Portugueses de primeira e portugueses de segunda?

* Notas Breves — Myriam de Carvalho @ 12:58 pm

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Uma questão de memória

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Portugueses de primeira e portugueses de segunda?

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Daqui desta esplanada, bem entranhada na Margem Sul, avista-se nitidamente a Serra de Sintra. Mas não hoje, que está encoberta pelas nuvens que sobraram das últimas chuvas. Meio-lilazes, mais cinzentas na base, brancas no topo a reflectirem o sol. Atrás delas, o céu iluminou-se de azul-bebé.

Aqui, à minha frente, ruidosa, atravancada de trânsito, estreita, a estrada velha que leva às praias. Um pouco mais longe, movimenta-se o colorido dos carros, na auto-estrada.

Por mais que me pergunte o que nos faz correr, só encontro a resposta que me dava o meu Amigo Orlando Neves (1) – “O medo da morte. Em última análise, é o medo do fim que nos faz correr tão sofregamente atrás do lucro, da fama, de posição. É essa sofreguidão de usufruir da vida tudo o que ela possa dar, que nos torna egoístas e agressivos. E cruéis.”

Lembrei-me destas conversas agora que os ânimos estão motivados devido aos acontecimentos no impropriamente chamado Bairro da Jamaica.

Não é só o medo da morte.

Quando a população de um país se encontra tão estratificada, consciente ou inconscientemente, a “maioria” não admite que venham “os de fora” ocupar-lhes espaços, por diminutos que sejam.

O que me espanta, é que este seja um sentimento tão generalizado, num país que desde os chamados Descobrimentos exporta os seus pobres, os seus analfabetos, os seus aventureiros, os seus ambiciosos e, porque não, os seus piratas, para todos os cantos do mundo. Mas não só. Ainda não há muitos anos – parece que já ninguém se lembra – um malfadado primeiro-ministro dizia, aos nossos jovens, com todas as letras, que se não estavam aqui bem, que emigrassem.

A população que há não sei quantas décadas se instalou nas zonas periféricas das grandes cidades do “continente” veio à procura de melhores oportunidades para si próprias e seus descendentes, devido ao clima de guerra e incerteza nos seus locais de origem. Tal como o fizeram os nossos jovens que rejeitavam participar na Guerra Colonial, que foram acolhidos um pouco por toda a parte, desde a Europa às Américas e às Áfricas! Nos países onde se refugiaram, eles eram “imigrantes”… Parece igualmente que já ninguém se lembra…

No entanto, actualmente, esta “maioria” esquece que estes “de fora” nasceram em territórios que, em tempos ainda próximos de nós, estavam sob administração portuguesa e que “os de cá” consideraram prolongamento do território nacional – e que por isso são portugueses.

Segundo a nossa Constituição, não há “portugueses de primeira” nem “portugueses de segunda”.

É mais do que tempo que as forças responsáveis deste país olhem para esta realidade com “olhos de ver” e reúnam todas as energias para pôr mãos à obra, discutir o problema até à exaustão e proporcionar a estas populações toda a atenção e oportunidades a que elas têm direito.

Como muito bem diz a vereadora da Câmara Municipal de Lisboa, Marta Mucznik (2), o problema do racismo não pode restringir-se a uma bandeira das Esquerdas. Deve ser assumido como um problema nacional.

E já agora, não posso deixar de perguntar-me, como se sentiriam essas vozes da “maioria” se se vissem reduzidas a viver, eles, seus filhos, e seus netos, nas condições em que vivem os habitantes de tantos bairros periféricos.

Há um sentimento que se chama “revolta”. E só se sente “revoltado” quem se sabe objecto de injustiça.

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(1) Orlando Neves (1935-2005) – escritor, poeta, dramaturgo e encenador. Jornalista. Tradutor. Autor de literatura para crianças.

(2) Marta MucznikMentora para o Diálogo Intercultural, Reach Alliance Global Network; Assessora para a Inclusão, o Diálogo Intercultural e a Acção Social no Gabinete de Vereação do PSD na Câmara Municipal de Lisboa

No Observador, em 24/1/2019:

https://observador.pt/opiniao/o-que-a-polemica-do-bairro-da-jamaica-abafa/

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Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 27 de Janeiro de 2019, pelas 13h

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Lazarim, 24 de Janeiro de 2019

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