A POESIA da LIBERDADE

* Antologia,* Notas Breves — Myriam de Carvalho @ 11:37 am

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Liberdade de EXPRESSÃO * Liberdade de REUNIÃO * Liberdade de MANIFESTAÇÃO * Liberdade SINDICAL 

Direito à SAÚDE

Direito à EDUCAÇÃO * Direito à CULTURA

Direito ao TRABALHO * Direito à GREVE

Direito à HABITAÇÃO * Direito à REFORMA * Direito à JUSTIÇA

Igualdade de DIREITOS

Guerra . RACISMO .  COLONIALISMO – Nunca mais

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Manuel de Arriaga, o primeiro Presidente da República eleito, não se assumiu como senhor de Belém, e sempre pagou renda – renda de casa –  pela ocupação da habitação oficial. Do mesmo modo, foi ele quem adquiriu, do seu próprio bolso, a viatura oficial, que foi pagando a prestações. No fim do seu mandato, ainda estava a pagá-la.

Hoje, os nossos políticos são mais que senhores de Belém. Tornaram-se senhores absolutos do País numa regressão intransigente aos tempos e conceitos da ditadura.

Simbolicamente, temos a diferença abismal que vai entre o servir um IDEAL, e o servir-se das circunstâncias pela CORRUPÇÃO…

Na Política e nas Relações Internacionais tem que haver HUMANISMO, HUMANITARISMO, tem que haver IDEAL – Ideal e não Interesses; ou seja, o RESPEITO pelas populações e o seu Progresso deve ser o imperativo mais elevado, o Interesse Superior do Bem Comum. Os governantes estão AO SERVIÇO do seu Povo, não estão no Poder para seu próprio benefício nem para expor o País à devastação do Euro. Aqueles que se posicionam num Governo ao serviço de interesses restritos não são Homens, são monstros. Infelizmente, Portugal viveu meio século de monstruosidade, traduzida em atraso tecnológico, social e cultural – e isso não pode repetir-se! Senão, o que é que deixamos aos nossos Filhos e seus descendentes?! Não podemos – não queremos voltar atrás!

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Diz José Luis Sampedro, o economista e romancista catalão falecido no passado dia 3 deste mês de Abril, agraciado com a Ordem de Artes e Letras de Espanha:

“Cada cultura teve o seu referente. Os Gregos, o Homem; a Idade Média, Deus; a actual, o dinheiro.

“Para mim o referente é a Vida. Recebemos uma vida e vamos vivê-la até ao fim. Mas para isso, necessitamos da Liberdade, para que essa vida seja a nossa e não a que nos querem impor.”

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Imagem:

Pintura de Vieira da Silva, mote da exposição «Árvore da liberdade – cartazes para o 25 de Abril»

http://amigosdavenida.blogs.sapo.pt/tag/25+abril

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Publicado por Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 25 de Abril de 2013, pelas 12h 35m

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Dia Mundial do Livro, e um poema de AUGUSTO GIL

* Antologia — Myriam de Carvalho @ 2:12 pm

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23 de abril de 2013, e novamente, mais um Dia Mundial do Livro.

Recordo aqui um dos poemas que figuravam nos livros de escola, quando eu era criança da Primária, há cerca de meio século. Usava saias rodadas e laço no cabelo.

…E era este o tipo de Poesia que os livros escolares apresentavam.

…AUGUSTO GIL, um poeta da viragem do séc XIX para o XX – uma estética que foi ficando para trás…

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Há tempos, por qualquer razão, recordei Alba Plena, que tive a sorte de encontrar na Net (e que agora não consigo re-descobrir). Recordei então que foi publicado em 1916; e percebi que se trata de um longo poema-narrativo, numa linguagem requintada e cheia de ternura. (Não confundir ternura com pieguice, obviamente.) Um poema que, na sua aparente ressonância cristã, não é apologético. Quanto a mim, filiá-lo-ia numa releitura dos mitos cristãos com recurso ao  pensamento mítico, enriquecido pela imersão na poética dos contos orientais de recurso ao Maravilhoso.

E abri o coração à recepção e admiração da grande mestria que é necessária para construir um poema assim, tão belo.

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Com os conflitos e mudanças que o século XX atravessou, com a evolução dos recursos tecnológicos, mudaram a vida social e o conceito de Tempo… A aceleração do ritmo da vida social forçosamente fez mudar os conceitos sobre a Arte. Nesta aceleração, foram postos de parte alguns Criadores e suas obras, e sumariamente considerados ultrapassados.

…E eu pergunto-me – Ultrapassados? Porquê? Escrevemos doutra maneira? – Óptimo! –

—Mas porquê esquecer uns e “salvar” outros? Porquê pôr de lado?! Será que não temos nada a aprender com estes que o Tempo e o Mainstream quase eliminam do nosso horizonte cultural? Hoje, Dia Mundial do Livro, tenho o prazer de recordar AUGUSTO GIL  e este poema que fazia  a apologia da Alfabetização, e implicitamente, da Democratização da Cultura.

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O Edital 

De Augusto Gil

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Manuel era um petiz de palmo e meio
(ou pouco mais teria na verdade),
de rosto moreninho e olhar cheio
de inteligente e enérgica bondade.
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Orgulhava-se dele o professor.
No porte e no saber era o primeiro.
Lia nos livros que nem um doutor,
fazia contas que nem um banqueiro.
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Ora uma vez ia o Manuel passando
junto ao adro da igreja. Aproximou-se
e viu à porta principal um bando
de homens a olhar o que quer que fosse.
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Empurravam-se todos em tropel,
ansiosos por saberem, cada qual,
o que vinha a dizer certo papel
pregado com obreias no portal.
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“Mais contribuições!” – supunha um.
“É pràs sortes, talvez!” – outro volvia.
Quantas suposições! Porém, nenhum
sabia ao certo o que o papel dizia.
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Nenhum (e eram vinte os assistentes)
sabia ler aqueles riscos pretos.
Vinte homens, e talvez inteligentes,
mas todos – que tristeza analfabetos!
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Furou o Manuel por entre aquela gente
ansiosa, comprimida, amalgamada,
como uma formiga diligente
por um maciço de erva emaranhada.
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Furou, e conseguiu chegar adiante.
Ergueu-se nos pezitos para ver;
mas o edital estava tão distante,
lá tanto em cima que o não pôde ler.
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Um dos do bando agarrou-o então
e levantou-o com as mãos possantes
e calejadas de cavarem pão.
Houve um silêncio entre os circunstantes
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E numa clara voz melodiosa
a alegre e insinuante criancinha
pôs-se a ler àquela gente ansiosa
correntemente o que o edital continha.
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Regressava o abade do passal
a caminho da sua moradia.
Como era já idoso e via mal,
acercou-se para ver o que haveria.
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E deparou com este quadro lindo
de uma criança a ler a homens feitos,
de um pequenino cérebro espargindo
luz naqueles cérebros imperfeitos.
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Transpareceu no rosto ao bom abade
um doce e espiritual contentamento,
e a sua boca, fonte de verdade,
disse estas frases com um brando acento:
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” – Olhai, amigos, quanto pode o ensino.
Sois homens, alguns pais e até avós.
Pois por saber ler este menino
é já maior do que nenhum de vós!”

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Imagem:

La Liseuse, Fragonard

http://1.bp.blogspot.com/-rj0tyJLewgU/TjM65ZYavpI/AAAAAAAAAVs/0XlSj93tCLI/s1600/5083_l.jpg

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Publicado por Myriam Jubilot de Carvalho

Dia Mundial do Livro, 23 de Abril de 2013, por volta das 15 h

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Inês Leitão – Um nome para o Futuro

* Notas Breves — Myriam de Carvalho @ 10:33 am

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Talvez não seja necessário apresentar o nome de Inês Leitão. No entanto, não prescindirei do prazer de a apresentar aqui.

Inês Leitão foi eleita pela revista ELLE Portugal como um dos 20 novos Talentos para o futuro na dramaturgia portuguesa. Não sem razão.

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O trabalho de Inês Leitão afirma-se não só pela espontaneidade e exuberância da expressão, mas também pela grande segurança no tratamento da linguagem escrita. Destas duas características advém a minha admiração por esta jovem Escritora.

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Inês Leitão começou a publicar em 2001 e logo se afirmou como um nome para o Futuro, como bem se pode comprovar visitando o seu blogue, Desfibrilhador 

– www.desfibrilhador.blogspot.com  – 

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Publicado por Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 22 de Abril de 2013, pelas 11h 30m

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Eva e a maçã, e uma jovem Poeta

* Antologia — Myriam de Carvalho @ 9:47 am

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Trago hoje pela primeira vez o nome jovem de Inês Leitão, com um belíssimo poema!

A par do saber do “ofício de poeta”(*), há neste poema uma forma muito pessoal de exprimir  a sensualidade.

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O poema que eu não sou

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Tenho costas de poema
unhas de poema
dentes de poema.
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Tenho cabelos de poema
útero de poema
ancas de poema.
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Tenho queixo de poema
pele de poema
vagina de poema.
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Tenho dedos de poema
orelhas,
boca
e nariz de poema.
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Tenho fluídos corporais de poema
odor de poema
cabeça de poema.
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Tenho olhos dilatados de poema
narinas de poema
joelhos, ossos
e costelas de poema.
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Tenho cara de poema
pestanas de poema,
ausência de pêlos de poema.
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Tenho febre de poema
doença de poema
dor de braços de poema.
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Tenho medo de poema
solidão de poema
crostas e nódoas negras de poema.
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E tenho audácia de poema
coragem de poema
amor de poema.

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Poema de Inês Leitão, que publico com autorização da Autora.

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(*) – Título da compilação de várias conferências de Jorge Luís Borges

Imagens:

Lucas Cranach:

http://www.toimg.net/managed/images/10183191/w482/h708/image.jpg

Giuseppe Archimboldo:

http://artreproductionsmasterpiece.com/blog/wp-content/uploads/2012/04/giuseppe-arcimboldo-eve-and-apple.jpg

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Myriam Jubilot de Carvalho, publicação do dia 22 de Abril de 2013

Pelas 10.40h

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Sabedoria Oriental

* Antologia — Myriam de Carvalho @ 11:30 am

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A Chave da Felicidade

Um conto oriental

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Deus sentia-se muito só. Para superar a sua solidão, tinha criado uns seres que lhe faziam companhia. Mas esses seres sobrenaturais encontraram a chave da felicidade e fundiram-se com o Divino, que voltou a ficar só e sumido no seu triste sentimento de solidão. Reflectiu demoradamente. Era Deus mas não queria estar sozinho. Pensou que tinha chegado o momento de criar o ser humano, mas intuiu que este poderia encontrar a chave da felicidade, que descobriria o caminho até Ele e com Ele se fundiria.

Não, não queria ficar só outra vez.

Perdurou no seu pensamento e perguntou-se onde poderia esconder a chave da felicidade para que o Homem não a pudesse encontrar. Não era fácil. Primeiro pensou ocultá-la no fundo do oceano, depois numa caverna nos Himalaias, depois noutra galáxia. Mas estes lugares não o satisfaziam.

Passou a noite em claro, perguntando-se onde seria o lugar mais seguro para esconder a chave da felicidade. Sabia que o ser humano acabaria por descer ao oceano mais abismal e que a chave não estaria segura aí. Também não estaria segura numa gruta nos Himalaias porque, mais cedo ou mais tarde, o Homem escalaria até aos cumes mais elevados e encontrá-la-ia. Nem sequer estaria segura noutra galáxia, já que o Homem chegaria a explorar os vastos universos.

Ao amanhecer, continuava a perguntar-se onde ocultá-la. E quando o Sol começava a desvanecer a bruma matutina com os seus raios, de súbito ocorreu-lhe um lugar no qual o ser humano nunca procuraria a chave da felicidade: dentro de si mesmo. Criou então o ser humano e, no seu interior, colocou a chave da felicidade.

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In

Os Melhores Contos Espirituais do Oriente (pág 20)

por Ramiro Calle

Tradução de Margarida Cardoso de Meneses

Ed A Esfera dos Livros, 4ª ed, 2010

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Nota:

Na minha transcrição, abri alguns parágrafos para dar respiração à mancha gráfica do texto. No original não há parágrafos.

Imagem:

http://3.bp.blogspot.com/-QGUp_z7cXRU/TloKWj0d12I/AAAAAAAAAXg/UGhBnEnrhdI/s1600/desert_island.jpg

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Publicado por Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 7 de Abril de 2013, pelas 12h 30m

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Mais um texto sobre a Primavera

* Antologia — Myriam de Carvalho @ 5:04 pm

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POESIA em Prosa, assim se poderá considerar este excerto de “Ana Karenina”.

Adoro esta descrição da Primavera. Aqui, Tolstoi junta um tal cúmulo de pormenores que a cena assume para nós, leitores, uma dimensão cinematográfica. Os olhos do observador-narrador – ou seja, a câmara – desdobram-se de elemento em elemento, num plano aproximado que desenrola perante o leitor-espectador a variedade maravilhosa da paisagem russa.

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Transfigurado pela Arte de Tolstoi, este crescendo  apresenta-nos, em primeiro lugar, o mundo vegetal, mudo, embora fervilhante; depois, o mundo animal, mais buliçoso. Finalmente, vem o mundo humano. Começa pela inocência das brincadeiras das crianças, que lhes confere uma força que as torna resistentes ao desconforto do seu pobre vestuário; depois, vem o mundo intermédio das mulheres, cujas cabeças pouco cultivadas (pouco escolarizadas) se desempenham das suas tarefas no meio das conversas barulhentas e inconsequentes. Finalmente, vem a superioridade do mundo dos homens, que embora igualmente pouco escolarizados, desempenham as suas tarefas que exigem o uso de força física na solenidade do silêncio. Mas estes três mundos, o vegetal, o animal, e o humano, fazem igualmente parte da mesma paisagem, parte da mesma Natureza, numa unidade que os torna iguais, e é nesse nivelamento que todos encontram por igual a mesma dignidade.

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( Primavera )

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O bom tempo custava a chegar. Um céu claro e glacial acompanhou as últimas semanas da Quaresma. Se o sol provocava, durante o dia, um certo degelo, durante a noite o termómetro descia a sete graus e a geada formava sobre a neve uma crosta tão dura, que já não havia estradas praticáveis. O Domingo de Páscoa foi todo ele de nevões. Mas no dia seguinte, repentinamente, pôs-se a soprar vento quente, as nuvens acumularam-se, e durante três dias e três noites, caiu uma chuva morna e tempestuosa. Na quinta-feira, o vento deixou de soprar e um nevoeiro cinzento espesso estendia-se sobre a terra como para esconder os mistérios que a essa hora se estavam a realizar na Natureza: a chuva, o degelo, o estalar dos blocos de gelo, o desabar das torrentes espumosas e amarelentas. Finalmente, na segunda-feira de Pascoela, já à noitinha, o nevoeiro dissipou-se, as nuvens diluíram-se em flocos brancos e o bom tempo chegou finalmente. No dia seguinte pela manhã, um sol resplandecente acabou de derreter a fina capa de gelo que se formara durante a noite e o ar morno impregnou-se dos vapores que subiam da terra. A erva velha ganhou imediatamente tons verdes, a erva nova despontou no solo, os rebentos dos viburnos, das groselheiras, das bétulas encheram-se de seiva e sobre os ramos dos vimes, banhados de luz, as abelhas, abandonando os seus quartéis de Inverno, zumbiram alegremente. Invisíveis cotovias soltaram o seu canto por cima do veludo dos prados e das choupanas cobertas de gelo, os pavoncinhos gemeram nas concavidades e nos pântanos submersos pelas chuvas torrenciais. Os grous e os gansos bravos vararam o céu com os seus guinchos primaveris. As vacas, cujo pelo irregular apresentava, aqui e ali, grandes peladas, mugiram nos pastos. Em volta das ovelhas balantes que começavam a perder o pêlo, os cabritos saltitavam, canhestros. Ao longo dos atalhos húmidos corriam os garotos, que deixavam no chão o desenho dos seus pés nus. Em torno dos tanques, ouvia-se a algaraviada das mulheres a lavar a roupa, enquanto repercutia por todos os lados o machado dos mujiques reparando sebes e arados. A Primavera chegara realmente.

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Leão Tolstoi

In:

Ana Karenina, Ed Europa-América, 2003

Tradução de João Netto

Texto actualizado, anotado e corrigido por Maria Ivanovna Miklaia

p 165

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Imagem

Obra atribuída a Leonardo da Vinci,

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/b/b2/Lascapigliata.jpg/461px-Lascapigliata.jpg

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Publicado por Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 2 de Abril, pelas 17h

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