Rêve d’amour, nas Flautas Mágicas dos Andes

* Contos — Myriam de Carvalho @ 10:02 am

.

.

Quem não gosta de ouvir as flautas dos Andes? Quem não se sente condor, símbolo do poder dos povos nativos dos Andes contra o intruso invasor europeu?

Quem não sente a nostalgia de poder abrir as asas de par em par, e pairar, planando, imponente, senhor silencioso do ar azul, sobre as montanhas a 4000 metros de altitude?

Quem não se sente na pele do Outro, seu Semelhante, ao escutar as melodias veladas, subtis, das flautas andinas?

.

Contam as lendas dos Andes a origem das flautas. Todos os povos que fizeram pastoreio tiveram flautas, certamente. Tenho a certeza que o inocente Daphnis colheu algumas canas e nelas soprou, com maior ou menor intensidade, esforçando-se por delas tirar harmonias com que seduzisse a atenção da pequena Cloé, enquanto ovelhas e cabras do seu rebanho tosavam nos áridos arbustos de alguma encosta da Ática, donde se avistasse, azul, o Mar Egeu…

Estou persuadida que em todas as culturas primitivas terão sido preparadas flautas – tipo de instrumento tão fácil de intuir a partir da oferta da Mãe Natureza em materiais que pudessem fazer vibrar a veia inventiva do Ser Humano!

Contam as lendas dos Andes a origem das flautas. Ora eu li, em tempos de juventude, que os povos ameríndios não tinham Música, nem Poesia…

Enfim, há décadas atrás, era nestes termos levianos que grosso modo eram apresentados aos estudantes os povos não-europeus, incutindo nas mentes em formação, informação inexacta, tendenciosamente grosseira, que desde cedo inoculasse o sentimento venenoso da superioridade dos povos europeus sobre os povos dos outros continentes, apenas porque dá trabalho o esforço de perceber, e admitir, ou aceitar, que é na diferença que reside a riqueza da Humanidade.

Contam as lendas dos povos dos Andes a origem das flautas. E quando pela primeira vez li esta lenda, perguntei-me a mim própria:

“Então, uma lenda como esta – não é isto Poesia? Porque é que dizem que os povos Americanos não tinham Poesia?”

…E fiquei alerta…

Só muito mais tarde pude perceber que faltava um pormenor à descrição: “…não têm Poesia num conceito de produção individualizada, à maneira europeia…”

Mas obviamente que têm Poesia.

.

Contam as lendas dos Andes que havia, no tempo antigo, um casal de pastores, unido por um tal sentimento de Amor tão profundo, se é que se pode comparar, como as fundas ravinas entre as agrestes montanhas. Eram jovens, alegres, e enquanto as cabritas pastavam, o jovem enamorado colhia corolas com que fazia coroas à sua gentil esposa, ou deitavam-se ambos na sombra de alguma rocha, de algum arbusto, sobre as mantas coloridas, vendo o correr das nuvens brancas, brilhando ao sol…

E os dias passavam, serenos como o voar do condor.

Acontece que a jovem adoeceu. E não houve remédios capazes de a curarem, nem os mais sábios xamans conseguiram identificar o estranho mal que a enfraquecia, e minava… Inexplicavelmente, a jovem foi perdendo as forças, foi desistindo de se agarrar à vida, e acabou por falecer.

…Mas a vida era impossível sem aquela companheira! Sem a sua bela esposa, o pastor não podia sobreviver! Os dias, e as noites, a montanha, e o céu azul, o rebanho e as ravinas, e tudo era um desespero, um desespero mudo, um desespero sem expressão possível nem alívio, uma solidão insustentável, e o futuro apresentava-se como uma gruta profunda no íntimo das montanhas onde o sol não tinha entrada…

…Então, certa tarde, ao declinar do dia, quando as sombras se alongam e a solidão com elas cresce, o jovem  retirou uma tíbia ao corpo amado, e amorosamente, lavou-a na água fresca da ribeira que descia a encosta…

…Depois, sentou-se… Pacientemente, abriu no osso uns pequenos orifícios… E levou-o a aflorar-lhe os lábios, enquanto delicadamente obliterava ora um ora outro dos pequenos buraquinhos, impedindo a saída do ar ora por um, ora por outro… E não é que belos sons começaram a desprender-se-lhe daquele mágico instrumento?… Belos sons começaram a delinear-se na sua frente, e era a esposa amada que voltava à sua presença…

Em todas as épocas os poetas e os músicos, e todos os artistas,  se serviram das palavras, dos sons, das cores, para manterem a seu lado a presença perene e eterna da amada que o destino lhes arrebatara…

…Pelas encostas, pelas ravinas, pelas nuvens, pelo céu azul, a jovem pairava num voo planado, lado a lado com os condores, ou vinha em seguida repousar junto dele, calmamente, serenamente, muda para não interromper a doce melodia que se desprendia daquele instrumento em tão boa hora criado que a trazia a ela de novo à vida, e a ele restituía a doçura da sua companhia…

…E tudo o mais, à sua volta, tudo o mais para além deles, tudo o mais para além da melodia saída daquela flauta mágica, era um lugar vazio…

.

.

…E se a celebração do Amor não é Poesia – o que o será então?…

Poesia, e Amor, são universais.

O resto, é que continua a haver quem estude Literatura, quer Oral e Tradicional, quer escrita ou dita erudita, numa postura formal, presa de preconceitos e sem sensibilidade poética nem artística, e pior ainda, sem aquele sentimento de Liberdade e Respeito que, penso eu, faz a única ponte possível entre as diferentes culturas!

…Mesmo o Amor cristão me deixa perplexa e de sobreaviso… O Cristianismo continua a sentir-se a si próprio como a única verdade possível, que olha caritativamente para o lado, lamentando quem ainda não teve a sorte da conversão…

***

Bibliografia:

= Native American Songs and Poems; Edited by Brian Swann – Dover Publications, Inc.; Mineola, New York

= The Sky Clears, Poetry of the American Indians – by A. Grove Day; University of Nebraska Press. Lincoln

***

Imagens:

http://1.bp.blogspot.com/_r74vxoo9V2U/TCS6vc7tmKI/AAAAAAAAA6k/                                                                                                                                                                                                            XuBr7tugIHs/s1600/condor_vuela.jpg

http://www.firsthdwallpapers.com/uploads/2013/09/condor1.jpg

http://4.bp.blogspot.com/-dgr7N1iFSfE/UXrfbsVD3uI/AAAAAAAABhs                                                                                                                                                                              /EDc9MkuUhE0/s1600/Cravos+vermelhos.jpg

.

Publicado por Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 28 de Outubro de 2013, pelas 10h

.

.

 

0 Comments »

No comments yet.

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Leave a comment

This work is licensed under a Creative Commons Attribution-Noncommercial-Share Alike 3.0 Unported License.
(c) 2019 Por Ondas do Mar de Vigo | powered by WordPress with Barecity