“Canto” – um poema de regresso às MOAXAHAS

* Alandalus,* Poesia — Myriam de Carvalho @ 12:42 am

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Canto

[MOAXAHA]

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O frio congela-me a garganta, os movimentos,

Não consigo falar, falar ou escrever, é um tormento

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Quem sabe se o mundo cai aos bocados por aí

Quem sabe se o futuro desertou sem alibi?

Quem sabe se permaneço, ou se fugi?

– Quem sabe de onde sopra o pior vento?

Que importa ser alheio, ou estar atento?

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Assusto-me quando olho à minha volta

Que a minha estrada é isolada e sem escolta

E as feras, famintas e cruéis, andam à solta

– Para haver esperança, tem que haver fermento,

A alma também precisa de alimento

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[Jarcha]

“Espanta-me, contudo, esta coisa interessante

Que haja um poeta negro, e lhe peçam que cante”

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© Myriam Jubilot de Carvalho

Inédito

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Notas:

1-

A Jarcha é retirada de um poema de Countee Cullen (1925), que figura na pág 15 da antologia “Também eu sou a América”:

“ Yet do I marvel at this curious thing:

To make a poet black, and bid him sing! ”

Mas a  tradução que apresento é a minha, e não a do antologiador português.

2-

Poema publicado no programa da comunicação que apresentei na Universidade Sénior de Almada,

no dia 10 de Fevereiro de 2014.

3-

A imagem – é uma iluminura, e representa dois músicos, um mouro e um cristão, testemunho de algum convívio cultural e, consequentemente, intercãmbio, entre as duas culturas, na Idade Média.

Link da imagem:

http://1.bp.blogspot.com/-X0lY3KhGzsw/T_BBZe7PItI/AAAAAAAAAVM/6eGcmB6P13A/s200/4.png 

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Dia 24 de Março de 2014, pelas 0h 50m

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Regresso ao Alandalus

* Alandalus,* Antologia — Myriam de Carvalho @ 1:38 pm

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Um poema de AR-RASHID

– um dos filhos de Al-Mutamid

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Este poema foi dito ontem à noite, numa sessão-tertúlia do clube de Filosofia – da Universidade Lusófona,

que teve lugar, como habitualmente, na Mesquita Central de Lisboa:

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aliado és do orvalho,

senhor da generosidade,

amigo de almas e espíritos,

dádiva perfeita seria o teu olhar

que te orna o rosto luminoso.

dá-me o teu sorriso!

com ele dispensarei a luz da manhã

e o próprio brilho da candeia.

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Localização do poema:

pág 276, da antologia organizada por Adalberto Alves,

que como é sabido traduziu os poemas e tem sido o grande divulgador da cultura do Alandalus:

O Meu Coração É Árabe

(da Assírio & Alvim, 3ª edição, 1998)

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A imagem:

Esta imagem, atribuível à corrente Orientalista, é uma representação fantasiosa, como bem se vê, de um outro Ar-Rashid, que terá sido muito mais bafejado pela Fortuna do que os filhos de Al-Mutamid.

A imagem apresenta-nos uma cena cortesã, mostrando-nos  HARUM AR-RACHID recebendo a embaixada que lhe foi enviada por CARLOS MAGNO.

HARUM AL-RASGID foi o quinto califa da dinastia Abássida, tendo o seu reinado decorrido entre 786 e 809. Muitas lendas são atribuíveis à sua época e reinado, e uma delas será a localização temporal da história central das MIL E UMA NOITES.

A foto é da Wikipedia.

Link da imagem:

The painting by Julius Köckert (Koeckert) (1827-1918), dated 1864,

is located at Maximilianeum Foundation in Munich. It is Oil on Canvas.

This Image of the painting was created and provided by Zereshk.

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/d/d9/Harun-Charlemagne.jpg

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© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 19 de Março de 2014, pelas 13h 30m

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O Coelhinho Verde

* Notas Breves — Myriam de Carvalho @ 12:22 am

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O Coelhinho Verde

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Esta manhã, dispus-me a ir a Benfica, a visitar a livraria Ulmeiro, e todo o seu fascinante mundo de livros antigos a nunca mais acabar!

Pois bem. Qual não é a minha satisfação, ao poisar os olhos num montinho de livrinhos infantis… Colecção Joaninha!

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Era esta Colecção Joaninha que fazia as minhas delícias quando fiz a aprendizagem formal da leitura! Ou antes, quando me aventurei a pegar num livrinho e a lê-lo autonomamente, durante uma tarde inteira. Teria os meus 6 ou 7 anos…

Desde os meus 5 anos que os meus Pais me ensinaram a ler. Mas eu recusava as lições! Preferia que me deixassem em paz – eu queria ir brincar, inventar meninas e pô-las a conversar umas com as outras! Era tão divertido!

Mesmo na escola primária, a leitura – a leitura formal, no livro de leitura – não me entusiasmava. No entanto, sem que ninguém notasse, nem eu própria, comecei a entusiasmar-me com pequeninos livrinhos de histórias que havia nessa época. E comecei a deliciar-me com estas histórias de encantamentos, fadas boas e gigantes maus, príncipes e princesas… E fui de tal modo conquistada pela magia dos contos tradicionais, que ainda hoje esse é um dos meus temas de eleição.

A fase de leituras mais completas, ou antes, mais complexas, surgiria quando os Tios me ofereceram uma colectânea de contos de Andersen. Aliás, para mim, a história de Amor mais bela que conheço é “A Sereiazinha” de Andersen. Vêm a seguir  “Romeu e Julieta” de Shakespeare, e “Layla e Majnun” da Literatura Árabe e Persa. Mas nada ultrapassa a beleza inocente e serena, tranquila, e simultaneamente dolorosa, e ao mesmo tempo incondicional e corajosa, devotada até ao sacrifício, da Sereiazinha! Se me perguntassem que livro ou obra eu levaria comigo para uma ilha deserta, eu diria sem hesitação – “A Sereiazinha”.

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Há dias falei aqui da importância que teve para mim a história de “O Coelhinho Verde”.

Hoje voltei para casa com a bolsa recheada com este tesouro! E deixo aqui a informação bibliográfica:

  “O Coelhinho Verde”

            de Virgínia de Castro e Almeida

            Livraria Clãssica Editora, Lisboa, 1945

            Colecção contos de encantar

            Bonecos de PAM

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Estive a relê-lo. Lembrava-me da essência da história, mas não dos pormenores do enredo.

Na presente leitura, o que sobressai com toda a evidência, é a intenção educativa que a Autora introduz no discurso. Há intenções morais e sociais: A saber:

-Quando nos tratam bem, é imperativo  agradecer;

– Na idade avançada, não se pode trabalhar. Então, quem não tem teres nem haveres, vai pedir esmola. Mas é-se muito feliz, e não se pensa em querer ou fazer mal a ninguém.

– Por outro lado, isso permite ser livre e vaguear ao acaso, à aventura. Com muita alegria e boa disposição, e sem fazer mal a ninguém, obviamente.

– A caridade é muito bonita, é o arrimo dos desvalidos – que não são assim tão desvalidos porque são muito alegres e felizes, como referi..

– Para ultrapassar os problemas da vida, é preciso não só coragem, mas imaginação, ou seja, engenho – com a protecção das forças sobrenaturais, claro está. E o concurso da imaginação – pelos vistos, quanto mais tresloucada, melhor. Como quem diz: grandes males, grandes remédios. MAS sem rebelião. Tudo numa boa, que o povo deve manter-se sereno.

– O Bem e o Mal existem. O Bem tem que vencer o Mal – e aí, a crueldade é necessária para que o Bem saia vitorioso. Crueldade sem remorsos, sem cogitações, nem hesitações. É cortar cabeças e pronto, já está.

– O mundo está dividido em classes sociais. E as classes favorecidas dirigem-se às classes desfavorecidas com fórmulas linguísticas que denotam, se não desprezo – pelo menos, menosprezo. No entanto, a força braçal é do Povo, e o povo está alegremente disponível ao serviço dos poderosos.

– Há ainda a referir mais estas últimas marcas deste discurso subliminar:

As personificações do Bem e do Mal, sendo o Bem inerente à condição feminina:

= A parte feminina, a Mulher, representada nas quatro fases da vida:   a fada Boa, modelo da Mulher na maturidade, que é quem detém o poder (enquanto não lhe é arrebatado pelo Homem) e o remédio; a avó – a sabedoria da idade; a neta – a infância, que deve seguir os bons exemplos e cooperar; a jovem, a Princesa, coitadinha, que só tem que ser bonita e fielmente esperar pelo casamento;

= A parte masculina: personificada no gigante, que é a força bruta que tem que ser eliminada; e o Príncipe, símbolo da juventude imatura, que só por si é inoperante e tem que ser manipulado… pelas mulheres.

– Está presente a chamada “sabedoria popular”, através das formulações lapidares dos ditados e provérbios: “Quem não se aventurou, não perdeu nem ganhou”. Muito adequado a um país de emigrantes.

= Por fim, o traço de beleza física que se realça, é que as beldades são todas loiras, de cabelos de oiro. Ou seja, são celtas, são visigodos, são da casta da nobreza guerreira. Nada de misturas com Moiros ou Africanos…

Concluindo – um discurso linguístico e literário bem de acordo com a moral sócio-económica do Estado Novo. Um discurso circular, sem quebras nem saídas: conservador, dualista, cruel, elitista e racista. Vencer na vida, mas deixando tudo nos seus devidos lugares, pois sabemos que quem for bom, terá a recompensa. E o que é ser bom? É vencer na vida deixando tudo tal como se encontrou, nos seus devidos lugares…

E assim se vê como um continho para crianças, que (aparentemente) trata apenas de encantamentos, fadas boas e gigantes maus, é tudo menos inocente!

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Enfim. Re-encontrei este livrinho que outrora fez as minhas delícias. E sinto-me feliz por constatar que apenas contribuiu para me cultivar a fantasia. Quanto ao mais, fiquei apta a aprender outras lições.

Continuando numa leitura de símbolos, posso dizer que re-encontro este coelhinho verde em muito bom estado de conservação, apesar do papel amarelecido pelo pó do tempo. Pois só o papel amareleceu. Infelizmente, a ideologia que contém anda a refazer-se do recuo a que se viu forçada, e anda a recompor-se a passos de mau gigante…

D. Virgínia Folque de Castro e Almeida Pimentel Sequeira e Abreu, a autora, era uma aristocrata. A sua obra bem o comprovou.

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Termino, congratulando-me por esta visita ao Espaço Ulmeiro, que me proporcionou rever e retomar o contacto com os meus velhos amigos, Lúcia e José Ribeiro.

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© Myriam Jubilot de Carvalho

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Bibliografia:

Caso alguém queira documentar-se sobre Virgínia de Castro e Almeida, deixo este artigo que encountrei na Net:

Virgínia de Castro e Almeida

www.cerimonias.net/libecline/n2/abstracts.pdf?

ISSN 1646-7329 www.libecline.pt.tp. 1. V. Revision received November 2007.

Virgínia de Castro e Almeida and the collection «Grandes Portugueses»: books for  

http://www.cerimonias.net/libecline/n2/abstracts.pdf

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Links das imagens:

= http://2.bp.blogspot.com/_vyPcxm-fW6Y/SxDStFCnX5I/AAAAAAAAHyU/JJ_QZzNmPik/s1600/Clipboard01.jpg

https://fbcdn-sphotos-f-a.akamaihd.net/hphotos-ak-frc1/t1/s403x403/1486755_325400777598636_615514388_n.jpg

capa do livrinho:

http://4.bp.blogspot.com/-SLTRdpYzCxY/TqfiViHBwUI/AAAAAAAAAEQ/13LEtr30_Gc/s400/IMG_4034.JPG

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Nota:

Este artigo é também publicado, a convite de José Antunes Ribeiro,

na página do FB:

Amigos do Clube do Espaço Ulmeiro

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Dia 13 de Março de 2014, pelas 24h

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Primavera

* Notas Breves — Myriam de Carvalho @ 12:04 pm

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As borboletas simbolizam a chegada da Primavera,

seguem o ciclo da Natureza,

vêm lembrar-nos que a Vida se renova!

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Que no perturbado mundo que nos cerca,

cada um de nós possa preservar o seu oásis de Paz!

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Buda dizia – “cada homem é uma ilha”

– De facto, cada qual é responsável por si próprio, apenas…

Mas se essa responsabilidade for assumida até às últimas consequências,

cada qual respeitando o lugar do Outro,

o mundo poderá vir a ser melhor

e um melhor legado para os nossos descendentes!

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Quanto a mim, não pode haver Poeta,

nem a Poesia será válida para nada,

longe desta perspectiva.

Qual o valor das palavras?

Um  adorno intelectual, inconsequente?!

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Para mim, Poesia e Vida são sinónimos

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© Myriam Jubilot de Carvalho

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Bonitas imagens que encontrei na Net:

Por ordem decrescente:

http://api.ning.com/files/XYiv7fIdv4iTEA3drQplOpZGqwHla4Npdn4t9k69kBp*TdrE0rb-0qztH-Mjzy3*SZ*uGjJmC1kmz54soW3nKiRAhooiB6ed/426588Asborboletasmaisbonitasdanaturezafotos12.jpg

http://1.bp.blogspot.com/-SIk-bc-fWdM/UqaLRoIa7UI/AAAAAAAAAQQ/3HMZCGwaLqw/s640/pipewine-swallowtail-butterfly-edupic-net.JPG

= http://3.bp.blogspot.com/-EdW5E00hE18/UH1nrDghTjI/AAAAAAAALAY/kmdQIX5l3ZU/s640/img_8577.jpg.

= http://4.bp.blogspot.com/_JuzBNhUaE-8/SwFP7z2RC6I/AAAAAAAABWE/UcON2-2Kphw/s1600/borboleta.jpg

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Dia 9 de Março de 2014, pelas 12h 38m

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“Inquietação” – um romance de Tagore

* Notas Breves — Myriam de Carvalho @ 7:06 pm

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“Inquietação” – um romance de Rabindranah Tagore

 

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Rabindranath Tagore

7 May 1861 – 7 August 1941

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“Inquietação” (obra traduzida para inglês sob o título Fair-Faced) é o título da tradução portuguesa da Editorial Minerva (1947), do romance “Gora” (de 1910), da autoria do primeiro prémio Nobel da Literatura não-europeu, Rabindranath Tagore.

Esta obra, “Inquietação” – é o que em tempos não muito recuados se designaria como “romance de tese” , ou a que Sartre chamaria “roman engagé”… Na verdade, personagens e enredo são um tanto forçados, pois têm que demonstrar aquilo que o Autor quer que o Leitor veja…

Mas aquilo que ele quer que se veja, está muitíssimo bem apresentado – a Índia das castas, do sistema religioso aprisionante, e ao mesmo tempo da opressão cruelmente arrasadora da administração colonial inglesa… os idealistas, os acomodados, e os traidores, e os jovens de boa-vontade que à custa da experiência vão aprendendo a identificarem-se com o seu povo e a sua salvação… Por um lado;

Por outro lado, salva o livro, o sentimento poético de Tagore, que era na verdade um grande Poeta! Eu quase que diria que se vê melhor o Poeta que ele era através das pequenas descrições sobre as emoções das personagens, do que através dos poemas…

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Gosto imenso de Tagore! Também foi um grande pedagogo! Fundou uma universidade, na sua própria propriedade, Shantiniketan – que ele idealizou como um centro de estudos das Humanidades “para além dos limites de nação e de geografia”, aonde ele próprio deu aulas e fazia os textos de estudo!

Não tendo tido a sorte de ter frequentado os seus cursos, tenho no entanto a satisfação de poder apreciar um pouco da sua obra em prosa, que vou encontrando em alfarrabistas…

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Deixo aqui este link de um brasileiro que visitou Shantiniketan:

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,a-cidade-que-o-escritor-tagore-pos-no-mapa,1029283,0.htm

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© Myriam Jubilot de Carvalho

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Dia 3 de Março de 2014, pelas 19h

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