Uma Celebração da Poesia

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 1:35 am

 

Há bastante tempo que não publico aqui nenhum poema meu. Mas esta noite é Lua-Cheia, tudo pode acontecer! Então, é boa altura para lançar aqui um dos poemas com que participei na última colectânea de Poesia da editorial Minerva.

Do conjunto de poemas a que chamei “Celebrações da Poesia”, deixo esta “celebração”:

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21 de Março de 2005

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A noite não é minha inimiga. Embora eu tema o bater desbragado do sangue contra as veias da nuca, as insónias, os pesadelos, ou as imagens de algum amor passado. Cavalos selvagens à desfilada sobre a orla da baía da memória, desordeiros, exército de maltrapilhas.

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 A noite é minha irmã pelo ínsulo silêncio desta casa. Agora apenas povoada pelos gatos (trazidos pelos filhos) à espera do seu jantar castrado ou que eu termine o meu próprio, para saltarem para cima da minha mesa e se aninharem nos meus braços enquanto vejo a novela ou um qualquer canal sete.

A noite é minha irmã, não pela escuridão de breu das noites de inverno – mas pelo brilho das estrelas ou pelos reflexos do luar de janeiro e de agosto, ou qualquer dos outros, sobre a incessante mobilidade das águas do rio.

A noite é minha irmã porque, irmã – nunca tive e a única que tive me traíu a sangue frio como quem mata a galinha para o jantar da consoada.

A noite é minha irmã porque detesto a solidão e ela oferece-me companhia no vento que corre e assobia rua abaixo e me entra em casa fazendo ranger os batentes das portas; na chuva das profecias de fim de milénio que tudo destrói e arrasta pela frente sem dó nem piedade; mas também tudo lava, até o capô do carro – excepto as almas bravias que infectam, conspurcam a Terra, fazendo-a tremer de pânico sob os seus pés.

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A noite é minha irmã, enfim, porque os filhos levantaram seus próprios voos e posso finalmente erguer minhas asas e planar lá no alto como as aves de arribação e de rapina.

Porque eu quero arrebatar-te e submeter-te. Fazer-te minha amiga ou inimiga, minha Deusa e meu Deus, minha Musa e meu Amor – Poesia – Figura do meu estilo – Único possível inteligível confronto com a realidade – Única medida da plenitude –  A partitura total – com todas as vozes – todos os naipes – todos os intérpretes – todas as brumas.

E todos os sóis

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“Poética” vol. I

Editorial Minerva

Junho de 2012

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Imagem:

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 4 de Julho de 2012 – pelas 2horas

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