Onde está o Sul do Tejo?

* Notas Breves — Myriam de Carvalho @ 10:58 am

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Onde está o Sul do Tejo?
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Ainda acontece. Quando por vezes tenho que dizer que sou algarvia, alguém reage e dá um salto na cadeira, abre uma gargalhada inoportuna, e exclama com uma expressão que não sei exactamente definir, mas que não sinto agradável:
– Ah! Sua moura!
– Com que então, és moura?!
Moura ou não, nasci no Sul, e nisso tenho grande prazer.
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Isto vem a propósito da reportagem que eu estava a ouvir na Antena 2, sobre o concerto de abertura de Os Dias da Música, no Centro Cultural de Belém.
Aos microfones da Antena 2, anunciava-se que iam actuar coros infantis e juvenis de Lisboa, Porto, Coimbra e Aveiro. E claro, o comentário surgiu, neste teor:
– É uma participação a nível nacional!
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Eu gostaria de ter podido perguntar:
-Como?! Lisboa-Porto-Coimbra-e Aveiro – Isso diz respeito ao conjunto nacional – Ou será apenas uma fracção não representativa do país?!
E o Interior?
E o Sul – todo o Sul?!
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Como este caso não é único, muitas vezes me pergunto: “Haverá, neste olvido, alguma responsabilidade das pessoas do Sul?! Serão os Algarvios que não se fazem lembrar, que se deixam ficar no seu canto, à espera que figos e amêndoas caiam das árvores?!”
Ou será ainda o velho sentimento discriminatório de que o Sul foi conquistado pelo Norte? Mas isso aconteceu no séc XIII, vai para 800 anos! Ainda viveremos nós sob o peso das ondas de choque da Reconquista?
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Segundo julgo saber, o Sul continuou com a designação de “Reino dos Algarves” apenas porque os reis portugueses achavam pomposo contar com esse título na arreata de títulos que ostentavam.
Ainda os nossos últimos reis ostentavam a lista de títulos que rezava: “Pela Graça de Deus, Rei (ou Rainha) de Portugal e dos Algarves, d’Aquém e d’Além-Mar em África, Senhor(a) da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia, etc.”
Nessa enfiada de títulos, tinha tanto significado mencionar o Reino dos Algarves como o etc final!
Ou seja – A frase-feita de que “Portugal é Lisboa e o resto é conversa” continua a ter peso na expressão oficial nacional.

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Nós, os Algarvios, mouros ou não, temos muito orgulho na nossa herança ancestral feita da fusão de tantas culturas e religiões, sobretudo mediterrânicas e do Próximo Oriente, que nesta região deixaram a sua marca:

Aos antigos Iberos (provavelmente oriundos do Norte de África) que se fixaram mormente na zona oriental da Península, vieram juntar-se os Celtas, oriundos da Europa do Norte e Central. Estes fixaram-se sobretudo no Ocidente peninsular. Esses grupos viveram uma maior fusão na zona central da Península.

Ao longo dos séculos, muitos outros povos demandaram a Península, e mais ou menos pacificamente, aqui se fundiram com os povos já aqui fixados:

Fenícios (Palestina – Próximo Oriente). Ao tempo da chegada dos Fenícios já prosperava no Sul peninsular, o Reino de Tartessos, com cultura própria e já com domínio da Escrita – a ainda não decifrada Escrita do Sudoeste. Gregos (sul da Europa Oriental), Cartagineses (meio Fenícios meio Berberes – Norte de África). Romanos. Judeus (meio Egípcios meio Fenícios ou Palestinos). Vândalos e Suevos (Norte da Europa). Alanos (Norte do Irão, Planalto do Pamir). Visigodos (Norte da Europa).    Bizantinos (sul da Europa Oriental e Próximo Oriente, em parte uma evolução da Cultura Grega). Berberes (Nordeste de África, mais ou menos Arabizados). Cultura Árabe, que absorveu marcas que vão da Síria ao Iémen, e ao Irão.

A tudo isto, veio sobrepor-se o legado de uma fracção esquecida da nossa população – a herança genética e cultural dos Escravos Africanos, vindos de diferentes paragens do imenso continente africano, e que igualmente ao longo de vários séculos, se fundiram com a população que os aprisionava, explorava e oprimia.

Resta acrescentar que as belas Lendas de Mouras Encantadas são muito provavelmente reminiscências da Cultura Celta, com o seu culto da Natureza.

Posto isto, como não nos orgulharmos da riqueza compósita do nosso ADN físico e cultural?

 

Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Aqui no blogue, em 27 de Abril de 2019

No FB, na noite anterior.

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