Sobre a intervenção de Luzia Moniz na Assembleia da República do País dos Brandos Costumes

* Notas Breves — Myriam de Carvalho @ 3:50 pm

A intervenção de Luzia Moniz sobre Fernando Pessoa na CPLP

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No país dos Brandos Costumes, a ‘intelligensia’ machista toma por ídolos, personagens que só têm cérebro – seres individualistas, mutilados de coração, narcisos absolutos.

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No regime salazarista, a juventude estudantil era alvo da massificação com a injecção forçada dos Lusíadas. Celebrava-se o “Camões Épico”.
Ignorando que o grande poeta que Camões foi, foi o Lírico. Aí, sim, Camões é universal.
Actualmente, afronta-se a juventude, com Fernando Pessoa.
Pessoa pode ter sido um grande poeta. Disso não teremos dúvidas. Mas escolhê-lo para patrono da juventude da CPLP?!
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Poucas mulheres tenho visto capazes de afrontarem a ‘intelligensia’ portuguesa, machista e conservadora. Natália Correia terá sido a mais notável.
Recordo Natália Correia na Assembleia da República. Ia ser tomada a decisão sobre o destino de Isabel do Carmo e Carlos Antunes, então na prisão, em greve de fome.
E ao ver que os ânimos continuavam de pedra, Natália Correia levantou-se, e da tribuna apontou o dedo aos presentes, clamando-lhes:
– Seus corporativos! Seus corporativos!
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No dia 30 de Janeiro, Luzia Moniz, socióloga, africana, afrontou a ‘intelligensia’ machista, com o denodo de uma voz que se ergue no deserto.
Recordou que Fernando Pessoa considerou a escravatura como uma necessidade.
Os textos em que ele o afirmou estão publicados, não constituem segredo.
A afirmação de Pessoa foi uma afirmação consciente, dura, irreplicável, determinada, e repetida.
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No entanto, essa escolha não nos deve admirar. Num país onde uma das praças públicas da capital continua a chamar-se “Praça do Império”.
O sentimento imperialista, colonialista, continua vivo entre nós.
Só não entendemos como os outros representantes dos países africanos aceitaram tal designação.
Que espécie de modelo se pretende apontar aos nossos jovens?!
Pretende-se regredir ao nosso passado colonialista?!
Ou esse Passado nunca deixou de ser Presente?
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Como não se mudam as vontades, os tempos ainda não mudaram. “Como construir um futuro salutar sem olhar para os erros do passado?” – é a grande interrogação de Luzia Moniz. E eu assino por baixo.

Deixo no post seguinte, a intervenção a que aqui me refiro.

Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 11 de Fevereiro de 2019, pelas 15h 50m

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