Como começa a Violência Doméstica?

* Notas Breves — Myriam de Carvalho @ 4:29 pm
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O país dos brandos costumes
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Como começa a Violência Doméstica?
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O país à beira-mar plantado, pacífico, feliz e despreocupado, não passa de uma poética ficção. Precisa de se ver ao espelho, precisa de enfrentar a realidade.
Há poucos dias, um Amigo do FB recordava MIGUEL DE UNAMUNO, com esta citação:
“A brandura, a meiguice portuguesa, não está senão à superfície; raspai-a e encontrareis uma violência plebeia que chegará a assustar-vos. Oliveira Martins conhecia bem os seus compatriotas. A brandura é uma máscara.” (1)
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Na verdade, a violência doméstica em Portugal é um cancro que começa a ser encarado com a devida frontalidade. É alarmante este aspecto da nossa vida social, conforme se poderá comprovar com uma breve visita ao espelho das estatísticas da APAV. Segundo se tem noticiado, só no mês de Janeiro deste ano que acaba de começar, já foram assassinadas 9 (nove) mulheres.

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Quais são então os sinais de alarme de que um relacionamento poderá tornar-se violento?

Oprah Winfrey, nos seus programas, insistia em cinco indícios:
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1- Sinais muito precoces de compromisso ou co-dependência. O futuro agressor enreda precocemente a outra pessoa em laços que não são propriamente afectivos, mas emocionais;
2- Ciúme exacerbado, fruto de um exageradíssimo sentimento de posse;
3- O futuro agressor está acima do bem e do mal, faz tudo “por bem” e “por amor” argumentando com chantagens emocionais; não admite observações nem críticas, e reverte todo o mal-estar culpabilizando o ou a companheiro/a.
4-A futura vítima deixa-se tomar pelo medo. Aos poucos deixa de reagir.
5- O futuro agressor isola a pessoa com quem vive: evita e com o tempo consegue impedir que a (futura) vítima mantenha ligações com a família, e com as amizades anteriores ao relacionamento.
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Quanto a mim, os piores sintomas são o ciúme delirante, a culpabilização do outro, e o isolamento a que a futura vítima se vê confinada. Fica completamente à mercê de um acto tresloucado.
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E há um outro pormenor que eu acrescento:
A presença de armas em casa. Mesmo que o futuro agressor pareça que não virá a ser capaz de as usar… Nunca se sabe.
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A violência física é um estádio avançado da violência psicológica.
Nos casos em que a violência fica “apenas” pela violência psicológica, a ordem dos indícios atrás apontados será diferente. Pode até nem se passar à violência física. 
Quando se trata “apenas” de violência psicológica, a chantagem emocional e consequente culpabilização do lado mais fraco definem o comportamento do agressor. E estas, exercidas sistematicamente, frequentemente acompanhadas de troça e escárnio, retiram à vítima a possibilidade de formar uma auto-imagem positiva.
E assim:
Crianças que sejam educadas neste clima, estarão condenadas, na grande maioria dos casos, a ficarem sempre dependentes de futuros predadores e agressores.
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(1) –
Excerto de ‘Por terras de Portugal e da Espanha’, tradução de José Bento, Assírio & Alvim, 1989 / original de 1911.
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Publicado por:

© Myriam Jubilot de Carvalho

Em 7 de Fevereiro de 2019, pelas 16h 29m

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