As Três Velas – entre Marc Chagall e Rumi

* Estudos e Comunicações — Myriam de Carvalho @ 10:52 pm

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As Três Velas

In our life there is a single colour, as on an artist palette,

Which provides the meaning of life and art. It is the colour of life.

 Marc Chagall

 .Este quadro de Chagall sempre tem sido para nós motivo de reflexão. O par, as três velas, a árvore, os frutos da árvore que não são frutos mas talvez estrelas; vários anjos, um, a confundir-se com a cor da nuvem, voa; outro é violinista; um outro, o anjo branco, em queda… Sobrepondo-se a este último, um homem, também no ar, toca violino… Do canto superior esquerdo, um outro anjo, já indistintamente, sai de dentro da copa da árvore… A nuvem cor-de-sangue. Sob a nuvem, no lado inferior direito, duas figuras, talvez duas mulheres, atrás de uma vedação, de braço direito erguido, apontando para o par. À sua direita, quase na extremidade do quadro, uma outra figura, semelhante a um Arlequim, toca flauta… Do lado esquerdo, em franca desproporção, um elemento que me parece a caveira de um animal… No canto inferior esquerdo, um burro amalhado, deitado, pacífico, de costas para toda a cena, e dado essa posição, eu assumo-o como sendo o burrinho do presépio. Ao fundo, bastante sobre o horizonte, casinhas – pequeninas, desenhadas com traço infantil…

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Comecemos pelo par. Jovens, abraçados. A posição do par é instável, nem estão deitados, nem estão de pé… Talvez porque pairam acima da nuvem… acima do mundo, acima da realidade… Abraçados, púdicos, talvez perplexos, contemplam as chamas das três velas… Sob a copa de uma árvore, talvez uma macieira, a árvore do Pecado, que aqui no quadro dá frutos que brilham como estrelas…

A rapariga, de vestido branco e fita branca a prender-lhe o cabelo, e o rapaz, de calças azuis e camisola vermelha…

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Que foi que fizeram os jovens, para se mostrarem tão perplexos? Porque apontam para eles, sob a sua nuvem, as duas mulheres (ou será um outro par, um outro casal?), de braços erguidos no ar? De que acusam o par que paira acima do mundo?

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O jovem par olha as três velas.

A primeira coisa que sempre nos ocorreu, foi o significado aprendido em criança, na catequese: as três velas simbolizam as virtudes teologias: fé, esperança e caridade, à luz da trindade divina… Só muitíssimo mais tarde realizámos que o Cristianismo não se esgota na formulação católica. Para os Adventistas do 7º Dia, por exemplo, a formulação das virtudes é sensivelmente diferente.

Mas Marc Chagall era judeu. Pergunto-me que significado teriam para ele as três velas…

A formulação das virtudes adentro do Judaismo é diferente daquela a que nos habituámos.

Aliás, preferimos todas as formulações que vamos conhecendo, às formulações aprendidas na educação católica recebida. Consultando o Catecismo expressamente motivada pela composição deste texto, vemos que permanece a formulação racional, artificial, da vida spiritual. Os grandes santos não eram assim! Teresa de Ávila, Francisco de Assis, João da Cruz, não os encaixamos nesta rigidez. Havia neles uma exuberância, uma vitalidade tal que não podia consentir-se o espartilho nas descrições deste catecismo ‘actualizado’ para o mundo moderno… Aquilo que conhecemos doutras formulações religiosas, Judaismo, Islamismo – abstraindo das considerações de género – é muito mais humano, muito mais preso às realidades da vida, às necessidades das pessoas comuns que todos nós somos!

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Quanto a nós, este quadro representa o Amor, o Amor natural, tanto quando une um homem e uma mulher, como quando une a alma a D’us! Trata-se do mesmo Amor!

Rumi, o grande místico sufi, no remoto séc XIII, formulou aquele poema conhecido como As Três Velas:

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Los seres humanos son ante la llama de una vela,
como alguna de estas tres mariposas.
La primera se acercó a la vela y dijo:
yo conozco el amor.
La segunda rozó con sus alas la llama y dijo:
sé lo mucho que quema la llama del amor.
La tercera cayó en medio de la llama
y fue consumida.
Sólo ella sabe realmente lo que es amor.

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Este sim, será o verdadeiro entendimento do Amor! O Amor incondicional, o Amor que se dá sem pedir em troca porque sabe que é mútuo, que é recíproco! Não se distingue da confiança, não se distingue do crédito, não prescinde do respeito, não prescinde da liberdade, porque sabe que o que é bom para um, é bom para o outro!

É no Amor humano, quando é total, que se encontra a verdadeira cidade de D’us!

É por isso que o par de Chagall paira acima das nuvens, acima da mediocridade dos interesses da cidade, acima dos preconceitos, acima das considerações de interesses de qualquer espécie! É por isso que causam um tal escândalo que são apontados a dedo pelas pessoas mínimas, vestidas sem cor e sem luz. É por issso que o anjo branco cai, porque se vê destronado do prestígio imerecido onde o tinham acorrentado, porque fundamentado em falácias insustentáveis.

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Será por isso que o par está à sombra da macieira, a árvore do Pecado, porque não há Pecado. Porque o único pecado é a mentira, o preconceito, a inveja, a prisão.

Será por isso que os frutos da macieira são estrelas luminosas, a iluminar a paisagem.

Será por isso que lá está o pacífico burro, animal tão paciente quanto inteligente, cujo sentido de orientação não o deixa perder-se na paisagem, estejam os campos ceifados ou prenhes de altas searas.

Será por isso que as cores que investem o par são as três cores que nos remetem para D’us – o branco, o azul, e o vermelho – Sabedoria, Poder e Amor.

E será por isso que o par desafia a Morte, presente no símbolo da caveira animal. O Amor não more! Passa de vida em vida, e quando aqui regressa, reencontra-se, reconhece-se.

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Com a devida vénia, retirei:

A tradução do poema, da página Sabedoria Perennis, do Facebook,

 A imagem foi retirada do blogue:

http://jetaimejetaimeouijetaime.blogspot.pt/2012/04/

three-candles-marc-chagall-in-our-life.html

Link da imagem:

http://2.bp.blogspot.com/-5o3tsdZhu6E/

T5uN_zaemRI/AAAAAAAAAEc/XGYhjSd__qI/s640/Marc-Chagall-The-three-candles-83703.jpg

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Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 29 de Dezembro de 2013, pelas 23h

Actualizado em 17 de Junho de 2015, pelas 12h 30m

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2 Comments »

  1. Chagall é maravilhoso. A sua interpretação do quadro, perfeita.

    Abraço grande do

    Avelino

    Comment by Avelino Sousa — February 14, 2014 @ 12:22 pm
  2. …E o seu comentário – de tão sucinto – é completo!
    Não se pode esperar melhor!
    Mas é também um comentário de autêntica Amizade, que tanto aprecio!
    Deu-me a maior satisfação, fico-lhe muito grata!
    Um abraço,
    Myriam

    Comment by Myriam de Carvalho — February 16, 2014 @ 5:57 pm

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