Notre-Dame

* Notas Breves — Myriam de Carvalho @ 11:30 am

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Notre-Dame

Assiste-se a um lamento tão profundo pela perda de Notre-Dame e pelos seus 850 anos de História, que sinto que devo postar este apontamento. Talvez possa recordar alguns factos a quem ande esquecido, ou trazer algum esclarecimento a quem os ignore.

Em primeiro lugar, a Notre-Dame que todos conhecemos, é o fruto do restauro a que se procedeu no século XIX.

Viollet-le-Duc foi o arquitecto desse profundo restauro. Inclusive, foi ele o autor do famoso pináculo de Notre-Dame. Ou seja, a “flèche” que tanto nos deslumbrava, tinha mais ou menos um século e meio de história, não mais. Em segundo lugar, recordo este detalhe que muita gente ignora, e que diz respeito ao surgimento do Gótico, esse estilo arquitectónico que é um dos grandes orgulhos dos Europeus.

Seria bom perguntarmo-nos como nasceu o Gótico.

Os príncipes europeus da Idade Média digladiavam-se entre si. O que muito preocupou o papa Urbano II (1035-1099).

Cerca de 1095, o imperador de Bizâncio, Alexios I Komnenos, pediu ajuda ao Papa pois as suas fronteiras estavam sob ataque dos Turcos Seldjúcidas.

Urbano II achou que uma maneira de livrar os seus súbditos de tanta belicosidade, seria endereçá-la para outras paragens. Esse apelo de Alexios I veio dar-lhe a oportunidade. Urbano II incitou a Cristandade ocidental a ir combater os Muçulmanos tendo em vista a libertação da Terra Santa.

A pregação de Urbano II deu origem à I Cruzada (1095-1099), e às muitas outras que se lhe seguiram.

Foi esse desvio para outras paragens, do estado de guerra em que vivia a Europa. que deu origem ao chamado Renascimento do século XII: No século XII acontece uma notável renovação económica e cultural. É nesse “renascimento” que surge o estilo Gótico: as cidades competiam entre si, a ver qual delas ergueria a catedral mais alta e sumptuosa. As catedrais góticas não são apenas o testemunho de fé de que por vezes se fala. São sobretudo um testemunho de poder.

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Claro que presenciar este incêndio foi um grande choque. Notre-Dame foi justamente classificada como Património da Humanidade, um dos expoentes da Cultura Europeia. Também me vieram as lágrimas aos olhos ao ver aquele espectáculo infernal.

Mas as televisões deram grande relevo a aspectos que eram fruto da ignorância. E fiquei sem saber se era a ignorância ao serviço da propaganda, ou se era a propaganda a servir-se da ignorância. O que vai dar praticamente ao mesmo. E depois, há este olhar para o umbigo por parte da cultura europeia. E isso incomoda-me. Não se vê espírito crítico. Há quem diga que os erros do Passado já não têm remédio, e então é deixá-los para trás. Mas não pode, ou não deve ser assim. Essa auto-complacência leva à perpetuação dos mesmo comportamentos – a tão apregoada grandeza da cultura europeia tem sido feita à custa de outras culturas- A cultura (economia, prestígio, riqueza…) europeia é essencialmente predatória. Na Idade Média como no século XIX, por exemplo…

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Não se pense, porém, que não aprecio a cultura francesa. Claro que aprecio. Aliás, formei-me em Românicas. Mas gosto de ver os dois lados da Realidade, ou seja, os ídolos têm pés de barro:

Tal como foi recordado há poucos dias no canal TV5 Monde, a pena de morte só foi abolida em França em 1981.

Ou então recordemos que as mulheres francesas só obtiveram direito de voto após a II guerra mundial.

Não esquecendo que uma das receitas da França vem da indústria de armamento.

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Referências:

Os Templários , de Piers Paul Read; ed. Imago, Rio de Janeiro, 2001;

As Cruzadas vistas pelos Árabes, de Amin Maalouf; ed DIFEL, 10ª ed, 2001

« Ces ventes d’armes sont-elles légales ? »

https://www.la-croix.com/Monde/ventes-darmes-sont-elles-legales-2018-03-20-1200922422

ENTRETIEN. Hélène Legeay, Responsable Maghreb-Moyen Orient à l’Action des chrétiens pour l’abolition de la torture (ACAT).

  • Recueilli par Laurent Larcher,
  • le 20/03/2018

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Nota:

Esta crónica foi publicada no jornal de Moçambique onde costumo colaborar:

O Autarca – Jornal Independente, Quarta-feira – 24/04/19, Edição nº 3669 – Página 06/08

 

Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 18 de Abril de 2019, pelas 12h 30m

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