Tolerância ou Igualdade

* Notas Breves — Myriam de Carvalho @ 2:41 pm

TOLERÂNCIA ou IGUALDADE

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Ontem, a propósito do casamento principesco, falou-se de TOLERÂNCIA. Pessoalmente, não uso nunca esta palavra. A meu ver, exprime um conceito de superioridade, da parte de quem a utiliza.

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Tenho-me questionado se a utilização da palavra não resultará de alguma má tradução do Inglês. Mas não estou enganada. O Cambridge Dictionary dá-nos esta definição:

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The quality of allowing people to do or believe what they want even though you do not agree with it

https://dictionary.cambridge.org/dictionary/english-portuguese/tolerance

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Assim, confirmo que TOLERÂNCIA é uma permissão: Alguém PERMITE que outrem tenha opiniões e práticas sociais, religiosas ou políticas, diferentes.

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O termo-conceito de ‘tolerância’ tem-se vulgarizado para referir as relações ‘inter-raciais’ e inter-religiosas. E reparo que muitas vezes, até os Budistas o utilizam.

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Este termo exprime um preconceito, e incomoda-me sobremaneira.

O direito de PERMITIR – seja o que for – pressupõe que há alguém que, por qualquer razão, se sente em posição de superioridade. E então, deixa que o Outro se comporte diferentemente.

Sociologicamente, será o grupo dominante – o grupo mais forte – quem detém esse direito.

Dominante, por razões históricas. Na cultura Europeia, a História demonstra-nos que o Europeu desbravou o Mundo à procura de riquezas e de mão-de-obra – não propriamente barata, mas gratuita.

Para o efeito, criou um conceito perverso – a pele branca (que por acaso até não é branca, mas mais ou menos rosada, mais ou menos morena, conforme as hereditariedades e as latitudes) – seria sinónimo de inteligência, saberes, religião, força, e poder, superiores.

…E viu-se a multidão de desgraças que daí decorreram durante séculos – e continuam a decorrer.

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Quanto mais me documento sobre a História da Humanidade, mais me congratulo por constatar que a Humanidade é Mestiça desde os seus primórdios. E dessa miscigenação todos guardamos um pouco no nosso ADN. Quanto mais recentes os exames genéticos aos achados arqueológicos, mais provas existem dessa fusão. E ela continuou a acontecer, ao longo dos tempos.

Logo, pretender que uns são superiores a outros, denota ou desconhecimento, ou sentimentos que me escuso de classificar.

Pessoalmente, no meu uso quotidiano, nunca uso a palavra em questão. Prefiro o conceito de IGUALDADE, que por definição implica o seu correlativo – o RESPEITO mútuo (entendido como Lealdade, Honestidade) – pois esses é que podem operar os milagres da convivência e da harmonia entre povos e países, abolindo a opressão, a exploração, e as guerras.

Ou então, andaremos todos a ‘tolerar-nos’ uns aos outros, considerando intimamente que o ‘lado bom’, o lado da única verdade, é apenas o nosso…

© Myriam Jubilot de Carvalho

20 de Maio de 2018

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Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 20 de Maio de 2018, pelas 15h 40m

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“A verdade tem duas caras”

* Antologia,* Notas Breves — Myriam de Carvalho @ 10:55 am

 

Ontem, de um lado, celebraram 70 anos da fundação do estado de Israel…
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Do outro lado, lamentaram 70 anos de ocupação da Palestina…
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O colonialismo é sempre igual, procede sempre com a mesma crueldade, seja onde for…
…E condena sempre aqueles que com razão se revoltam

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A verdade tem duas caras

e a neve é negra 
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A verdade tem duas caras e a neve é negra na nossa cidade.

Já não somos capazes de desespero como antes, e o fim caminha para

a muralha, com passos firmes,

sobre este azulejo molhado de lágrimas, com passos firmes.

Quem baixará as nossas bandeiras: nós, ou eles? E quem

nos lerá “o acordo de paz”, ó rei da agonia?

Tudo está preparado, quem arrancará os nossos nomes

da nossa identidade: você ou eles? E quem semeará em nós

o discurso da arrogância: “Não conseguimos romper o cerco,

entreguemos as chaves do paraíso para o ministro da paz, e salvemo-nos…”

A verdade tem duas caras, o lema santo era uma espada para nós e

sobre nós, e então o que você fez do nosso forte antes desse dia?

Você não lutou porque temia a morte, mas o seu trono é um caixão,

carregue então o seu caixão para salvar o trono, ó rei da espera.

Esta paz fará de nós um punhado de pó….

Quem vai nos enterrar os dias depois que tivermos ido: você ou eles? Quem

levantará as bandeiras deles sobre as nossas muralhas: você ou

um cavalheiro sem esperanças? Quem pendurará os sinos em cima da nossa partida:

você ou um guarda miserável? Tudo está preparado para nós,

então por que delonga a negociação, ó rei do agonia?
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Mahmud Darwish ou Mahmoud Darwich
(Al-Birweh, 1942 – Houston, 2008),
Poeta e escritor palestino. A vila em que nasceu foi inteiramente arrasada pelas forças de ocupação israelenses, em 1948, durante a Nakba, e a família do poeta refugiou-se no Líbano, onde permaneceu por um ano. Voltou clandestinamente ao seu país e descobriu que o vilarejo onde nasceu fora substituído pela colônia agrícola israelense de Ahihud. Mahmoud Darwish foi preso diversas vezes entre 1961 e 1967, e a partir da década seguinte passou a viver como refugiado até ser autorizado a retornar à Palestina, para comparecer a um funeral, em maio de 1996. Darwish é o autor da Declaração de Independência Palestina, escrita em 1988 e lida pelo líder palestino Iasser Arafat, quando declarou unilateralmente a criação do Estado Palestino. Membro da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), afastou-se do grupo em 1993, por discordar dos Acordos de Oslo. Darwish é considerado o poeta nacional da Palestina. Seu trabalho foi traduzido em mais de 20 línguas.
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Poema e biografia retirados de:
ZUNÁI – Revista de poesia & debates

http://www.revistazunai.com/editorial/23ed_mahmouddarwish.htm

A foto do Poeta é retirada de:

 

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Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 15 de Maio de 2018, pelas 11h 40m

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Quinta-Feira da Espiga

* Notas Breves — Myriam de Carvalho @ 9:19 pm

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Quinta-Feira da Espiga e o folclore cristão

“Se chover na Quinta-feira da Ascensão, as pedrinhas darão pão.”

Da Páscoa à Ascensão,40 dias vão.”

Quem tem trigo da Ascensão, todo o ano terá pão.”

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Será que hoje foi Quinta-feira da Espiga?
Como a vida urbana nos afasta de todas estas tradições… Era bonito, pela ingenuidade – o ramo de flores campestres devia incluir as espigas, e devia ser guardado de um ano para o outro, para garantir o pão nosso de todos os dias, durante todo o ano.
Mesmo em Faro, uma cidade, nos idos anos 60, quando a cidade ainda não se tinha expandido demasiado, muita gente ia para os lados do Rio Seco, apanhar o raminho de espigas e papoilas.
Algumas vezes fui, com a minha Tia Lucinda.
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Lembro-me de uma vez, em Alte, algures nos anos 50, o Sr. Prior, todo paramentado como era próprio do seu brio, todo solene, no fim da missa, ter ido ao adro abençoar meia-dúzia de camponeses e pequenos lavradores, envergonhados e tímidos no seu jeito muito humilde, porventura sinal de que estariam meio contrariados, que foram ao adro com ovelhas e alcofas de frutas, espigas e alecrim…
Claro que não era a fé espontânea das pessoas. Era tudo organizado. Quem organizava é que já não sei…
Alte maravilhosa, cheia de tradições pura, genuína e ingenuamente pagãs, mergulhava na noite dos tempos das grandes celebrações da Natureza. O resto, as missas e as bênçãos, sei-o hoje, isso é que era o folclore.
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Aqui guardo o meu raminho… que não colhi no campo, mas na Net…
O raminho devia ficar pendurado à cabeceira da cama, de um ano para o outro! Quem fazia isso, era a Prima Madureira, a Velha Prima, como eu cruelmente a referia… Até ficava lá muito bem, embora eu o olhasse com a minha superioridade de intelectual… Uma intelectual, sei-o hoje, bastante ignorante…

Os componentes do raminho continham o seu simbolismo

Retiro estes significados, bem como o raminho acima, da página 

= 5 espigas » garantia que não faltasse o pão

= 5 malmequeres amarelos » ouro e prata (garantia de que não faltasse o dinheiro)

= 5 malmequeres brancos » significavam a paz

= 5 papoilas » amor, e vida

= um pezinho de oliveira » azeite e luz (antigamente, o azeite era usado nas candeias, era a iluminação doméstica nocturna nas habitações modestas)

= um pezinho de videira » vinho e alegria 

= um raminho de alecrim » significava saúde e força

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Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Quinta-Feira, 19 de Maio de 2018, pelas 21h 58m

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