Os HAIKAI de Silvya Gallanni e o sentimento da Natureza

* VuJonga Textos Edição de Autor/a — Myriam de Carvalho @ 1:31 pm

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Os HAIKAI de Silvya Gallanni e o sentimento da Natureza

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© Myriam Jubilot de Carvalho

Outubro de 2017

O ser humano nasceu em contacto com a Natureza e o seu eterno devir ora acolhedor, ora agreste. Parece que no seu acordar conceptual, o ser humano encontra nela o seu espelho – um espelho ora aconchegante, ora quebrado – mas sempre um desafio à reflexão –

= a reflexão baseada no concreto objectivável – as narrativas contando um facto, ou as análises fenomenológicas,

= ou a reflexão abstracta, onde além da Filosofia incluiremos a Poesia como reflexo e análise dos sentimentos, e incentivo às diferentes formas de convívio, quer intelectual, quer ritualizado.

Esta ligação à Natureza tem acompanhado o evoluir das sociedades e tem-se adaptado às diferentes formas que a evolução da Cultura tem assumido ao longo dos tempos. E continua na nossa actualidade tão marcada pelo domínio da tecnologia. Assim como o homem primitivo riscava dois seixos para desferir uma faísca sobre alguns gravetos secos, e assim ocasionar a chama que lhe cozinhava os alimentos e o aquecia, assim, hoje, precisamos do contacto com a Natureza para respirar o ar puro que nos inebrie o espírito e nos liberte da corrida contra o tempo com que a nossa época comanda os nossos dias. A Poesia proporciona-nos a sublimação dessa necessidade e desse encontro.

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Os Haikai de Silvya Gallanni propiciam-nos um encontro estético com a Natureza. Através da brevidade e concisão dos HAIKAI, construção poética em tercetos, de origem japonesa, muito cultivada no Brasil, Silvya Gallanni dá asas ao chamado “sentimento da Natureza”, captando muitos dos diferentes aspectos em que ela se nos apresenta ou os sentimentos que em nós desperta, em instantâneos fotográficos, ou não seja a autora igualmente uma apaixonada fotógrafa. Nos HAIKAI de Silvya Gallanni, a Natureza ganha alma, identificando num mesmo enunciado o sujeito (Eu poético) e os elementos naturais:

Chorando nuvens // Nas árvores pássaros // Chuva outonal – pág 42;

Choram as rosas // Caem do céu lágrimas // Espinho que doe – página 46.

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Através dos Haikai reunidos em “Fragrâncias Poéticas”, lemos a Natureza nas suas variadas manifestações, quer radiosa –

Rosas brotando // Juvenil primavera // Suave odor (pág 28)

– quer perturbada pelas condições atmosféricas

Desagua céu // Relâmpagos e trovões // Noite sem luar (pág 46)

– quer perturbada pela acção humana, pois não falta nestes instantâneos a reflexão ecológica e sociológica

Mundo chorando // Poluição matando // Acorda Terra! (pág 36)

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Para Silvya Gallanni, a Natureza, dadivosa das suas benesses, mesmo quando agreste, é sempre um Locus Amoenus – o cenário feliz –, o espelho, confidente ou contrastante do Eu Poético ou da relação amorosa.

Por outro lado, nestes tercetos, nós, europeus, sentimos a presença da brasilidade da sua autora. Por eles ouvimos e vemos o canto e o voo das aves tropicais (colibris, sabiás, maritacas, graúnas, bem-te-vi); admiramos os mamíferos que nós, europeus, só podemos ver no jardim zoológico (macaco, pág 24). Temos as árvores (as florestas, pág 19; coqueiro verde, pág 27), as flores do seu país natal (orquídeas, pág22), os frutos (bananas, pág 24). Encontramo-nos com o maravilhoso luar do sertão (pág 30). Evidentemente, também, com a presença dos Índios:

Águi-Real // Silenciosa voa // Alerta Pajé (pág 43)

E encantamo-nos com a magia das coisas simples

Dedilho papel // Pássaros primaveris // Dia de prosa (pág 27)

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Também na linguagem está patente o testemunho da sua origem geográfica. Um caso de pronúncia típica do Brasil está registado na rima céu / mel (pág 44). Ocorre uma reminiscência do Português arcaico (avoando, pág 25). Naturalmente, surgem vocábulos específicos como grama (=relva, pág 35), garoa (pág 37)… São, no entanto, mais numerosas as construções frásicas muito próprias desse Português em processo de afastamento do português europeu (Nado em você, pág 43)

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Para além do que fica dito, Silvya Gallanni não se cinge a praticar os Haikai numa perspectiva estritamente ortodoxa. Inova, fá-los evoluir – dá-lhes um título, e uma data. Na página 50, figura uma série de cinco tercetos encadeados pelo sentido, formando um poema com unidade.

Um outro aspecto inovador, são os seus “Haikai Invertidos”. A partir da página 53, Silvya Gallanni convida-nos para um passatempo delicioso: inverte a disposição gráfica dos tercetos, intuindo-se como as palavras dependem umas das outras e como mudam de sentido conforme as circunstâncias!

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Gota a gota                                     Chove lá fora

Embalando os sonhos                     Embalando os sonhos

Chove lá fora                                   Gota a gota                              (Pág 53)

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Por último, registaremos um pormenor importantíssimo, que demonstra o papel fundamental das redes sociais no nosso tempo:

Silvya Gallanni descobriu-se como poetisa ao publicar no site brasileiro Recanto das Letras, onde recebeu incentivo dos seus inúmeros leitores e leitoras, demonstrando-lhe como apreciavam a sua produção poética. No fim desta colectânea, a autora homenageia com gratidão os criadores do site, e todos quantos a incentivaram.

Tal como eu, hoje, homenageio a minha Colega e Amiga que tanto estimo e aprecio, com este meu texto. “Brasil aplaude” (pág 22). E nós também!.

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Foto, no dia do lançamento.

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Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 12 de Fevereiro de 2018, pelas 13h 30m

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Lançamento do Nº 2 da revista de Poesia, Cintilações

* Notícias e Entrevistas — Myriam de Carvalho @ 11:08 am

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Revista Cintilações – Nº 2

O lançamento deste número da revista Cintilações será já no próximo Sábado,

pelas 16h, na Livraria Leituria

R. Dona Estefânia, 123,A

– em Lisboa –

Retiro esta informação do FB, da página de Victor Oliveira Mateus:

“INFORMAÇÃO:
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Poderão encontrar à venda (ou encomendar) os exemplares da Revista Cintilações, bem como os outros livros com chancela da Labirinto, nos seguintes locais:
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Leituria, Rua Dona Estefânia, 123 A, 1000-150 Lisboa.
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Livraria Poetria, Rua das Oliveira, 72 Loja 12, 4050-448 Porto.
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Livraria Miguel de Carvalho, Adro de Baixo, 6, 3000-420 Coimbra.
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Livraria Centésima Página, Avª Central, 118-120, 4710-229 Braga.
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Têm ainda à vossa disposição os seguintes emails, para envios sem pagamento de portes:
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revistacintilacoes@gmail.com
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editoralabirinto@gmail.com

Nota: o Site “Revista Cintilações” e a Página do Facebook com o mesmo nome passará a indicar atividades ligadas a estes projetos, bem como a iniciativas pessoais dos 16 membros do Conselho Editorial da Revista” (…)

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< “Cintilações – Revista de Poesia e Ensaio”, da iniciativa da editora Labirinto e do Núcleo de Artes e Letras de Fafe, teve o seu primeiro número (correspondente a Setembro) lançado na tarde de 1 de Outubro, na Livraria Pó dos Livros, em Lisboa.Coordenada pelo poeta e ensaísta Victor O. Mateus, (…)
A publicação sucede às três edições da colectânea de poesia “Cintilações da Sombra” (2013-2015), também apoiadas pelo Núcleo de Artes e Letras de Fafe.
Um novo rumo, que inclui o ensaio e a colaboração de poetas de língua portuguesa e latino-americana.>
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Publicado por
Myriam Jubilot de Carvalho, 
Dia 6 de Fevereiro de 2018, pelas 11h
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