Crónica 29 – A propósito do 25 de Abril de 1974

* Estudos e Comunicações — Myriam de Carvalho @ 10:39 am

Crónica 29, a quarta da série “Poesia no mundo globalizado”.

Jornal Independente de Moçambique – O Autarca,  publicado na cidade da Beira, capital do Centro e das Pescas de Moçambique;

edição de Quinta-feira – 28/04/16, Edição nº 3065 – Página 4/4 |

13116417_10206617727903772_821418752152117199_o

O texto:

Poesia no mundo globalizado (4)

Crónica 29 – A propósito do 25 de Abril de 1974

«Uma vida sob a ditadura» foi o tema do percurso existencial feminino, na obra escrita de Herta Müller (1953 -), escritora romena-alemã. A partir de 1979, seria perseguida pela polícia secreta romena (Securitate), da ditadura do regime político de Nicolae Ceau?escu (1918-1989). Essa ditadura durou de 1948 a 1989.[1] Ditadura, com variantes à esquerda e à direita, é sempre ditadura, com sua pressão sobre o “mainstream”, ou “efeito manada”, como dizem os brasileiros, perseguindo drasticamente os opositores.

A primeira edição literária de Herta Müller seria censurada em 1982. Em 1987 emigra para a Alemanha. A sua obra relaciona-se com a denúncia da opressão, do exílio, a resignação da família, e o Estado. Como se pode verificar, a importância dos poetas, a sua poesia e prosa, atravessa os tempos históricos.

Da antiguidade da Mesopotâmia há milhares de anos, com as suas cantigas de amor [2], à denúncia da opressão das ditaduras do século XX com uma poetisa romena como Herta Müller, ainda que se expressando em alemão e não em romeno, a Poesia marca a sua presença. Em Portugal temos um ‘Zeca’ Afonso (1929-1987) [2] no seu protesto poético de cantor-autor da emblemática «Grândola Vila Morena» da ‘Revolução dos Cravos’ do 25 de Abril de 1974. E, em Moçambique, sem dúvida, a figura incontornável de um José Craveirinha (1922-2003), na sua poética épica, “híbrida”, em português mas de expressão afro-moçambicana, confirmam-nos da importância da POESIA como forma de registo de sociedades em movimento em seus tempos específicos.

Na sua essência, a poesia é fundamental a nível do ensino e da educação, a todos os níveis etários, na formação cívica de consciências políticas de cidadanias inteligentes. (MJdC©)

.

NOTAS

[1] România | http://www.britannica.com/place/Romania

Herta Müller – Biographical | http://www.nobelprize.org/nobel_prizes/literature/laureates/2009/muller-bio.html

[2] A sair na próxima Crónica 30 intitulada «As “formas” da Poesia antiga (Mesopotâmia)»

[3] José Afonso (vulgo Zeca) foi nosso professor de Francês, no ensino secundário entre 1957-1959, na Escola Comercial e Industrial de Faro, no Algarve.

.

Publicado por

Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 29 de Abril de 2016, pelas 11h 40m

.

.

Praia de Faro

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 9:37 am

Praia da ilha de Faro, a praia da minha adolescência…

media.iolnegocios AA_Ria_Formosa

.

Praia de Faro

.

Pressinto a vaga quando se aproxima. Sei

quando e como vai crescer, o minuto

preciso do seu clímax não constitui

mistério para mim

.

Sei quando passa na rua o varredor. Esse

que figura pintado com uma pestana na caixa

japonesa de papier mâché e me assalta

em taquicárdias insuportáveis nos sonos REM

.

Sei captar os pardais

para que venham debicar migalhas

nas esteiras do meu almanxar,

hoje em dia desguarnecido

.

Sei esperar a Lua Nova para depilar

o buço ou transplantar as violetas

que me transbordam dos vasos do parapeito

da janela da sala

.

Só não sei o que é este ruído

lá fora

O que é, donde vem, por que me percorre as cordas

vocais com tal fúria

.

Só não sei onde poisar os pés

.

Só não sei donde me vem

a tua voz

(que no entanto

é a minha…)

© Myriam Jubilot de Carvalho

Inédito

Ilha de Faro, 9 de Maio de 1995

Imagens:

Fotos publicitárias, retiradas da Net:

A Ilha de Faro, do lado do Mar – http://www.lifecooler.com/artigo/passear/praia-da-ilha-de-faro-mar/353014/

e do lado da Ria (Ria Formosa) – http://www.cm-faro.pt/1532/praia-de-faro.aspx

.

Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 28 de Abril de 2016, pelas 10h 30m

.

.

Crónica 28 – Poesia e Educação

* Estudos e Comunicações — Myriam de Carvalho @ 3:14 pm

Crónica 28 – Poesia no mundo globalizado 3

Jornal O AUTARCA, edição nº Nº 3056;

Ano XVII – Quarta-feira, 13 de Abril de 2016

12967996_10206517538519100_5236145777127094882_o

.

Crónica 28 – Poesia no mundo globalizado – 3

Poesia e Educação

.

Já algumas vezes aludimos à ‘natureza da poesia”.

É importante reter que “A Poesia começou por ser um sentimento, um entendimento do cosmos, do mundo, da vida, e do ser humano, que se incorporava às manifestações humanas, e lhes dava forma.” – conforme dizíamos na Crónica 26.

Pois na crónica 22 aludíamos ao discurso de aceitação do prémio Nobel pelo poeta francês Saint-John Perse, em 1960.

.

Todo esse notável discurso discorria sobre a criação poética… e científica, que esse poeta defendia serem da mesma natureza, proclamando que “a intuição vem em socorro da razão” e que “a imaginação é o verdadeiro terreno de germinação científica”.

Essas considerações podem ser um bom ponto de partida para uma reflexão sobre o Ensino.

Muitas vezes, defende-se que as disciplinas ditas “objectivas”, nomeadamente a Matemática, a Física e as Ciências Naturais, são “fundamentais”. Este é um erro crasso, pois a imaginação cultiva-se com o desenvolvimento linguístico – ou seja, o progresso programado dos estudos de Línguas. E ainda com a prática – tanto formal como informal – das Artes – tanto “a arte da palavra” (prosa e poesia) como a arte da cor e das formas – as artes plásticas –, a arte dos sons (a música), tudo isto sedimentado e ampliado pelo estudo da marcha da Humanidade e suas lutas pela sobrevivência e progresso (a História), e ainda a par da prática não só do Desporto como das brincadeiras do recreio informal, ao ar livre. Não esquecendo que as práticas de “expressão corporal” (Dramatização e/ou Teatro) permitem a integração de todas as referidas aprendizagens.

Os trabalhos criativos dos alunos não se destinam a ser “avaliados” ou “classificados”, mas sim e apenas “apreciados”, tanto pelo professor da classe como pelas crianças! Por muito elementar que seja uma prestação, o professor terá que saber descobrir nela um pormenor positivo, por insignificante que este pareça, e todos estes trabalhos devem ser expostos na sala de aula!

A prática da Arte – ou se preferirmos, das Artes – é fundamental no desenvolvimento não só do raciocínio, como também da personalidade, proporcionando à criança em formação não só segurança e auto-estima como também agilidade de raciocínio! Três factores que se vão reflectir com eficácia nas aprendizagens das disciplinas ditas “objectivas”.

Por outro lado, a prática da Dramatização, que é uma prática espontânea (da natureza do Teatro, mas que ainda não é teatro) facilita a aprendizagem do “saber ouvir”, do “respeito pelo Outro” – numa convivência de igualdade de direitos e obrigações, base da aprendizagem da vivência democrática! (© M J de C)

.

O discurso do banquete do Nobel, de Saint John Perse pode ser encontrado aqui:

http://www.nobelprize.org/nobel_prizes/literature/laureates/1960/perse-speech.html

.

Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 16 de Abril de 2016, pela 16h 15m

.

.

Crónica 27 – Fontes da Cultura

* Estudos e Comunicações — Myriam de Carvalho @ 3:06 am

.

Crónica 27 – Poesia no Mundo Globalizado – 2

Fontes da Cultura

.

Antes de nos debruçarmos com algum detalhe sobre a natureza da Poesia, lembremo-nos que Poesia é uma expressão cultural. Assim, falaremos hoje sobre uma das principais fontes da cultura.

.

Buda dizia que “cada homem é uma ilha”. Na verdade, de um ponto de vista moral, o ser humano está só – “só” nas suas decisões, nas suas dores, nas suas responsabilidades perante si próprio e perante os seus semelhantes, até mesmo nas suas alegrias. Porém, essa “solidão” é compensada pela vida em sociedade que permite toda a espécie de contactos e trocas, tanto no que toca à sobrevivência física individual (contactos e trocas – afectivas; sexuais; comerciais) como no que toca ao desenvolvimento intelectual (contactos e trocas culturais).

Assim, toda a vida, o ser humano viajou para longe da sua terra, permitindo-se conhecer mundos novos e aprender novos hábitos, novas formas de exploração agrícola ou produção tecnológica – novos conceitos que depois levaria consigo no seu retorno à terra-natal. Por outro lado, nos casamentos dos antigos “senhores” (reis, nobreza, altos dignitários), as esposas traziam para a sua nova existência, os seus séquitos compostos de conselheiros, sábios, aias, servidores… Estas comitivas traziam consigo uma afirmação cultural “diferente” que se imiscuía e implantava no ambiente de acolhimento. Em matéria de conhecimento abstracto, os jovens (e não só) procuravam mestres em centros culturais mais ou menos longínquos ou universidades distantes.

Por outro lado, toda a vida houve emigrantes que em terras estranhas, conservavam a sua cultura original.

As grandes migrações, bem como o comércio, têm proporcionado intensas trocas culturais.

Finalmente, dois detalhes em que pouco se pensa.

-Um casal. Ela e ele provenientes de diferentes famílias, ou micro-cosmos, com diferentes raízes sócio-culturais. Por outras palavras: duas pessoas, provenientes de diferentes “micro-culturas”, que se juntam, e se fundem, criando uma nova micro-cultura no seio da qual irão educar os filhos!

-A Escravatura. A deslocação de milhões de pessoas ao longo de séculos, deslocadas pela força, de um território ou continente para outro, teve como consequência o transplante de culturas – uma consequência, adivinha-se, não prevista nem imaginada, nem desejada, pelos seus promotores.

Escusado subestimar, ou iludir, esta realidade – todos aprendemos uns com os outros, todos nos enriquecemos culturalmente em contacto com diferentes formas de interpretar o mundo que nos cerca. E se, como se diz em Antropologia e Sociologia, “tudo é cultura”, podemos afirmar com segurança, que o desenvolvimento cultural é, de facto, um hino à Mestiçagem. Pelo que acreditamos que quanto mais ricas as trocas culturais, mais rica será toda a criatividade de um povo, e consequentemente, a sua criação literária. (© Myriam Jubilot de Carvalho)

(Extra Texto):

HERÓDOTO, natural de Halicarnasso, SW da Anatólia (485 a.C. – 420 a.C.) – historiador grego, foi um dos grandes viajantes da Antiguidade.

AL-IDRISSI, natural de Ceuta (1100 – 1165), viveu na corte de Palermo, na Sicília. Foi notável viajante – geógrafo, cartógrafo e egiptólogo. A sua obra é “um marco na História da Ciência”.

.

Publicado no jornal O AUTARCA, da cidade da Beira, Moçambique

Edição Nº 3044 – Ano XVII – Quarta-feira, 23 de Março de 2016

.

Publicado por

Myriam Jubilot de Carvalho

Sábado, 16 de Abril de 2016, pelas 4h

.

.

 

 

Crónica 26 – Poesia no Mundo Globalizado (1)

* Estudos e Comunicações — Myriam de Carvalho @ 2:52 am

.

Depois de algum intervalo, regressámos às crónicas no jornal O AUTARCA (Beira, Moçambique).

Fica aqui o texto da CRÓNICA 26, publicada na edição Nº 3033 – Ano XVII – Quarta-feira, 02 de Março de 2016.

***

Crónica 26

Poesia no Mundo Globalizado – 1

.

Na nossa última crónica, saiu por engano o texto-rascunho, e não o texto desejado, do que pedimos desculpa aos nossos leitores. Segue agora o texto como deve ser. As futuras crónicas, como já dissemos, são dedicadas aos Estudantes, nomeadamente aos que gostam de escrever. No texto que se segue, referimos como a origem da Poesia tem tido impacto na sua natureza.

   I – Introdução – Em geral, entende-se que Poesia é “a expressão da alma do poeta”. Mas esta é uma explicação simplista. Poderíamos dizer o mesmo sobre a Música, a Pintura, a Dança… Há quem diga que a Poesia é “uma arte baseada na linguagem”… Mas então teremos que dizer que cada “arte” utiliza a sua própria “matéria-prima” – que para a Poesia é a Linguagem (as palavras), para a Pintura são a Cor ou o Traço, para a Escultura serão o Volume e as Formas, para a Música será o Som, e para a Dança, o Movimento… Afinal… O que é a Poesia? Perguntemos a poetas e poetisas o que para eles, significa a Poesia… Talvez eles digam que umas vezes, ela será uma expressão de um sentimento mais ou menos simples complexo, mais ou menos profundo ou superficial… Outras vezes, será a expressão de um pensamento, ou conceito… Certos dias, será um mero jogo com o sentido ou com os sons das palavras, ao jeito de um divertimento… Outros dias, será a confissão de um segredo, ou uma revolta perante as injustiças da vida, ou da sociedade… Umas vezes será um poema de Amor, ou um hino ao próprio Amor – humano, ou divino; outras será uma expressão de “escárnio e maldizer”… Mas… será sempre Poesia! Talvez sim, talvez não!

   II – Como nasceu a Poesia – Para entendermos o que possa ser Poesia, teremos que considerar a sua origem, que certamente se perde na noite dos Tempos…

   Vamos supor – Os humanos, ainda nómadas, antes do desenvolvimento de uma linguagem complexa, provavelmente entoariam alguns sons, com algum ritmo, que os apoiassem nas deslocações que faziam à procura de alimentos… As mães, intuitivamente, entoariam alguns sons melodiosos com que acalmassem os seus bebés… Provavelmente, esses seres primitivos fariam exclamações a saudarem o sol, após um dilúvio de chuvadas e mau tempo… Ou à noite, contemplando o céu e sentindo o seu mistério, entoariam sons de espanto perante as estrelas ou o luar… Igualmente, transformariam num cântico, o choro pela morte de alguém do seu bando…

   Com o desenvolvimento da linguagem verbal, as pessoas adultas contariam aos seus descendentes, narrativas de acontecimentos importantes, para preservarem essa memória e os ensinamentos que ela encerrasse…

A Poesia começou por ser um sentimento, um entendimento do cosmos, do mundo, da vida, e do ser humano, que se incorporava às manifestações humanas, e lhes dava forma.

   Ainda antes de construírem “habitações”, muitas grutas foram abrigo. Em Altamira (Espanha) e Foz Côa (Portugal) ficaram registos da Arte destas gentes – ao longo de mais de 20 milénios…

   No séc XX, Picasso (Espanhol) e Jorge Vieira(Português) inspiraram-se na Arte Rupestre. (© Myriam Jubilot de Carvalho)

.

Links:

Altamira, Espanha: http://ferransala.com/altamira-fue-morada-de-distintos-grupos-humanos-durante-mas-de-veinte-milenios/

Antas, Portugal: https://pt.wikipedia.org/wiki/Antas_alentejanas /

Fundação Côa Parque: http://www.arte-coa.pt/index.php?Language=pt

.

Publicado por

Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 16 de Abril de 2016, pelas 3h 50

.

.

This work is licensed under a Creative Commons Attribution-Noncommercial-Share Alike 3.0 Unported License.
(c) 2019 Por Ondas do Mar de Vigo | powered by WordPress with Barecity