Uma lembrança para Myriam

* Antologia — Myriam de Carvalho @ 7:46 pm

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MARINA TADEU, uma nova Amiga do FB, dedicou-me esta lembrança.

OBRIGADA, Marina! Como já sabe, adorei essa coisa esquisita das letras invertidas – para mim, uma novidade! – Que, vai-se a ver, até é fácil, já está tudo feito 🙂 – 

Tenho que me treinar!

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Al-Mu’tamid, o rei poeta

para Myriam Carvalho

http://www.myriamdecarvalho.com

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Volta ao avesso palavra

fala claro na página

virada à noite na gaveta

andaluz encravada

como quem

de tanta usada luz

vê nada

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adan êv

ed atnat usada luz

 meuq omoc

adavarcne zuladna

atevag an etion á adariv

anigap an oralo alaf

arvalap osseva oa atlov

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Marina Tadeu, uma Poetisa de expressão surpreendente, liberta, que  sabiamente aglutina Humor, Agressividade , Fantasia e Lucidez, num  explosivo coqtail  do seu muito pessoal surrealismo e escrita automática pós-modernos. Vive em Inglaterra.

Futuramente, trarei aqui mais alguns dos seus poemas!

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Link da página de Marina Tadeu:

http://boquinhado.blogspot.pt/2014/07/reflecte.html

Link da imagem:

http://1.bp.blogspot.com/-cYypzWvN4ak/U9EK5s4kiBI                                                                                                                   /AAAAAAAABFY/h-dkrTMhM9s/s1600/AL-MU’TAMID,+O+REI+POETA..jpg

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Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 25 de Julho de 2014, pelas 20h 45m

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MANUEL da FONSECA e a Poesia Chinesa clássica

* Antologia,* Notas Breves — Myriam de Carvalho @ 9:13 am

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Manuel da Fonseca e a Poesia Chinesa Clássica

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Na minha juventude, em tempos da Faculdade, teve grande influência em mim o estilo de Manuel da Fonseca. Os seus poemas sem retórica, secos como estudadas pinceladas lançadas ao papel, um certo expressionismo criando paisagens claras, solitárias e estonteantes de sol, faziam-me visionar as abertas e nostálgicas paisagens do Sul! Havia uma identificação entre a sensibilidade que se exprimia no poema e a minha sensibilidade de leitora. Os poemas seduziam-me na sua magia sóbria, sábia, e controlada, mas envolvente, como se contemplasse um quadro!

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Só muito mais tarde tive contacto com a Poesia Chinesa clássica, e pude admirar, tanto a contenção da sua linguagem como o intimismo com que se aflora a expressão dos sentimentos sem, no entanto, os nomear.  Não sei se Manuel da Fonseca conhecia a Poesia Chinesa, que conta com uma tradição antiquíssima de cerca de 4000 anos, mas encontro grande proximidade entre a forma poética deste poeta e a forma poética dos poetas chineses que conheço, graças a traduções primorosas, tanto mais de apreciar quanto sabemos serem o Português e o Chinês línguas de estruturas tão díspares.

Na Poesia Chinesa clássica, bem como em Manuel da Fonseca, as palavras e as pinceladas da aguarela desempenham o mesmo papel de sugestão. A paisagem ou o elemento decorativo não são tratados exaustivamente pelo artista; é o leitor – do quadro ou do poema – que reconstitui o cenário e o interioriza para sempre!

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Nestes pequenos poemas que escolhi, podemos ver como a palavra – o Verbo, o Lógos – se despe de acessórios retóricos, e como sob uma forma quase prosaica, toca a sensibilidade do auditor (ou leitor), apenas apontando breves circunstâncias ou traços da paisagem. Parece que o Poeta não está presente, e que  essa aparente ausência esbate a sua função de mediador entre o auditor ou leitor, e a realidade evocada.  Não nos deixemos confundir – nestes poemas, a simplicidade é apenas aparente, e nela se condensa toda a força dos poemas!

Vejamos estes, de três poetas que viveram ao tempo  da Dinastia Tang (início do séc VII, ao fim do séc IX, da era Cristã).  – O primeiro, de Li Bai (também conhecido como Li Po, 701-762), o segundo de Wang Way (701-761, segundo uns; 699-759, segundo outros), e o terceiro de Bai Juyi (722-846).

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No templo da montanha – de Li Bai

Noite no templo

—-do alto da montanha.

Posso levantar a mão,

—-acariciar as estrelas,

mas não ouso falar

—-em voz alta.

Receio assustar

—-os habitantes do céu.

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Escrito no meu jardim, na Primavera – de Wang Wei

As rolas da Primavera arrulham no telhado,

—-os damasqueiros desabrocham junto à aldeia.

Com um machado, corto ramos de amoreira,

—-com uma enxada, faço regos na terra.

As andorinhas, de regresso, reconhecem o antigo lar;

—-os homens, após o Inverno, consultam o calendário.

Sinto saudades do meu amigo, em viagem,

—-ergo a taça, não sou capaz de beber.

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O musgo nas pedras – de Bai Juyi

Escuros, verdes, sem um grão de poeira

—-os tufos de musgo enraizados nas pedras.

Mais felizes as ervas dos caminhos,

—-mas, de vez em quando, as carroças esmagam-nas.

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Três poemas da série PLANÍCIE

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ALDEIA

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Nove casas,

duas ruas,

ao meio das ruas

um largo,

ao meio do largo

um poço de água fria.

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Tudo isto tão parado

e o céu tão baixo

que quando alguém grita para longe

um nome familiar

se assustam pombos bravos

e acordam ecos no descampado.

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POENTE

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No postigo do monte

inquieto rosto acode

espreitando para longe

o descampado aberto.

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(Quem vem lá na distância,

que nem a seara mexe

nem o pó se levanta

dos caminhos sem vento?…)

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ESTIO

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Horizonte

todo de roda

raiado de sol.

Ao meio

do cerro gretado

esguia cabeça de cobra

olha assobios de lume

sobre espigas amarelas…

(…Campaniços degredados

na vastidão das searas

sonham bilhas de água fria!…)

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Link das imagens:

= aguarela chinesa:

https://peregrinacultural.files.wordpress.com/2009/08/bambu-ao-vento.jpg

= foto de Manuel da Fonseca:

http://1.bp.blogspot.com/_Wz4AnMKKcfE/TKeWV2PE8UI/AAAAAAAAB1s/YVF6uIb3fEM/s1600/manuel.jpgPoema de Li Bai, retirado de:

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FONTES dos poemas:

=Manuel da Fonseca – “Poemas Completos”, pág (respectivamente) 95, 96 e 97

Portugália edt, 2ª ed, Lx, 1969

=Poemas de Li Bai, pág 65  (1990)

=Poemas de Wang Wei, pág 91 (1993)

=Poemas de Bai Juyi, pág 103 (1991)

Trad, Pref e Notas de António Graça de Abreu

Instituto Cultural de Macau

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Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 22 de Julho de 2014, pelas 10h 20m

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Um poema de Han Shan

* Antologia — Myriam de Carvalho @ 2:15 am

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Han Shan

Trata-se de uma figura lendária que era representada associada a uma outra, como que um seu alter-ego, Shide. Ao seu nome era associada  uma colectânea de poemas que viriam a ser mais apreciados no Japão que originalmente na China.

Han Shan, ou os poemas que lhe são atribuídos, remontarão, provavelmente, aos tempos da dinastia Tang – séc VII a X (da era cristã). São poemas que se inscrevem nas tradições Budista e Taoista.

Em Português, temos versões (poéticas) de alguns desses textos, por Ana Haterly, sobre traduções (literais) de Jacques Pimpaneau: “O Vagabundo do Darma”. Mas o poema abaixo transcrito  foi retirado de uma antologia geral de Poesia Chinesa, um poema de que gosto muito, pois glosa o velho tema da efemeridade da vida, um tema universal:

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Vive o homem a vida numa tigela de poeira

É como bichinhos dentro de um jarro

Todo o dia andando à volta

Nunca sai lá de dentro.

Não nos calha a ventura

Só temos em sorte desgraças

O tempo parece um rio

Que corre. Um dia, acordamos velhos.

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Fonte:

“Uma Antologia de Poesia Chinesa, do Shijing a Lu Xun – Segundo Milénio antes da Era Comum – séc XX”, pág 111

por Gil de Carvalho; Assírio e Alvim; 2ºEd, 2010

Imagem:

http://thebamboosea.files.wordpress.com/2010/06/han-shan.jpg.

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Publicado por © Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 21 de Julho de 2014, pelas 3h 20m

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Séc XXI

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 5:45 am

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Séc XXI

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As pontes não existem

Só o coração para olharmos ao Futuro

Um coração universal, temperado com um mesmo e único sal

– o Amor – cego como a Fé e imenso como o grão minúsculo de mostarda

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O Amor – que une as duas margens do Rio

Não no horizonte onde as linhas não se encontram, nem nunca se encontrarão

Não no futuro que já não será nosso

É o Amor, que tem que ser vivido no Aqui e no Agora

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E o Aqui é a Terra toda, a nossa casa

E o Agora, os nossos Filhos, nossos Netos, que não podem herdar terra-queimada

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© Myriam Jubilot de Carvalho 

Inédito

A imagem:

Quadro de Paul Mathieu, “Os Samurais” (124×250 cm)

Paul Mathieu (1953 – ) was born in Brussels.

He studied in Belgium, Italy, and Switzerland.

He settled in Portugal, where he resides since 1979.

Mathieu held more than 40 exhibitions during his career.

He is represented in several public and private collections.

He began collaborating with Portalegre’s Tapestry in 2003.

Link da imagem:

http://www.mtportalegre.pt/media/images/catalog/paul_mathieu_samurais.jpg.pagespeed.ce.EFz39QoBBl.jpg.

Fonte da informação:

Manufactura de Tapeçarias de Portalegre:

http://www.mtportalegre.pt/en/artists/view/39/4

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Publicado por © Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 14 de Julho de 2014, pelas 6h 50m

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Voo

* Educação e Criatividade,* Poesia — Myriam de Carvalho @ 4:22 pm

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Hoje levanto voo, e a minha viagem alonga-se até aos extremos do Oriente.

…E a foto que trago é para já, um Haikai (*), um género que cultivo pouco.

Cultivar formas poéticas muito rígidas tem o inconveniente de treinar o cérebro num certo ritmo e estrutura, o que afecta a liberdade criativa. É por isso que não cultivo a MOAXAHA com mais frequência. O mesmo acontece com o SONETO, ou simplesmente com as QUADRAS.

Como professora de Português, a única regra cuja observância eu exigia dos meus Alunos, era que evitassem as quadras… As crianças viciam-se nessa forma mínima, e depois “vale tudo”, seja com métrica ou sem. Por vezes, apercebia-me que algumas mães tinham cadernos de poesia – isto é, de quadras, e que os alunos as copiavam inocentemente, como se fossem deles … “A S’tora não gosta de quadras?… – Gosto, claro que gosto! Mas Vocês fazem poemas muito mais bonitos! Esqueçam as quadras, e dêem largas à imaginação!” Para eles, QUADRAS e POESIA eram, simplesmente, sinónimos.

O mesmo acontecia a respeito da RIMA. Em geral diz-se que a criança gosta de rimar, é um jogo, é muito engraçado, elas divertem-se, etc…Nas minhas aulas, a RIMA estava interdita. S’tora, então como é que se faz poesia sem rimar?  -Vocês digam as frases mais bonitas que souberem! Digam as palavras mais bonitas que souberem! Façam comparações raras – e depois, tal como já treinámos, tirem a palavrinha como! E depois a gente vai ver se precisamos de rimar, ou se podemos dispensar as rimas…” As crianças sorriam pouco convencidas, mas a S’tora mostrava-se tão segura de si, que acediam. …E ficavam maravilhadas com os textos lindos que eram capazes de criar!

Uma vez, um rapazinho dos seus 14 anos, mais velhinho que a média das idades do 6º ano e com história de vida mais complicada que a da maioria, perguntou a meia-voz, timidamente: S’tora, e pode-se falar de sexo? -Claro que sim, faz parte da vida, não faz? Então, qual seria o problema? A gente pode falar de tudo ! Mas claro que depende da maneira como se fala. – Oh S’tora, é com respeito! Lembro-me que saiu um poema muito interessante, com um toque filosófico muito profundo!

A Poesia está para além da forma. Actualmente, vejo páginas de Poesia no FB, em que os textos são formalmente poéticos  – simplesmente na medida em que não chegam ao fim da linha – mas que na essência têm a estrutura formal, lexical, e gramatical da Prosa… E fico triste… São textos aparentemente ousados… mas de linguagem dura, directa, conotativa;  e em que não se olha à musicalidade da Língua… – confundindo-se RIMA com Música….

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Voo

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És um voo

– riscando o azul

como um fio de ouro

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(*) A adaptação da denominação japonesa deste tipo de poesia, comummente aceite, é Haiku, no singular, e Haikai para o plural, sendo nos dois casos, o acento tónico na primeira sílaba.

No entanto, como há muita gente pouco sensível à estética da Língua de que nos deveríamos honrar, e que deveríamos dignificar, há muito quem pronuncie a palavra Haiku com o acento tónico na última sílaba.

Então, para obviar a esse inconveniente estético, passei a usar o plural, Haikai.

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© Myriam Jubilot de Carvalho

Inédito

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Linkss das fotos:

= http://www.baixaki.com.br/imagens/wpapers/BXK18502_cerejeira-japao800.jpg.

= http://www.rentokil.co.uk/blog/wp-content/uploads/2011/06/iStock_000006156706XSmall.jpg.

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Publicado por © Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 3 de Julho de 2014, pelas 17h 23m

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