Racismo e Linguagem

* Educação e Criatividade,* Estudos e Comunicações — Myriam de Carvalho @ 10:25 pm

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Notícia do MSN,

dia 11 de Agosto de 2016:

http://www.msn.com/pt-pt/desporto/olympics-modalidades/campe%C3%A3-atira-se-aos-racistas-macaco-saiu-da-jaula-e-foi-ganhou-o-ouro/ar-BBvvKMS?li=BBoPWjC&ocid=mailsignout

Campeã atira-se aos racistas: “Macaco saiu da jaula e foi ganhou o ouro”

A judoca Rafaela Silva, que conquistou na segunda-feira a medalha de ouro em -57 kg, categoria em que Telma Monteiro arrecadou o bronze, levantou na quarta-feira voz contra o racismo e a discriminação.

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A atleta brasileira, uma mulher negra, lésbica e oriunda de uma favela, deu a cara numa campanha contra o racismo no desporto.

“Estou muito feliz por estar a realizar o meu sonho, mostrar às pessoas que me criticaram em Londres [2012], que disseram que eu era uma vergonha para a minha família, que o lugar para o macaco era numa jaula e não nos Jogos Olímpicos”, afirmou a judoca na apresentação da campanha.

Rafaela recorda a infância como uma “menina que não gostava de estudar e que nunca pensou em sair da favela” e incentiva os jovens a procurar motivação e a aproveitar as oportunidades, dando o exemplo da medalha de ouro que agora exibe e que inspira jovens e adolescentes de zonas marginais, não só do Brasil, mas de todo o mundo.

“O macaco que teria que estar numa jaula em Londres, saiu da jaula e foi campeã olímpica aqui no Rio de Janeiro”, continuou a atleta brasileira.

Rafaela lembra que vencer as resistências à condição de mulher numa modalidade como o judo não foi fácil, mas a seleção feminina brasileira deu grandes passos e conta já com medalhas de ouro olímpicas e cinco em campeonatos mundiais.

A atleta assumiu-se também como uma feminista: “Estamos a conseguir conquistar o nosso espaço e temos que aproveitar isso, porque temos ficado muito tempo esquecidas e espero que outras mulheres possam ter esta iniciativa, continuar o legado e que o feminismo cresça no Brasil”.

Para a secretária brasileira de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), Luislinda Valois, os feitos da população negra são o resultado de “muita luta, muitos sacrifícios, muitas mortes e sofrimento”, um país onde 52 por cento da população é negra.

Os Jogos Olímpicos são um “grande espelho” e “uma oportunidade extraordinária”, disse Valois.

Rafaela Silva ainda acrescentou: “Geralmente, quando sai um tema acerca da raça negra é só para falar de que um negro assaltou alguém. Agora não é um negro que está a assaltar alguém, mas sim a dar uma alegria ao povo brasileiro.”

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Meu comentário, que publiquei no FB…

Só um pormenor está aqui desadequado:

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Não somos “brancos” nem “negros”, pressupondo-se que essa designação aponta para uma diferenciação velhinha como o Matusalém: que uns serão “superiores” e outros “inferiores”. Nunca é demais reafirmarmos que pertencemos, todos, à mesma Espécie Humana, e que temos que ser vigilantes connosco próprios, e reconvertermos o nosso vocabulário!
Porque as diferenças que possam existir, para além de questões de hereditariedade e de genética, tanto podem existir na população europeia, como na população de origem africana. E são consequência das diferentes condições sociais:
1º Primeira e mais importante: uns têm alimentação condigna desde que nascem e outros não;
2º Com má alimentação, o aproveitamento escolar é, em muitíssimos casos, (natural e forçosamente) inferior;
3º Onde não há hábitos de estudo e de esforço intelectual por parte dos pais, não há ‘modelos’ que estimulem os estudantes; embora, felizmente, haja excepções;
4º Numa habitação sem condições de sossego e higiene, como estudar?
5º Se mesmo com a escolarização básica conseguida em circunstâncias aceitáveis, permanece grande iliteracia e ausência de consciência social e as pessoas ficam tão sujeitas aos efeitos das propagandas disto e daquilo, como não será a escolarização nas favelas, nos bairros periféricos? Claro que há excepções. Há tempos, a comunicação social mostrava o menino que estudava à luz dos lampiões de iluminação pública… Então, comovem-se os corações, e toda a gente quer dar bolsas de estudo!
6º E depois há a questão crucial da Linguagem! Os alunos das favelas ou dos bairros periféricos não usam a linguagem da escola… O seu vocabulário é consideravelmente mais limitado, ou diferente. Assim, não descodificam a informação com a mesma naturalidade que os alunos urbanos… Ou seja, a descodificação não acompanha o débito da informação.
Um aparte:
Foram as dificuldades de comunicação, devidas ao diferente domínio da Linguagem ‘padrão’, que propiciaram, em grande medida, o Colonialismo e a convicção de que o nativo colonizado era de inteligência inferior à do colono…
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É para mim sempre motivo de reflexão, ver o número de atletas ou jogadores de futebol de origem africana, e o último jogo do Europeu foi um exemplo flagrante:
E fico a pensar:
Se estes jovens têm uma inteligência tão dinâmica, e rápida, para analisarem as necessidades do jogo e as movimentações necessárias com esta velocidade, como não seriam notáveis e criativos, se tivessem seguido uma carreira científica, ou literária, ou outra?…
Recordo sempre o capítulo “Descobridores de Génio”, pág 251, da obra “As minhas estrelas negras” (e lá caímos nós outra vez no tremendo adjectivo…) – de Lilian Thuram (Tinta da China, 2013)
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Os meus parabéns à campiã de judo Rafaela Silva, ” a menina que não gostava de estudar”… E que orientou a sua inteligência e todas as suas capacidades para aquilo que conseguiu fazer tão excepcionalmente bem – dominar a revolta, a agressividade, e orientá-las para uma finalidade onde finalmente conseguiu tão grande êxito!

 

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… e o meu Amigo, a quem agradeço a atenção, Doutor Mphumo João Craveirinha acresentou:

A contundente ironia da resposta dessa campeã brasileira de judo, Rafaela Silva, revela uma forma descomplexada e empírica de verbalmente devolver o insulto com o mesmo insulto. Muito psicológico e elevado para certas cabecinhas de raciocínio de ervilha.

Isto é…o que vem no antigo testamento judaico também adoptado por cristãos e muçulmanos – do ‘olho por olho…dente por dente’ tem sido uma constante no dia-a-dia deste mundo. Foi assim que essa campeã brasileira terá crescido para sobreviver… num país construído sobre o esforço do ‘transplantado’ escravo africano e do extermínio dos guaranis (‘ameríndios’) e afins.

Os descendentes dos imigrantes europeus oitocentistas acentuariam essa clivagem estereotipada ainda que se miscigenando com outros. O resultado dessa mestiçagem resultando num clareamento de cor de pele terá induzido em miopia daltónica social.

Por outro lado, quem nunca sofreu na pele esses preconceitos estereotipados jamais poderá compreender… exceptuando alguma pessoa de espírito elevado, sensível e lúcido, como a poetisa e estudiosa portuguesa, Myriam Jubilot de Carvalho, e outras pessoas, que se indignam contra estas discriminações estúpidas.

Mesmo não concordando com essa estratégia de denunciar o racismo ironicamente «assumindo o insulto» para o devolver numa desconstrução sociológica… a cultura a que ela a campeã Rafaela Silva tem tido acesso, não deu para melhor reacção, para além da medalha de ouro.

Ela, Rafaela Silva, é uma sobrevivente numa sociedade ainda de complexos coloniais e super-machistas como a sociedade brasileira onde se vive da dualidade da aparência falsa de ‘branco e negro’ para caracterizar capacidades congénitas…

Na realidade uma falácia científica, pois não existem brancos e negros de cor de pele, e amarelos e vermelhos, e nem raças. Quem estuda pintura figurativa sabe disso também.

O racismo de ‘branco versus negro’ é produto de pressupostos de hierarquização de capacidades construídas através da história num processo contínuo de incapacitação. Tudo para dominação social. O passado nunca deixou de estar presente… faz parte do curriculum das nações.

Porém, sobre essa matéria do racismo, reinará muita imbecilidade na interpretação e compreensão geral, em particular, no modo como certa comunicação social aborda o assunto sem conteúdo formativo.

A questão torna-se também axiomática para quem tem consciência pesada de algum passado recente pessoal ou histórico ainda que negue ser racista. No Brasil e em Portugal, infelizmente, muitos não querem compreender. A cegueira de raciocínio é dramática e viral, por ser muito pobre e redutora nas ferramentas culturais de apoio à lucidez.”

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Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 11 de Agosto, pelas 23h 25m

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