…E agora, uma MOAXAHA a sério

* Alandalus,* Estudos e Comunicações — Myriam de Carvalho @ 4:37 pm

A Moaxaha

A Moaxaha foi um género de poema muito sui generis, e diz quem sabe, foi um tipo de produção poética única na História das Literaturas, pois foi um poema bilingue, que reunia duas culturas. Um testemunho do espaço geográfico e espiritual das Três Culturas, daquilo a que os Espanhóis chamam “a convivencia“.

Os poetas do Alandalus parece que criaram um género poético novo, diferente das odes da Poesia Clássica árabe, que além de não conceber estrofes, era de rima monórrima. Há diferentes teorias que explicam o aparecimento dos poemas do género MOAXAHA. Mas parece verosímil que tenham sido os poetas de origem muladí – ou seja, poetas dentre aquele sector da população ibérica que se tinha convertido ao Islão – que tenham tido a ideia inovadora de criarem um poema estrófico (de 5 a 7 estrofes) que sendo em língua árabe, rematava por uma estrofe colhida da poesia popular em língua moçárabe!

Talvez isto esteja a parecer algo confuso a quem esteja a confrontar-se com esta temática pela primeira vez.

Mas tenhamos presente que a população peninsular, à época do Alandalus, era algo complexa: havia a população ibero-romana e cristã que permaneceu cristã (os Moçárabes); havia também os ibero-romanos que se tinham convertido ao Islão (os Muladís); havia os Judeus que depois de vários séculos eram tão ibéricos quanto os anteriores; havia os Berberes; havia os Árabes que igualmente, após séculos de vivência na Península se tornaram tão ibéricos como todos os anteriormente referidos!

Com a MOAXAHA, estamos perante um poema em duas línguas, e a dois emissores – o corpo do poema, com temas próprios da poesia árabe, de temática masculina; e o final, com temas próprios da poesia popular, de temática feminina, em tudo semelhante ao que encontramos nas nossas Cantigas de Amigo!

Mais, o corpo do poema era escrito em língua árabe (ou hebraica), e este final, este remate, esta “saída, ou finda”, que como disse, era em língua moçárabe (podemos dizer, uma língua românica, numa fase intermédia entre o Latim Vulgar, e o Galaico-Português e o Castelhano arcaico), era registada em caracteres árabes (aquilo que é designado por aljamiado).

Se quisermos uma explicação um pouco mais exaustiva, diremos então que a MOAXAHA constava de um dístico introdutório – a entrada, que marcava a rima a ser seguida nos estribilhos. No exemplo abaixo copiado, é a estrofe que a Tradutora identificou com o /0 (zero).

As estrofes eram compostas por 2 partes:

Três versos com uma dada rima – a mudança; e o estribilho ou volta, de dois versos que voltavam à rima proposta na estrofe de entrada; este facto vem bem exemplificado na tradução copiada abaixo.

Finalmente, seguia-se a pequena estrofe que encerrava o poema; era a estrofe de saída, ou finda – que conhecemos pela própria palavra árabe: as jarchas.

Como disse acima, esta estrofe de saída não tinha a ver com o corpo do poema. Era um remate com o qual o poeta, árabe ou hebraico, terminava o seu poema, introduzindo-lhe uma estrofe da lírica popular da população moçárabe, isto é, da população cristã!

O que me apaixona nos meus estudos sobre o Alandalus é este convívio, esta intimidade que conseguia congregar três culturas diferentes, numa só respiração! Claro que houve lutas, dissidências, guerras… É a natureza humana… Mas ficaram-nos testemunhos imorredouros de uma vivência invulgar entre as Três Culturas!

*

Então deixo aqui uma real MOAXAHA, retirada da pág 616 da extraordinária ROSA DO MUNDO, em tradução de Doina Zugravescu. Imagino o exaustivo trabalho que seja render um poema de uma Língua estruturalmente tão distinta da nossa, e conservando a estrutura estrófica e rimática específica deste género poético!

*

O autor da MOAXAHA que se segue foi alguém que, no séc XII (m. 1126), ficou conhecido como

Al-A’ma at-Tutili = O Cego de Tudela

.

0-            Pranto em torrente e peito a abrasar:

Água a juntar

Fogo é só para cousa sem par!

*

I     Juro, cruel diz quem me quer repreender:

Curta é a vida e longo o sofrer

Ai, de suspiro que trai o querer!

Ai, desse pranto qual o rio a correr!

Meu sono fugiu e se nega a voltar

Não há vagar

Voava, mas não acho donde voar

*

II     Ó Caaba, lá torna qualquer coração

Entre o apelo do Amor e o sim da Paixão

Lá aspiram os ais de quem faz contrição

Cá estou! pois o guarda que fale em vão!

Deixa-me lá em romaria girar

Sem te furtar

Com pranto de brasa dou o peito ao altar

*

 III    Venha, por mais que me traga o estertor

Com esbelta cintura e olhar em langor!

Crueldade, quão doce a julga o Amor!

O que é mal pensar soube por teu favor.

 Desde que não volta em noite a mingar

Sono é chorar

Na pálpebra, espada me sangra o olhar

*

 IV    Senhor escolhi que sem dó me julgou

Aludo-o, seu nome dizer eu não vou

Admira, à maldade, a justiça que dou

Perguntem-lhe dessa união que negou

Do amor a valer meu quinhão foi tirar

E desdenhar

Outro amigo, que há-de importar!

*

 V     Seja o que for, quem me livra a mim?

Senhor que atormenta e faz mal sem fim

Deixou-me na dor e em doença ruim

E logo entre mimos e amor canta assim:

*

MEU-L-HABIB ENFERMO DE MEU AMAR

KENO HA D’ ESTAR?

NON VES A MIBE KE S´HÁ DE NO LEGAR?

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Lançamento do dia 18 de Fevereiro de 2012, por volta das 23h…

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