Três livros que se completam mutuamente

* Notas Breves — Myriam de Carvalho @ 3:10 pm

 

A Revolução Cultural chinesa e

os tempos pós-revolucionários

 

A Revolução Cultural chinesa foi lançada por Mao Tsé Tung em 1966, que através dela, pensou consolidar o seu poder apoiando-se na juventude do seu país.                      Conheço alguns testemunhos interessantíssimos sobre esse período:

Começo pelo relato auto-biográfico da pianista ZHU XIAO-MEI:

“O RIO E O SEU SEGREDO

Dos campos de Mao a Johann Sebastian Bach: o destino de uma mulher excepcional”

Zhu Xiao-Mei
Guerra e Paz Editores, 2007

Colecção A Ferro e Fogo.

Procurei na Net, a confirmação de que este livro corresponderia à realidade. Pois poderia tratar-se de uma ficção…

O livro é de facto um relato sobre a realidade:

A biografia, obviamente abreviada, desta pianista está na Wikipedia. Aí se conta que Zhu Xiao-Mei, nascida em 1949, actualmente vive em Paris, onde é professora no Conservatório.
Há também vários vídeos com gravações suas no YouTube, pois Zhu Xiao-Mei é especialista em Bach.

Zhu Xiao-Mei conta-nos como a sua vida de apaixonada estudante de piano se viu interrompida pelo turbilhão da Revolução Cultural. Conta-nos como as relações pessoais se tornaram impossíveis pela desconfiança e pelo medo, pois as pessoas eram levadas a denunciarem-se umas às outras por crimes políticos que nem sequer tinham cometido. Conta-nos que conseguiu fugir para os EEUU e como aos poucos foi retomando os seus estudos de piano, mercê da sua grande força-de-vontade e persistência.

O segundo testemunho é-nos dado através do romance:

À Espera 

Ha Jin
edições Gradiva, 2ª edição, 2000

O autor deste segundo título é o escritor chinês, romancista, contista e poeta, radicado nos EEUU, Ha Jin.
Ha Jin, nascido em 1956, conhece bem o seu país natal, e a sua História recente, pois na sua juventude, tomou parte na Revolução Cultural Chinesa. No entanto, quando ocorreu a tragédia de Tianannmen, em 1989, ele encontrava-se a estudar nos EEUU, com uma bolsa de estudos. Ha Jin não regressou à China. Optou por escrever em Inglês.
“À Espera” é uma história de amor enquadrada nos tempos que se seguem à Revolução Cultural Chinesa, e acompanha a abertura da política económica chinesa para um estilo de economia com maior margem para a iniciativa privada.
A história mostra também como a vida privada dos cidadãos chineses era controlada pelo Partido, dentro de um moralismo muito estrito.
O enredo é interessante, e conforme se aconselha para a técnica narrativa do “conto”, tem um final inesperado.

O terceiro testemunho dá-nos a conhecer a tragédia de Tiananmen, em 1989:

O Verão da Traição

Hong Ying

Edição Livros do Brasil

1ª edição, 2001

Hong Ying é uma poetisa e romancista chinesa, nascida em 1962. Vive em Londres, onde se radicou a partir de 1992.

“O Verão da Traição” é um romance cuja personagem principal é a poetisa Lin Ying. A acção passa-se nos dias imediatos aos protestos de Tiananmen, os quais a ditadura chinesa da época denominou apenas de “distúrbio”.

Nesta obra os aspectos políticos e literários estão interligados:

Ao nível da vida pessoal da protagonista, uma poetisa oriunda de alguma montanha do interior da imensa China, vemos todos os constrangimentos impostos pela censura moralista e de costumes exercida pelos rigores de extremo controlo do Partido Comunista Chinês. Ao nível político, há todos os constrangimentos determinados pela recuperação da situação por parte das autoridades dessa época. Censura, perseguições, acusações, denúncias, interrogatórios, confissões arrancadas sob tortura. Suicídios. Os intelectuais vêem-se isolados e ostracizados.

Mas há ainda outros níveis de leitura. As personagens discutem sobre as funções da Literatura, nomeadamente sobre Poesia; discutem sobre a Literatura Experimental, sobre a Liberdade, nomeadamente a liberdade sexual.

A autora desta obra é uma poetisa. Daí, que o aspecto mais importante desta obra seja o tratamento da linguagem, que é sempre poética. Tanto no ritmo, como na expressão. E o facto de a protagonista ser poetisa confere a esta pequena história um valor simbólico. Quando no final, os artistas – poetas, filósofos, jornalistas, músicos – se envolvem na orgia, Lin Ying desnuda-se. Ou seja, a Poesia representa e dá voz à alma real de um povo. Quando Lin Ying, a poetisa oriunda da montanha distante, copula com o desconhecido, a autora está a sugerir que a salvação da China está na sua alma ancestral.

 Conclusão 

Estas três obras descrevem-nos uma China recente – desde meados dos anos 60 até ao presente.

Mais uma vez se comprova como a Literatura e a História são irmãs gémeas, caminhando de mãos dadas – como eu gosto de dizer. A História descreve os factos, mas a Literatura fala-nos dos sentimentos, dos sonhos, dos feitos, e dos revezes – de quem viveu os factos descritos pala História.

Lembro-me de que o Professor Mário de Albuquerque, professor de História Medieval nos anos ’60, década em que tirei o curso na Faculdade de Letras de Lisboa, citava um professor de Direito, francês, que no início de cada ano lectivo aconselhava os seus alunos a lerem Poesia “antes de estudarem as leis” – para terem uma noção mais profunda e real do que são as motivações das pessoas que eles um dia teriam que julgar ou defender.

Actualmente os nossos programas reduzem os estudos de Humanidades… Um erro tremendo, que se pagará num futuro não muito distante. Aliás, esse futuro já é presente e já está mostrando as suas consequências – cabeças de ferro, corações fechados a cadeado, e olhos de cifrões. Ou então, talvez tenha sido sempre assim, e quem o denuncia terá sido sempre marginalizado… O que sei é que, se por um lado o ser humano sempre teve o seu lado “mau”, por outro lado, a sua perversidade sempre foi equilibrada pelas pessoas de sensibilidade. E acredito religiosamente que a sensibilidade educa-se, através do estudo e da prática das Artes! E é este equilíbrio que nunca se deveria perder…

.

Publicado por

Myriam Jubilot de Carvalho

 

 

 

0 Comments »

No comments yet.

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Leave a comment

This work is licensed under a Creative Commons Attribution-Noncommercial-Share Alike 3.0 Unported License.
(c) 2019 Por Ondas do Mar de Vigo | powered by WordPress with Barecity