilhotina e da escravidão.” (…)

© Myriam Jubilot de Carvalho – Julho, 2019

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Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 18 de Julho de 2019,  pelas 18h 50m

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