[Nunca madre a filha bon conselho deu] – Cantiga d’Amigo

* Antologia — Myriam de Carvalho @ 1:15 pm

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Poemas sem idade
Que dizer desta CANTIGA D’AMIGO?
Que dizer da raiva bem evidente com que a jovem se queixa da mãe?
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[Nunca madre a filha bom conselho deu]
de
FERNAN Rodriguez de Calheiros – 6
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Estava meu amig’ atenden<d>’ e chegou
mha madr’ e fez m’ end’ ir tal que me pesou;
alá me tornarei
e i lo atenderei
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Nunca madr<e> a filha bon conselho deu
nen a min fez a minha, mais que farei eu?
alá me tornarei
<e i lo atenderei>
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Pesar lh’ ia a mha madre quen quer que lh’ assi
fezesse, mais direi vos que farei eu i:
alá me tornarei
<e i lo atenderei
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in:
“500 Cantigas d’Amigo”
Edição Crítica de Rip Cohen
Obras Clássicas da Literatura Portuguesa – Literatura Medieval
Coordenação editorial da colecção:
Instituto Português do Livro e das Bibliotecas
Campo das Letras, 1ª edição, Maio de 2003
página 116
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Publicado por

Myriam Jubilot de Carvalho

28 de Julho de 2019, pelas 14h 15

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Um poema sem idade

* Antologia — Myriam de Carvalho @ 8:42 pm

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Há poemas que são eternos.

Poemas a que recorremos quando o nosso coração precisa de conforto, poemas a que recorremos como quem abre uma janela ao esplendor do sol nascente.

O poema que aqui fica hoje, é um desses poemas eternos.

ARQUÍLOCO de PÁROS, o seu autor, veio ter ao meu conhecimento no primeiro ano da Faculdade, nas aulas de História da Cultura Clássica, do saudoso Professor Padre Manuel Antunes.
Na impossibilidade de encontrar agora a tradução do poema que se segue, que ele nos deu nas suas aulas, aqui fica esta outra:
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ARQUÍLOCO de PÁROS – séc VII aC
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O RITMO DA VIDA
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Coração, meu coração, que afligem penas sem remédio,
eia! Afasta os inimigos, opondo-lhes um peito
adverso. Mantém-te firme ao pé das ciladas
dos contrários. Se venceres, não exultes abertamente.
Vencido, não te deites em casa a gemer.
Mas goza as alegrias, dói-te com as desgraças,
sem exagero. Aprende a conhecer o ritmo que governa os homens.
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in ROSA DO MUNDO, tradução de Maria Helena da Rocha Pereira, Asssírio, 2001
pág. 419.
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Publicado aqui e igualmente no FB

por Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 26 de Julho de 2019, pelas 21h 41m

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PROFESSORES A MAIS?!

* Educação e Criatividade,* Notas Breves — Myriam de Carvalho @ 1:13 pm

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PROFESSORES A MAIS?!
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ESTA GENTE DIZ CADA UMA!
Já algum deles deu aulas a 30 miúdos ou jovens, todos na mesma sala, cada turma com a sua percentagem de mal-educados e desinteressados?! Com programas e métodos por vezes, desajustados. Sem lugar para a criatividade quer na Escrita, quer  nas Artes visuais, na Música, na Expressão corporal…
SABEM do que FALAM?
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O ENSINO PÚBLICO é para ser ACARINHADO, É o FUTURO do País que é posto em causa! Não pode nem deve ser AMESQUINHADO!
O Ensino Público é um investimento inestimável cuja rentabilidade não é visível no imediato. Esta afirmação é tão notória e evidente que até poderíamos dizer que já o Senhor de La Palice diria o mesmo!
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Já diminuíram os programas de Humanidades! Como se fosse possível formar jovens sem lhes apresentar a marcha cultural da Humanidade…

No actual retrocesso a que o Ensino está a ser sujeito, só conta o Ensino técnico baseado no domínio da Informática?

HOJE, tal como ONTEM – De que valem a informática ou qualquer outra Técnica – se o seu utilizador não tiver a sua sensibilidade educada?!

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Por que não pensam os políticos em diminuir as suas rendas ou ordenados? Se há famílias inteiras a sobreviverem com os miseráveis 600€ por mês, porque não se pensa que certas carreiras auferem demasiado?
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Por que motivo não se oferecem os livros escolares, vendidos a preços exorbitantes, a todos os níveis de Ensino? Vi reportagens na TV em que vários casais afirmavam que poupavam durante todo o ano (!) para poderem adquirir os livros escolares dos filhos…
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Por que é que as Artes e os Artistas, a Investigação Científica e os Investigadores, não têm melhor protecção e incentivos?
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Há países em que os Professores e o Ensino são objecto de verdadeiro respeito!
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Sempre tive tanta consideração por Rui Rio, mas por vezes, desilude-me.

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VER:

Rui Rio. “Temos de emagrecer, se possível, a Administração Pública”

https://sol.sapo.pt/artigo/666118/rui-rio-temos-de-emagrecer-se-possivel-a-administracao-p-blica-

“Ou seja, é preciso avaliar a Administração Pública, perceber onde há carências ou não. E até deu exemplos: “Há professores a mais, infelizmente, o que significa que temos um problema de natalidade”.”

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Publicado aqui no Blogue e no FB, por

Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 25 de Julho de 2019, pelas 14h 12m

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A Edvard Munch

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 11:42 am

Quer se trate dos incêndios ateados por mão criminosa em Portugal,

ou da devastação da Amazónia,

ou da destruição da Palestina,

O GRITO de EDVARD MUNCH continua actual.

 

100 anos depois
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A Edvard Munch (1893)

Boca escancarada,
a criança grita –
Grita – sozinha na noite.
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Por muito que a boca abra – ninguém
a ouve.
É apenas seu grito
um gesto impotente.
Nem aviso – nem premonição –
nem queixa.
Nem acusação.
Apenas reacção inconsequente
a atrapalhar o expectador da galeria.
Apenas um gesto
impotente.
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Não está perdida na noite,
não.
Quem a possa ouvir
está oculto
na escuridão.
Não virá dar a cara
nem a mão à palmatória.
Avança
com os tanques, conduz os canhões,
alimenta os fornos.
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E não apodrece nas prisões.
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– Pintaste um grito inútil!
Um grito fútil.
Pintaste apenas o teu medo,
ou o meu.
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Nem Deus te ouviu –
Deus não ouve os pacifistas
– E até dizem que morreu.
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Mas esse teu Grito continua a ecoar
pelos quatro cantos dos sete céus!
Talvez um dia Deus acorde…
E ponha pimenta na língua
de todo o cão tinhoso que – escondido – morde

© Myriam Jubilot de Carvalho, 2004

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Publicado – tanto neste Blogue como no FB –

Dia 25 de Julho de 2019, pelas 12h 45m

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Machado de Assis e a sua obra “Dom Casmurro”

* Estudos e Comunicações — Myriam de Carvalho @ 5:51 pm

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Como verifiquei, com a prática, que postar aqui a página autêntica do jornal O AUTARCA, acaba por não resultar, pois a imagem acabará por desaparecer, reproduzo apenas o texto do artigo que publiquei no mesmo jornal, de que sou colaboradora regular, como já várias vezes aqui indiquei.

A página tem layout, como de costume, do Artista, meu amigo, Mphumo João Kraveirinya:

O AUTARCA . Primeiro jornal electrónico editado na cidade da Beira

Ano XIX – Nº 3723 – Quarta-feira, 17 de Julho de 2019

páginas 6/9 até 9/9

sendo a última destas páginas, preenchida com a reprodução da capa da primeira edição brasileira, e a capa do livro que li, em edição da Universitária Editora, Lisboa, 1997.

Sendo um artigo para um jornal diário, o texto é muito sucinto.

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Machado de Assis

Machado de Assis (1839-1908) é considerado um dos grandes escritores do Brasil, senão o maior.

Foi ele o iniciador da corrente realista no Brasil. Assim, sendo um autor realista – através das suas personagens, ele retrata a sociedade tal como ele a vê. Mas escreve num estilo muito próprio, ironizando e por vezes mesmo, ridicularizando, as hipocrisias e misérias humanas que vai fazendo desfilar perante os seus leitores.

Dom Casmurro, o romance

Em “Dom Casmurro”, Machado de Assis conta a vida de Bentinho. A história é contada pelo próprio protagonista.

As narrativas na primeira pessoa são, como se sabe, muito mais sugestivas. Dom Casmurro é a alcunha que as pessoas dão a Bentinho, mais tarde, quando, já adulto marcado pela grande desilusão que atingiu a sua vida, ele se torna um homem calado e taciturno.

A época em que decorre a “acção” em DOM CASMURRO:

A “acção” passa-se  no decurso do século XIX, no Brasil.

 O início da “acção” reporta-se a 1857. É o tempo do Romantismo.

Vive-se sob o prestígio da Igreja católica e sua influência sobre a educação feminina; o tempo da autoridade dos progenitores, e de um currículo escolar específico para as meninas.  Ainda tem grande peso a cultura clássica greco-latina. Reina o imperador D. Pedro II. É o Ciclo do Café, já se notando a presença italiana. Ainda se morre de lepra (o que ainda hoje, na nossa actualidade, se verifica). É o tempo de Pio IX; da Guerra da Crimeia.  E também de  disputas entre a Europa e os EEUU sobre a posse de algumas ilhas.  

A Escravatura

A Escravatura vigorou no Brasil logo a partir do século XVI. Foi a mão de obra por excelência do Ciclo do Açúcar. Só terminaria após a Lei do Ventre Livre, datada de 1871; e definitivamente, após a Lei Áurea, de 1888.

Por seu lado, a presença italiana está relacionada com o Ciclo do Café. Conheceu o seu ponto máximo entre 1880 e 1930, coincidindo esta última data com o final deste ciclo.

Na sociedade portuguesa, os escravos foram, como diz José Ramos Tinhorão, “uma presença silenciosa”. Em “Dom Casmurro”, Machado de Assis ilustra bem essa afirmação: o Autor regista a existência dos escravos. Refere a sua condição, sem tecer comentários. Aliás, quaisquer comentários seriam dispensáveis.

Logo no início da obra, ao apresentar D. Glória, o Autor faz-nos encarar a realidade de uma senhora muito religiosa mas que não se perturba com a crueldade que é vender pessoas (escravos) ou alugá-las, pondo-as “a ganho”.

Por outro lado, logo no início desta obra, no capítulo 9º, capítulo muito importante, o Autor compara a vida a uma ópera. Deus é o autor do libreto, mas o Inferno é o autor da partitura. E portanto, “assim se explicam a guilhotina e a escravidão”. Com este capítulo magistral, Machado de Assis diz tudo.

Como é retratada a “presença silenciosa” dos escravos

A- Muitos escravos vivem com a família. Comportam-se com conformismo e há momentos em que demonstram respeitosa ternura ou familiaridade para com Bentinho, o protagonista-narrador.

Mas em geral, são “o pau mandado” a que se manda executar alguma tarefa.

Capítulos: cap. XX (pág 46), cap XXXIX (pág 74), cap LIII (pág 90), cap LXXI (pág 116), cap LXXXVI (pág133), cap XC (pág 149), cap CXXI (pág 176).

B- Os nomes dos escravos são-lhes atribuídos pelos senhores, e substituem os seus nomes originais. Por vezes, os nomes indicam a sua origem geográfica:

cap XCIII (página 140).

C- Outros, são “escravos de ganho”: cap VII (p. 25), cap XCIII (p.140).

Nos capítulos VII (p. 25), e XCIII (pp. 140/141) fica claro que ter “escravos de ganho” era equivalente a ter uma pequena empresa.

D- Aparece ainda um ex-escravo, que vende na rua. cap CX (p. 162).

E- Finalmente, no capítulo CXLV (p. 198) o Autor já não fala em “escravo”, mas sim em “criado”. O que situa o fim do romance após a abolição da Escravatura.

A Mulher

A figura feminina é moldada pelo ideal Romântico:

A Mulher é representada segundo dois extremos: D. Glória, mãe de Bentinho (o protagonista), profundamente religiosa; e Capitú, uma jovem “laica”.

A Mulher ideal toca piano, é sempre alegre e dinâmica, dirige a criadagem, sabe dar um conselho e aclarar as hesitações profissionais ou de negócios do marido. A Mulher deve pois, ser delicada, pura, e dedicadíssima.

Enfim, é o tempo em que se idealizava a mulher dentro do paradoxo da “virgem e mãe”, ignorante em formação escolar geral, mas religiosa até à superstição.

O que a torna egoísta, possessiva, narcísica, manipuladora.

Assim, educado com medo da mãe, Bentinho (mais tarde o Dr. Bento) fica um homem frágil, que se coloca sucessiva e acriticamente, sob a protecção de José Dias, de Capitú e, finalmente, do amigo Escobar. Por isso, é manipulado e, provavelmente, traído.

A terminar

Neste excerto do capítulo IX, “A Ópera”, o Autor  compara a vida das sociedades humanas ao libreto de uma ópera. Conforme referimos atrás, esta ópera seria escrita por Deus e musicada por Lúcifer.

Este capítulo é uma brevíssima obra-prima. Nele, vemos a ironia e crítica social de Machado de Assis no seu tom mais amargo:

(p. 27):

“Deus é o poeta. A música é de Satanás (…)

“Satanás suplicou ainda, sem melhor fortuna, até que Deus, cansado e cheio de misericórdia, consentiu em que a ópera fosse executada, mas fora do céu. Criou um teatro especial, este planeta, e inventou uma companhia inteira, com todas as partes, primárias e comprimárias, coros e bailarinos.

– Ouvi agora alguns ensaios!

– Não, não quero saber de ensaios. Basta-me haver composto o libreto; estou pronto a dividir contigo os direitos de autor.

Foi talvez um mal esta recusa; dela resultaram alguns desconcertos que a audiência prévia e a colaboração amiga teriam evitado. Com efeito, há lugares em que o verso vai para a direita e a música para a esquerda. Não falta quem diga que nisso mesmo está a beleza da composição, fugindo à monotonia, e assim explicam o terceto do Éden, a ária de Abel, os coros da guilhotina e da escravidão.” (…)

© Myriam Jubilot de Carvalho – Julho, 2019

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Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 18 de Julho de 2019,  pelas 18h 50m

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Le Clézio, na TV5 Monde, falando sobre Cultura

* Antologia — Myriam de Carvalho @ 3:02 pm

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Le Clézio, Nobel da Literatura em 2008, sobre Cultura, afirma:

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«  Il faut métisser la Culture; c’est la seule manière de la rendre universelle.

Dans ce monde égoïste  et cupide, tout s’exporte. Sauf l’humanisme. »

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Jean-Marie Gustave Le Clézio

Na sua participação no programa La Librairie Francophone, da TV5 Monde, no passado dia 7 de Julho de 2019.

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Publicado por

Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 16 de Julho de 2019, pelas 16h

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