Clássicos de outros tempos – Ibn Jafáya

* Alandalus,* Antologia — Myriam de Carvalho @ 5:58 pm

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Ibn JAFÁYA


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Ibn Jafáya (1058-1139) foi um dos maiores poetas do Al-Andalus.
Era natural de Alzira, na taifa de Valência, na época Almorávida.

Em certa medida, foi contemporâneo de Mio Cid (1040-1099).
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Ibn Jafáya: chamaram-lhe “o jardineiro” por tão bem cantar e descrever flores e jardins.
O seu estilo era tão admirado que influenciou manifestamente os poetas da sua época e seguintes.
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Encontram-se no You Tube, poemas seus, musicados.
E também basta um breve recurso à Net para se encontrarem traduções de poemas da sua autoria.
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Tento aqui uma versão, em português, de um pequeno poema:
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“Que felicidade a vossa, ó gentes do Al-Andalus!
Essas sombras ridentes, os regatos sonolentos,
esses rios, essas folhagens, esses lugares abençoados –
todos trazendo à nossa terra os jardins do Éden.
Pela sua excelência, seria esta a região que eu escolheria.
Não vos assusteis, amanhã, de entrar nestas terras de calor:
Nem o paraíso esmoreceria perante tanta incandescência”
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“Le Chant d’al-Andalous” – une anthologie de la poésie arabe d’Espagne.
Édition bilingue.
Traduit de l’Arabe (…)
Éd. Sindbad – 2011
ISBN 978-2-7427-9518-5
– página 181
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Publicado aqui, e igualmente no FB, por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 20 de Maio de 2017, pelas 19h

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A Tenda Vermelha – notas a partir do filme

* Notas Breves — Myriam de Carvalho @ 1:23 pm

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Filme “A Tenda Vermelha” (The Red Tent)

Canal SIC, sessão Hollywood; tarde de sábado, 14 de Maio de 2017

O filme “A Tenda Vermelha” baseia-se no romance com o mesmo título, de Anita Diamond (jornalista e escritora norte-americana, nascida em 1951).

O enredo tenta reconstituir o que teria sido a vida das mulheres nos tempos bíblicos. Para isso, recorre à vida das esposas e concubinas de Jacob, e seus filhos e filhas, numa história engenhosamente bem urdida.

O que é interessante notar, no entanto, é a encenação cinematográfica. A história situa-se no período dos Patriarcas bíblicos, quando ainda pastoreando na Mesopotâmia. Qual teria sido o aspecto das pessoas desse tempo? Como teria sido o aspecto da Humanidade há cerca de 7000 anos – uns 5000 aC + 2000 dC, perfará sensivelmente uns 7000 anos.

Sabe-se, pelas reconstituições a partir de restos arqueológicos de ADN encontrados em escavações, que o aspecto dos europeus seria bastante escuro. E que teria clareado progressivamente, pelo aporte de genes presentes no ADN dos habitantes do Médio Oriente, à medida que a mestiçagem ia acontecendo.

Mas seriam esses nossos semelhantes da Antiguidade oriental, de pele tão clara como se mostra no filme? Pessoas que vivam ao ar livre, sob o sol dos oásis, que habitariam em tendas?

A minha interrogação vem do pormenor interessante de que o nome de Labão, o sogro de Jacob, quereria dizer “branco”. Ora, sendo “branco” um adjectivo, referir-se-ia a um aspecto particular que só faria sentido pelo contraste com o dos seus semelhantes… “Labão” = “branco” seria provavelmente uma alcunha. Teria ele alguma doença de pele, seria albino…? Fosse como fosse, o seu aspecto sobressairia do contexto geral do dos seus contemporâneos, senão, qual a razão que nos explique esse nome-alcunha?

No filme, só as concubinas mostram alguma leve mestiçagem, tendo aliás participações pouco relevantes.

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Tudo isto nos leva a pensar, mais uma vez, em como se forma a opinião pública. São-nos fornecidas imagens muito belas, muito bem escolhidas, e por isso com força bastante para coincidirem com os preconceitos existentes em relação a questões pendentes sobre identidade e racismo.

As personagens boas são “brancas”; os malvados irmãos de José, são muito morenos, atarracados, deselegantes e grosseiros.

Claro que o príncipe que casa com Dinah é um belo e esbelto moreno… de pele clara… E já agora, de corte de cabelo um pouco à maneira dos anos 50…

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Gostei do filme. Gostei da história bem urdida dando vida a personagens lendárias, tentando reconstituir o quotidiano de tempos tão remotos.

Mas recordando outros filmes sobre a Antiguidade, como por exemplo – “Cleópatra”, de Mankiewicz (1963), ou “Alexander the Great”, de Oliver Stone (2004), em que a norte-africana Cleópatra é a bela Elizabeth Taylor, ou o grande guerreiro Alexandre Magno é Colin Farrell e sua mãe é Angelina Jolie, fico a perguntar-me se não haveria actores cuja aparência não pudesse ser mais autêntica…

A minha ideia é que é preciso familiarizar o grande público com o conceito de que a Humanidade é esse arco-íris de fenótipos variados, uma imensa tenda onde todos podemos – e devemos – celebrar uma existência de fraternidade. E mais – que a “inteligência” não é dom exclusivo dos europeus e seus descendentes espalhados pelo mundo… Pense-se por exemplo nos grandes diques construídos no Reino de Sabá, pense-se nas grandes construções dos Egípcios, dos Persas… Pensemos em regiões para nós muito mais remotas, como por exemplo a China Antiga. Em épocas mais recentes, lembremos as grandes construções do Zimbabwe… Os construtores dessas civilizações não estiveram à espera que os Europeus lá chegassem. Aliás, a cultura europeia tem sido altamente destruidora doutras vidas… A dita “expansão” do Cristianismo levou às Cruzadas. Foi mais um entre outros factores, que levou à globalização a partir do século XVI, com a deslocação forçada de imensas populações pela prática da Escravatura. Claro, houve Escravatura desde sempre… E a captura de escravos não incidia apenas sobre as populações africanas, mas também sobre as populações da Escandinávia, nomeadamente da Finlândia – facto menos conhecido. Mas este conhecimento não pode ofuscar a tremenda realidade do número astronómico traduzido em cerca de uns 12 a 13 milhões de deslocados da África para as Américas e Europa. Um tremendo trauma colectivo que travou o normal desenvolvimento das regiões afectadas.

Ainda recentemente, os interesses da Europa e seus continuadores, os EE UU, levaram à destruição do equilíbrio do Médio Oriente (agora diz-se “Próximo Oriente”) e do Norte de África, com as consequências desumanas que conhecemos e a deslocação de refugiados em massa.

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A Arte não é inócua! Cabe-nos a todos os criadores uma tremenda responsabilidade. Cada criador tem que dar o seu contributo à mudança de mentalidades, tendendo a um mundo melhor!

Claro que a Arte tem que ser livre. Mas essa liberdade não é incompatível com o rigor da investigação histórica, nem com os dados sociológicos. Claro que eu não ignoro que em todas as actividades se juntam os interesses económicos e comerciais… Mas tem que haver rigor nas nossas escolhas.

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Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 17 de Maio de 2017, pelas 14h 20m

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