Palestina – Certificado de Nascimento

* Notas Breves — Myriam de Carvalho @ 11:35 pm

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Dia Internacional da Solidariedade com a Palestina

A partir da votação de hoje, dia 29 de Novembro de 2012, a Palestina é um Estado com assento nas Nações Unidas, com o estatuto de “Estado Observador Não-Membro” – por 138 votos a favor, 9 contra, e ainda 41 abstenções.

Quando se trata de atingir os grandes ideais de Justiça, Igualdade, Fraternidade – os grandes ideais que em geral se acha serem a marca da Cultura Europeia recente, moderna, e que eu acho sem hesitação que são os grandes ideais de toda a Humanidade, caminha-se, infelizmente, muito devagar… Mas é evidente que neste momento, eu congratulo-me pela Palestina! Segundo Hamud Habbas, “a Palestina recebeu hoje o seu certificado de nascimento”!

Mas não podemos esquecer que há um grande caminho a percorrer. Um grande caminho a percorrer a favor da Paz no mundo inteiro! Por isso, estes meus textos inócuos e inconsequentes num blogue praticamente desconhecido, apesar do seu pouco valor, são um testemunho dos meus votos de Paz e de Justiça que envio para o Universo e espero vão engrossar os muitos votos formulados por todas as Pessoas-de-Boa-Vontade!

Estou a chegar a casa depois de participar numa sessão, cheia de emoção, do Movimento pela Palestina…

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No entanto, Palestina, para mim, actualmente, por metonímia, significa todas as populações do Mundo ainda vergadas pelo jugo dos Poderosos sem escrúpulos, sem coração, sem Ética, que põem os interesses que consolidam o Poder acima dos interesses de Bem-Estar físico, social e moral dos Povos… Nós também estamos sob domínio estrangeiro, mesmo que esse domínio se apresente de forma mais imaterial… É um domínio sem tanques, sem roquets, sem sangue… Mas não menos destruidor, não menos doloroso…

Acho que me apetece parafrasear aquela frase bem conhecida, e que a vou lançar como um grito ao Vento: POVOS OPRIMIDOS DE TODO O MUNDO, GENTES DE BOA-VONTADE, UNI-VOS TODOS NUM MESMO ABRAÇO – Num braço de ferro em que todos nos comportemos como cada um dos nervos de um único e imenso corpo!

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Imagem:

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http://palestinerodez.unblog.fr/files/2009/01/palestineflagtshirt.jpg

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Dia 29 de Novembro de 2012

Pelas 23h 40m

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Hermann Hesse e Jorge de Sena

* Antologia — Myriam de Carvalho @ 1:19 pm

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À Edite Condeixa, Amiga de longuíssima data,

que me considera “poeta”…

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         Um poema de Hermann Hesse

– mais propriamente uma possível definição do que poderíamos considerar o que é um poeta,

ou mais propriamente ainda, um possível auto-retrato seu…

A tradução é de Jorge de Sena

…E, por que não, um auto-retrato de ambos…

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O POETA

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Só para mim, o solitário,

Brilham da noite os infinitos astros,

Murmura a fonte de pedra a sua canção mágica,

Para mim só, para mim, o solitário,

Se movem as coloridas sombras

Das ambulantes nuvens sobre o campo aberto.

Nem casa nem quinta,

Nem floresta nem reserva de caça me são dadas,

Meu é só que não é de ninguém.

Meu é o regato que desce atrás do véu da floresta,

Meu é o temeroso mar,

Meu é o chilrear das crianças que brincam,

As lágrimas e o canto solitário amante do crepúsculo.

Meus são também os templos dos deuses, meu é

O majestoso bosque do Passado.

E não menos no futuro a luminosa

Abóbada celeste é meu lar.

Muitas vezes no pleno voo da saudade a minha alma ascende,

Para fitar o futuro da humanidade feliz,

O Amor, para além das leis, amor de povo a povo.

E vejo-os outra vez de nobreza vestidos:

O camponês, o rei, o traficante, o marinheiro activo,

O pastor e o hortelão, todos

Gratamente celebram a festa do mundo futuro.

Só o poeta falta,

Ele, o solitário que fita,

Ele, o que transposta a saudade humana, imagem pálida,

De quem o futuro e o cumprir-se o mundo

Não precisam já. Secam

Várias coroas no meu túmulo,

Mas ninguém se lembra dele.

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 Esta tradução figura in:

Poesia de 26 séculos, 3º vol, pág 210

Editorial Inova, Porto, 1978

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Imagens:

http://bibliojunkie.files.wordpress.com/2010/07/hermann_hesse.jpg

http://www.plathey.net/livres/portugaise/photos/jorge-de-sena.jpg

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Dia 26 de Novembro de 2012

Pelas 13h 20m

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Rumi, poeta persa do séc XIII

* Antologia — Myriam de Carvalho @ 9:00 pm

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Um poema do poeta persa RUMI

Poeta sufi, séc XIII

. Tradução de Adalberto Alves,

in “O Vértice da Noite”

Argusnauta – Nov 2007

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morri, era eu pedra:

tornei-me planta.

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fanei-me enquanto flor:

fui animal

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faleci, era então bicho:

humano me tornei.

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que hei-de, pois, temer?

serei agora menos, ao morrer?

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quando minha humanidade perecer

e as asas eu abrir também

entre anjos minha cabeça hei-de erguer.

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quando meu ser angélico for sacrificado,

serei o que a imaginação já não contém.

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Imagem:

http://rfpaints.files.wordpress.com/2009/01/persian-miniature.jpg

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Publicação do dia 15 de Novembro de 2012

Pelas 21h

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Dia 14 de Novembro, um dia europeu

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 11:41 am

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Os cadáveres adiados

que nos arruínam o futuro

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Hoje, dia 14 de Novembro de 2012,

vive-se uma jornada de luta que abrange a Europa

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Olham para nós sinistramente

com sorriso amarelo de cadáveres vendidos

sorriso de orelha a orelha de quem não faz sentido

pois venderam a alma ao inimigo

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Sorriem para nós com seu olhar vazio

seu sorriso amarelo de cabeças duras

– teu ínfimo grão de trigo é para eles mais valia –

pois venderam a alma ao inimigo

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De todo o lado à espreita, não se cansam

– farejam, farejam como cães de fila –

qualquer corpo a prumo, os ameaça

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e afiam pelos balcões dos bancos e das praças

as foices dos dentes escorrendo sangue fresco

pois venderam a alma ao inimigo

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Myriam Jubilot de Carvalho

Inédito

Dia 14 de Novembro de 2012

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Dia 14 de Novembro de 2012

Pelas 11h 45m

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Balada dos Peregrinos

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 11:19 pm

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Alberto Giacometti

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Folheando as antigas revistas da SOL XXI, encontrei um poema de um Amigo que de algum modo me fez pensar neste meu… Se esta afirmação for algo abusiva, ele me perdoará, certamente

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Balada dos Peregrinos

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Sairam os peregrinos

com destino à Terra Santa

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Os caminhos tão sombrios

As paragens tantas, tantas

São tantas as penedias

São tantos os pesadelos

E lança em riste, os assaltantes,

aproximam-se a galope

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. . . – Não trago escudo, nem lança

. . . Nem viseira, nem couraça

. . . Tão somente esta carcaça

. . . Pelos caminhos se cansa

. . . E este bordão não é arma

. . . – Não trago escudo, nem lança

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Os peregrinos sairam

com destino à Terra Santa

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As fontes pelo caminho

já secas pela estiagem

Os espinhos, os insectos

Não há lugares na estalagem

. . . . . . . . e é tão longe, a Terra Santa

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Myriam Jubilot de Carvalho

inédito

Feijó, 1980, s/d

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Imagem:

http://mannartappreciation.files.wordpress.com/2010/09/giacometti_figures_pintscher.jpg.

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Dia 12 de Novembro de 2012

Pelas 23h 20m

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Perplexidade

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 2:12 pm

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Há coisas interessantes. Conversando com um Amigo, falámos dos possíveis rostos de um Artista, de heteronímia, etc

E hoje de manhã,  folheando papéis antigos, encontrei este poema que aqui fica:

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Perplexidade

Poema em Prosa

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De quantos rostos se faz um Poeta? Da espuma dos sonhos se tecem as ondas, das sombras dos olhos se assombram as abóbadas. Escadas-rolantes em silvos secretos tornam e voltam sem nunca abalar. Dos núcleos dos nervos são feitas as árvores. De conchas e espigas se enredam os elos. Navalhas e preces e crenças e lanças, adagas e esperanças

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E nas curvas mansas, estagnam as águas

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Poema de 1985, inédito

Myriam Jubilot de Carvalho

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Imagem:

http://carlosdmesa.files.wordpress.com/2012/03/mar-03.jpg

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Publicado no dia 8 de Novembro de 2012

Pelas 14h

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Manuais Escolares e Democracia

* Educação e Criatividade — Myriam de Carvalho @ 11:41 am

 

Uma Colega e Amiga enviou-me este link:

http://malomil.blogspot.pt/2012/11/uma-verdade-inconveniente.html

Um documentado estudo sobre o negócio dos manuais escolares. Um texto lúcido, por vezes realçado por um amargo tom de ironia.

Para ler e tomar consciência das manipulações de que o Ensino é alvo, e vítima.

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Se alguma coisa posso acrescentar, é o volume, o peso, que as crianças transportam às costas, diariamente.

Outro pormenor, é o requinte de grande número dos manuais – papel pesado, muito colorido. E como diz alguém nos Comentários, com os exercícios a seguir aos textos, que levam o aluno a resolvê-los imediatamente, inutilizando assim o livro para um possível próximo utilizador. Porque somos um País-de-Luxo!

Na verdade, além da negociata, o problema que eu vejo nisto tudo, é a falsa democratização do Ensino e da Cultura que se vive no nosso País. Dois aspectos reveladores  da força de uma Direita encapotada, mesquinha e ignorante, que teima em não perder os privilégios. O discurso oculto sob este problema, quanto a mim, é este: “Querem uma democratização do Ensino? Então, aí têm o Ensino obrigatório generalizado. E agora, vejam se lhe podem chegar!”

E deu-se largas à produção destas hidras vorazes que têm sido as editoras, que têm desenvolvido requintes de apresentação dos seus produtos pela competição da concorrência, tornando-os tão atraentes aos olhos como caros para a bolsa! Faz-se a vida negra aos Professores, afogando-os com tarefas; fazem-se turmas numerosas dificultando o tempo de atenção a dar a cada aluno; fazem-se as aulas a seguir umas às outras quase sem intervalos de permeio, estafando adultos e crianças; reduzem-se e aligeiram-se temáticas, como é o caso da História; ou então, complicam-se conceitos, como é o caso da nova Gramática, que custam a entender, exigindo tempo, em detrimento da interpretação e da criação; diminuem-se os tempos das Artes; etc… Referi apenas, como se subentende, as disciplinas de que tenho conhecimento vivido; as disciplinas das áreas das Ciências e Matemáticas, não tenho competência para comentar.

Para não falar das “avaliações”, das “notas” das crianças. O sistema de avaliação, quando eu me reformei, tinha-se tornado oscilante, imaterial, surreal, facilitando a transição ao ano seguinte sem a devida preparação. Não que eu defenda um regime de repetências. Defendo sim um regime de turmas pequenas, incidência na criatividade, e apoios pedagógicoa que funcionem.

E depois, o Ministério, o patrão, vem para a opinião pública deitar pó nos olhos incautos de quem o ouve, e atribui as falhas do sistema à “impreparação dos Professores”, e o patrão está sempre a comprometer-se a “investir na formação dos Professores”! Formidável! Comovente boa-vontade! E muita gente acredita, porque o patrão sabe que está a tocar na corda sensível do coração das pessoas, desejando “um Ensino de qualidade para os nossos jovens”, os nossos filhos! E quem haverá que não queira o melhor para os seus filhos?! O problema, coitado do patrão, é que não é secundado pelos seus técnicos, uns sornas, uns incompetentes… Virando a classe dos Encarregados de Educação contra a classe dos Professores, o Ministério desenvolve o melhor e o mais barato do seu trabalho de sapa contra a Democratização do Ensino!

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Diz-se nos livros, que a democratização do Ensino acarreta uma baixa de nível do mesmo.

Mas eu não acredito. Apenas acredito no que vejo: e o que vejo é que a democratização é mal feita.

Para terminar, tive oportunidade de comparar, por exemplo, o luxo dos nossos manuais com alguns manuais de leitura que vi na República da África do Sul: em papel de sebenta, e as ilustrações não eram coloridas – o que a meu ver, tinha a vantagem de convidar a criança a interagir com o seu livro de leitura, dando cor pessoal às imagens…Não seria o ideal, mas não vou desenvolver aqui teorias sobre a leitura.

Extrapolando um pouco, olho nas livrarias as nossas publicações – livros de dimensões pesadas, letra demasiado grada, papel bom, capas apetetitosas, algumas até com lacinhos e sabonetes – moral da história, livros caros, porque somos um País-de-Luxo! Visito livrarias noutros lados, e os livros, a literatura, têm uma apresentação sóbria, capas singelas, papel barato… E dói-me o coração. O meu País que eu tanto amo, este Povo a que devo a voz, tão mal tratado, tão a saque, tão crédulo

…E a provar o que digo quanto ao peso da Direita encapotada, lembro o testemunho de um contínuo do Ministério, no tempo da Reforma do Professor Veiga Simão, que a medo me contou quase ao ouvido que o Professor era alvo de ameaças de morte para que não levasse a sua Reforma por diante…

…E quero esclarecer, por fim, que é minha convicção que isto de Direitas e Esquerdas é uma coisa meio obtusa… Há pessoas honestas e de bom coração, esclarecidas e generosas, ou não há. Para mim, falo em “Direita”, para simplificar o discurso… Pelo que aqui deixo a minha homenagem ao professor Veiga Simão que de forma lúcida e organizada, pelo menos assim o creio, quis empreender uma Reforma do nosso Ensino.

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Termino com uma quadra que fiz há muitos anos, durante uma reunião, em que eu estava muito zangada pelos disparates que presenciava e pela impotência de os impedir:

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A besta reaccionária

Está à Esquerada, e à Direita

É na essência ordinária

Sob aparência escorreita

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Imagens:

http://www.dezinteressante.com/wp-content/uploads/2011/07/livros-escolares.jpg

http://aberriberri.files.wordpress.com/2011/11/paz-manos.jpg

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Myriam Jubilot de Carvalho, dia 7 de Novembro de 2012

Pelas 11h 40m

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