Poesia Tradicional . 2

* Notas Breves — Myriam de Carvalho @ 2:06 pm

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Arte Tradicional e Arte dita erudita

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É salutar divulgarmos o que vamos encontrando sobre a Poesia Tradicional, que, pelo seu valor intrínseco, sempre tem sido grande fonte de inspiração para os poetas ditos “cultos”. Numa “acção de formação” onde participei, nos já distantes anos ’70, um poeta chileno afirmava que “quando a Arte se encontra em ponto de ruptura, os artistas voltam-se para a tradição popular e aí encontram novos motivos de inspiração”.

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Publicado por

Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 28 de Novembro de 2018

Pelas 14h 05m

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Poesia Tradicional .1 – As DÉCIMAS

* Antologia — Myriam de Carvalho @ 1:39 pm
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Sobre as DÉCIMAS 
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A Poesia Tradicional é uma das minhas paixões.
Sobre as DÉCIMAS alentejanas, encontrei o texto que a seguir transcrevo, num antigo livro de leitura da antiga 4ª classe. 
O texto fala de Lázaro Beirão, o Potrapoeta popular alentejano, do século XVIII.
Tentei encontrar alguma referência sobre esse nome, mas até agora, ainda não descobri mais nada.
Assim, a única referência que encontro a este poeta popular do Alentejo é esta que aqui deixo e tenho o gosto de partilhar com quem estiver interessado na Poesia Tradicional.
O episódio narrado passa-se entre o referido poeta alentejano e o bispo D. Manuel do Cenáculo. O texto não indica a autoria nem a fonte da narrativa. Apenas informa: “Colhido da Tradição Oral”
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Sobre D. Manuel do Cenáculo, colhi estas breves notas na Wikipedia:
Manuel do Cenáculo de Vilas-Boas,
nascido Manuel de Vilas-Boas Anes de Carvalho,
Lisboa, 1 de Março de 1724 – Évora, 26 de Janeiro de 1814:
foi religioso franciscano, bispo de Beja e arcebispo de Évora.
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Voltando ao livrinho de leitura, páginas 28 e 29:

“Livro de Leitura”

da 4ª classe

actualizado segundo os novos programas para o ensino primário

Oficialmente autorizado o seu uso

7ª edição

1968.

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O Bispo e o Poeta Popular

Manuel do Cenáculo, bispo de Beja, vulto de grande ciência, era um exímio poeta e amantíssimo de tudo quanto à poesia dizia respeito.

Havia nessa época, nas cercanias de Beja, um pastor, poeta campestre de grande e justa fama – o Potra (1).

O bispo, tão sábio como bondoso e popular, desejava conhecê-lo.

Certo domingo, em que o pastor se dirigia, em companhia de alguns colegas, para a igreja do Salvador, a fim de ouvir missa, ao passar em frente do Paço Episcopal, um clérigo reconheceu-o e disse ao prelado:

– Vai ali o Potra, Senhor Bispo.

– Ide pedir-lhe que suba. Desejo falar-lhe.

O humilde camponês subiu a escadaria, e Cenáculo não se fez esperar:

– Como te chamas, pastor?

– Potra, servo de Vossa Reverendíssima!

– Tu é que és o tal poeta que faz versos a torto e a direito?

– Começam tortos, mas acabam direitos, às vezes, como se costuma dizer…–

– Muito bem. Mandei pedir-te que aqui viesses, pois desejo ouvir-te. Fazes-me uns versos?

– Ora, meu senhor! Sua Rev.ma está-se a divertir comigo… mas por ser a primeira coisa que me pede… vá lá. Venha o mote.

O bispo fita-o de frente e, com certa ironia, diz-lhe:

– “Nós ambos somos pastores

Logo o Potra, de improviso:

Senhor meu, batei as palmas

que nós não somos iguais.

Vós sois o pastor das almas

e eu, pastor de animais!

Sofro frio e sofro calmas,

sinto do tempo os rigores;

vós brilhais entre os doutores,

servindo aos sábios de exemplo;

eu no prado e vós no templo,

nós ambos somos pastores.

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O Bispo pasmou ao ver confirmado, tão proficientemente, o que lhe afirmavam. Abraçou-o comovido, deu-lhe algumas moedas e disse-lhe que, quando fosse à cidade, desejava vê-lo, pois muito se alegrava todas as vezes que abraçava os colegas…

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(1) – Lê-se “Pôtra”. Era a alcunha do poeta popular Lázaro Beirão.

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Publicado por

Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 28 de Novembro de 2018, pelas 13h 40m

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Mais uma “reforma” no Ensino?

* Educação e Criatividade — Myriam de Carvalho @ 11:42 am

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Novas ameaças sobre o Sistema Educativo?

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A Comissão Nacional para a Educação chegou à conclusão de que os chumbos são injustos para os alunos mais desfavorecidos.
Primeira preocupação:
Quando os doutos analistas se debruçam sobre as realidades do Sistema Educativo, é razão para nos preocuparmos, porque de certeza vão pronunciar um veredicto que deixará tudo muito pior do que já está.
Primeira observação:
Verificaram que só em Portugal há o um 2º Ciclo.
Ora bem. Se ele funcionar bem, qual é o problema de só em Portugal haver um ciclo intermédio entre a Primária e o Secundário?
Segunda observação
Verificaram que os orçamentos para o Ensino têm minguado.
Não seria preciso os doutos analistas terem tido tanto trabalho. Esse facto é do conhecimentos geral.
Terceira observação:
Verificaram que o Corpo Docente vai ficando envelhecido.
Observações:
1- Toda a gente está farta de saber que o Corpo Docente está desfalcado de Professores, uma vez que a carga horária de certas disciplinas diminuiu – pois programas como por exemplo o de História, uma disciplina tão importante na formação dos jovens, foram simplificados;
2- Há muitos chumbos. Pergunte-se: onde? Em que anos?
É natural que haja chumbos, por várias razões:
2.1- Primeiro que tudo e antes de tudo o mais: é preciso analisar qual o grau de objectividade das avaliações. As avaliações são feitas para dourar as estatísticas, e não para analisar o autêntico grau de aproveitamento dos alunos. Alunos que passam sucessivamente com notas “votadas”, chegam a certa altura do percurso escolar, e já não conseguem bases para se entender com matérias mais adiantadas.
Além disso, a grande facilitação nas passagens de ano – tal como é feita – cria desresponsabilização na massa discente.
Aliás, este foi um óptimo e subversivo processo para evitar os numerus clausus no acesso às Universidades… Ficam pelo caminho…
2.2- Não há lugar, nem tempo, para um ensino tão personalizado quanto necessário; pois o número de alunos por turma é excessivo. Além disso, com a facilidade de acesso à Internet, e professores sem tempo disponível para prestarem a devida orientação aos alunos, mais se acentuam a desresponsabilização e o facilitismo.
2.3- Nem alunos nem professores têm tempo para respirar, com a organização de horários tal como está: reponham os intervalos, dêem tempo às crianças para correr e brincar, e aos Professores para respirarem fundo (ao menos, de vez em quando)….
2.4- As aulas de recuperação pouco recuperam. Não é por fazer marrar num mesmo assunto que o aluno aprende. Aliás, isso só acentua o sentimento de incapacidade da criança… Além disso, as aulas de recuperação costumavam começar apenas no 2º período. Uma hora (ou duas) por semana! Juntando um punhado de crianças de várias turmas! É preciso que alguém entenda que há elementos essenciais que faltam nas nossas escolas: criatividade, alegria e respeito. Criatividade – aprendizagem, e prática, das Artes – Música, Artes Plásticas, Escrita Criativa, Expressão Corporal / Dramatização / Teatro. Educação Física com seriedade e não aulas em pavilhões onde funcionam duas ou três turmas ao mesmo tempo. Contando-se com a realidade de que a maioria dos alunos depois frequentará Clubes desportivos…
2.5.- Outra coisa que falta no nosso Ensino: O respeito pela classe docente. É gritante! Os Professores têm direito ao respeito do País! Do País, e dos Governos! São os Educadores das gerações do Futuro! São os próprios governos (o patrão) quem os desrespeita, quem os põe em situação de déficite de prestígio perante o País todo.
Por último:
É comovente ver que finalmente alguém descobre que os chumbos são uma injustiça para com os alunos de classes desfavorecidas! E esta cláusula é a mais grave de todas: Augura-se que a facilitação irá crescer…
Conclusão:
Tem que haver um sério investimento no Ensino:
Ou seja
1- O Ensino tem que ser encarado como um ponto chave no desenvolvimento do País!
2- O Ensino não pode ser encarado com hipocrisia.
3- O Ensino, tal como a Saúde Pública, não são para darem lucros nem dividendos. Nestes dois campos, tem que se investir sem as limitações economicistas do costume.

Myriam Jubilot de Carvalho

Publicado em 22 de Novembro de 2018

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Travessia

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 2:19 pm

Travessia
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O Rio, o meu Rio maravilhoso,
reflecte o céu.
Hoje o meu mundo vai cinzento
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Nem as nuvens
nem o vento
impedem de velejar
o ‘snipe’ de velas brancas
E o cacilheiro
cumpre a sua rota
ronceiro e franco
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Do lado de lá da ponte
no poente
brilha o céu

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À maneira de FINDA:

“Não pensem por eu cantar

Que a vida alegre me corre

Eu sou como o passarinho

Tanto canta até que morre”

E fujo à cinza do dia

com a luz da Poesia

© Myriam Jubilot de Carvalho

2 de Novembro de 2018

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NOTA – A quadra popular pertence ao Cancioneiro de Serpa

…mas o seu link é tão longo que nem me atrevo a transcrevê-lo aqui…

Fica no entanto a minha homenagem a(os) Professores que organizaram esta maravilhosa recolha com as suas Crianças!

…E o passarinho, como já é do conhecimento geral,

transpôs o Tempo e acaba de chegar de Pompeia

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Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 3 de Novembro de 2018, pelas 14h 50m

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