V Encontro dos Escritores Moçambicanos (2)

* Antologia — Myriam de Carvalho @ 12:45 pm

.

De Delmar Maia Gonçalves, do seu livro “Mestiço de Corpo Inteiro”

*

Não sou mais eu…

Para a Aung San Suu Kyi

 .

Não sou mais eu

quem grita de raiva por todas as injustiças cometidas

no passado.

 .

Não sou mais eu

quem grita a dor das perdas ancestrais.

 .

Não sou mais eu

quem chora os exílios forçados no presente.

 .

Não sou mais eu

quem vibra com as pequenas vitórias

alcançadas na vida.

 .

Sou apenas e só

um porta-voz involuntário

de uma situação

que se gerou!

 *

O Mestiço

 .

Não há drama maior

que viver com a tristeza

da rejeição.

 .

Não há alegria maior

que viver com a riqueza

do amor de que sou resultado.

 .

Como compreender

a tristeza da desumana rejeição?

Como interpretar

a alegria de viver

como resultado da união?

 *

Moçambique – eternamente berço

.

Não sabia

que para me reivindicar

de um berço

tinha de ter

uma certa cor

convencionada

pelos homens.

.

Não sabia que

os homens

se excluem

conforme as conveniências.

Não sabia que

seria olhado

com desconfiança

por ser de uma cor

singular sendo plural.

Mas como há

um vínculo eterno com o berço

proclamarei eternamente:

No berço nasci!

Do berço nasci!

 *

Do livro acima indicado, os poemas são retirados, respectivamente, das páginas 50, 47, e 30.

*

Dia 28 de Março de 2012, pelas 13h 43m

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V Encontro dos Escritores Moçambicanos (1)

* Antologia — Myriam de Carvalho @ 1:11 pm

A propósito do V Encontro dos Escritores Moçambicanos na Diáspora que irá ter lugar nos próximos dias 29, 30 e 31 de Março, irei deixando aqui alguns poemas de Poetas meus Amigos:

Começarei por três poemas de Jorge Viegas, relativos a três fases distintas da produção poética que dele conheço:

*

Poema Final

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Não me façam a alma nem sargaço nem estrela.

Mas se a minha alma não for bela

Tomai-a vós.

Atai-a com cinco nós

E não permitis que ela cante.

Somente,

Deixai que a água da chuva caia sobre nós.

Pois que se bebermos dela

É como se fôssemos puros,

É como se fôssemos eleitos

*

A Contestação

.

É com a gola do casaco

puxada para o alto

a tapar-nos o pescoço,

e as mãos atiradas

para o fundo dos bolsos;

ou enclavinhadas

na coronha das armas,

e um sorriso velho

a esmagar-nos os dentes,

que nós, os poetas,

mastigamos opressos

a liturgia do dia a dia.

*

Soneto

.

Na floresta dos símbolos Te persigo

com persistência, temor, desolação.

Sei haver em Ti o sinal de salvação

pois só existo quando estou contigo.

.

De usadas as palavras que eu digo

nem de leve Te tocam o coração.

Eu trago a minha morte ao desabrigo!

Eu sou a minha própria negação!

.

A noite negra, irmã do desespero,

que tudo envolve com seu gélido manto

com o seu capuz amortalhou-me a alma.

.

A Ti amo. Em Ti creio. De Ti espero.

Purifica as águas do meu pranto.

Dá-me a imensa paz da noite calma.

*

Das suas obras, respectivamente:

“Os Milagres” – Moçambique, 1966

“Núcleo Tenaz” – Edições 70 – Lisboa-Maputo, 1982

“Novelo de Chamas” – Lisboa, 1988 ou 89 (?)

*

Dia 27 de Março de 2012, pelas 14h 10m

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Dia dos Pais

* Notas Breves — Myriam de Carvalho @ 9:50 am

Transcrevo do seu blogue Quarto Crescente, com admiração, o artigo da minha colega, e Amiga, Manuela Caeiro:

Citação: Dia do Pai Afetivo…

« São José tinha muita pinta, e às vezes parece que certa igreja se esquece do que representa simbolicamente a Sagrada Família: uma mãe adolescente, com a coragem de enfrentar a gravidez e a educação de um filho, contra toda a má língua da vizinhança, baseada apenas na sua imensa fé em Deus (pai “biológico”) que confia a guarda de Maria e de seu filho Jesus a um pai adoptivo. E José, carpinteiro, que assume o papel de verdadeiro pai até ao fim.
2008 anos depois, não  pode ser por acaso (mas, talvez passe por mais um desígnio celeste) que se celebra o dia do Pai no dia que o calendário religioso atribui a S. José. Ou seja, para todos os efeitos, no dia do Pai Afectivo. ».
Isabel Stillwell, Jornal DESTAK, 19 de Março de 2008

.

Do blogue Quarto Crescente, de Manuela Caeiro

http://manuela-quartocrescente.blogspot.pt/

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Lançamento do dia 25 de Março de 2012

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Celebração da Poesia

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 12:55 pm

Neste dia 21 de Março, Dia Internacional da Poesia deixei, na publicação anterior, um poema de Alexandre O’Neill, celebrando a Poesia…

Mas não é tudo:

Quero deixar aqui uma saudação especial à minha Amiga Inês Ramos, que em Cabo Verde tem dedicado a sua iniciativa e entusiasmo à divulgação da Poesia, e dos Poetas Portugueses –

Inês, um grande abraço para ti!

…E não deixarei de trazer a este espaço o poema com que encerro o meu livro de 2007, E No Fim Era a Poesia:

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Invocação

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Fala comigo Deusa minha Mãe      Grande Mãe Universal

Tens-me mantido acordada      tens-me dado a mão amada

Tens sido a minha Guia a minha mão de fada

Só tu me livraste da erosão total

.

Fala comigo Deusa minha Mãe      Rainha do Universo

Inspiração das grandes obras      dos feitos dos grandes homens

no tempo em que as mulheres não tinham direito ao Verbo

E vem dançar comigo nas raízes fecundas dos meus versos

.

Somos a grande Música espalhada pelo Vento

as grandes cores de afrescos e painéis

e os Davides contemplando o seu próprio Pensamento

.

Somos a voz frenética das ondas      dos pinhais vagabundos na lonjura

o chilrar das aves apelando por parceiros de ventura

os sinos que dobram ou repicam nas torres aladas do Palácio da Grande Aventura

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Como viver sem ti se a noite vai longa e tenebrosa

se os deveres são duros e penosos

Como viver longe de ti

ó minha grande Mãe      amada e única Mãe Gloriosa

Chamaram-te Ísis      Deméter

Sophia

Virgem Maria

Mas eu só te sei um nome

Poesia

.

Myriam Jubilot de Carvalho,

E No Fim Era A Poesia,

Vega (Nova Vega) – Col. Chão da Palavra – 2007

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Dia 21 de Março – Dia da Poesia

* Antologia — Myriam de Carvalho @ 11:34 am

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Mesa dos sonhos

Ao lado do homem vou crescendo

Defendo-me da morte quando dou
Meu corpo ao seu desejo violento
E lhe devoro o corpo lentamente

Mesa dos sonhos no meu corpo vivem
Todas as formas e começam
Todas as vidas

Ao lado do homem vou crescendo

E defendo-me da morte povoando
de novos sonhos a vida.

DE

Alexandre O’Neill

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Dia 21 de Março de 2012, pelas 12h 30

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Mensagem de Paz

* Antologia — Myriam de Carvalho @ 12:10 pm

“O fruto do silêncio é a oração

O fruto da oração é a fé

O fruto da fé é o amor

O fruto do amor é o serviço

O fruto do serviço é a paz”

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Dia 16 de Março de 2012, pelas 12h

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Pela SÍRIA

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 2:33 pm

Terríveis, as notícias que chegam até nós…

Como nada posso fazer, deixo o testemunho da minha solidariedade para com quem tanto sofre, através dos meus poemas…

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 Aonde levará o Vento os nossos prantos

Quando sob o brumoso céu nos lamentamos?

– Todo o Mal que fazemos, é este Inferno,

E o Céu, todo o Bem que semeamos

Omar Khayyam

***

Consoada 2002

I

Requiem pela cultura ocidental

*

Sabra, Shatilla, May Lay, Viriamu, Aushwitz, Birkenau, Tarrafal…

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O ódio e a guerra

nos destruíram

Como um maremoto

sobre sonhos de pastores

abutres são

ferrados em nossos olhos de medo e espanto esbugalhados

Somos heróis

pela força do destino

Não

pelos nossos sonhos de meninos

Nem nos podemos calar

como havemos de voltar

.

“Caim disse a Abel, seu irmão: ‘Vamos ao campo.’ Porém, logo que chegaram ao campo, Caim lançou-se sobre seu irmão e matou-o.

O Senhor disse: ‘Que fizeste? A voz do sangue do teu irmão clama da terra até mim.’

Caim disse: ‘A minha culpa é excessivamente grande para poder ser perdoada.’

O Senhor respondeu: ‘Quem matar Caim, será castigado sete vexes mais.’”

**

Bósnia, Afeganistão, Vietnam, Timor Leste…

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Junto aos muros dos templos

e dos poços de ouros negro

lá estão as policabeças

de um mesmo abutre

– o desgraçado coração humano

.

A tudo isto

teremos de assistir?

Os paranóicos se geram

e multiplicam

em progressivos círculos concêntricos

e como o lince

se abatem

sobre indefesos enxames

Na era das

trevas

.

“Lamec disse às suas mulheres: ‘Mulheres de Lamec, ouvi a minha palavra: Matei um homem porque me feriu, e um rapaz porque me pisou. Se Caim foi vingado sete vexzes, Lamec sê-lo-á setenta vezes sete.’”

***

Abortus

.

Quem deve perecer?

Quais vãou ser us excluídus

nus cômputus

de Deus Miséria?

.

Cordis

ad Deum

spiritus meus

.

Mas nãu é tudu

tãu igual?

Caleidoscópius de Pégasus

em dias de crivus:

as leis de Darwin verificar-se-ãu

sempre

e a todus us níveis

.

Nu mercadu de escravus

quem vai à frente

senãu as mulheres?

Meu filho, meu tesouro,

Chateias-me os cornos (as contas

as contas! As contas, os cornos)

Não te deixo viver

.

E disso morro

.

U homem de Cro Magnon nau é

tãu sapiens quantu baste

.

“O Senhor reconheceu que a maldade dos homens era grande na Terra, que todos os seus pensamentos e desejos tendiam sempre para o mal. O Senhor arrependeu-se de ter criado o homem.”

.

E disso morro

II

 Gandhi, Tagore, Luther King, Madre Teresa, Padre Cruz…

.

Sair

Sair, ir por aí, simplesmente

.

Se tu estivesses ao fundo da rua, à minha espera,

eu chegava, tu sorrias,

passavas teu braço, levemente, à volta dos meus ombros,

eu passava à tua cintura o peso dos meus passos

.

(Fecho os olhos

Deslizam, algures, uns atrás dos outros,

os fantasmas das cartas de uns quantos jogos de computador,

todos os naipes, todas as dores)

.

Sair, abrir as janelas

.

E onde fica a estância do amor?

.

e os comboios que passem

até lá onde fique essa estância do Amor

*

In:

Florilégio de Natal

Pelos escritores da tertúlia Rio de Prata e convidados

Coordenação de Julião Bernardes

2011

edium editores

*

A tradução bastante livre que aqui apresento, é feita sobre um poema de “Omar Khayyam dans ses Robaiyat”, par le Dr. Otoman Zar-Adusht Ha’nish, Editions Aryana, Paris, s/d; página 62 – Esta tradução francesa é, por sua vez, traduzida do Inglês…

*

A imagem, ruínas da Antiguidade, na Síria, é retirada da Net.

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Lançamento do dia 12 de março de 2012, pelas 14h 33m

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QUINO – Siempre genial

* Notas Breves — Myriam de Carvalho @ 11:55 am

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Haverá alguma relação entre o quadro que se segue, e a BD de Quino?

   Salários Mínimos

FRANÇA

 

1321 €

RICOS
GRÉCIA

 

750 €

POBRES
ESPANHA

 

 641 €

PEDINTES
PORTUGAL

 

485€

PIEGAS

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Dia 10 de Março de 2012, pelas 12h

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Mário Viegas e Maria Velho da Costa

* Antologia — Myriam de Carvalho @ 9:22 am

Não sei qual admiro mais – se o texto de Maria Velho da Costa, se a interpretação de Mário Viegas… Notável, também, a breve colaboração de Lia Gama.

Este texto evoca-me outros tempos… Chegou ao meu conhecimento há imensos anos:

No final de uma qualquer reunião – das muitas que se praticaram nos anos fulvos da Revolução e da pós-Revolução, um jovem Colega (não me lembro já do seu nome), veio distribuir pelas senhoras presentes, uma folha por ele dactilografada, e fotocopiada, onde ele tinha copiado este texto de Maria Velho da Costa, para no-lo oferecer!

Nessa tarde, esse Colega foi o nosso herói!

Aqui deixo o texto, na fulgurante interpretação do grande Mário Viegas – em homenagem a todos os extraordinários Colegas que a Vida me deu a honra de conhecer, e me honraram e deram o prazer do seu apreço, e Amizade!

*

Mulheres e Revolução

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*

Dia 10 de Março de 2012, pelas 9h 20m

*

Reinaldo Ferreira

* Antologia — Myriam de Carvalho @ 12:01 am

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Filho do famoso Repórter X, Reinaldo Ferreira nasceu em Barcelona em 1922, mas iria terminar o 7º ano do Liceu na antiga Lourenço Marques; e aí faleceu em 1959.  É geralmente identificado como poeta português.

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Transcrevo hoje dois sonetos que poderiam retratar uma nostálgica tarde de domingo…

Que domingo solene, ocioso e lasso

.

Que domingo solene, ocioso e lasso!

Tão triste; o sol inunda a tarde toda,

Festivo como um guizo numa boda

Onde a noiva morreu, desfeita em espaço…

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Medeia a eternidade, em cada passo

Que, sem intuito, dá quem passa; à roda

Parece dormir tudo; e incomoda,

Ponderável, no ar, um embaraço…

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Toda a tristeza do domingo à tarde.

Sobe dos homens para o céu, que arde,

O apego à vida dum olhar que morre.

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Sombras sugerem aflições incertas…

E das janelas sôfregas, abertas,

Morno, o silêncio como num pranto escorre…

É pela tarde, quando a luz esmorece

.

É pela tarde, quando a luz esmorece

E as ruas lembram singulares colmeias,

Que a alegria dos outros me entristece

E aguço o faro para as dores alheias.

.

Um que, impaciente, para o lar regresse,

As viaturas que se cruzam cheias

Dos que fazem da vida uma quermesse,

São para mim, faminto, odor de ceias.

.

São para mim, faminto, odor de ceias.

Por orgulho repele, e se desgasta

No esforço de fugir à multidão.

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Mas castigo de quem, por imprudente,

Já não pode deter-se na vertente

Que vai da liberdade à solidão.

Domingo, dia 4 de Março de 2012, pelas 24h

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