A Natureza, num texto da Alta Idade Média

* Antologia — Myriam de Carvalho @ 2:03 pm

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Através deste texto de Boécio perpassa o sentimento da Natureza como máquina perfeita, e o respeito que lhe devemos.

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BOÉCIO

480 – 524 dC

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Quando ferve o astro de Câncer,

oprimido pelos raios de Febo,

então aquele que confiou

larga sementeira a estéreis sulcos,

enganado pela fé em Ceres,

que se dirija às árvores dos carvalhos.

Nunca vás ao bosque purúreo

para colher violetas,

quando a planície se eriça estridente

com tempestuosos Aquilões,

nem, se te apetecer comer uvas,

procures com mão ávida

deitar mão às videiras na Primavera;

é antes no Outono

que Baco apresenta os seus frutos.

Deus distribui as estações

dando a cada uma as suas funções próprias

e não permite que sejam confundidas

as alternâncias que Ele próprio determinou.

Mas aquilo que por caminho desenfreado

abandona a ordem definida

não pode ter feliz resultado.

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In: Consolação da Filosofia,

Metro 6, pág 39

Fundação Calouste Gulbenkian, 2011

Tradução de Luís M. G. Cerqueira

Imagem:

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/e/e1/Boethius_initial_consolation_philosophy.jpg/300px-Boethius_initial_consolation_philosophy.jpg

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Publicado por Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 28 de Março de 2013, pelas 14h.10m

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Dia da Poesia – Uma canção dos Índios Americanos

* Antologia — Myriam de Carvalho @ 1:32 pm

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Numa contribuição às celebrações do Dia da Poesia, escolho uma canção dos Índios Yaqui:

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Yaqui song

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Many pretty flowers, red, blue, and yellow.

We say to the girls, “Let us go, and

walk among the flowers.”

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The wind comes and sways the flowers.

The girls are like that when they dance.

Some are wide-open, large flowers, and

some are tiny little flowers.

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The birds love the sunshine and the starlight.

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The flowers smell sweet.

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The girls are sweeter than the flowers.

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In:

Native American Songs and Poems, Anthology – página 9

Edited by Brian Swann

Dover Publications, Inc.

Mineola, New York, 1996

ISBN: 13: 978-0-486-29450-6

ISBN: 10: 0-486-29450-1

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Em Português, pelo simples prazer de traduzir, embora seja uma tradução de outra tradução, e nos fique a faltar toda a magia da Língua original:

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Uma canção dos Índios Yaqui

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Tão lindas flores, vermelhas, azuis e amarelas.

Dizemos às raparigas – “Venham, vamos

passear pelos campos floridos.”

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Vem o vento e agita as flores.

Assim são as raparigas, quando dançam.

Algumas abrem-se, amplas flores, e

outras são flores pequeninas.

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Os pássaros adoram o brilho do Sol e a luz das estrelas.

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As flores, e o seu doce odor.

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As raparigas são mais doces do que as flores.

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Imagem:

http://3.bp.blogspot.com/-9ZFPtStmvgc/TrNE-YVY4XI/AAAAAAAABn0/zdIXeuny8l4/s1600/xbld-indio.jpg

.Antologia

 

Publicado por Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 22 de Março de 2013, pelas 15:40

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Fracisco Niebro

* Antologia — Myriam de Carvalho @ 12:59 pm

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Descobri este nosso poeta, que escreve em Mirandês.

Deixo este grande poema. Em primeiro lugar, na sua Língua original, e depois na versão em Português.

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De: Fracisco Niegro


Ye triste ser bielho

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nunca digas que bielhos son ls farrapos,

puis biellas solo pessonas son:

porque deixariemos perder essa palabra berdadeira,

que solo nun será nuossa se mos morrirmos

nuobos?

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– hoije, deziste-me mais ua beç,

ye triste ser bielho,

i tengo d’acreditar an ti, mas porquei?

…i alhá benes tu… bien beio l que le bai

passando als outros

i a mi passará me l mesmo, mais die menos die,

que quieres que te diga…

todo fazemos pa scunder la muorte

i mais inda para negar la belheç,

tenidos cumo eimortales ou que para ende caminamos:

mete miedo l speilho que mos amostra

fracos, andebles, deloridos, angurriados,

ls dies salagres, cada un cumo se fura l redadeiro;

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– bien bés, la belheç ye la sola eidade

de que nunca bamos a tener lhembráncias ou suidades,

que talbeç nunca póngamos cumo un tiempo an que

fumus felizes,

seia esso l que fur, porque nunca mos deixaran

campo para tanto,

ye eilha la redadeira eidade;

l pior ye fazermos de cuonta que nunca

caminamos para allá

i siempre puode ser zarredada para un die apuis:

hai cousas para que nunca stamos

purparados.

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Da obra:

“Ars Vivendi Ars Moriendi”

Âncora editora, 2012; Colecção Universos

ISBN: 978 972 789 363 7

Obra escrita originalmente em Mirandês

Tradução para Português por: António Cangueiro e Rogério Rodrigues

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É triste ser velho

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Nunca digas que velhos são os trapos,

pois só as pessoas são velhas:

porque perder essa palavra verdadeira,

que só não sera nossa se morrermos novos?

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– hoje, disseste-me mais uma vez,

é triste ser velho,

e tenho de acreditar em ti, mas porquê?

…e lá vens tu… bem vejo o que lhe vai passando

aos outros,

e comigo será o mesmo, mais dia menos dia,

se queres que te diga…

tudo fazemos para esconder a morte

e mais ainda para negar a velhice,

a caminho da imortalidade ou tidos como tais:

mete medo o espelho que nos mostra

fracos, frágeis, doridos, angustiados,

voláteis os dias, cada um como se fora o último;

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– bem vês, a velhice é a única idade

de que nunca vamos ter lembranças ou saudades,

ou talvez nunca diremos ter sido um tempo em que

fomos felizes,

seja isso o que for, porque nunca nos deixaram

espaço para tanto,

é ela a idade do fim:

o pior é fazermos de conta que nunca

caminhamos para lá

e que sempre pode ser adiada por mais um dia:

há coisas para que nunca estamos

preparados.

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Imagem:

Old Man in Military Costume, de Rembrandt

Gatty Museum, LA

http://m5.i.pbase.com/v3/77/165377/2/48604055.GettyRembrandtsOldManinMilitrayCostume.jpg

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Antologia

Publicado por:

Myriam Jubilot de Carvalho,

Dia 3 de Março de 2013, pelas 13h

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