Alandalus – poemas para Lisboa – 9

* Alandalus,* Notas Breves — Myriam de Carvalho @ 7:43 pm

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Bibliografia

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Há cerca de 10 a 12 anos que me dedico a estudar sobre o Alandalus. Comecei de modo autodidacta, não me matriculei em nenhum curso pois ainda estava a trabalhar.

Quando comecei, não conhecia bibliografia sobre este tema. Mesmo procurando nas livrarias. Talvez não ma soubessem indicar, mas estou mesmo convencida que não haveria muita…

Tinha apenas a primeira edição de O Meu Coração É Árabe (que certo dia de má inpiração, emprestei, e perdi) – de Adalberto Alves. E uma edição de Omar Khayyam, de um professor da Universidade de Teerão – traduzida para inglês, e daí para francês…

Da primeira vez que estive na FNAC, em Paris, pedi que me indicassem livros sobre o assunto, mas a menina que me atendeu nunca tinha ouvido falar em tal coisa, e indicou-me duas obras que segundo ela eram muitíssimo apreciadas, ambas da Sindbad:

“Majnûn, L’amour poème” – tradução e apresentação de André Miquel

“Les dix grandes odes de l’Anté-Islam” – tradução e apresentação de Jacques Berque

Bem… Li os prefácios, mas não percebi nada, e quanto às odes do Anté-Islam, pior que chinês…

Em Espanha, só consegui a antologia de Ajimez

Há poucos anos atrás, passei umas férias em Tavira. Foi então que me ocorreu que tinha que me interessar a sério pelo passado da minha terra.

…Mas na Net pouco havia, além de dois sites importantíssimos que se tornaram a base de um puzzle que tive que ir resolvendo e preenchendo aos poucos:

“El Legado Andalusí”

e “Al Andalus”.

Imprimi tudo o que pude, e fui construindo dossiês…  O segundo destes sites já não o encontro, mas parece-me que na antologia, também da Net, “Poetas Andaluces”, há alguma informação que coincide com a que eu imprimi.

Quanto ao primeiro, El Legado Andalusí, actualmente encontram-se imensos vídeos no You Tube – não sei se foi um desenvolvimento desse primitivo site.

Entre 2009 e 2011, frequentei um curso sobre “A Herança do Portugal Islâmico”, na associação cultural Espaço e Memória, de Oeiras. Curso muitíssimo bom, pelo Porfessor Abdallah Khawli. Foi aí que tive conhecimento da obra de António Borges Coelho, “Portugal na Espanha Árabe” (Caminho, a edição actual está condensada num só volume). Quando descobri uma história “Os Muçulmanos na Península Ibérica – História política do al-Andalus”, de Hugh Kennedy, na Europa-América, dei-me por muito feliz. Agora, para o estudo da História desta época, disponho destas duas obras que se completam uma à outra. Além da História de Portugal, de José Mattoso – primeiro volume, intitulado “Antes de Portugal”

Continuei pesquisando na Net, e verifica-se que tanto a quantidade como a qualidade do que se encontra tem subido de tom.

Ao mesmo tempo que me esforçava por alargar os meus conhecimentos quanto aos acontecimentos históricos, dediquei-me às pesquisas sobre a Poesia.

Também os CDs de música do Alandalus, ou Árabe, ou Sefardita, são ricos em informação.

Quanto a informação sobre a vida quotidiana – descobri recentemente: “Así vivieron en al-Ándalus – la historia ignorada”, de Jesús Greus, edt Anaya, col Biblioteca Básica, Historia – Madrid, 2009

Deixo pois aqui um apanhado da bibliografiaque conheço, que neste momento me parece mais relevante:

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Carlos Alvar, “Jarchas” - Pdf.
James T. Monroe - “La Poesía Hispano Árabe durante el Califado de Córdoba - Teoria y Práctica”  - Estudios Orientales, vol VI:2, 1971 - Pdf
Teresa Garulo - “La Literatura Árabe de Al-Andalus durante el siglo XI” - Hiperión, 1998
Hoa Hoï Vuong et Patrick Mégarbané - “Le Chant d’al-Andalus”; Sindbad, 2011 (é antologia)
Adalberto Alves - “O meu Coração é Árabe” - Assírio & Alvim, 1999 (idem)
Peter Cole - “The Dream of the Poem - Hebrew Poetry from Muslim and Christian Spain, 950 / 1492” - Princeton University Press, 2007 (idem)
David Mourão-Ferreira - Imagens da Poesia Europeia, vol I; Colóquio Letras, 1991

Pinharanda Gomes - "História da Filosofia Portuguesa - A Filosofia Arábigo-Portuguesa" - guimarães Editores 

Adalberto Alves: toda a bibliografia deste Autor
Uma página de antologia, da Net: Poetas Andaluces
E:
inúmeras pesquisas na Net.
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Imagens:

http://cadernosdedanca.files.wordpress.com/2010/07/alaude.jpg
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Post do dia 9 de Agosto de 2012, pelas 20h 40m –

– com posteriores actualizações

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Projecto Alandalus – Poemas para Lisboa – 8

* Alandalus,* Poesia — Myriam de Carvalho @ 12:14 pm

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Como surge uma Moaxaha?

– Como qualquer outra obra de criação –  ou ocorre uma ideia, ou uma imagem – ou nós a formulamos deliberadamente…

Neste caso que apresento hoje, ocorreu porque para conseguir a bela foto do deserto que publiquei ontem, tive que tentar repetidas vezes até encontrar uma disponível – e  aliás, o tema do Deserto é muito familiar à Poesia.

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Então ocorre uma imagem/ideia – uma imagem, ao fim e ao cabo, traduz-se por uma palavra. Aqui, era “deserto”;

– Bom, como todos nós somos um inesgotável mundo de palavras, é fácil fazer montinhos de rimas – rimas para “deserto”, rimas para “céu”…

– Depois, temos que ter uma Entrada – apenas 2 versos, uma só rima

– Depois, são as 2 quintilhas – eu tnho prazer em observar o esquema 3 versos (com uma rima)+ 2 a rimar com a entrada

– O remate, ou finda, deste tipo de poema depende do momento, em geral surge relacionado com qualquer coisa que nos baila no campo da consciência…

E assim vai surgindo, tentativa em tentativa, vai-se construindo um poema que resulta com muita unidade. Uso rimas internas, não tenho problemas em repetir alguma palavra caso sinta essa necessidade – são pequenos truques que contribuem para a coesão do texto, dando-lhe uma estrutura bastante fechada, acho eu…

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– Então, aqui deixo a Moaxaha de hoje:

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Moaxaha do Deserto

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o céu reflecte a areia distante do deserto

tal como espelha o meu imenso mar aqui tão perto

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um mar de areia a cantar nos meus ouvidos

seus cantos de sereia – e eles ouvem comovidos

os cantos das estrelas comuns aos meus sentidos

– é mais fácil cruzar da vida os áridos desertos

escutando sem canseira do universo os seus concertos

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que dizes mãe vou viajar fazer-me ao mar vou ser sereia

dias sem sonhos ficam tristonhos sem odisseias

e os sonhos brincam nos meus dedos como as espumas como as areias

– sonhos que guardam segredos que eu desperto

prendas que eu abro –  e já não há deserto

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tanto amare, meus versos,

tanto amare

rejubilam meus olhos

de vos encontrarem

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Notas:

– Na “entrada”, deu-se naturalmente uma intertextualidade com “o mar que espelha o céu”, do Fernando Pessoa –

– Na “jarcha”, fiz uma coisa que nunca antes me tinha ocorrido, fiz a recriação do texto de uma “jarcha” moçárabe, a jarcha nº 18 da classificação de Garcia Gómez.

– Acho que o conjunto resultou muito bem.

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* As imagens utilizadas:

= http://cadernosdedanca.files.wordpress.com/2010/07/alaude.jpg

= http://fabricemartinezcom.unblog.fr/files/2008/04/cimg9725.jpg

= http://www.ccvalg.pt/astronomia/historia/idade_media/astronomia_arabe.gif

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Myriam Jubilot de Carvalho

Post do dia 9 de Agosto de 2012, pelas 13h 40m

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Projecto Alandalus – Poemas para Lisboa – 7

* Alandalus,* Antologia — Myriam de Carvalho @ 11:05 pm

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Fascínio – a dignidade dos povos do Deserto

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Desde garota que este poema de Gonçalves Crespo me inspira uma como que nostalgia. Não sei se figurava nalgum dos vários livros da 4ª classe, ou se já nos do Ciclo Preparatório, da escola técnica, ou se nalguma antologia do liceu…

É um poema narrativo que desliza com a fluência com que a areia nos escorre das mãos, ou com o vigor com que o galope do vento desmancha as dunas… Mais que narrativo, é evocativo, é envolvente…

…E agora que ando tão envolvida com este projecto da Poesia do Alandalus, ele ocorreu-me de novo…

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O JURAMENTO DO ÁRABE
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Baçus, mulher de Ali, pastora de camelas,
Viu de noite, ao fulgor das rútilas estrelas,
Vail, chefe minaz de bárbara pujança,
Matar-lhe um animal. Baçus jurou vingança,
Corre, célere voa, entra na tenda e conta
A um hóspede de Ali a grave e inulta afronta.
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“Baçus, disse tranquilo o hóspede gentil.
Vingar-te-ei com meu braço, eu matarei Vail”.
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Disse e cumpriu.
Foi esta a causa verdadeira
Da guerra pertinaz, horrível, carniceira
Que as tribos dividiu. Na luta fratricida,
Omar, filho de Anru, perdera o alento e a vida.
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Anru, que lanças mil aos rudes prélios leva,
E que em sangue inimigo, irado, os ódios ceva.
Incansável procura – e é sempre em balde – o vil
Matador de seu filho, o tredo Mualhil
Uma noite, na tenda, a um moço prisioneiro,
Recém-colhido em campo, o indómito guerreiro
Falou, severo, assim:
“Escravo, atende e escuta:
Aponta-me a região, o monte, o plaino, a gruta,
Em que vive o traidor Mualhil, diz a verdade;
Dá-me que o alcance vivo, e é tua a liberdade!”
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E o moço perguntou:
“É por Alá que o juras?”
“Juro” – o chefe tornou.
“Sou o homem que procuras!
Mualhil é o meu nome, eu fui que espedacei
A lança de teu filho e aos pés o subjuguei!”
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E, intrépido, fitava o atónito inimigo.
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Anru volveu: “És livre, Alá seja contigo!”

*

Poema de Gonçalves Crespo

1846-1883

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Imagens:

http://cadernosdedanca.files.wordpress.com/2010/07/alaude.jpg

http://americangallery.files.wordpress.com/2010/03/small_arab-rider.jpg

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Post do dia 8 de Agosto, pelas 11h 50m

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MOAXAHAS na Câmara Municipal de Lisboa – 6

* Alandalus,* Notas Breves — Myriam de Carvalho @ 3:34 pm

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Projecto dos Serviços Culturais da Câmara Municipal de Lisboa

ALANDALUS – 25 poemas para Lisboa

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AMIGOS!

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Há quem pergunte o que é a MOAXAHA – do que se trata…

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Foi um tipo de poema que nasceu – e floresceu – no Alandalus,

um poema que se destinava a ser cantado.

Não custa nada!

 Quem se cinge às regras do SONETO,

quem interioriza as regras do HAIKU

– muito mais facilmente faz uma MOAXAHA:

– apenas uma entrada de 2 versos,

 + 2 quintilhas,

 + uma  “citação” a finalizar!

 .

Tem mais alguma regra?

É simples:

Esquema rimático:

Entrada – rima a, a

Nas quintilhas:

rimas b,b,b, a,a

e…….. c,c,c,a,a

No remate – Aqui é que está, quanto a mim, o grande desafio desta composição:

– ou uma citação de algum poema, que vamos buscar à poesia medieval

– ou uma citação de algum poema, ou Poeta, da nossa preferência;

-Em qualquer destes casos, sendo estas citações uma homenagem a um Poeta, devem estar devidamente identificadas!

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Já partilhei diversa informação aqui no blogue – um ou outro post mais conciso, alguns mais poéticos, e também um conto.

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– Vê-se, obviamente, que este esquema que proponho, é uma modernização da MOAXAHA andalusa! –

– Quem estiver interessado, poderá ver mais posts aqui no blogue, em:

*  categoria POESIA: dia 18 de Fevereiro de 2012

* categoria ESTUDOS e NOTAS: igualmente um post do dia 18 de Fevereiro de 2012

* Os 3 posts do passado dia 3 de agosto, na categoria POESIA

* O conto publicado nas categorias CONTOS,POESIA, na passada 2ªf, dia 6, de Agosto.

* Pode ver também, sobre os instrumentos musicais árabes:

http://www.ivesahar.com.br/ritmos_arabes.html

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A imagem:

http://cadernosdedanca.files.wordpress.com/2010/07/alaude.jpg

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 Post do dia 8 de Agosto de 2012, pelas 16h 48m

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MOAXAHAS na Câmara Municipal de Lisboa – 5

* Alandalus,* Antologia — Myriam de Carvalho @ 1:37 pm

 

 

 

 

Dois grandes poetas que se interessaram pela Poesia do Al-Andalus:

Federico Garcia Lorca

Mahmoud Darwich

*

Mas não se pense que a poesia do Alandalus se limita à poesia de língua árabe.

Há ainda a poesia em língua hebraica, que igualmente contou com grandes poetas.

Actualmente, o poeta e tradutor Peter Cole tem feito grande divulgação desta poesia.

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Post do Dia 6 de Agosto de 2012, pelas 14h50m

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MOAXAHAS, Câm. M. de Lisboa – 4 – Conto, ou lenda?

* Alandalus,* Contos — Myriam de Carvalho @ 11:02 am

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AMIGOS!

Já há pessoas interessadas neste projecto, e perguntam o que é isso da “moaxaha”. Já o expliquei noutros posts, como menciono abaixo, a seguir ao conto. No entanto, fiz este conto pois senti que assim me tornarei mais clara.

Os testemunhos sobre o aparecimento deste género poético são dos próprios historiadores e antologiadores do Alandalus, como Ibn Bassam (?-1147).

Quanto ao próprio poeta, Muqaddam Ibn Musafá (o próprio nome, vejo-o escrito com variantes), pouco se saberá… Por isso intitulei este conto, como  “lenda”… A encenação que dou ao momento da criação, é evidente que é ficção minha! …Mas como interpretar esta ideia de juntar as duas línguas faladas no Alandalus numa só composição poética? Considero a própria ideia poética por si mesma!

Faço ainda referência a Omar Ibn Hafsún. Personagem que existiu, de origem na nobreza goda, e que viria a conduzir uma prolongada revolta contra o poder dos senhores de Córdova, e que me fazia falta para a localização temporal da acção. A data que refiro corresponde ao seu regresso do Norte de África e é anterior à referida revolta. Este Omar Ibn Hafsún teve apoio popular, de Moçárabes e Berberes.

O meu gosto por este aspecto particular da Poesia do Alandalus advém desta sobreposição, e fusão, das diferentes culturas num mesmo espaço territorial – nem os conflitos conseguiram evitá-la!

Então, segue o conto, e espero que traga algum contributo aos interessados em aprofundar a nossa relação com esta época do nosso Passado histórico.

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Lenda de Muqaddam Ibn Mu’afá, Al-Cabrí

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Dedico este breve ensaio à memória de minha avó

Maria Carlota da Ascenção Jubilot.

Myriam Jubilot de Carvalho

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Madrugada. Suave, a brisa refrescava o alpendre a um canto do jardim. Grande, o grupo que desde o cair da tarde ali se ia juntando em volta da fogueira que os escravos não deixavam esmorecer. A primavera já se instalara mas as madrugadas eram ainda muito frias, ainda se sentia a necessidade do conforto das mantas de peles e de lã de ovelha em entrelaçados brancos e castanhos, estendidas ao longo dos largos almofadões. E havia também muito com que aquecer o corpo, por dentro. Não faltavam os vinhos, os assados, os frutos, mas também os sumos, e para os mais enregelados, as infusões de ervas aromáticas,  ou as vigorosas aguardentes, as xinitas. E havia ainda, a par do estímulo de companhias esbeltas, delicadas, perfumadas, primorosamente vestidas, sedutoras, os apelos da conversação, dissertações sobre a situação agitada que se vivia no Emirato, e acima de tudo as controvérsias sobre o sentido da vida, seus prazeres e sua efemeridade, e o sentido do amor.

Muqaddam Ibn Muafá, o cego de Cabra, fazia parte daquele grupo, pois os longos serões exigiam a presença dos poetas consagrados. Corria o ano de 880. Ibn Hafsún, o proscrito, regressava do Norte de África e era recebido com todas as honras no belo castelo. E aquela noite iria ficar memorável. Não só pela presença de Omar Ibn Hafsún, mas porque este sarau iria ter grande repercussão na Poesia das Hispânias.

O velho Muqaddam tinha estado à altura das expectativas, apesar da comparência doutros poetas cortesãos e da concorrência que entre eles se estabelecia. Tinha dito poemas doutros poetas, tinha cantado, tinha dito poemas seus já antigos, tinha improvisado outros mais. Uma noite de glória. Mas chegou o momento em que o frio começou a apertar, já se sentia velho, tinha os ossos enregelados. Pediu licença para se recolher.

Muqaddam chegava agora ao seu aposento, um recanto abrigado que lhe reservavam na zona da criadagem. A sua amiga favorita, uma jovem escrava do serviço das cozinhas, acendia para ele um caldeirão de brasas e colocava-lho no meio do aposento. Como sempre, chegava um tanto tonto, a noitada, a escrava que habitualmente se ocupava dele no decurso do repasto, enternecida pelos seus olhos sem vida, o jovem copeiro que solicitamente lhe renovava o recheio da taça… Muqaddam chegava no seu andar pesado, lento, cauteloso. Naquela madrugada, porém, não eram só os vapores do álcool… Apoiado ao jovem copeiro, conseguiu sentar-se.

– Senta-te aqui ao meu lado – pediu ao jovem. – Tenho aí onde podes escrever, pega numa pena, tenho as palavras a dançarem-me na mente…

Distendeu as pernas, pesadas da gota e do álcool. À sua mente meio adormecida, meio estimulada pelas sensações ainda despertas pelas vivências da noite, ocorreu uma ideia, uma coisa esquisita, que não soube definir…

Muqaddam fechou os olhos… A brisa fria continuava a entrar pelas frinchas do postigo, cantava-lhe qualquer coisa que ele não conseguia agarrar… Desapertou o cinturão bordado a lantejoulas, o fivelão de prata… Fechou os olhos para olhar interiormente a sensação indefinida…

…Era a avó. Era a avó quem cantava. Cantava uma canção de outras eras, uma canção que aprendera na infância quando acompanhava a mãe à fonte ou a ir lavar a roupa na ribeira… E cantava-a em adulta, durante as duras lidas da horta, ou quando se sentava ao tear… As antigas palavras dançavam na extremidade de um raio de sol que nascia, bruxuleavam na chama da candeia ainda acesa – mas ele não podia vê-las…

Sentado aos pés do leito, tacteou, procurando o alaúde. Tentou dedilhar um poema, uma canção… Aquela canção… Tantas vezes a tinha ouvido, com a displicência dos jovens que dizem para consigo “Esse tempo já lá vai”… E nessa noite, as cantadoras tinham entoado a mesma copla… Tentou dedilhá-la,  sorriu satisfeito quando lhe apanhou a toada, continuou… A mesma copla, e tantas outras, semelhantes… Tinha sido uma noite diferente, aconteceu por acaso, sem se perceber como. Talvez que a presença de Omar Ibn Hafsún, o nobre descendente de godos, os seus relatos das saudades da sua terra, dos seus amigos, da família… A descrição dos perigos que tinha corrido… Assunto poucas vezes abordado, houve quem se lembrasse de falar, mesmo que de forma indirecta, das suas origens de antanho, referindo a naturalidade óbvia e incontroversa da conversão, as suas vantagens, não só as materiais, certamente, mas sobremaneira as espirituais também… No fundo, tinha acontecido que todos se tinham regozijado por ali estarem, todos juntos, falando do tempo antigo, contando histórias de família, histórias de falecidos vizinhos, comparando duas religiões, duas filosofias, dois modos de vida… Todos os convivas se tinham sentido irmanados num sentimento de unidade, os acepipes nessa noite tinham sabido melhor. E tocadores, tocadoras e cantadeiras, todos sem excepção, tinham colaborado de forma desusada. Até as mulheres tinham assomado às janelas, lá em cima, as cabeças descobertas, para fora das portinholas de rexas. Foi Ibn Hafsun quem as chamou! “Desçam daí, mulheres de Deus, juntem-se à gente!” E a desculpar-se, para o seu anfitrião – “Elas é que sabem disto!” Daí, a grande surpresa! A grande surpresa dessa noite, tinham sido as cantadoeiras jovens quem tinha trazido à lembrança dos presentes, de forma espontânea, solta, à vontade, numa noite de justas poéticas sem fim, tinham trazido de novo à vida a antiga poesia do povo… Afinal, a poesia do povo não estava esquecida… Toda a minha gente sem excepção, liberta a saudade pela suavidade que o bom vinho desperta nos corações amorosos, todos tinham cantado as velhas coplas em que as moças donzelas faziam as suas queixas das suas coitas de amor à mãe, ou confessavam ao ingrato namorado que sem ele não poderiam viver…

– Que dizes? – perguntou ao jovem. – É isto, não é?

– Sim, mestre, acho que vai muito bem.

– Então, canta comigo…

 Mamma ayy habibi

sua al-gumella saqrella

e el qollo albo

e bokella hamrella

 – Ainda sabes o que isto quer dizer? – perguntou Muqaddam.

– Sim, mestre, a minha mãe ainda canta estas coisas. E é assim que ainda se costuma falar na minha casa… – E acompanhando-se ao alaúde, cantou em árabe:

Mãe, que amigo!

A cabeleira é ruivita

O colo branco

e vermelha, sua boquita

– É o que isto quer dizer? Bem me parecia… – E insistiu – Continua, continua! Vocês deram-me uma noite de sonho! Eu nunca tinha ligado a estas cantigas, e agora estão a parecer-me tão belas! Parece que as oiço pela primeira vez!…

O jovem prosseguia, incansável, sem sono, contagiado pelo entusiasmo do cego, cantando no seu dialecto original, o dialecto popular, o linguajar dos cristãos arabizados, e depois, transpondo para árabe, a refrescar a memória do velho mestre.

Ké faré mamma

mio al-habib est ad yana

 .

Que farei, mãe,

O meu amigo está à porta

 .

Sabes ya mio amor

ke kata-me el morire

imsí, ya imsi, ha bibi

no se, sin te ber, dormire.

 .

Já sabes, meu amor,

que sem ti vou morrer…

Vem, oh, vem, meu amigo,

Como posso dormir, sem te ver?

 .

O sol saía agora completamente. Cantava a primavera na brisa ainda fresca da manhã. O velho aedo disse ao ajudante:

– Esta manhã, estás por minha conta! Vamos fazer uma coisa, e vai ser mais complexa que um jogo de xeiques! Vais estar com toda a atenção, não quero enganos!

– E o que será isso assim tão importante, mestre?

-Vais escolher aí uma copla dessas. Escolhe mesmo a que mais te agradar! Canta-a lá para eu ouvir:

Tanto amare tanto amare

habib tanto amare

enfermeron olios nidios

e dolen tan male.

– Muito bem! É linda, mesmo linda! – O velho pensou um pouco… – Agora, vamos arranjar rimas, quero palavras, ajuda-me a pensar!

– Rimas, mestre?!

– Sabes o que são rimas, não sabes?! Então, vá lá! Pensa em palavras, palavras simples, que rimem umas com as outras!

– …Palavras árabes?

– Não percebes?! Coisa fácil: quero palavras árabes, mas palavras simples, e  que façam rima entre si!

– Mestre! Como vou conseguir isso?

– E para que queres tu a cabeça – para o cutelo?

– Não! Claro que não! – O jovem respirou fundo a recuperar o fôlego. – Mestre, não me diga essas coisas, já sabe que eu não gosto.

– Fizeste mal a alguém? Não fizeste, pois não?

– Não, mestre, não faço mal a ninguém, mas… Ibn Hafsún andou fugido …

– Porque matou um homem e teve que se proteger da desforra da família do morto. Não sabias? Mas ele agora foi perdoado, deixa lá isso. Não faças tu mal a ninguém, é o que interessa. Bem, e deixemo-nos de coisas, vamos às palavras! Quero fazer um poema novo!

– Então e a copla cristã?

– Oh! Essa vai ser a grande novidade neste poema – vamos usá-la como remate!

*

Naquela noite terá nascido, de facto, um poema novo. …Segundo a tradição, Muqaddam escolhia primeiro as palavras coloquiais, despretenciosas, para que comandassem as rimas do poema que ia fazer nascer; depois construía um pequeno poema estrófico – pequeno, mas complexo como um jogo de xeiques: em primeiro lugar um mote, com seus dois versos e a rima previamente escolhida; depois, uma estrofe onde nos seus primeiros três versos mudava a rima e nos dois seguintes, voltava à rima inicial, estribando-se nela para dar movimento e unidade à construção; seguindo-se depois mais umas tantas estrofes, sempre nos mesmos moldes; e para finalizar, como ele próprio dizia, uma homenagem à avó e à mãe com quem tinha aprendido a cantar – a bela estrofe da lírica dos seus antepassados cristãos, que rematava o poema como uma finda, uma saída. Um estranho poema que condensava num só sentimento, numa só expressão, as suas duas Línguas, e as suas duas Culturas! Um poema ornamentado, em duas Línguas, como um colar de pérolas de duas voltas, forte e eterno, como o seu cinturão de lantejoulas. Por essas ambas razões, lhe chamou MOAXAHA.

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Posts anteriores, sobre este tema:

Pode-se ver em:

1 – Poesia, dia 18 de Fevereiro de 2012,

Estudos e Notas, igualmente um post do dia 18 de Feverieo de 2012;

2 – Os três posts do passado dia 3 de Agosto, na categoria Poesia.

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Além das minhas recordações de algarvia, colhi informação para o banquete deste conto, em:

“Así vivieron en al-Ándalus – la historia ignorada” – de Jesús Greus – col. Biblioteca básica, Historia – Editora Anaya – Madrid, 2009

No entanto não segui à risca a informação prestada neste excelente livrinho. Numa noite tão feliz, os corações falaram mais alto e as minhas personagens deixaram-se conduzir pela inspiração, pela emoção, pelo prazer do reencontro informal através dos paladares, da música, e do canto.

Imagens da Net:

http://arquehistoria.com/wp-content/uploads/2008/11/moda_arabes-cristianos.jpg

http://vieuxsinge.blog.lemonde.fr/files/2008/10

/saintmichel1.1222850971.jpghttp://cadernosdedanca.files.wordpress.com/2010/07/alaude.jpg

 

Quanto a imagens e melhor ilustração:

É muito difícil encontrar imagens apropriadas, disponíveis, na Net. Ao fim de uma pesquisa de três horas ou mais, só consegui as que aqui deixo neste momento…

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Conto, inédito, de Myriam Jubilot de Carvalho

Publicado no dia 6 de Agosto de 2012, pelas 12 horas

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Afonso Lopes Vieira

* Antologia — Myriam de Carvalho @ 2:17 pm

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De AFONSO LOPES VIEIRA – Leiria, 1878 / Lisboa, 1946 – ,

estava este poema que sempre guardei na memória, no livro da 4ª classe.  Muitas vezes contei a história das 3 gotinhas de água, quer aos meus Filhos, quer aos meus pequenos Alunos, chamando-lhes a atenção para como todos nós somos necessários na co-criação que é a Vida!

…E era só esta a interpretação que eu fazia deste belo poema…

…Há poucos dias, porém, calhou, e referi este poema em conversa com a minha Mestra de Reiki… E foi uma conversa que muito abriu a minha compreensão para a profundidade do que aqui tão singelamente é dito! O Oceano, o Mar – que tantas vezes simboliza o Infinito Amor, e o seu apelo, e a fusão da alma no Eu divino!

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Romance das três gotas d’água

 *

Três irmãs, três gotas d’água

Que o infinito condensa,

Sua mão nuvem do céu

Lá daquela altura imensa

Desprendeu.

Vem uma cai sobre a flor

Que à míngua água morria

E mal a gota sentia

Voltava-lhe o viço e a cor…

Caiu outra ao pé dum ninho

Que o passarinho bebeu…

Mas, a terceira no mar tombando

Dizia chorando:

Nestas ondas arrogantes

Desapareço mesquinha;

Responde a onda marinha:

Já sou maior que era dantes…

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In:

“O Livro das Rosas”

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Post do dia 3 de Agosto, pelas 15h 15m

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MOAXAHAS na Câmara Municipal de Lisboa – 3

* Alandalus,* Poesia — Myriam de Carvalho @ 12:07 pm

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I – Como eu comecei a escrever Moaxahas

Nos meus estudos de Literatura do Alandalus, comecei a fazer moaxahas para entender mais concretamente as descrições que lia.

E à medida que as fazia, o meu gosto por esta construção poética ia crescendo!

Assim, aqui exemplifico como tenho feito:

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1- Temos que ter uma entrada de 2 versos, rimando – Digamos que é a rima a
(No poema árabe, esta “entrada” era o mote, ou CABEÇA do poema)

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2 – Segue-se uma série de 2 estrofes

Cada estrofe tem 2 partes:

– a primeira, era a MUDANÇA, pois muda a rima: são 3 versos, e digamos que é a rima b
– e a VOLTA , que são 2 versos, que voltam à rima a

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3 – A MOAXAHA  terminava pela FINDA, em Árabe, “JARCHA” – uma estrofe da lírica tradicional dos cristão (os Moçárabes), e que tanto os poetas árabes como os  hebraicos introduziam no seu poema, como remate!

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II – Passando à minha prática:

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1- Eu nunca conto sílabas; guio-me apenas pelo ritmo, é muito mais musical.

2 – Quanto à Jarcha:

Pessoalmente, encaro as minhas Jarchas como uma homenagem aos Poetas que aprecio, ou aos próprios poemas que a minha memória adoptou!

Assim, por vezes, vou às minhas antologias e pesquisas, e procuro uma Jarcha, dentre as várias conhecidas;

Outras vezes, introduzo uma Jarcha – ou Finda -, ou uma outra  estrofe, de uma Cantiga de Amigo, que no momento me esteja a falar à inspiração…

Outras vezes, faço uma citação de algum poeta que me ocorra no momento.

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Em qualquer destas hipóteses, aponto em nota de roda-pé a origem da Jarcha ou Finda que escolhi.

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III – Assim, teremos:

a) – Entrada, cabeça, ou mote: 2 versos, de rima a

b) – 1ª estrofe: 3 versos de rima b

………2 versos de rima a

c) – 2ª estrofe: 3 versos de rima c

……..2 versos de rima a

d) – “Jarcha”, ou Finda – a citação de algum poema de que eu gosto

 

IV – Agora, permito-me exemplificar com um poema meu…

.

Moaxaha para os dias escuros

 .

Às vezes o dia nasce-me escuro

e sinto contristada que para mim não há futuro

 .

Tento então abrir os olhos à criança que ainda sou

e dizer-lhe que os caminhos aonde vou

fui eu quem os abriu, os adubou, e os plantou

– que os alicerces da minha casa estão firmes, e seguros

e que há portas de ouro abertas nos seus muros

.

Portas e vidraças por onde triunfante o sol penetra

escrevendo e musicando os meus dias letra a letra

tornando-os imortais como os templos em Petra

– para quê tantos e tão tristes sentimentos inseguros

se plantei a minha casa em chão indómito e maduro?

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Amor ei! *

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V-

* Como “Jarcha”, ou Finda, utilizei o refrão da Cantiga de Amigo de Martim Codax, in “Cantares dos Trovadores Galego-Portugueses”; Selecção, introdução, notas e adaptação de Natália Correia; Editorial Estampa, Lisboa 1970. Pág 74.

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Lazarim, 31 de Julho de 2012

Myriam Jubilot de Carvalho

VI-

Já aqui publiquei no blogue mais posts sobre este tema:

Pode-se ver em:

Poesia, dia 18 de Fevereiro de 2012,

Estudos e Notas, igualmente um post do dia 18 de Feverieo de

*

A imagem:

http://cadernosdedanca.files.wordpress.com/2010/07/alaude.jpg

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Post do Dia 3 de Agosto, pelas 13h

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MOAXAHAS na Câmara Municipal de Lisboa – 2

* Alandalus,* Poesia — Myriam de Carvalho @ 11:47 am

 

CONVITE

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Convite do Departamento de Acção Cultural da Câmara Municipal de Lisboa

A Câmara Municipal de Lisboa, através do Departamento de Ação Cultural, convida à participação numa iniciativa literária intitulada “Alandalus – 35 poemas a Lisboa”.

É conhecida a influência que o gosto dos nossos antepassados árabes e arabizados pela Poesia teve na tradição poética peninsular. Foram eles os criadores de um género poético peculiar, a moaxaha. Com esta iniciativa pretendemos celebrar esse nosso passado poético tão fecundo, através de um livro de moaxahas.

O intuito é conseguirmos uma publicação com um conjunto de 25 poemas dedicados à Cidade de Lisboa, nos moldes da moaxaha árabe peninsular (máximo 25 linhas e 1 poema por pessoa).

Não se trata, porém, de um livro comercial. A edição que projetamos é limitada, e pretende-se que a sessão de lançamento constitua uma festa de animação cultural e convívio entre todos os autores dos poemas, em que todos os participantes estejam presentes, e em que cada um lerá o seu poema – uma sessão de Poesia em data e local a determinar!

Os poemas serão enviados para ernesto.matos@cm-lisboa.pt ou para myriamdecarvalho@gmail.com até 30 de Outubro.

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Contamos com a vossa participação!

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Imagem, da Net:

http://cadernosdedanca.files.wordpress.com/2010/07/alaude.jpg

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Post do dia 3 de Agosto de 2012, pelas 12h 45m

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MOAXAHAS na Câmara Municipal de Lisboa -1

* Alandalus,* Poesia — Myriam de Carvalho @ 11:34 am

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     AMIGOS

 Importante iniciativa do DEPARTAMENTO DE AÇÃO CULTURAL

da CÂMARA MUNICIPAL DE LISBOA

 *

Este Departamento está a organizar a publicação de uma recolha de MOAXAHAS

Mas não se trata da Moaxaha árabe dos tempos de antanho:

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Trata-se de um desafio à nossa criatividade de poetas, actuais,  a fazermos

moaxahas à Cidade de Lisboa!

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*

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Imagem retirada da Net,

– alaúde –

http://cadernosdedanca.files.wordpress.com/2010/07/alaude.jpg

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Post do Dia 3 de Agosto de 2012, pelas 12h

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