V Encontro de Escritores Moçambicanos (3)

* Estudos e Comunicações — Myriam de Carvalho @ 10:50 pm

Chegou a vez de aqui deixar a comunicação que apresentei neste V Encontro dos Escritores Moçambicanos na Diáspora, no dia 30 de Março de 2012:

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Leitura de “Mestiço de Corpo Inteiro”,

Livro de Delmar Maia Gonçalves

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Ontem, tivemos o prazer de ouvir a comunicação da Drª Flávia Bá, falando deste livro, na perspectiva da literatura comparada, e da sociologia;

Por coincidência, hoje vou tratar do mesmo livro, mas na minha perspectiva de pedagoga e de poetisa…

Isto mostra-nos, mais uma vez, como a riqueza intrínseca de uma obra pode ser abordada segundo várias perspectivas!

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Então, começarei assim:

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Ao ler a obra de Delmar Maia Gonçalves, “Mestiço de Corpo Inteiro” (publicação de 2006), várias considerações me ocorreram.

Vou tentar organizá-las em 2 ou 3 pontos:

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1- Os poemas de “Mestiço de Corpo Inteiro”

vistos – ou sentidos – de um ponto de vista meramente literário:

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Lendo estes poemas, na perspectiva da Literatura, vários tópicos se nos apresentam, o primeiro dos quais diz respeito à LINGUAGEM:

É uma linguagem seca, directa, dispensando o uso de metáforas.

Mas esta secura será compensada pela IRONIA – que aflora em poemas como

Jesus, o Mestiço (pág 34)

ou

Moçambique, eternamente berço ( pág 30)

ao construir o poema sobre a repetição da afirmação negativa.

Há outros aspectos na Linguagem de Delmar Gonçalves, como a reiteração da afirmação, através da repetição (ou anáfora) –

“Amor por uma causa

Não tem cor

Amor por um ideal

Não tem cor”……………………………..etc, pág 31;

– No poema O Mestiço (pág 47), o Poeta acumula diferentes processos, como por exemplo,

* a afirmação negativa, dizendo

Não há drama maior

* a interpelação ao possível Leitor, no final do poema, através da interrogação, realçando assim a conclusão que o Leitor deverá tirar do poema, sem que seja o Eu Poético a enunciá-la.

Há ainda a notar o uso de vários códigos linguísticos, pois além do Português, são usados o Francês e o Inglês – como se uma só Língua fosse insuficiente para conter o ritmo que habita o dinamismo interior deste Eu Poético – ritmo este que se afirma através da brevidade do verso.

Além disso, estamos perante uma Poesia concentrada, obsessiva, pois a insistência no verso breve e nas repetições imprime-lhe a força das afirmações que nos transmite.

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2 – A temática de Mestiço de Corpo Inteiro,

do ponto de vista da História Cultural

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Um segundo ponto que eu quereria focar, tem a ver com o enquadramento histórico-cultural da temática desta obra.

Logo no próprio título deste livro, o Eu Poético afirma-se tal como se vê a si próprio, mestiço de corpo inteiro, não se escondendo atrás de uma máscara, ou persona, não fingindo – naquele sentido sempre citado de que o poeta é um fingidor…

No entanto, esta auto-afirmação não é chã, não é límpida. O fio condutor deste livro é enovelado pelo sentimento de se sentir… “diferente”…

Vários poemas no-lo demonstram:

Poemas como Mestiço, (pág 59),

e, sobretudo, Jamusse (pág 60).

Jamusse é um poema-narrativo que nos conta a história de um menino “misto”, malquisto dos pretos por ser claro, malquisto dos brancos, por ser escuro… Um menino sem terra, que a uns e outros incomoda, um menino “sem bandeira”, enxotado de todos os lados por vozes de “ódio e raiva”…

Jamusse, este menino, é um símbolo, e, neste caso, uma personagem rica, preâmbulo para o poema da página seguinte – “Mestiço de Corpo Inteiro” (pág  61)

Estas duas páginas, arrumadas na sequência uma da outra, constituem, para mim, o clímax desta compilação.

Na minha óptica, tanto a temática, como a estilística, deste livro, o aproximam dos poemas realistas do Renascimento Negro Norte-Americano, também denominado como Renascimento de Harlem.

Dou um exemplo com um poema dos anos 20 do passado séc XX, do poeta Claude Mackay.

(Claude Mackay

Antologia “Também Eu Sou a América”, pág 37)

Poema de 1922

Desenraizado

Pelas já ténues regiões donde meus pais vieram,

Escravizado pelo corpo, o meu espírito anseia.

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Palavras sentidas, nunca ouvidas, meus lábios diriam,

Minha alma cantaria antigos cantos da selva.

À paz e à escuridão eu voltaria

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Mas estou refém do grande mundo ocidental.

Não vou conseguir nunca uma total libertação

E no entanto, aos seus deuses estranhos, eu me curvo.

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Qualquer coisa em mim, está perdida, para sempre está perdida,

Qualquer coisa vital abandonou o meu coração,

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E entre os filhos da terra, vou ter que percorrer os caminhos da vida

como um fantasma, como coisa posta de parte.

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Pois que nasci longe do meu clima nativo

Sob a ameaça dos brancos, fora do tempo e de todo o motivo.

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(Da antologia organizada por

Hélio Osvaldo Alves, da Univ do Minho;

tendo a tradução sido quase inteiramente alterada por mim)

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Ora tudo isto me levanta uma questão, que é a seguinte:

O Renascimento Negro Norte-Americano disseminou-se pela cultura do Ocidente – e com a solidariedade dos Surrealistas, e depois dos NeoRealistas, foi cedendo lugar a outros movimentos, na América Latina, na África Francófona, na África de Expressão Portuguesa!

Desde então e até ao Presente, durante cerca de um século! – assistimos ao Renascimento Haitiano, ao Negrismo Cubano, ao movimento da Negritude, e mais recentemente, ao Crioulismo

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…E de repente, acontece que surge um Poeta, de um País Novo, neste caso Moçambique, que nos apresenta poemas como os deste seu livro, em que nos mostra de forma realista, e pungente, a realidade da rejeição social baseada na cor da pele…

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Eu coloco-me duas perguntas:

Uma:

-Será que a Humanidade, apesar de tantos esforços, não avançou NADA?

Será que estes 100 anos de movimentação intelectual, e de luta armada, não nos trouxeram, não conquistaram nada de novo?

Como a resposta, quanto a mim, é tão óbvia, passo à segunda pergunta – pergunta própria de alguém que se assumiu como Pedagoga ao longo da sua vida profissional.

A mesma pergunta, aliás, que no final da II Guerra Mundial, a si próprias se fizeram as mães da comarca italiana de Reggio Emília (e que no fundo, é a pergunta que ao longo dos tempos, com mais ou menos variantes, se têm posto todos os pedagogos):

– Então, o que será preciso fazer, para que eduquemos os nossos filhos para a Paz?

Foi a partir desta questão que elas criaram uma Pedagogia nova!

Claro que não vou agora derivar para o campo da Pedagogia, que não caberia no âmbito deste Encontro.

No entanto, não posso deixar de insistir:

Será que grupos como este que nós formamos, aqui e agora, não passam de ILHAS no mar absurdo da sociedade que nos rodeia?

Penso que a questão continua pertinente, e deixo-a no ar, à espera de uma resposta operativa…

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3 – A Poesia, e a Vida:

O poema “Sonho De Um Futuro Que Não Chegou”

 .

O poema Sonho de Um Futuro Que Não Chegou (pág 52), evoca, quanto a mim, o famoso discurso de Martin Luther King, Eu Tive Um Sonho

Mas evoca, também, para mim, o conhecidíssimo poema de Ibn Arabi, de Múrcia, do Alandalus do séc XIII:

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(Excerto desse famoso poema;

a tradução é de Adalberto Alves, in “No Vértice da Noite”):

maravilha é a da formosura que usa véu

e mostra o desenho da tinta nos seus dedos.

ela faz sinais com o olhar

e tem em seu coração a pastagem.

oh a beleza de um jardim entre o fogo dos incêndios!

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meu coração alberga qualquer forma:

é prado onde passeiam as formosas

claustro de monges

templo dos idolatras

Kaaba do peregrino

tábua da Tora e Alcorão.

eu sigo só a religião do Amor.

para onde quer que as montadas se encaminhem

a lei do Amor será sempre meu credo

e minha fé!

e, assim, vou ao jeito dos amantes.

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Conclusão:

 .

A concluir, eu recordaria que os dois países da Península Ibérica, Portugal e Espanha, são fruto de profundas – profundíssimas – mestiçagens: mestiçagens genéticas, e culturais que se revelam em todos os campos da actividade social, desde a agricultura, a arquitectura… e por aí fora, até aos próprios processos da criação poética!

Mais importante, e porventura mais determinante!, que a mestiçagem genética, será a mestiçagem cultural, pois tem sido esta, como sabemos, que tem produzido países novos.

Penso que a mestiçagem cultural poderá representar, para nós, uma nova Esperança num Futuro que desejamos mais pacífico para os nossos filhos!

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Talvez que este pequeno livro de Delmar Maia Gonçalves consubstancie esse apelo a que nos unamos ainda mais, e que recuperemos ideais que nos nossos dias parece terem perdido o sentido – pois se queremos encontrar a Paz , o caminho será o da Aceitação Recíproca, e do Respeito pela Diferença. E peço desculpa por insistir neste ponto que aqui, perante esta assistência, parece não ter cabimento, mas eu recordo mais uma vez que, como professora, presenciei muitos comportamentos desagradáveis de se ver…

Esta colectânea de poemas mostra-nos – PROVA-NOS – que os caminhos da Poesia não são indiferentes à VIDA;

muito pelo contrário, a Vida está nas entranhas da Poesia como uma gravidez sempre pronta a dar novos frutos!

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Termino, com o poema Maternidade, de Glória de Sant’Ana, poema que realça bem como a nossa comum humanidade assenta nos mesmos pressupostos físicos e psicológicos, sujeita a um só ciclo universal de nascimento… e de morte…

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Maternidade

 .

In “Um Denso Azul Silêncio”,

de Glória de Sant’Ana

 Lourenço Marques, Moçambique, 1965.

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Olho-te: és negra.

Olhas-me: sou branca.

Mas sorrimos as duas

na tarde que se adeanta.

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Tu sabes e eu sei:

o que ergue altivamente o meu vestido

e o que soergue a tua capulana,

é a mesma carga humana

.

Quando soar a hora

determinada, crua, dolorosa

de conceder ao mundo o mistério da vida,

.
seremos tão iguais, tão verdadeiras,

tão míseras, tão fortes

E tão perto da morte…

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que este sorriso de hoje,

na tarde que se esvai,

é o testemunho exacto

do erro das fronteiras raciais.

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Dos nossos ventres altos,

os filhos que brotarem

nos chamarão com a mesma palavra.

E ambas estamos certas

– tu, negra e eu, branca –
que é dentro dos nossos ventres

que germina a esperança.

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Dia 3 de Abril de 2012, pelas 23h 50m

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4 Comments »

  1. Gostei muito!
    Professora e poeta (de corpo inteiro), analisaste primorosamente o “Mestiço de corpo inteiro”, promovendo bem a sua leitura… e as restantes…
    Bom trabalho, Amiga !

    Comment by Manuela Caeiro — April 14, 2012 @ 6:56 pm
  2. Partilhei um “cheirinho!…

    Comment by Manuela Caeiro — April 14, 2012 @ 7:18 pm
  3. Um trabalho que fiz com muito prazer, e sobre cujas temáticas fui a primeira a recordar, ou se preferires – re-aprender, pormenores que andavam um tanto esquecidos…

    Comment by Myriam de Carvalho — April 14, 2012 @ 8:47 pm
  4. Já fui ao teu “Quarto Crescente” ver qual o perfume que terias partilhado… É espantoso como certas pessoas que descreveram o seu percurso humano há tantos séculos, ainda hoje nos inebriam com o brilho da sua passagem! Um dia destes, copiarei todo o poema! Um BJ, Myriam

    Comment by Myriam de Carvalho — April 14, 2012 @ 10:21 pm

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