Voo

* Educação e Criatividade,* Poesia — Myriam de Carvalho @ 4:22 pm

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Hoje levanto voo, e a minha viagem alonga-se até aos extremos do Oriente.

…E a foto que trago é para já, um Haikai (*), um género que cultivo pouco.

Cultivar formas poéticas muito rígidas tem o inconveniente de treinar o cérebro num certo ritmo e estrutura, o que afecta a liberdade criativa. É por isso que não cultivo a MOAXAHA com mais frequência. O mesmo acontece com o SONETO, ou simplesmente com as QUADRAS.

Como professora de Português, a única regra cuja observância eu exigia dos meus Alunos, era que evitassem as quadras… As crianças viciam-se nessa forma mínima, e depois “vale tudo”, seja com métrica ou sem. Por vezes, apercebia-me que algumas mães tinham cadernos de poesia – isto é, de quadras, e que os alunos as copiavam inocentemente, como se fossem deles … “A S’tora não gosta de quadras?… – Gosto, claro que gosto! Mas Vocês fazem poemas muito mais bonitos! Esqueçam as quadras, e dêem largas à imaginação!” Para eles, QUADRAS e POESIA eram, simplesmente, sinónimos.

O mesmo acontecia a respeito da RIMA. Em geral diz-se que a criança gosta de rimar, é um jogo, é muito engraçado, elas divertem-se, etc…Nas minhas aulas, a RIMA estava interdita. S’tora, então como é que se faz poesia sem rimar?  -Vocês digam as frases mais bonitas que souberem! Digam as palavras mais bonitas que souberem! Façam comparações raras – e depois, tal como já treinámos, tirem a palavrinha como! E depois a gente vai ver se precisamos de rimar, ou se podemos dispensar as rimas…” As crianças sorriam pouco convencidas, mas a S’tora mostrava-se tão segura de si, que acediam. …E ficavam maravilhadas com os textos lindos que eram capazes de criar!

Uma vez, um rapazinho dos seus 14 anos, mais velhinho que a média das idades do 6º ano e com história de vida mais complicada que a da maioria, perguntou a meia-voz, timidamente: S’tora, e pode-se falar de sexo? -Claro que sim, faz parte da vida, não faz? Então, qual seria o problema? A gente pode falar de tudo ! Mas claro que depende da maneira como se fala. – Oh S’tora, é com respeito! Lembro-me que saiu um poema muito interessante, com um toque filosófico muito profundo!

A Poesia está para além da forma. Actualmente, vejo páginas de Poesia no FB, em que os textos são formalmente poéticos  – simplesmente na medida em que não chegam ao fim da linha – mas que na essência têm a estrutura formal, lexical, e gramatical da Prosa… E fico triste… São textos aparentemente ousados… mas de linguagem dura, directa, conotativa;  e em que não se olha à musicalidade da Língua… – confundindo-se RIMA com Música….

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Voo

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És um voo

– riscando o azul

como um fio de ouro

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(*) A adaptação da denominação japonesa deste tipo de poesia, comummente aceite, é Haiku, no singular, e Haikai para o plural, sendo nos dois casos, o acento tónico na primeira sílaba.

No entanto, como há muita gente pouco sensível à estética da Língua de que nos deveríamos honrar, e que deveríamos dignificar, há muito quem pronuncie a palavra Haiku com o acento tónico na última sílaba.

Então, para obviar a esse inconveniente estético, passei a usar o plural, Haikai.

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© Myriam Jubilot de Carvalho

Inédito

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Linkss das fotos:

= http://www.baixaki.com.br/imagens/wpapers/BXK18502_cerejeira-japao800.jpg.

= http://www.rentokil.co.uk/blog/wp-content/uploads/2011/06/iStock_000006156706XSmall.jpg.

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Publicado por © Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 3 de Julho de 2014, pelas 17h 23m

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