Criatividade

* Educação e Criatividade — Myriam de Carvalho @ 10:53 pm

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A CRIATIVIDADE é uma coisa difícil para quem vive com ela como sujeito, ou para quem vive na sua companhia, na sua presença.

Na verdade, os alunos criativos propõem muitos problemas, quer aos próprios pais, quer aos professores. Mas são uma delícia! E os resultados de um ano de trabalho com eles, são surpreendentes. Além disso, saber usar a criatividade dos alunos a seu próprio favor, é terapêutico para muitos desajustes emocionais e de dificuldades de integração social.

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VER:

Este esquema foi retirado do site:

http://creativityresearch.blogspot.pt.

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Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 29 de Janeiro de 2015, pelas 23 horas.

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Encontros

* Alandalus,* Contos — Myriam de Carvalho @ 3:24 pm

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Encontros

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Anos 80, já para o fim da década.

Avião Bruxelas – Oslo.

Senta-se ao meu lado uma velhinha, magrinha, cabelo cinza já ralo, ondulado.

Vê que estou a ler o magazine littéraire, e comenta comigo que falo francês. Digo-lhe que é a minha segunda língua.

Pergunta-me porquê o magazine littéraire…

– Estudei literatura – respondo.

Pergunta-me se sou professora.

Que sim, que sou professora de crianças entre os 10 e os 12, ou 13, mais ou menos.

– Então – diz ela, sorrindo para mim – essa literatura tão avançada não lhe faz falta, profissionalmente.

– Pois não – tenho que concordar. – Mas não me interesso só pelas minhas aulas, tenho mais interesses na vida – Ela sorri – Interesso-me por literatura em geral…

–Você deve ser uma professora interessada – interrompe-me ela, com um olhar perspicaz.

E começa um longo diálogo! Tínhamos muitas coisas em comum! O modo de encarar a disciplina, o prazer em trabalhar com crianças…

– Você não encontra muitas professoras iguais a si, pois não?

E foi a minha vez de sorrir… Pergunto-lhe por que faz tal dedução…

– Experiência, ma petite – diz-me ela.

Ela também tinha sido professora. De língua materna, tal como eu.

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…mas não era belga; era polaca. Casada com um norueguês, de quem tinha três filhos. Viviam na Bélgica, onde o marido tinha negócios, mas ia agora para Oslo ter com todos eles. O marido estaria à espera dela, à chegada.

…polaca. Foi apanhada pela Guerra. Teria aí uns 17 anos quando a guerra acabou… Era muito nova…

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Falou-me do campo (de concentração). Viu o meu trejeito de horror, e levantou a manga do braço esquerdo. Mostrou-me o número – não estava a inventar histórias.

Mostrou-me o BI especial para as vítimas do Nazismo, com cartão que permitia viajar graciosamente. O marido estaria à espera dela no aeroporto, em Oslo – repetiu.

Fiz-lhe a pergunta mais óbvia que se pode fazer, provavelmente a mais estúpida também: Perguntei-lhe como se resiste a uma barbaridade daquelas…

Encolheu os ombros:

– As raparigas comunistas eram excepcionais. As lituanas. Eram estóicas, disciplinadas. Não criavam confusões. – E continuou – Fui apanhada naquela engrenagem infernal, já bastante no fim da guerra. Senão, decerto que neste momento não estaria aqui, agora, a falar consigo…

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Queria que eu fosse jantar nessa noite a casa dela. Mas isso ser-me-ia impossível, tinha os meus compromissos e estava um casal amigo igualmente à minha espera. E eu ia apenas por dois dias, uma conferência já não me lembro sobre o quê…

Trocámos endereços. Ficámos a corresponder-nos durante algum tempo, alguns anos. Até que uma última carta não mais obteve resposta…

Chamava-se Débora – aliás, um nome de remota ascendência peninsular.

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© Myriam Jubilot de Carvalho

27 de Janeiro de 2015,

dia em que se recorda a libertação dos prisioneiros dos nazis

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Foto:

Nazi war criminals tried the defence that they were ‘following orders’.

Pictured are concentration camp prisoners as US troops liberate the Nazi concentration camp in Dachau,

Germany, 30 April 1945

Read more:

http://www.dailymail.co.uk/sciencetech/article-2236916/Not-just-following-orders–

Nazi-prison-camp-bosses-took-pride-doing-new-study-claimed.html#ixzz3Q88g7LCi

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Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 28 de Janeiro de 2015, pelas 15h 25m

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Rock na Esplanada

* Contos — Myriam de Carvalho @ 3:49 pm

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Dança do Fogo_10

ROCK NA ESPLANADA

Mini-Narrativa
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A esplanada rústica, junto da Ribeira, instalada na estreita faixa da margem mais larga e plana entre os quatro cerros.
Ela usava calças de jardineira muito estilo négligé, de forçada aparência usada e desbotada, e uma Tshirt branca leve e folgada. Do conjunto, toda a sensualidade das curvas sobressaia. Parecia uma peregrina urbana perdida no meio da serra.
O altofalante da esplanada espalhava um rock que ecoava pelas penedias que recobrem os cerros encosta acima, por entre moitas de alecrim e estevas e amendoeiras raquíticas que não encontram água para matar a sede.
Ela fez um movimento brusco, deixou a mesa onde tinha pousado o lanche e a câmara fotográfica, saltou para o espaço que havia entre as mesas e o balcão, e começou a dançar. Na verdade, o rock entrelaçava-se no vento que fazia luzir as folhinhas transparentes das amendoeiras ou se pendurava desequilibrado nas ramadas verde-escuro das alfarrobeiras e figueiras, fazendo-as descer até ao ondulado das estevas e das carquejas, dos alecrins e rosmaninhos, desprendendo-lhes o aroma quente na tarde límpida. O rock invadia a tarde e reflectia-se de rocha em rocha. E atingia-a na boca entreaberta e no oscilar desengonçado das grandes mamas redondas, no bamboleado alternado das ancas ora para a esquerda ora para a direita, dobrando-a num ângulo que lhe pendurava a cabeça displicente para trás.
Os homens começaram a juntar-se. Não sei donde apareceram, não sei que faro os atraiu! Alguns mais velhotes, outros ainda na meia-idade, mirrados, os dentes ralos e comidos do tabaco mata-ratos, cabelos grisalhos, os rostos enrugados de muitos sóis a cavar as hortas. Calças pretas, camisa branca mareada de muitas lavagens, colete. Na maioria, aquela aparência sefardim que ainda tanto se vê na serra algarvia. E ela, incansável, sem um olhar à assistência, dançando sempre, continuava a bambolear-se. Indiferente ao desejo que eu via prestes a romper as comportas da tradicional repressão que o trazia acorrentado e que agora ali estava vibrando, a rebentar com as amarras naquela meia-dúzia de rostos que a admiravam sôfregos e impacientes.
O altoflante estava endiabrado. Os rocks sucediam-se, não davam descanso. Nem ela precisava. Porque continuava dançando, os olhos fechados, e os homens agora de pé, abriam clareira à volta dela para a verem melhor. Lambiam os beiços e estalavam os dedos em castanholas, a baterem-lhe o ritmo.
Crescia o comentário surdo “Nunca vi nada assim”…
O meu companheiro disse-me ao ouvido – Vamos embora daqui antes que isto acabe mal…
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Alte, esplanada da Fonte Grande, Verão de 1986

© Myriam Jubilot de Carvalho.

Conto também

partilhado pela página do FB, Confraria dos Poetas Algarvios.

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Myriam Jubilot de Carvalho

Post do dia 26 de Janeiro de 2015, pelas 15h 45m

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