Três Poetisas Portuguesas

* Antologia — Myriam de Carvalho @ 2:24 pm

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Maria Browne

Branca de Gonta Colaço

Oliva Guerra

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Tenho muitas vezes o gosto de folhear a

antologia das mulheres poetas portuguesas”, uma antologia preciosa, organizada por António Salvado, e que tem para mim o valor afectivo de ter sido prenda de aniversário que os meus Pais me ofereceram quando fiz 18 anos.

Ultimamente, tenho recorrido a esta obra com o propósito expresso de pesquisar nomes que me facultem enriquecer a minha colaboração no blogue dos Poetas Esquecidos, oportuna e valiosa iniciativa da Inês Ramos, que daqui mais uma vez, com amizade e apreço, volto a felicitar!

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Deixo então, em primeiro lugar, uma nota sobre as Poetisas que desta vez seleccionei:


MARIA BROWNE – 1797 / 1861

Natural do Porto. Maria da Felicidade do Couto Browne ficou conhecida pelos pseudónimos que usava, «A Coruja Trovadora» e «Soror Dolores».

No seu salão literário, reunia algumas das mais importantes personalidades intelectuais do Porto da época, como Arnaldo Gama, Ricardo Guimarães, ou Faustino Xavier de Morais, e também Camilo, que lhe terá despertado profunda paixão.

Apesar de existirem 3 edições da sua Poesia, nunca elas entraram no mercado.

É de salientar que Maria Browne forma, com Soares de Passos, o díptico mais notável do Ultra-Romantismo português, notando-se em Maria Browne uma mais visível atmosfera de modernidade.

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BRANCA DE GONTA COLAÇO – Lisboa, 1880 / 1944

Branca Eva de Gonta Syder Ribeiro Colaço era filha do poeta Tomás Ribeiro, o autor de “D. Jaime”, e da poetisa inglesa Ann Charlotte Syder. Casou com o pintor e azulejista Jorge Rey Colaço. Foram seus filhos o escritor Tomás Ribeiro Colaço e a escultora Ana de Gonta Colaço.

Branca de Gonta Colaço contribuiu activamente para um grande número de jornais e revistas.

A sua obra multifacetada, reconhecida em Portugal, Brasil, França e Espanha, abrange não só a Poesia, mas também o Drama e as Memórias, e dá-nos um valioso retrato das elites sociais e intelectuais de que fez parte.

Quanto à sua poesia, simples e límpida, salienta-se pela delicadeza subtil, sendo o sentido do fluir do tempo um dos seus principais temas.

Entre outras obras, legou-nos:

1907 – Matinas

1912 – Canções do Meio-Dia

1918 – Hora de Sesta

1926 – Últimas Canções

1945 (póstumo) – Abençoada a Hora em que nasci

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OLIVA GUERRA – Sintra, 1891 (ou ’96) / 1982

Oliva Correia de Almada Meneses Guerra foi aluna de Viana da Mota e pianista admirada.

Foi poetisa, musicóloga, cronista, e teve intervenção de relevo na vida cultural da região, de tal modo que a Câm. Mun. Sintra instituiu o Prémio Literário Oliva Guerra, para Poesia, em 1992.

Que eu tenha conhecimento, a sua obra é composta por:

1922 – Espirituais;

1926 – Encantamento;

1933 – Serenidade;

1944 – Fonte Distante;

1956 – Silêncio

Quanto à escolha dos poemas:

Deve-se aos seus temas:

– O poema de Maria Browne, por conter uma definição do que seria para ela o seu conceito de “inspiração”, que eu acho delicioso.

– O de Branca de Gonta Colaço, por parecer estruturar-se no tom dos textos sagrados, que tanto aprecio.

– O de Oliva Guerra, por transmitir aquele sentimento de nostalgia que nos inspiram as casas abandonadas, em ruínas, que eu também sinto.

De Maria Browne

O ESTRO

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O estro é fogo ardente;

É o elo refulgente

Que nos une ao Creador;

Foi por Deus predestinado,

Eleito o vate, inspirado

Nos hinos do seu louvor;

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Nessa mística beleza

Alma e luz da natureza;

Nessa abobada celeste

De imensos sóis matizada,

De prodígios semeada

Que o puro éter reveste;

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Nesses bosques de verdores,

Nessas campinas de flores;

Nos rochedos que têm brado;

No lago sempre dormente;

Ou do rio na corrente;

Ou no mar sempre agitado;

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Ou na aragem carinhosa

Que, de noite, vem da rosa

Afagar lindo botão,

Para a não corar de pejo,

Ao libar-lhe em doce beijo

A suave exalação;

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Quer na maga primavera,

Que ternura em tudo gera;

Quer no estio; quer no Outono,

Quer na estação da geada,

Em que, exausta, e fatigada,

Volve a natureza ao sono.

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O estro dá claridade,

Dá fulgor à escuridade;

Ao silêncio mais profundo,

Encantadora harmonia;

Graça e amor em tudo cria,

Faz sair do “nada” um mundo!…

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Pode tudo imaginar;

Do futuro o véu rasgar;

Dar à fama a eternidade…

Mas lá finda esse poder,

Que Deus lhe quis conceder,

Num sopro de divindade!

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Da obra “Canções do Meio-Dia”

de Branca de Gonta Colaço

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VERSÍCULOS

I

Vai desfilando a procissão dos dias…

e os dias levam factos em andores…

II

E com factos cimentam teorias

os Escribas, os Sábios, os Doutores…

III

E almas ligeiras, simples, erradias,

vão sobre os factos desfolhando flores…

IV

Cravos e rosas para as alegrias,

goivos e lírios para os dissabores…

V

E soluçantes, pálidas, sombrias,

vão pelos dias perpassando as dores…

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De Oliva Guerra,

AQUELA CASA

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Aquela casa fechada…

Que mistério há dentro dela?

Parece que foi roçada

por uma asa de agoiro.

Nunca se abre uma janela

naquela casa sombria

que a luz das estrelas de oiro

não beija nem alumia.

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Detrás das suas paredes

ressoaram risos outrora,

houve cantos e alegria

cujos ecos inda agora

eu sinto no coração.

Mas tudo hoje é triste e mudo

– que a morte num repelão

passou por ali um dia

e deixou sombras em tudo.

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Oh, quantas saudades mortas

escondem as velhas portas

dessas casas sem ninguém!

No silêncio delas todas

vibram as vozes perdidas

das horas gastas, queimadas,

que são quais casas fechadas

ao longo das nossas vidas.

Imagem:

http://www.forumuniversitaire.com/images/Bible%20gen%E8ve-Big.jpg

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Notas que retirei da citada

“antologia das mulheres poetas portuguesas”;

de António Salvado;

Edições Delfos, s/d;

e enriqueci com consultas na Net, nomeadamente a Wikipedia, e a Infopedia

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Páginas da Antologia, respectivamente:

– pág 83 e seg

– pág. 119 e seg

pág. 144 e seg

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Dia 29 de Junho de 2012, pelas 15 h

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Mahmud Darwish, uma voz, um alerta

* Antologia — Myriam de Carvalho @ 5:24 pm

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A Poesia e o Mundo-dos-Homens

Sei – sabemos – que a Poesia não pode mudar o mundo. No entanto, penso muitas vezes como certos grandes criadores foram perseguidos, quer em regimes de Direita, quer em regimes ditos de Esquerda. Se as suas vozes – a sua Obra – não viessem perturbar a Ordem, imposta por Ditaduras ou outras usurpações de Poder, certamente não teriam sido consideradas incómodas e não teria havido forças encarniçadas em silenciá-las. Tem acontecido em todos os tempos, tanto em Portugal como em tantos outros sítios.

A propósito da nova conferência internacional, que decorre actualmente e tem por tema o Desenvolvimento Sustentável, e pensando que outras conferências subordinadas ao mesmo tema têm tido lugar sem resultados suficientemente visíveis, recordo aqui hoje a voz do poeta palestiniano MAHMUD DARWICH. O sentido das suas palavras, para mim, transcende cada vez mais nitidamente o âmbito estrito da sua luta pela Justiça na sua martirizada terra natal. Todos sabemos quais os interesses que orientam o domínio do Planeta, no seu todo, Natureza, Animais, e Gentes, e todos, de uma maneira ou de outra, nos perguntamos o que irá ficar para os nossos Filhos, os nossos Netos…

Não me inquieta nem preocupa que se considere que a Poesia não tem a ver com a intervenção social ou política. Cada qual fala do que ama. O modo como o faz é que varia das formas rasteiras aos mais altos voos.

Quando José Afonso, a certa altura da sua vida, aparentemente substituiu os seus poemas contundentes como por exemplo os Vampiros, pelas inócuas canções populares, toda a gente continuava a saber do que é que ele falava! A simples força da sua presença era a metáfora, de todos conhecida, para as palavras silenciadas. Não pode haver Desenvolvimentos Sustentável sem Justiça social! Tal como José Afonso, Mahmud Darwich quanto a mim, voava alto, foi um grande Poeta. A morte não interrompe o sentido e a força das palavras dos Poetas!

Deixo aqui três poemas, os dois primeiros retirados de uma pequena colectânea de traduções em Português, “O Jardim Adormecido e outros poemas”, e o terceiro, retirado da Net há tanto tempo que o site já nem existe.

Mahmud Darwich, 1941/2008

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UMA VOZ VINDA DO OLIVAL (pág. 19)

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O eco veio do olival.

Eu estava crucificado no fogo

e dizia aos corvos: não me devoreis.

Eu poderia voltar a casa,

talvez chovesse

e a chuva pudesse…

apagar aquela madeira carnívora!

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Um dia descerei da minha cruz.

Mas como poderei, então,

voltar a casa, nu e descalço?

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CELA SEM PAREDES (pág. 49)

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Como habitualmente

a minha cela salvou-me da morte,

do torpor do pensamento e das ciladas

das ideias gastas.

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No tecto, vi o rosto da minha liberdade,

o jardim das laranjeiras

e os nomes dos que, ontem, perderam os nomes

nos campos de batalha.

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Confesso-o aqui,

a confissão é tão bonita,

não estejas triste no domingo,

e anuncia às pessoas da aldeia

o adiamento do nosso casamento

para os primeiros dias do ano.

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Os pássaros soltam-se das minhas mãos,

a estrela… e o jasmim afastam-se de mim.

São cada vez menos os que dançam

e a tua voz murcha demasiado cedo.

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Mas como habitualmente

a minha cela

salvou-me da morte.

A minha cela…

No tecto, vi o rosto da minha liberdade

e a tua fronte cintilou nas paredes.

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A AMANTE

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Os seus olhos e as tatuagens nas mãos são Palestinianos,

O seu nome, Palestiniano,

Os seus sonhos e dores, Palestinianos,

O lenço na cabeça, os pés e o corpo, Palestinianos,

As palavras, e o silêncio, Palestinianos,

A voz, Palestiniana,

O seu nascimento e a sua morte, Palestinianos.

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O Jardim Adormecido e outros poemas –

Selecção e tradução de Albano Martins

Colecção Campo da Poesia, 44

Campo das Letras, 2002

ISBN972-610-520-X

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Dia 20 de Junho de 2012, pelas 18h 20m

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“Kalevala”

* Antologia — Myriam de Carvalho @ 12:19 pm

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KALEVALA, o poema épico da Finlândia

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Há já bastante tempo que queria aqui fazer uma referência ao conhecido poema épico finlandês, que actualmente podemos encontrar na tradução portuguesa, que devemos a Orlando Moreira, e à editora Ministério dos Livros.

Em primeiro lugar, o significado da palavra. KALEVALA será “a terra de Kaleva” – sendo que Kaleva terá sido “o mais antigo herói finlandês, do qual nada se sabe”. As personagens do poema corresponderão, pois, aos descendentes desse herói desconhecido.

Da Introdução, de Orlando Moreira, retiro estas brevíssimas notas:

Kalevala é o produto de um incontável número de bardos anónimos; é o resultado da fixação de uma tradição popular e oral. Tem como base as fábulas os mitos e as superstições, por entre os quais podemos vislumbrar os vestígios do passado de um povo. (…) É uma narrativa poética obtida pela concatenação e fusão de várias canções populares, passadas de geração em geração na tradição oral por cantores iletrados de populações de língua finlandesa.”

Foi Ellias Lönnrot (1802/1884) quem organizou estes cantos, na sua forma actual.

Quanto a mim, olho para a literatura de tradição oral com reverência, e fascínio. Daí que aqui fique hoje esta breve referência ao KALEVALA. Dos 50 cantos que compõem todo o poema (383 páginas) , transcrevo apenas algumas das estrofes iniciais.

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Canto I , “Nasce Vainamoinen” (página 29)

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Nasce-me na mente a ideia,

Surge em mim este desejo

De começar a cantar,

De iniciar a declamar

Uns versos do nosso povo,

Uns cantos da nossa gente.

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Na boca fundem-se os ditos

E precipitam-se as frases;

Da língua fogem os tons

E contra os dentes se afoitam.

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Meu maninho adorado,

Na infância amigo doirado,

Vem cantar comigo estórias,

Vem dizer comigo lendas,

Agora que estamos juntos,

De diferentes trilhos vindos.

Raro é virmos pra cantar,

Raro é pra ti e pra mim,

Sobre a terra triste e fria,

A pobre terra do Norte.

(…)

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Canto II – “Semeando a terra” (página 34)

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Levantou-se Vainamoinen,

Pôs os pés em terra seca

Num ilhéu no mar aberto,

Num país sem arvoredo.

Ali passa muitos anos,

Ali vive a sua vida

Num ilhéu abandonado,

Num pais sem arvoredo.

(…)

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Canto III – O Duelo (página 40)

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Vai o seu tempo passando

Pelos bosques da Vainola,

Nos campos de Kalevala.

Vai os seus versos cantando,

Suas artes praticando.”

(…)

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Imagem:

A imagem acima foi retirada da seguinte página, com detalhados estudos sobre o Poema:

http://lightworkers.org/blog/117433/kalevala-studies-part-1-poem-50

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A tradução portuguesa é da editora:

Ministério dos Livros Editores, 2007

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 Dia 18 de Junho de 2012, pelas 13h 15m

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Sobre a Felicidade

* Antologia,* Notas Breves — Myriam de Carvalho @ 4:18 pm

Le Penseur

Auguste Rodin

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Márcia Tiburi

Procurando informação na Net sobre um poeta do meu interesse, descobri a filósofa brasileira Márcia Tiburi, notável comunicadora que me prendeu ao ecran do YouTube pela simplicidade e clareza com que aborda os temas que se propõe divulgar. Descobri também uma entrevista à Globo, e transcrevo dois dos comentários:

” Sou professor de literatura e também fiz filosofia, e comecei a ver outro sentido na literatura quando passei a estabelcer um diálogo entre estas duas formas de saber e com você, percebo que esta relação entre filosofia e literatura é intrínseca.”

“Tiburi é uma das raras personalidades intelectuais que se abrem ao grande publico. Em vez de por oculos e se fechar em seus titulos, ela se abre como um leque de opcoes e visoes culturais que facilitam a inserção, nao da filosofia, mas do pensamento critico no meio menos acadêmico.” (…)

Deixo então os endereços destas

Conversas com Márcia Tiburi

Sobre –

“Felicidade?”

 Programa I

http://www.youtube.com/watch?feature=endscreen&NR=1&v=jjAkH0yxPcE

 Programa II

http://www.youtube.com/watch?v=2NSyVuJWBf8&feature=relmfu

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Imagem:

http://frontieracademyart.com/wp-content/uploads/2010/08/Rodin_Penseur.21262117.jpg

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Dia 8 de Junho de 2012, pelas 17h 15m

 

Não Canto Porque Sonho

* Antologia — Myriam de Carvalho @ 3:53 pm

 

Mais uma vez visitei o blogue Quarto Crescente, que muito aprecio! De Manuela Caeiro, colega e amiga de longa data, que relata de forma sucinta mas objectiva e dinâmica, trespassada de ternura, as suas actividades de grande dinamizadora da leitura junto das crianças das Escolas de 1º Ciclo.

Desta vez, esta visita proporcionou-me o prazer de recordar estas nossas duas grandes vozes de sonho, Fausto e Zeca –

Do álbum “P’ro que der e vier”

com letra de Eugénio de Andrade e música de António Pedro Braga e Fausto Bordalo Dias, deixo o endereço, no You Tube:

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Blogue Quarto Crescente

http://manuela-quartocrescente.blogspot.pt/

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Dia 7 de Junho, pelas 16h 50m

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