Invocação à brisa da tarde

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 7:37 pm

Continuando a organizar os meus papéis, encontrei este poema.

Data de Junho de 1999, uma época muito difícil da minha vida, que marcou o tom da minha escrita de então.

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Invocação à brisa da tarde

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Lancheira às costas,

cantil de água pura do Luso a tiracolo

sempre disponível, sempre à mão.

Chapeirão de abas largas

e roupa ampla, de algodão suíço

– que a transpiração não arrefeça sobre o corpo

.

Avançando pela arenosa ravina

que faz, de vez em quando, derrapar o tosco “jeep”,

ladeiam-me, imponentes e austeras,

arborizadas de espessos pinheiros por onde

enrodilhado o Sol penetra,

as sinuosas dunas.

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Eu sei que para além se estenderá o mar!

Que bastará largar o “jeep” e palmilhar

a pé

o escorregadio intervalo entre a falda e o cume –

que por mim terei as sombras que dispensam

o incómodo chapéu.

.

Haverá mais doce apelo que esta brisa?

Que este salso e húmido aroma

que o cavo e bravio eco do mar nos meus ouvidos eterniza

e incentiva a não desistir nem descansar?

.

Eu sei que para além se estenderá o mar!

Que vai bastar abrir o coração para o abraçar!

Meu coração descalço e sem abrigo,

magoado dos cardos, das carumas, e dos perigos.

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A ti invoco, doce brisa da tarde –

por quem meu coração se incendeia e arde.

Quero eu chegar ao topo das imponentes dunas,

obstáculos intransponíveis de dores inoportunas…

.

Eu quero chegar além, donde se avista o mar!

Essa imensa faixa azul onde

se estende a estrada dourada do poente,

crispada pela arisca brisa da tarde.

© Myriam Jubilot de Carvalho

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© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 23 de Julho de 2017, pelas 20h 35m

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