Marc Chagall, mais uma vez

* Estudos e Comunicações — Myriam de Carvalho @ 10:05 pm

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Visita à exposição das Madonas

= no Museu de Arte Antiga, no dia 30 de Julho de 2017.

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1- Descrição do quadro

Um crucifixo, do lado esquerdo da tela, no primeiro plano. Ocupa toda a margem esquerda do quadro, desde a base até quase ao topo.

O crucificado é um homem, e está nu da cintura para cima. Só lhe vemos o braço esquerdo. Mas o braço da cruz, onde o braço do homem deveria estar pregado, mal se distingue.

A cabeça do homem pende, à semelhança das representações da morte de Jesus Cristo.

Em fundo, uma cidade em chamas.

Figura central – uma mulher amamenta o filho que traz ao colo. À maneira tradicional, a mulher usa um lenço na cabeça. O lenço é azul.

O seu olhar dirige-se para o lado direito (do espectador), para alguma coisa que, de fora do quadro, lhe prendeu a atenção.

A figura da mulher emerge de um rio em torrente.

No canto inferior direito, emerge uma cabeça de um animal de certo modo parecida com a cabeça de um burro.

A cabeça do animal ergue-se, azul, com expressão angustiada, a boca aberta de ansiedade.

Tem nas mãos um livro aberto.

O quadro data de 1943.

Figura no Museu do Vaticano, na colecção de Arte Religiosa Moderna.

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2 – Interpretação

São três os primeiros pormenores que me chamam a atenção:

= a cabeça azul do burro

= a cidade em chamas

= o rio em corrente torrencial, arrastando a mulher com o seu filhinho.

Então, quanto a mim, a cidade em chamas, como pano de fundo, é o tempo da II Guerra Mundial. E, por extensão, de todas as guerras.

A desgraça arrasta as pessoas numa torrente invencível, mesmo as pessoas inocentes, simbolizadas na mãe que amamenta a criança.

O burro, com a sua cabeça azul e um livro nas mãos, simboliza o Saber, seja científico, seja humanístico. O seu olhar é angustiado porque as pessoas de Saber, e de Bem, não podem opor-se à torrente.

A cabeça azul faz-me pensar na representação de Shiva: Shiva é todo azul porque engoliu todo o sofrimento do Mundo, para salvar a Humanidade. Também no período da Arte Nova, ainda marcada pelo Decadentismo, a Morte é representada em tons de azul mais ou menos desvanecido.

Mas esta representação é mais trágica que a de Shiva, pois neste mundo em catástrofe não há salvação.

Quem será o crucificado?

Por um lado, será toda a Humanidade, que por sinédoque (variante da metonímia) designamos simplesmente como “o Homem”. Por outro lado, será simultaneamente o próprio Autor, dentro do quadro. Ele, na sua sensibilidade, está aniquilado, e impotente, pois sente-se nas mãos de quem promove a destruição de vidas e bens.

Há ainda um outro pormenor:

O olhar. Tanto o do burro, como o da mulher. Olham em direcções desencontradas. As pessoas eruditas e as pessoas simples não olham na mesma direcção. E isso é um abismo. Que nos abrange a todos.

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3 – Conclusão

O quadro devia chamar-se Impotência.

Os responsáveis pelo museu do Vaticano, certamente, incluiram-no na colecção de arte religiosa moderna porque não se deram ao trabalho de pensar, de interpretar, e ficaram-se pelas aparências… Viram um crucifixo, uma mulher a amamentar, e pensaram: “Este judeu é dos nossos”. E adquiriram o quadro.

Na verdade, o Pintor usou o crucifixo livremente, como um símbolo, tal como usou outros símbolos tanto da tradição cultural europeia como de outras tradições culturais. O quadro exprime um sentimento de profundo desgosto e profunda impotência. E é também uma acusação. Os nossos destinos não estão nas nossas mãos, mas sim nas de quem promove a destruição, seja qual for a época e sejam quais forem a forma e o meio. Perante a loucura da destruição, ninguém consegue sobreviver, e nós, os artistas, os criadores – artistas ou cientistas – não podemos criar. Poderíamos contribuir para o progresso da Humanidade! Mas de facto não podemos fazer nada. Ou pior ainda, qualquer contributo que possamos dar para o Progresso será aniquilado pela Barbárie, como diria Edgar Morin.

O significado do quadro é pois profano, universal e intemporal.

© Myriam Jubilot de Carvalho

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Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 31 de Julho, pelas 23h.

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