Esperança de Avestruz

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 8:44 pm

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HOJE publico aqui um poema antigo , a propósito da final da Taça da Europa de 1990, que teve lugar em Viena (Áustria), entre o Milão e o Benfica.

O jogo foi ganho pelo último golo do Milão. (Informação Wikipedia)

Mas o poema, em si, poderia ser de agora.

Penso que a frase do refrão, “o Benfica é a esperança de todos nós” , é que terá dado origem ao poema.

Deve ter sido dita por algum locutor, já não me recordo, mas deve ter sido isso…

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 Esperança de Avestruz

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“Somos do tempo de viver aos molhos

Para morrer sozinhos”

Reinaldo Ferreira

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Você calou a solidão no fundo escondido da arca mais velha dos sótãos da alma?

Então ligue a televisão para encontrar a salvação, remédio para todos os males. E  espelho de Portugal!

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Dê atenção ao locutor, há uma nova esperança no ar! Olhe bem, abra os ouvidos! Que ele malabarisma com a imaginação, com os truques da entoação…

Veja bem como ele se serve dos estereótipos linguísticos de criatividade aplicada.

Veja bem porque ele merece! Lança ao ar, num grande espectáculo sonoro, palavras funcionais como bolas mágicas de várias cores, palavras que se cravam como agulhas capilares, nas diferentes sensações latentes dos expectadores e ouvintes radiofónicos.

Porque hoje é dia de festa!

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A gente sabe que o mundo está a acabar.

A calote gelada da Antártida está a derreter, os oceanos vão galgar praias, promontórios. Vão engolir cidades e campos e florestas como nas calamidades pré-históricas.

E você, e eu, e ele, e toda a gente cala o medo! A gente nega-o!

E o medo, cinicamente, toma formas redondas, e sai-lhe, a ele, sob a forma de bolas, bolas sem peso específico, bolas colectivas, reluzentes bolas de ouro, reconfortantes e aconchegantes como os comprimidos tranquilizantes e a gente diz que não vai ver nada disto em nossos dias.

Deixe lá, que interessa, hoje é dia de festa!

E o Benfica é a esperança de todos nós!

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Você sabe que em cada três (3) australianos, dois (2) sofrem de cancro da pele. Você, e eu, e o locutor, e toda a gente! A gente sabe que a Vida está em risco-de-vida, . que o aquecimento dos mares, tal como as marés negras, provocam a morte das espécies marinhas, que estamos a ficar desprotegidos das radiações solares, que a redução (o abate) das florestas nos dizima do nosso quinhão de oxigénio, de água, e de beleza.

Mas a gente cala a função-do-real no poço sem fundo da urna de voto com uma simples cruzinha inscrita sobre o quadradinho do candidato mais palavroso a prometer desenvolvimento, mais despudorado a anunciar facilidades e abundância! E você, eu, a gente pensa secretamente, mais voto, menos voto, que é que tem? Os cordelinhos estão todos nas mãos deles…

Viva, sim, Amigo! Coma e beba! Ame. E durma. Subsista!

Que hoje é dia de festa!

E o Benfica é a esperança de todos nós!

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Você, e eu, e toda a gente, a gente sabe que há crianças escravizadas. Desde o berço. Que em vez de carinho, recebem avantajados quinhões de fome, e de trabalhos forçados. Crianças prostituídas. Desde o berço. Que em vez de carinho, suportam os efeitos das taras dos turistas. Que há crianças que têm, por mamada, um golo de vinho. Você sabe que há pessoas, povos, abaixo do limiar da miséria? Será que a gente, nós, fazemos ideia do que isso seja, a total ausência de qualquer esperança?

Você, ou eu, ou toda a gente, a gente calou a desilusão das nossas vidas debaixo das pilhas burocráticas que nos inundam a secretária dos nossos empregos sem brilho e sem surpresa?

Mas que interessa!

A gente liga a TV, a gente liga a radiofonia, a gente escuta, emocionada, o papagaio amestrado que comunica, em euforia linguística de criatividade aplicada, aquilo que a gente já sabe. A única fé que nos guia.

O Benfica é a esperança de todos nós!

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É bom esquecer as nódoas da roupa. A panela ao lume. A limpeza semanal que engorgita os fins-de-semana e as horas que deviam ser de ócio.

É bom esquecer que os tostões não chegam ao fim do mês, que a quarta semana nunca devia existir, quem foi o cretino que a inventou?

E os preços a subir!

É bom esquecer que a roupa do ano passado já não serve, que os putos cresceram. A gente até se esquece de agradecer aos deuses que os filhos crescem porque têm saúde!

É bom esquecer que os livros escolares custam os olhos da cara, que isto é tudo um grande, um vergonhoso negócio.

E os preços a subir!

É bom esquecer que os putos possam ter problemas na escola, os professores estão lá para quê? Que os aturem. Quando as coisas correm mal, a culpa é deles!

E você, e eu, e toda a gente. A gente cala a angústia, a ansiedade.

Que se lixe!

Que interessa? Hoje é dia de festa!

E o Benfica é a esperança de todos nós!

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E você, e eu, e toda a minha gente! A gente volta a ser criança! E a gente vai soltar, lá do fundo mais escondido da arca mais velha dos sótãos da alma, um papagaio-de-papel. Verde, translúcido. Leve, leve, leve. E a gente corre, a gente voa sobre as dunas, a gente é toda ouvidos para as canções do vento que segreda –Dá-lhe fio, dá-lhe fio, deixa-o subir. Monta-te nele, e vai, vai, grátis, a Viena. Que hoje é dia de festa. É o Benfica!

É o Ben-fi-ca!

A (maldita) esperança de todos nós

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Myriam Jubilot de Carvalho

Inédito

Almada, Maio de 1990, s/d

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Publicado por Myriam jubilot de Carvalho

Dia 15 de Janeiro de 2014, pelas 21h

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O acesso à Educação

* Educação e Criatividade,* Notas Breves — Myriam de Carvalho @ 11:45 am

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O acesso à Educação

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Garantir a educação da população é considerado um dever das democracias modernas.

1- O abandono escolar sempre tem sido combatido. Mesmo na época salazarista, de escolaridade reduzida, o abandono escolar era combatido. O abandono escolar não é um facto aceitável por si. Regra geral, é um fenómeno pontual, é individual. E é considerado como sintoma de um mal-estar que é preciso compreender para resolver:

Quando acontece, tem que ser analisado pelos técnicos de educação – professores, direcção da escola, psicólogo de apoio na escola – juntamente com os encarregados de educação; quando estes em conjunto são impotentes para resolver o assunto, há recurso aos serviços competentes de apoio à educação e juventude em risco; por exemplo, o Tribunal de Menores – embora este último por vezes se revele impotente para resolver problemas, certamente por falta de pessoal especializado face à procura.

2- O desinteresse que leva ao abandono escolar por parte dos jovens revela de factores que radicam, em geral, na psicologia comportamental do jovem, muitas vezes como resultado de um cumular de dificuldades de aprendizagem cujas primeiras manifestações não foram detectadas em devida altura; ou nas características da escola – em geral, o crescente número de alunos por turma, o que acaba por impedir um ensino individualizado.

3- É um dado da sociologia da educação que a escolaridade obrigatória foi sendo alargada para manter os jovens ocupados, à medida que a sua inserção no mercado de trabalho ia sendo adiada – o alargamento da escolaridade obrigatória não aconteceu de forma gratuita, isto é, não obedeceu a nenhum idealismo, nem a nenhum ideal dito de Esquerda; foi um recurso para manter os jovens ocupados, afastando-os o mais possível da delinquência.

No entanto, convém recuar no tempo, e observar a evolução do ensino e da sociedade portuguesa na segunda metade do séc XX:

O sistema de ensino da época salazarista, a seguir a um tronco comum  – a escola primária – dividia-se em dois ramos, como é sabido:

O ensino liceal, que era frequentado por quem podia “seguir os estudos” e tinha garantido o financiamento de um curso universitário (dito “superior”); e era como também é sabido, um ensino intelectualizante, que se baseava no domínio verbo-conceptual, ou seja, naquilo que na linguagem vulgar se chama “a cultura” (as Humanidades).

O ensino técnico, frequentado por quem não tinha hipóteses financeiras de aspirar à frequência do ensino “superior”; e que era, ao fim e ao cabo, um ensino técnico-profissional. Aqui, o âmbito dos programas da área das Humanidades era aliviado de detalhes certamente “inconvenientes” (por exemplo, a História não focava pormenores que levassem a uma consciência de classes; as Línguas eram apenas as bases para poder minutar cartas comerciais…)

Deste breve apontamento se conclui que o sistema de ensino da época salazarista se destinava a perpetuar a distinção entre as classes sociais – o ensino liceal destinava-se à educação da classe média e média-alta, bem como da aristocracia; o ensino técnico, destinava-se à classe trabalhadora (média baixa).

Havia ainda um ramo de ensino a que recorriam as classes sem recursos, o ensino religioso levado a cabo nos seminários da igreja católica que, na sua angariação de agentes (padres) praticava um ensino de internato gratuito. Os rapazinhos eram entregues ao seminário, e quanto mais tempo aguentassem o regime do internato, maiores seriam as hipóteses de saírem com estudos mais avançados. Lembremos que dois dos nossos grandes escritores do séc XX tiveram esses começos (Miguel Torga e Vergílio Ferreira).

O sistema do ensino salazarista destinava-se a manter as classes nos seus termos e limites. Assim, diziam as estatísticas, apenas 4% dos jovens oriundos das classes trabalhadoras (as classes “baixas”) conseguiam aceder ao ensino universitário ou “superior”. O ensino liceal formava quadros dirigentes; o ensino técnico formava assalariados.

4 – A Revolução dos Cravos, com intenção de acabar com esse ensino elitista, e de acabar com a “distinção de classes” fez a unificação dos dois primeiros ramos de ensino referidos, criando o Ensino Unificado. E isso viria a revelar-se um erro. Não porque o sistema salazarista fosse bom, mas porque as pessoas não aprendem todas da mesma maneira, nem aprendem todas ao mesmo ritmo. Há filhos das classes “favorecidas” que não têm jeito para as Humanidades e sim para as Técnicas, e há filhos das classes “baixas” que não têm jeito para as Técnicas e sim para as Humanidades… E entre uns e outros, há quem aprenda ao ritmo desejável (os alunos que “passam” todos os anos), e há um certo número, felizmente reduzido, que aprende a um ritmo mais lento (e a estes o sistema de ensino não oferece melhor solução do que a “selecção”, e dá-lhes o estatuto de “repetentes”).

Havia, pois, escolas muito boas, com oficinas bem montadas e apetrechadas, onde se fazia um ensino profissionalizante de muito boa qualidade, cujos recursos foram ignorados e desaproveitados.

5- Foi preciso o acalmar dos ânimos revolucionários, para se perceber que os dons das pessoas não se manifestam segundo as classes sócio-económicas, mas sim aleatoriamente! Só no fim dos anos 80 é que o Instituto do Emprego e Formação Profissional começou a recuperar o ensino técnico-profissional e os recursos que proporcionava.

6 –  As últimas décadas têm encorajado o acesso das classes “médias” e “baixas” ao ensino “superior”. Daí, a criação dos numerus clausus para restringir e controlar esse acesso. Mas ao contrário do que provavelmente poderão pensar observadores desprevenidos, apesar da falta de oportunidades que actualmente se verificam no acesso à vida profissional, as pessoas não abandonam os estudos. Muito pelo contrário, prolongam-nos!

7– A concluir este breve apontamento, perguntarei:

Para que servem as revoluções?

Conforme se verifica, as revoluções servem, em última análise, para deslocar as classes no poder da sua situação de privilégio, e criar oportunidades para que outras lhes ocupem o lugar. Foi o que aconteceu, mais uma vez. Nestes últimos 40 anos, desde o 25 de Abril até agora, deu-se o re-agrupamento, a re-organização, tanto das antigas aristocracias como das que se foram formando por via deste referido acesso às universidades. São estes os “técnicos” que agora ocupam lugares de decisão política e vão sucessivamente dificultando as condições de trabalho no nosso Ensino.

8 – Para concluir, cito Nicolau Santos

“Durante a II Guerra Mundial, quando o esforço militar consumia todos os recursos das ilhas britânicas, foi sugerido ao primeiro-ministro Winston Churchill que cortasse nas verbas da cultura. O homem que conduziu a Inglaterra à vitória sobre a Alemanha recusou peremptoriamente. “Se cortamos na cultura, estamos a fazer esta guerra para quê?” Mutatis mutandis, a mesma pergunta poderíamos fazer hoje: se retiramos todas as verbas para a cultura, estamos a fazer este ajustamento em nome de quê? Mas esta, claro, é uma questão que nunca se colocará às brilhantes cabeças que nos governam.” ( Nicolau Santos )

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Imagens:

* Illustration of Émile from Émile; or, On Education (1762), by Jean-Jacques Rousseau.

   Credit: © Photos.com/Jupiterimages

* Program on Education for Social Responsibility

  http://www.psysr.org/about/programs/education/.

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Publicado por Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 12 de Janeiro de 2014, pelas 11h 45m

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Eusébio da Silva Ferreira

* Notas Breves — Myriam de Carvalho @ 2:16 am

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Unknown

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Eusébio da Silva Ferreira

1942 – 2014

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Publicado por Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 6 de Janeiro de 2014, pelas 2h 20m

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