Um apontamento de Verão

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 1:57 am

.


.

Alte, Fonte Grande

.

A Cândido Guerreiro

.

Ensinaram-me as águas a ouvir,

A sentir, as canções das árvores, e dos montes,

Dos grilos, das pedras, das cigarras,

Dos canaviais apaixonados pelas fontes,

.

Essas águas rendilhadas pelas moiras

Em cascatas onde fluem as estrelas,

O burrinho a dar à nora eternamente,

As cheias arrastando as margens e as pontes,

.

Os meus olhos são verdes, de alecrim,

E as mãos, do barro velho, soalhento,

Das tardes lentas que bordaram minha infância…

.

…E tudo isto é só verdade dentro em mim,

E esse tempo é sempre – sempre – este momento

Que só a emoção recupera! Na distância

.

Alte, Fonte Grande, Verão de 1985

Myriam Jubilot de Carvalho

Inédito

.

Imagem:

http://www.capitaodureza.com/portal/images/Anibal/descobrir/Alte_2.jpg

..

Publicado por Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 31 de Agosto de 2013, pelas 3h

.

.

Omar Khayyam e o Bhagavad Gita

* Notas Breves — Myriam de Carvalho @ 11:17 am

.

OMAR KHAYYAM e o BAGHAVAD GITA

.

Sendo eu apaixonada por Omar Khayyam, e razoável conhecedora do Baghavad Gita, nunca me tinha apercebido de que a Poesia de Khayyam estaria tão próxima do poema indiano…

Acontece que um Amigo me enviou este belo power-point, com uma condensação do pensamento do Baghavad Gita! E aqui sim, fez-se-me intensa ressonância dos Quatrains:

O_Bhagavad_Gita_simplificado_PPS

***

Tenho querido desenvolver este tema, mas na falta de tempo com que me vejo presentemente, aqui fica o apontamento.

.

Imagens:

http://sorocaba.nova-acropole.org.br/sites/default/files/agenda/sorocaba/bhavagid_gita.jpg

http://www.nndb.com/people/043/000031947/omar-khayyam-1.jpg

.

Publicado por Myriam Jubilot de Carvalho

Diz 4 de Setembro de 2013, pelas 24h

.

.

A Lenda das Amendoeiras

* Alandalus,* Antologia — Myriam de Carvalho @ 10:00 am

.

.

O encanto – ou encantamento – que a LENDA DAS AMENDOEIRAS exerce sobre nós, revela-se através das diferentes versões que dela vamos descobrindo. Qualquer delas veicula uma história de Amor – à partida impossível – entre vencedores e vencidos, ou entre poderosos e súbditos, ou entre duas culturas (ou religiões) diferentes…

Na verdade, a versão de Benidorm, que aqui trago hoje, lembra-nos que o Amor pode vencer ódios, oposições, desconfianças, mal-querenças, ressentimentos… Lembra-nos que o Amor – no seu conceito mais lato – é um “recurso” ao alcance de todos nós, e que todos o possuímos desde que saibamos aliar “cabeça”, “coração”, “criatividade” e boa-vontade! E que se abrirmos o coração, um mundo de bem-aventuradas surpresas se abrirá como compensação à ultrapassagem das diferenças…

Não se pense, no entanto, que eu olho para as tradições com olhos moralistas ou que tentarei ver nelas o que elas não contêm. Sobretudo na versão que parece ser a mais próxima da vida real, a de Abderramão III, a solução para a tristeza da concubina não tenta colmatar as consequências nefastas das diferenças entre Senhor e Escrava, não vai ao ponto de destruir as causas do mal-estar da jovem prisioneira… Enfim, apesar de dar continuidade à diferença de estatuto de cada protagonista, esta versão não deixa de encerrar uma história de amor…

 

Começo por reproduzir, com a devida vénia, a versão espanhola – a versão de Benidorm -, que encontrei neste blogue:

.http://leyendasytradiciones.blogspot.pt/2011/01/los-blancos-campos-de-benidorm.html

.

“Era Mubarak el sabio y prudente alcaide de Benidorm y bajo su gobierno vivían en paz y concordia moros y cristianos.

Mubarak no tenía hijos varones pero se consolaba con las cualidades con que la naturaleza y una excelente educación habían dotado a su única hija Zobeida.

Zobeida se enamoró perdidamente de un apuesto caballero cristiano por nombre Diego pero pese a la armonía en que, como he dicho, vivían las dos comunidades, la cosa no llegaba al punto de ver con buenos ojos el amor entre una mora y un cristiano. Por ello los dos amantes planearon huir una noche descolgándose con una soga desde el acantilado del Mal Pas a la playa.

Sin embargo, fueron descubiertos y devueltos a palacio en el que el Alcaide, enfurecido mandó encerrar a su hija y ajusticiar a Diego. Sin embargo, movido por la clemencia, decidió perdonar la vida al cristiano y encerrarle de por vida en una lóbrega mazmorra del alcázar. “Saldrás de ella – anunció – cuando los campos de Benidorm se cubran de blanco”. Sabía que eso era imposible porque en aquella comarca nunca nieva.

Pasaron los meses, florecieron los almendros y la campiña se cubrió de flores blancas. Diego recordó a Mubarak su promesa y este fiel cumplidor de sus promesas, le otorgó la libertad y accedió, por fin, a consentir la boda de su hija con el caballero.

Con el correr de los años, el matrimonio rodeó de nietos al caudillo muslmán y Diego fue un leal vasallo que auxilió a su suegro en todo lo que no se oponía a su religión.”

É interessante verificar que o mesmo blogue refere a nossa versão portuguesa:

“Nota:

“En Portugal se cuenta una leyenda basada también en el hermoso florecer de los almendros.

Ibn-Almundim era rey de Silves, en el Algarve portugués – que estaba casado con una bella princesa escandinava llamada Gilda.

La joven languidecía sin que los doctores de la corte pudiesen adivinar el motivo hasta que un viejo cautivo procedente de los paises del norte pidió ser recibido por el rey y le informó de que el mal de su amada esposa era la nostalgia de los nevados paisajes de su tierra natal.

Además, la solución estaba al alcanse del monarca porque consistía en plantar almendros en toda la comarca de forma que, al florecer, recordasen a la princesa las nieves de su país.

Así se hizo y, todas las primaversas, los almendros en flor hacían que los campos del Algarve se asemejasen a los paisajes nevados del norte de Europa.”

Também já vi, algures, referir que a Lenda das Amendoeiras teria origem num episódio passado com o mítico Al-Mutamid, que as teria mandado plantar por amor a uma escrava ou concubina cristã, nórdica, saudosa das paisagens nevadas da sua terra…

 …E também já ouvi a opinião de que as amendoeiras não teriam sido amendoeiras, mas sim choupos… que também dariam aos campos essa “allure” nevada…

 ***

Parece no entanto que a verdadeira origem desta lenda remontaria a um grande amor do rei Abdelraman III e à fundação da sua fantástica cidade de Medinat Azahara.

Esta versão é referida numa revista da National Geographic História (Nº 108 (2013)); mas prefiro deixá-la aqui tal como a encontrei neste blogue:

http://callepereza.blogspot.pt/2007/03/los-almendros-de-medina-azahara.html

.

Los Almendros de Medina Azahara

.

“Abd al-Rahman había traído a Azahara desde Granada, pronto se convirtió en su preferida y para demostrarle el amor que sentía por ella ordenó la construcción de una ciudad palatina; para ello contrató a los mejores arquitectos y artesanos, compró los materiales más preciados, maderas, mármoles, azulejos; mandó construir hermosos jardines con flores y plantas traídas desde todos los rincones del mundo, los pobló con hermosos pájaros y mandó que en ellos creciesen árboles de exóticos frutos.

Telas y muebles, comprados a los mercaderes más prestigiosos, adornaban las estancias de la favorita Azahara, todo lo hizo el califa por su amor.

Sin embargo Abd al-Rahman la sorprendía a menudo llorando y sus constantes regalos no conseguían su sonrisa. Le preguntó el motivo de su tristeza y qué debía hacer para contentarla, Azahara le respondió que a su tristeza el califa no podría ponerle remedio pues lloraba por no poder contemplar la nieve de Sierra Nevada, él le respondió

“Yo haré que nieve para ti en Córdoba”.

Inmediatamente mandó talar un bosque situado frente a la medina y replantarlo de almendros muy juntos unos de otros y cada primavera, cuando los almendros abrían su flor blanca, la nieve aparecía en Córdoba sólo para la favorita Azahara.”

.

Imagens:

Amendoeiras em Flor : de van Gogh

http://aidobonsai.files.wordpress.com/2011/05/branches_with_almond_blossom.jpg

Os negativos:

http://cache2.allpostersimages.com/p/LRG/30/3071/RJKDF00Z/posters/van-gogh-vincent-almond-branches-in-bloom-san-remy-c-1890-tan.jpg

.

Publicado por Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 20 de Agosto de 2013, pelas 11h

.

.

Costa de Caparica – O meu Templo natural

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 9:45 pm

.

.

Costa de Caparica

.

Apelo à energia da minha voz e levanto-a como uma trompa acima do mantra das ondas que se erguem na minha frente, poderosas, rebentando em estrondo transparente, espuma branca, e vêm lavar-me os pés terrosos e gretados da caminhada,

.

A bola de fogo do Sol usurpa do horizonte as silhuetas das faldas da Serra de Sintra e do casario de Cascais, dando transparência à base das nuvens,

.

Cargueiros, petroleiros, paquetes e batelões desenham-se no horizonte cinza já sem cor,

.

O Verão declina. Já é noite mais cedo. Acendem-se as luzes da Marginal, frente a Oeiras,

.

Pessoas agasalhadas, que está frio, vão abandonando a praia. Enchem-se de música os restaurantes do paredão, e os clientes, por enquanto ainda raros, começam a chegar,

.

Uma gaivota extraviada vem debicar na minha mesa miolinhos de chamuça,

.

Um guardanapo esvoaça sobre a areia,

.

Aviõezinhos de asas abertas voam lá em cima, muito senhores do seu papel, as luzinhas a piscar…

.

Abstraio da música “disco”. No meu jardim privado, lá está a Ribeira, o grande salgueiro, o acordeão do Sr. João Esperança, a escovinha bem batida do Corridinho, a Ti’Ànica. O Primeiro de Maio! O São João

.

As bandeirolas da Olá, omnipresentes, batidas pelo vento, enxotam-me para longe os pensamentos…

.

O meu Pai – silhueta doce e esfumada – ternura protectora –  ajudando-me a encher a minha enfusinha vermelha, ajustando-a à bica, na Fonte – as lições de Inglês

.

Os meus Netinhos – as quedas de água, as cheias de Inverno, por todo o lado os pacíficos patos – pequeninos como eu já fui um dia, correm e riem na minha frente

.

Myriam Jubilot de Carvalho

Inédito

Costa, “Espaço 20”, dia 3 de Agosto de 2013

.

Imagem retirada da página do FB:

 Native American – Honoring our Ancestors, Culture & Spirituality.

.

***

Publicado por Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 4 de Agosto de 2013, pelas 23h

.

.

 

 

This work is licensed under a Creative Commons Attribution-Noncommercial-Share Alike 3.0 Unported License.
(c) 2019 Por Ondas do Mar de Vigo | powered by WordPress with Barecity