Um gazal português

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 7:56 am

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A Casa do Algarve em Lisboa está a organizar uma colectânea de poemas de poetas do Algarve, onde estarei representada com cinco poemas.

O último será este gazal português.

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Um gazal português 

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Poisou o orvalho na areia fina da praia

ou dentro do meu coração?

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São os meus olhos dentro dos teus,

ou o teu coração dentro do meu?

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Poisou o rolo de neve nos teus finos cabelos

ou veio curar-me as velhas dores antigas?

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Diz-me, sou eu a luz das tuas madrugadas

ou tu a candeia acesa das minhas buscas?

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Sou eu que estou presente à tua secretária

ou és tu o meu fogo inspirador?

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E qual de nós é mais cavalo à solta,

mais génio de Aladino?

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Eternos peregrinos na ronda do mistério

Eternos navegantes sem rota nem escolta

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Eternos sábios na margem do império,

expulsos da catedral e suas arquivoltas

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Myriam Jubilot de Carvalho

Inédito, s/d

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Imagem:

http://www.g-1.com/media/21470/Henna-Art-08.jpg

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Publicado por © Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 7 de Junho de 2014, pelas 9h

Actualizado no dia 18 de Junho de 2014, pelas 19h.

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Lorca e a celebração do Alandalus (ou al Andalus)

* Alandalus,* Antologia — Myriam de Carvalho @ 7:18 am

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Federico García Lorca

5 Junho 1898 – 19 Agosto 1936

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Como celebração da efeméride do nascimento de Federico García Lorca, num dia 5 de Junho, escolho estes dois poemas, retirados da sua obra “Divã do Tamarit”,  colectânea de poemas escritos entre 1931 e 34, mas só publicados em 1940.

Esta é uma obra inspirada no seu apreço pelo legado da cultura arábico-moura da Península, nomeadamente na sua terra, a Andalusia, onde a presença muçulmana foi mais prolongada que nas outras regiões peninsulares.

Gazal refere uma composição poética, erótica, em tom elegíaco.Teve a sua origem no deserto (Arábia), e passou depois à Pérsia e à Turquia. Era de transmissão oral, pelo que nos restam poucos testemunhos de épocas mais remotas. Aqui na Península, foi cultivada por Ibn Zaydun, de quem restam alguns versos dos seus gazal.

Casida, em geral traduzida como ode, era um género poético cultivado por árabes e persas., onde se fazia o elogio de uma tribo ou de uma pessoa. Em geral, era uma composição longa, constava de rimas monórrimas, e obedecia a um esquema fixo.

“Diwan” designa uma antologia poética de um autor.

Nesta obra, “Divã do Tamarit”, Lorca cultiva estes dois tipos de poemas, usando tópicos da poesia arábico-persa, como a identificação da pessoa amada com elementos do mundo vegetal, ou a insistência na dor física…

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GACELA DEL AMOR MARAVILLOSO – páginas 48 e 49

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Con todo el yeso

de los malos campos,

eras junco de amor, jazmín mojado.

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Con sur y llama

De los malos cielos,

Eras rumos de nieve por mi pecho.

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Cielos y campos

Anudaban cadenas en mis manos.

Campos y cielos

Azotaban las llagas de mi cuerpo.

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GAZAL DO AMOR MARAVILHOSO

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Com todo o gesso

Dos campos maus,

Eras junco de amor, jasmim molhado.

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Com sul e chama

Dos céus maus,

Eras rumor de neve no meu peito.

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Céus e campos

Prendiam correntes nas minhas mãos.

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Campos e céus

açoitavam as chagas do meu corpo.

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CASIDA DEL SUEÑO AL AIRE LIBRE – páginas 64 e 65

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Flor de jazmín y toro degolado.

Pavimento infinito.mapa. sala. Arpa. Alba.

La niña sueña un toro de jazmines

Y el toro es un sangrento crepúsculo que brama.

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Si el cielo fuera un niño pequeñito,

Los jazmines tendrían mitad de noche escura,

Y el toro circo azul sin lidiadores,

Y un corazón al pie de una columna.

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Pero el cielo es un elefante,

Y el jazmín es una água sin sangre

Y la niña es un ramo nocturno

Por el inmenso pavimento oscuro.

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Entre el jazmin y el toro

O garfios de marfil o gente dormida.

En el jazmin un elefante y nubes

Y en el toro el esqueleto de la niña.

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CACIDA DO SONHO AO AR LIVRE

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Flor de jasmim e touro degolado.

Pavimento infinito. Mapa. Sala. Harpa. Alva.

A menina sonha um touro de jasmins

e o touro é um sangrento crepúsculo que brama.

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Se o céu fosse um menino pequenino,

os jasmins teriam metade de noite escura,

e o touro circo azul sem lidadores,

e um coração ao pé de uma coluna.

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Mas o céu é um elefante,

e o jasmim é uma água sem sangue

e a menina é um ramo nocturno

no imenso pavimento escuro.

 

Entre o jasmim e o touro

ou ganchos de marfim ou gente adormecida.

No jasmim um elefante e nuvens

e no touro o esqueleto da menina.

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Poemas retirados da edição bilingue portuguesa – “Divã do Tamarit”

Tradução e estudo de José Manuel de Vasconcelos; Desenhos de Ruth Rosengarten

Vega, 1985

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Fontes:

Entre várias outras, cito:

“La influencia oriental en ‘El Diván del Tamarit’ de Lorca”, de M. Ángeles Pérez Álvarez, existente na Net.

Link da imagem:

http://www.theprisma.co.uk/wp-content/uploads/2012/09/Justicia-social-y-arte-latino3-lorca.jpg

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Publicado por –  © Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 6 de Junho de 2014, pelas 8h 18m

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