Um lutador

* Notas Breves — Myriam de Carvalho @ 12:07 pm

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Álvaro Cunhal

Passa hoje o centenário do nascimento de Álvaro Cunhal. Por que o recordo aqui?

Para mim, ele representa, acima de tudo, um homem que lutou até ao fim pelos seus ideais de Justiça Social.

Não partilho o lado totalitário e dogmático das suas posições. Mas admiro a sua coragem cívica, e a sua determinação na sua luta política. Admiro, acima de tudo, a sua honestidade, e nesse aspecto, considero-o um modelo.

Austero, espartano.

…Dir-se-ia que não é preciso exagerar…

…Será que Gandhi exagerou?

Quem, dos nossos políticos actuais, se lhe pode comparar em estatuto ético? Acho que Álvaro Cunhal só encontra par na figura de Gandhi. A diferença que os coloca no oposto um do outro reside nos métodos… Gandhi exerceu a sua acção pela luta pacífica, e Cunhal encontra-se no sinal contrário. Mas a mesma austeridade, a mesma coerência inabalável.

…E depois, o Mundo anda para trás… Recuso-me a perceber porquê… Será que o ser humano está eternamente condenado à ganância e à mesquinhez?

Qual será a tónica, a viragem que será necessária nos sistemas educativos?

…Tenho esperança que alastrem pelo mundo as boas intenções e as boas práticas da Pedagogia de Reggio Emilia – baseada, em sucinta e última análise, na criatividade, e no diálogo.

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Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 19 de Janeiro de 2013, pelas 12h 10m

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Uma cantiga de escárnio, ou maldizer

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 1:12 am

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Uma cantiga de escárnio – maldizer

Como ando nesta onda de Poesia ao gosto medieval, deixo hoje aqui este poema antigo, do tempo em que eu fazia Cantigas de Escárnio, ou simplesmente, Maldizer…

Tinha havido reunião de Directores de Turma, e uma Colega contrariou uma intervenção minha, comentando que a minha sugestão era “utópica”…

“Utópica, lírica, sonhadora, fora-do-mundo, lunática”, eram para mim palavras que me queimavam, pois sempre tinham sido qualificativos com que a minha família me tinha brindado, na minha adolescência, e que me provocavam terramotos de revolta que eu tinha que consumir em segredo… E quando mais tarde, uma ou outra vez, estas palavras surgiam, na escola, numa ou noutra ocasião, eu tinha que continuar, educadamente, a conter uma réplica…

Este poema foi mais uma vez a minha resposta silenciosa – nasceu em casa, à noite, ao tentar preparar as aulas para o dia seguinte –

– Levei bastante tempo até perceber que os meus idealismos, para mim tão óbvios e intuitivos, não são um dado adquirido e universal… E compreendi que certas pessoas que não os aceitavam, eram verdadeiramente minhas Amigas, e tinham grande consideração por mim! Mas esta foi uma aprendizagem que me levou muito tempo…

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As Velhas do Restelo

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As velhas do Restelo

Não desembarcam no Mindelo

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Com diábulus e brúxulas     embar

cam num rabelo

Dançam de ródula até

ao Cabedelo     Galáxias in

têirulas     Nuas e em pêlo

A cavalo num cabelo

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Oh     Velhas do Restelo

Ficade-vos para aí     Marrando

num escalpelo

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Myriam Jubilot de Carvalho

Este poema foi publicado no jornal Correio Beirão, no suplemento

NAVE, Nº 13, de 17 de Dezembro de 1992,

assinado como Fátima Oliveira

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Dia 16 de Janeiro, pela 1h 20m

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Canção de Amor ao Sul

* Antologia — Myriam de Carvalho @ 3:39 pm

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Do meu amigo Manuel Neto dos Santos

Este inédito muito especial, com evidente inspiração em tópicos da Poesia árabe peninsular medieval, com aquele fogo muito especial que Manuel tem para nos ofertar –

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Canção de Amor ao Sul

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A fonte do meu pátio, toda ela

Reflecte a lua nova, uma gazela

1.

Eu rogo ao tempo, meu senhor, meu rei

Que ofereça do amor, a própria lei

desse harém de emoções, por onde amei…

Que a alma de um poeta é uma janela.

2.

O brilho do orvalho, em teu olhar,

A taifa da poesia, este lugar,

De onde te comparo ao longe, ao mar

que, por entre a neblina, se revela.

 3.

O prestável copeiro, o vento norte

Fazendo-me esquecer da ignóbil morte,

Que em teu amor, o amor é bem mais forte

Que as ondas fustigando a caravela.

4.

Que sirva o vinho a boca granadina,

que a alba o sonho traga, pela matina,

Com o sol que desponta, e nos ensina,

A elegância nervosa da gazela.

5.

Depois da nossa entrega, e do cansaço,

Temos o fascínio do abraço

Do sono que nos chega, passo a passo.

Palácio das varandas? Uma aguarela.

6.

Que o tempo traga, amor, bem mais que a vida,

Bem mais do que descrevo, de fugida;

O som de alaúde, e a noite erguida

Sobre a fonte do pátio, toda ela.

 ***

Imagem:

http://breizhadakalon.unblog.fr/files/2012/03/une_fontaine_du_jardin_des_plantes.jpg

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Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 13 de Janeiro de 2013, pelas 15h 45m

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Língua Mirandesa

* Antologia — Myriam de Carvalho @ 4:10 am

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Uma pequena amostragem da nossa

LÍNGUA MIRANDESA

Do meu amigo Jorge Castro, deixo aqui as linhas iniciais do seu conto “Habie trigo” = Havia trigo.

A versão em Língua Mirandesa – que eu ponho em primeiro lugar – é de António Bárbolo Alves.

apenas – editora, 2006

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HABIE TRIGO

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Habie trigo, muito trigo i Centeno, an spácios dourados i ondiantes sien fin a l’araige de la tarde. I las flores tenien de ser las apapoulas, pontos bormeilhos i rechinantes, contraponto de l dourado. I outras yerbasd, mais grandes do que nós i douradas de sol, tamien eilhas, a scondéren-mos las brincadeiras de la nineç i de que nien sabiemos ls nomes. I ls repiupius, a anroscáren-se-mos nas mangas de las camisolas, cada beç mais torcidos i retorcidos, apertadicos, en arranhones de piel i anfenitas coceiras. I las spigas brabies que Ságarrában braços arriba, até l sobaco i, se las deixássemos, até l riso de las cuçquinhas, por dentro de las camisolas, cumo bicho bibo a saber de sítio, d’abrigo i acunchego. I habie calor, sbraseado, a abafar-mos las correrias. I habie chicharras i grilhos cun ls sous cantos teimosos a rasgar ls aires cumo bolos de páixaros. Lhagartos i lhagartas i coluobras assustában-mos ls caminhos, cumo ls amprebisibles sartigalhos, an saltos bolados, restrolho d’yerbas, castanhos y azules, d’alto risco, assustados a assustaren-mos tamien. I ls páxaros spreitában-mos de ls nius, quetos mas anquetos, debididos antre fugir i quedar. I habie sol i outra beç sol que l airico de l praino  mal tocaba i nien arrefecie. I las piedras ardien de calor, cumo febre de la tierra, reçgatando-se de la frie i cumprida eimbernice. (…)

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HAVIA TRIGO

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Havia trigo, muito trigo e centeio, em espaços dourados e ondeantes sem fim à brisa da tarde. E as flores tinham de ser as papoilas, pontos rubros e estridentes, contraponto do dourado. E outras ervas, maiores do que nós e douradas de sol, também elas, a esconderem-nos as brincadeiras da infância e de que nem sabíamos os nomes. E os repiupius, a enrolarem-se-nos nas mangas das camisolas, cada vez mais torcidos e retorcidos, apertadinhos, em arranhões de pele e infinitas coceiras. E as espigas bravias que amarinhavam braços acima, até ao sovaco e, se as deixássemos, até ao riso das cócegas, por dentro das camisolas, como bicho vivo à procura de abrigo e aconchego. E havia calor, esbraseado, a abafar-nos as correrias. E havia cigarras e grilos com seus cantos insistentes a sulcar os ares como voos de aves. Lagartos e lagartixas e cobras assustavam-nos os caminhos, como os imprevisíveis gafanhotos, em saltos voados, restolho de ervas, castanhos e azuis, de alto risco, assustados a assustarem-nos também. E os pássaros espreitavam-nos dos ninhos, quietos mas inquietos, divididos entre fugir e ficar. E havia sol e outra vez sol que as brisas do planalto mal tocavam e nem arrefeciam. E as pedras ardiam de calor, como febre da terra, resgatando-se da fria e prolongada invernia. (…)

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Imagem:

http://www.e-clique.com/wp-content/uploads/2012/06/mirandes2.jpg

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Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 13 de Janeiro de 2012, pelas 4h 15m

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Um único fim, o Amor

* Antologia — Myriam de Carvalho @ 8:59 pm

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“Todas as vertentes se encaminham para um único fim, o Amor”

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Mahatma Gandhi (Índia (britânica), 1869 – União da Índia, 1948)

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Perguntaram a Gandhi quais as atitudes que destroem o ser humano.

Respondeu:

“A Política sem princípios

o Prazer sem compromisso

a Riqueza sem trabalho

a Sabedoria sem carácter

os Negócios sem moral

a Ciência sem humanidade

e a Oração sem caridade.”

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Pierre Teilhard de Chardin (1881 – 1955)

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“Chegará o dia em que depois de conquistar o Espaço, e aproveitar os ventos, as marés e a gravidade, aproveitaremos a energia do Amor. Nesse dia, pela segunda vez na História do Mundo, teremos descoberto o fogo.”

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XIV Dalai Lama (1935.)

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“Todas as grandes religiões trazem basicamente a mesma mensagem, Amor, Compaixão, e Perdão – o que é importante é que Amor, Compaixão e Perdão deveriam incorporar o nosso dia-a-dia.”

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Imagens:

Gandhi: http://steeshes.files.wordpress.com/2012/06/gandhi1.jpg

Teilhard de Chardin – http://www.quantumrevolution.net/wp-content/uploads/2012/06/Pierre-Teilhard-De-Chardin.jpg

XIV Dalai Lama – http://ayudaaltibet.files.wordpress.com/2008/08/foto_dalai_lama_manuel_bauer.jpg

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Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 12 de Janeiro de 2013, pelas 21h

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Luís Filipe Cristóvão

* Antologia — Myriam de Carvalho @ 1:12 pm

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Um poeta que descobri através do FB:

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A poesia de Luís Filipe Cristóvão chamou a minha atenção, ao ver as suas “variações” sobre as Cantigas de Amigo. Luís Filipe Cristóvão nasceu em 1979. É autor de cinco livros de poesia e de um livro de literatura ilustrada.

É licenciado em Línguas e Literaturas Modernas (Estudos Portugueses e Franceses) na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e frequentou o Programa de Mestrado em Teoria da Literatura na mesma instituição. É ainda director da Revista Literária Sítio.

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Hoje, e com seu conhecimento, deixo aqui este seu poema, nitidamente inspirado na Poesia medieval. É um poema aparentemente muito simples, daí a sua evidente mestria – a contenção da linguagem, os jogos de sonoridades, a bela forma do refrão, características que no conjunto conferem ao poema um certo sabor a balada e a lenda. A Poesia medieval é uma fonte de inspiração rica e inesgotável, penso eu. Mas não é qualquer um que sabe ir lá beber.
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Cacela
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O sol vai descendo
sobre a casa do pároco
e o barulho dos pássaros
faz-nos acreditar
que alguma moura encantada
sai agora das ruínas
da velha vila de Cacela.
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Pela calçada não ecoam
os seus mais que leves passos
e as sombras já são parcas
para lhe definir contornos.
Assim seguimos sossegados
e seguros no silêncio do povoado
da velha vila de Cacela.
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Se por detrás de cada pedra
resiste uma história por contar
deitemo-nos sobre a muralha
e deixemos que seja a ria
a murmurar-lhe os versos.
Pois que tudo é livre de se imaginar
na velha vila de Cacela.
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O sol já caiu para lá
dos muros do cemitério antigo
e adormecidos estão
os pássaros entre as árvores.
Se moura existe, talvez desencantada
se transforme pela magia que resiste
na velha vila de Cacela.
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Luís Filipe Cristóvão:
Pode visitar a sua páginal pessoal em
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Imagem:
http://fernando2009.files.wordpress.com/2010/03/4.jpg
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Myriam Jubilot de Carvalho
Post do dia 11 de Janeiro de 2013, pelas 13h 25m
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Uma MOAXAHA de hoje, ao meu País

* Alandalus,* Poesia — Myriam de Carvalho @ 12:45 pm

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MOAXAHA dos Navios do Tejo

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Lisboa, queria cantar-te, e não consigo

cantar teus fados… E já nem sei que digo…

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Toldou-se o céu, já não há velas no Tejo

Porque os teus dias nascem tristes, num fúnebre cortejo,

Da Língua à História, tudo a saque, é o que vejo…

– O teu céu já não nos dá abrigo

e fez de nós todos um único mendigo…

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Lisboa que eu amei, devotamente,

Vejo-te a morrer, silenciosamente,

e sinto esta revolta, simplesmente…

– Porque este amor não poderá morrer comigo

Por ti morro lutando! – Podes bem crer no que te digo!

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…pois (esta) grave pena me importuna

importune meu canto a toda a gente.*

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* Jarcha a partir de Luís de Camões, Canção II

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Myriam Jubilot de Carvalho,

Inédito,

30 de Outubro de 2012

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Imagem:

http://capitulodois.files.wordpress.com/2011/12/caravelas.jpg

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Post do dia 11 de Janeiro de 2013

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Um Professor não é um funcionário público!

* Antologia — Myriam de Carvalho @ 2:39 pm

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“Um Professor não é um funcionário Público!

A sua função é transcendente.

Um Professor é um agente do Saber!”

Maria Alzira Seixo

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Há circunstâncias de interesse nacional, e moral, em que um Professor tem direito à objecção de consciência!

Não foi esse o desafio aceite por Aristides de Sousa Mendes?

Não foi porque essa aceitação da integridade moral punha em causa a posição de submissão que se espera dos agentes públicos, que a sua condenação foi tão drástica, e a sua reabilitação oficial demorou tanto?

Correm-se riscos?!

E a Vida não é um risco?

Perde-se o ganha-pão… É este o grande travão que trava as consciências… O medo… O pavor de se cair em miséria…

Mas entre uma total e frontal objecção de consciência, e a posição da pessoa que se coloca oportunisticamente a favor da corrente, abre-se um grande espaço de Dignidade! Nem todos temos que ser heróis – mas também não temos que nos colocar no vil papel do vilão.

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Vídeo:

https://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=a5QI4NHj38A#t=5s

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Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 10 de Janeiro de 2013

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O Obscurantiso através do Acordo Ortográfico

* Notas Breves — Myriam de Carvalho @ 1:32 pm

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Não sei entender como estas coisas acontecem, ou como as deixam acontecer – ou, muito pior, como é que nós, todos nós, as deixamos acontecer…

Que diriam os nossos vultos do Passado, que diriam Camões, ou Eça, por exemplo?

Será que depois desta mixórdia reles que é este desavergonhado “acordo”, ainda poderemos dizer “A minha Pátria é a Língua Portugues”?!

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Hoje, retirei do FB este artigo do Público, e aqui o transcrevo com o devido respeito. É de Maria Alzira Seixo, de quem fui aluna.

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O Acordo Obscurantista – Maria Alzira Seixo, Professora catedrática de Literaturas Românicas

por Rogério da Costa Pereira, do Público, em 10.01.13

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http://pegada.blogs.sapo.pt/2160429.html

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Quem diria?! Depois dos míseros tempos salazaristas, em que tudo nos faltava menos o saber escrever, e fruindo o regime democrático, que é suposto respeitar o saber e o esclarecimento, afundamo-nos na penúria social, e até das Letras somos despojados. Não é só da Cultura que sofremos privação, é da sua base, dos caracteres que a constituem, meras formas arbitrárias que ganham, com o tempo (a História), peso e organicidade, tornando-se fundamento da manifestação humana.
De facto, o golpe antidemocrático que constituiu a rejeição, pela Assembleia da República, da petição que solicitou em Maio de 2008 a anulação, ou revisão, do Acordo Ortográfico, então assinada por mais de trinta mil cidadãos no espaço de 50 dias (e ultrapassa já os cem mil), encaminha a geração actual para o obscurantismo na leitura, na produção da escrita e na apreensão dos sinais diacríticos que permitem à criança ir elaborando o seu sistema de conhecimento, em que letras e conceitos, conectados em rede de relações, lhe vão estabelecendo a visão do mundo feita do saber comum e da sensibilidade que a cada uma é própria. É nesse saber, travejado pela Língua Materna (que algumas reformas pontuais usam ir acertando na sua gradual corrosão pelo utente, mas nunca em alteração forçada decidida do exterior, por instâncias de determinação política), que são desfechados pelo Acordo Ortográfico ataques ignaros e aleatórios, com medidas que fazem das alterações ortográficas autênticos ataques a aspectos estruturais da Língua, e ao que ela indicia de experiência humana adquirida. Como quem maltrata a pele do corpo, supondo que nela se não danificam os órgãos, e afinal lhe imprime lesões de irreparável marca para o próprio funcionamento orgânico. Esta metáfora biológica não é de bom tom em certas doxas mas, na verdade, também da sua cumplicidade neste processo aqui se trata.
Falo de golpe antidemocrático porque a democracia não se limita à expressão livre de uma votação que, em liberdade, venha a sancionar uma coisa qualquer. A democracia exige uma responsabilidade de factu (daí que, em certas matérias, se não compadeça com a disciplina partidária) e, acima de tudo, exige competência. E, porque se não pode exigir a todos os deputados que sejam competentes em todas as matérias, é para isso que existem pareceres de especialistas, recursos de cidadãos, as Comissões da Assembleia da República. Ora a petição de 2008 fazia-se acompanhar de nove pareceres de especialistas, e a Comissão de Ética da AR pronunciou-se inequivocamente a favor dos peticionários. Voltou então à votação, e… que fizeram os deputados? Votaram pelo que lhes dizia a manifestação do Saber e da Competência? Não. Fizeram deles tábua rasa, rejeitando a petição de modo discricionário e, portanto, antidemocrático e obscurantista. E foi um triste espectáculo ver, como eu vi, os deputados com decência moral a saírem da sala antes da votação, para não terem de votar contra a sua própria ciência, e observar os partidos políticos perfilarem-se, em maioria, contra a expressão do conhecimento. Um negro momento da nossa democracia!
Agora, os responsáveis políticos brasileiros dão exemplo de sensatez e morigeração, adiando a aplicação dessa absurda disposição legal para a estudar como deve ser, ou então aboli-la de vez. Pois até os países ricos têm despesas mais úteis a fazer do que com alterações de livros e demais material édito, quanto mais nós, já falidos. Certos responsáveis pela promulgação ter-se-ão apercebido do logro em que caíram, movidos por interesses no imediato rendosos, ou por almejados sucessos políticos já na altura em dúvida, a iludirem alguns. Defensor do Acordo, o linguista Evanildo Bechara (que o defendia, pasme-se!, dizendo-o eivado de incorrecções, que nunca poderia servir de base a uma disposição legal de modificação ortográfica – conforme salientava no Parecer apresentado, em 2008, à nossa AR – em contradição de termos que surpreende qualquer leigo, e deixa entrever os jogos de interesses no acto implicados), é agora a personalidade que motiva a decisão da Presidente do Brasil. E, se isto acontece, não há mais razão para Portugal continuar vergado ao torcilhão que já está sofrendo a sua Língua Pátria, com uma utilização abusiva nas escolas, em publicações, nos documentos do Estado.
Porque a pior das falências é a que não tem recuperação! A que condena as crianças à aprendizagem de uma macacada ortográfica que vai de par com obras literárias e outras ainda escritas como deve ser, e se submete à vacilação docente dos educadores, que não estão aptos a ensinar a nova ortografia (porque não podem estar, tão “impossível” de aplicar ela é!), e se sujeitam às emendas desencontradas dos correctores ortográficos (uma espécie de fraudulentos “corretores” de bolsas disfarçados), diferentes uns dos outros, num atropelo ganancioso e aflitivo de caos, e que personificam a máquina, na pior das visões que de Orwell poderíamos herdar, a dominar-nos estupidamente a mente e a criação literária.
É tempo, é ainda tempo! Se saber escrever foi, até hoje, caminho para pensar melhor, com o Acordo Ortográfico pôr-se-ia em prática a máxima ideal para Governos opressores ante os cidadãos que governam: quanto mais analfabetos, melhor… Ora isto não se compadece com um passado de Abril, e se alguém sai beneficiado não é, pela certa, o cidadão, nem a cultura, nem a política – pelo menos a de espinha direita! Saúde-se, pois, o baque de consciência de Evanildo Bechara, e a hora feliz em que Dilma Rousseff atalhou: “Alto! e pára o baile” – em vez de “para o baile”, como quer o Acordo, que tira o acento a “pára” assimilando-o a “para”, confundindo movimento com inacção, numa simbólica emblemática dos seus confusos objectivos. Contra esta confusão do entendimento, corrijamos de vez a monstruosidade que nos sai tão cara: em dinheiro que não temos, e no saber que é nosso, e alguns se interessam em destruir.

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Imagens:

Luís Vaz de Camões:

http://jornaldapoesia.files.wordpress.com/2007/05/camoes-filodemo.jpg

José Maria Eça de Queirós:

http://pnld.moderna.com.br/wp-content/uploads/2011/08/E%C3%A7a-de-Queiros-retrato.jpg

Fernando António Nogueira Pessoa:

http://fkxexplica.files.wordpress.com/2012/09/fernando-pessoa2.gif

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Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 10 de Janeiro de 2013, pelas 13h 30m

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Estocolmo

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 12:28 am

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A Suécia é o meu espaço de sonho…

Desta vez, deixo este breve testemunho de quanto eu gosto de Estocolmo, do Lago, dos canais, dos seus maravilhosos parques… Do azul do céu, tão diferente do nosso, suave, transparente… Do sol de inverno, mesmo sobre a linha do horizonte, que quando apanha uma aberta para brilhar, desliza sobre a neve a fazer queimar os olhos… Uma ou outra lebre pelos relvados… As pequenas pranchas suspensas das árvores, ou presas nas janelas, com comida para as aves, que resistam ao inverno… Até a longa noite invernosa, que me pesa fisicamente  sobre os ombros, tem a sua magia. Mas nada como o sol-da-meia-noite! Numa casinha na montanha. Uma janela para nascente, outra para poente – e enquanto ainda permanece um lusco-fusco de dia de um lado, já o sol da manhã rompe esfuziante do outro!

A Suécia é o meu espaço de sonho!

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Estocolmo

A Tomas Tranströmer

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Penetra-me a face um frio

de neve

desconhecido, diferente

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Um céu de um azul vago, algumas

nuvens salpicadas da deriva dos ventos

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O Lago

Os paquetes da carreira da Finlândia

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Os barcos-casa de habitação, com vasos

e plantas sedentárias e fiéis como um animal de estimação

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Os carvalhos das margens, descoloridos,

afugentando, incómodos, os insectos do Outono,

preparando-se para hibernar

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Lisboa pode ser coisa boa

Mas por muito que o seja

– o meu coração bate em Estocolmo

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Myriam Jubilot de Carvalho

Inédito

Estocolmo, dia 23 de Outubro de 2012

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Imagens:

=A primeira foto tem a particularidade de mostrar o Lago a começar a congelar!

http://0.tqn.com/d/goscandinavia/1/0/g/6/-/-/stockholm-winter.jpg

= http://image-photos.linternaute.com/image_photo/750/3306238056/892241.jpg

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Post do dia 10 de Janeiro de 2013, pelas 0h 30m

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