MANUEL da FONSECA e a Poesia Chinesa clássica

* Antologia,* Notas Breves — Myriam de Carvalho @ 9:13 am

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Manuel da Fonseca e a Poesia Chinesa Clássica

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Na minha juventude, em tempos da Faculdade, teve grande influência em mim o estilo de Manuel da Fonseca. Os seus poemas sem retórica, secos como estudadas pinceladas lançadas ao papel, um certo expressionismo criando paisagens claras, solitárias e estonteantes de sol, faziam-me visionar as abertas e nostálgicas paisagens do Sul! Havia uma identificação entre a sensibilidade que se exprimia no poema e a minha sensibilidade de leitora. Os poemas seduziam-me na sua magia sóbria, sábia, e controlada, mas envolvente, como se contemplasse um quadro!

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Só muito mais tarde tive contacto com a Poesia Chinesa clássica, e pude admirar, tanto a contenção da sua linguagem como o intimismo com que se aflora a expressão dos sentimentos sem, no entanto, os nomear.  Não sei se Manuel da Fonseca conhecia a Poesia Chinesa, que conta com uma tradição antiquíssima de cerca de 4000 anos, mas encontro grande proximidade entre a forma poética deste poeta e a forma poética dos poetas chineses que conheço, graças a traduções primorosas, tanto mais de apreciar quanto sabemos serem o Português e o Chinês línguas de estruturas tão díspares.

Na Poesia Chinesa clássica, bem como em Manuel da Fonseca, as palavras e as pinceladas da aguarela desempenham o mesmo papel de sugestão. A paisagem ou o elemento decorativo não são tratados exaustivamente pelo artista; é o leitor – do quadro ou do poema – que reconstitui o cenário e o interioriza para sempre!

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Nestes pequenos poemas que escolhi, podemos ver como a palavra – o Verbo, o Lógos – se despe de acessórios retóricos, e como sob uma forma quase prosaica, toca a sensibilidade do auditor (ou leitor), apenas apontando breves circunstâncias ou traços da paisagem. Parece que o Poeta não está presente, e que  essa aparente ausência esbate a sua função de mediador entre o auditor ou leitor, e a realidade evocada.  Não nos deixemos confundir – nestes poemas, a simplicidade é apenas aparente, e nela se condensa toda a força dos poemas!

Vejamos estes, de três poetas que viveram ao tempo  da Dinastia Tang (início do séc VII, ao fim do séc IX, da era Cristã).  – O primeiro, de Li Bai (também conhecido como Li Po, 701-762), o segundo de Wang Way (701-761, segundo uns; 699-759, segundo outros), e o terceiro de Bai Juyi (722-846).

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No templo da montanha – de Li Bai

Noite no templo

—-do alto da montanha.

Posso levantar a mão,

—-acariciar as estrelas,

mas não ouso falar

—-em voz alta.

Receio assustar

—-os habitantes do céu.

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Escrito no meu jardim, na Primavera – de Wang Wei

As rolas da Primavera arrulham no telhado,

—-os damasqueiros desabrocham junto à aldeia.

Com um machado, corto ramos de amoreira,

—-com uma enxada, faço regos na terra.

As andorinhas, de regresso, reconhecem o antigo lar;

—-os homens, após o Inverno, consultam o calendário.

Sinto saudades do meu amigo, em viagem,

—-ergo a taça, não sou capaz de beber.

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O musgo nas pedras – de Bai Juyi

Escuros, verdes, sem um grão de poeira

—-os tufos de musgo enraizados nas pedras.

Mais felizes as ervas dos caminhos,

—-mas, de vez em quando, as carroças esmagam-nas.

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Três poemas da série PLANÍCIE

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ALDEIA

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Nove casas,

duas ruas,

ao meio das ruas

um largo,

ao meio do largo

um poço de água fria.

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Tudo isto tão parado

e o céu tão baixo

que quando alguém grita para longe

um nome familiar

se assustam pombos bravos

e acordam ecos no descampado.

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POENTE

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No postigo do monte

inquieto rosto acode

espreitando para longe

o descampado aberto.

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(Quem vem lá na distância,

que nem a seara mexe

nem o pó se levanta

dos caminhos sem vento?…)

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ESTIO

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Horizonte

todo de roda

raiado de sol.

Ao meio

do cerro gretado

esguia cabeça de cobra

olha assobios de lume

sobre espigas amarelas…

(…Campaniços degredados

na vastidão das searas

sonham bilhas de água fria!…)

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Link das imagens:

= aguarela chinesa:

https://peregrinacultural.files.wordpress.com/2009/08/bambu-ao-vento.jpg

= foto de Manuel da Fonseca:

http://1.bp.blogspot.com/_Wz4AnMKKcfE/TKeWV2PE8UI/AAAAAAAAB1s/YVF6uIb3fEM/s1600/manuel.jpgPoema de Li Bai, retirado de:

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FONTES dos poemas:

=Manuel da Fonseca – “Poemas Completos”, pág (respectivamente) 95, 96 e 97

Portugália edt, 2ª ed, Lx, 1969

=Poemas de Li Bai, pág 65  (1990)

=Poemas de Wang Wei, pág 91 (1993)

=Poemas de Bai Juyi, pág 103 (1991)

Trad, Pref e Notas de António Graça de Abreu

Instituto Cultural de Macau

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Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 22 de Julho de 2014, pelas 10h 20m

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