Resultados à vista?

* Educação e Criatividade — Myriam de Carvalho @ 10:22 pm

 

Link para a entrevista da revista Sábado…

VoxPop–A-ignorancia-dos-nossos-universitarios.aspx?id=411304

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Muitas considerações se atropelam na minha mente ao ver este vídeo…

A primeira, é fazer figas para que o vídeo não esteja a dar-nos uma amostra válida do universo universitário actual!

Depois, sinto que o riso destes jovens não é o riso alvar de quem se sente feliz na sua ignorância. Parece ser assim que querem que o espectador o sinta – mas eu fui profissional do Ensino! – Eu sinto no riso destes jovens um nervosismo, uma fuga à atrapalhação de quem se sente apanhado, apanhado em falta – “Então, és universitário e não sabes isto?!” – No meu tempo, há cerca de meio século, quando éramos jovens, em circuntâncias semelhantes, nós teríamos corado… Agora, os jovens riem-se… Mas o sentimento de se sentir apanhado, apanhado numa ratoeira – penso que será o mesmo…

Por outro lado, a minha inteligência recusa-se a aceitar que o entrevistador – não sei quem foi! – só se tenha deparado com gente ignorante… Ainda por cima, fiquei com a impressão – e não vou repetir o visionamento do vídeo! – que as perguntas incidiam grandemente sobre temas literários… Será que o jornalista-entrevistador desconhece como os programas do Secundário foram “aligeirados”, “aliviados”, segundo um conceito paternalista de que para atrair a simpatia dos jovens, o melhor será não os maçar, não os incomodar demasiado?!

Será que desconhece que havia – não sei se ainda há – uma cláusula que baralhava – e dividia – muita gente, e que dizia respeito aos “objectivos mínimos”? – Mas não vamos agora discutir o que seria de entender por “objectivos mínimos”…

Na minha experiência profissional, sempre procedi – e como eu, tantíssimos/as Colegas – acreditando que o Aluno é um ser inteligente, e que exige nível! – tanto dos Professores, como da matéria que lhes é proposta!

Os jovens não são irresponsáveis “porque sim”, só porque têm a seu favor a irreverência – a frescura – própria da idade – que tanto incomoda as pessoas que se sentem “gente séria”! Ainda há tempos, numa conversa entre amigos, uma professora universitária dava o seu testemunho – “Tenho imenso respeito pelos Jovens! os meus Alunos estudam esforçadamente, investigam, investem na sua formação, sabendo que estão a preparar-se para o Desemprego!”

Eu olho para os Jovens que conheço, actualmente já na sua vida profissional, e observo o denodo e competência com que se comportam, e não os vejo neste espelho!

O que é que se quer mostrar com este vídeo?!

Que se tirem as mesmas conclusões para que apontam os FWs que por aí passam a rosnar contra a Geração Rasca?! Recebo-os de vez em quando, mas não os reencaminho!

Andava ainda na Faculdade, quando ao estudar a Literatura Latina li que … salvo erro, Ovídio… se lamentava da geração dos jovens – os do seu tempo! – que já não levava a sério a sabedoria dos Velhos!… E disse comigo – “Que grande lição! Afinal isto de uma geração falar mal da geração seguinte, é de todos os tempos!”

Donde vem este receio entranhado da geração seguinte?!

É que a nossa, tristemente, já está mais perto do fim…

Mas não é só no conflito de gerações que este vídeo me faz pensar…

…Quando nós, Professores/as nos insurgíamos contra o facilitismo dos programas e das avaliações, havia sempre os Senhores/as do Ministério – hiper-clarividentes – que, se éramos ainda jovens, nos diziam:

-Coitadinha, minha Filha, não está ainda habituada a estas lides – Vai ver que se vai habituar!

Para o final da carreira, quando já éramos (aparentemente) mais velhotas, a resposta vinha certeira:

– Coitada, já não está a ver o alcance das novas pedagogias! Já está ultrapassada!

Mas a verdade, a meu ver, é muito outra! O Ensino abriu as suas portas a toda a população – democratizou-se como nunca antes, entre nós.

E é sabido que entre a Democratização do Ensino e a baixa de qualidade, é só um resvalar – torna-se Ensino de Massas – o público alvo passa a ser muitíssimo mais vasto, não se pode ser tão exigente, é preciso que os Alunos passem, que dêm lugar à fornada seguinte! E quem quiser ser bem servido, vá para os bons colégios particulares!

E depois, como resolver o problema do Ensino Superior?! Númerus Clausus?! Nada não! isso é dos tempos antigos! nós somos todos democratas!

É fácil! Os Alunos vão passando, de qualquer maneira serve, o pouco chega-lhes! Vão mal preparados de um Ciclo para o seguinte? E depois?! Como é que se fabricam caixeiros de super-mercado?! Porque o que é preciso, é que o próprio público estudantil se vá auto-seleccionando, vá ficando pelo caminho para que, por via do seu próprio insucesso escolar à medida que a complexidade das matérias avança, desista de querer ir mais longe, desista de querer progredir nos estudos – quer dizer, desanime!

À medida que o vídeo ia avançando, eu ia sentindo uma cada vez mais forte sensação de opressão… Sinto-o como altamente perverso! Fica nas entrelinhas o que se pretende! “Esta geração, estes jovens não merecem nada! O melhor é voltar a apertar o crivo da entrada nas Universidades, eles que vão lavar pratos!”

E assim ficará resolvido o problema das verbas para o Ensino Superior – é tudo tão simples – claro como a água que límpida brota das fontes… Só que por aqui, há lençóis freáticos um tanto poluídos…

…E ainda voltando ao questionário do vídeo… Onde está uma política de publicações que facilite o acesso ao Livro?!

-Porque é que, por um lado, os livros escolares – gordos! pesadíssimos! – são tão caros?! Há dias, numa entrevista na TV, havia testemunhos de mães-de-família que diziam levarem o ano a economizar para no início do ano lectivo poderem comprar os livros aos filhos! Enquanto, como sabemos, num Ensino Obrigatório, os livros devessem ser fornecidos grátis…

-E porque é que os livros, em Portugal, de uma maneira geral, têm que sair tão caros?! Claro, são muito bonitos, muito bem apresentados, belas capas, excelente papel, letras gordas a utilizarem muito papel, dimensões avantajadas (enchem as prateleiras num instante! Depois, já está, meia dúzia de livros, e já não há lugar para mais)…

…Ao fim e ao cabo será, tudo isto – e tanta coisa que fica por dizer – próprio de uma política de Democratização da Cultura?!

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Post publicado em 19 de Novembro de 2011

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Lolita Ramirez

* Antologia — Myriam de Carvalho @ 9:58 pm

Uma grande sonetista algarvia

Lolita Ramirez é a grande sonetista que tenho o sentido prazer de aqui mencionar!

Nascida na margem portuguesa do Rio Guadiana, em Vila Real de Santo António, é descendente de família espanhola. A sua Poesia, que aprecio sem reservas, é marcada pelo brilhantismo com que pratica o soneto, espontâneo de imagens donde se desprende uma força vital simultaneamente musical e terna.

Em minha opinião, Florbela Espanca, um dos grandes expoentes do culto do soneto, não foi maior!

Se em Florbela Espanca vemos a terra calcinada e sequiosa do seu Alentejo, com que se funde num elan panteista, em Lolita Ramirez, do mesmo modo, fundindo-se panteisticamente na paisagem, vemos o esplendor soalheiro do céu azul e do mar algarvios.

Além disso, Florbela, e Lolita, têm em comum o facto de serem ambas, duas grandes poetisas do Amor.

De Lolita Ramirez diz Manuel Neto dos Santos a páginas 1098 da sua antologia “Subsídios para a História da Poesia do Algarve (séc XI a XX)”  – “os seus livros são oferendas de verdadeira e profunda arte rimada. … o fulgor da escrita aliada à fluidez … no portentoso fôlego lírico.”

Encontrará esta excepcional Poetisa em algumas páginas, na Net:

* – a homenagem que lhe é prestrada no Jornal de Poesia:

http://www.revista.agulha.nom.br/1lramirez1.html

* -a página de Ivone Vairinho:

http://mariaivonevairinho_e_poetasamigos2.blogs.sapo.pt/10517.html

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Apresento aqui três dos sonetos que figuram na referida antologia de Manuel Neto dos Santos:

Raíz

Eu sou do Sul, terra do Sol, do sal

Que a preia-mar arrasta e traz consigo.

Nasci mesmo no Sul de Portugal

E o Guadiana é meu cantar de Amigo.

De andaluzas raízes não desligo

Minha origem profunda e ancestral.

Mediterrâneo azul, eu te bendigo

E canto o Verde-Atlântico-Cristal!

Sou do Sul onde o sal da maresia

Faz cintilar torrentes de poesia

D’Ibne-Ammar, Juan Ramon, João de Deus…

Andaluzia-Algarve, meu país!…

Bilingue Pátria que és de mim raíz,

Meus braços ramos… fruto os versos meus.

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Metamorfose

Viam-me dantes triste, agora alegre,

E todos me perguntam o motivo.

A dizer o porquê eu não me esquivo;

Que segredo há no mundo que não quebre?

Da tristeza a razão? – Amor cativo,

Pobre escravo que sofre a sede, a febre,

No mais escuro e sórdido casebre

Sem achar da alforria o lenitivo.

Mas, na transmutação desse meu fado,

O que de triste havia me foi dado

Com infinda alegria sublimar…

E hoje, dentro de mim, há tanta luz

Que nem me custa a suportar a cruz

Que ao longo do caminho hei-de levar!

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Uma Concha Perdida

Se um dia à beira-mar vires caída

Uma concha luzente e prateada

Envolta pela espuma rendilhada

Da onda sempre altiva e presumida,

Curva-te e beija-a, mas não digas nada…

Leva-a contigo, leva-a bem escondida,

Frescura tu serás de água salgada

Ao nácar dando brilho e cor e vida!

De areia foi seu berço e, por encanto,

O luar, que raiava, quis-lhe tanto

Que a sua argêntea cor logo lhe deu.

Mas o mar, cobiçoso, quer roubá-la…

Por isso, vai depressa procurá-la

E guarda essa conchinha… que sou eu.

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Este post é aqui publicado em 17 de Novembro de 2011

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Beleza e Inspiração

* Antologia — Myriam de Carvalho @ 3:38 pm

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amarnaperiod1

Para quê palavras?

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Quanto à IMAGEM:

Consultar:

 The Amarna Period of King Akhenaten in Egypt

http://www.touregypt.net/featurestories/amarnaperiod.htm#ixzz3XxTO1CDq

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Publicado por Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 14 de Novembro de 2011

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A Árvore do Paraíso

* Contos — Myriam de Carvalho @ 11:59 pm

 

A “Árvore da Vida”, de Gustav Klimt

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A Árvore do Paraíso


Desde sempre os viajantes regressaram às suas terras de origem carregados de lembranças das zonas remotas por onde tinham passado. Uns, traziam-nas pululantes na cabeça, prisioneiras, ávidas de liberdade, retidas no espaço limitado da caixa óssea que encerra o cérebro. De tão vívidas, precisavam de levantar voo, alcançar a plena vertigem dos altos espaços. Assim, passadas à escrita sob a forma de estranhas Peregrinações, ganharam o mundo. Pouco importava que quem as lesse nelas acreditasse ou não. Elas eram tal e qual tinham nascido. Outros, traziam-nas sob as mais variadas formas. Quer escondidas, ocultas em delicados cofres, sob a forma de exóticas peças de joalharia. Quer como móveis em preciosas madeiras desconhecidas, ou ricos trabalhos tecidos, nunca anteriormente vistos. Mas outros havia que traziam os olhos cheios das paisagens que os tinham acolhido. E que eles tinham amado. Esses, então, traziam testemunhos vivos das suas longínquas deambulações. Animais. Plantas. Árvores. Nenhuma destas memórias vivas, no entanto, excedeu em prestígio, o das árvores. Donde vieram – que mãos anónimas ou delicadas ou interesseiras, as trouxeram – as matrizes das fruteiras que ora refrescam os nossos pomares, tantos parques palacianos, os nossos jardins públicos? Quem as trouxe, a essas matronas delirantes que em todas as direcções lançam braçadas loucas? Sob elas, velhos jogam às cartas, velhas tagarelam enquanto crescem os tricots para os netos, crianças brincam aos polícias e ladrões. É tal o fascínio pela árvore que sugere sítios distantes, lucros vistosos, eventos inconcebíveis, que se diz que até Zoroastro trouxe do Paraíso a Árvore da Vida.

Há uma dessas árvores de longínquas paragens mesmo ao lado da nossa casa. No jardim do Castelo. Suas raízes levaram certamente vários séculos a romper a terra e a acumular-se bastamente na base dos seus múltiplos e anchos troncos pois excedem em mais de meio metro a minha altura. Por eles e suas ramadas trepam os jogos das crianças. Apenas na sua copa verde escura ela é breve e dispersa.

Procurámos nos vetustos registos da cidade, a sua origem. Nenhuma referência. Deve ter passado despercebida. Não é pois conhecido quem a trouxe, nem por que a trouxe, nem quando foi plantada. A partir de certa época, porém, ela passa a fazer parte da cidade, não como cenário mas como presença activa. Parece que devido à sua imponência, servia a grande árvore de pelourinho. Amarrados ao seu tronco múltiplo, ou dele suspensos, sob a sua copa foram justiçados ladrões, salteadores, assassinos, alegando-se que a sua sombra benfazeja lhes atrairia o perdão dos altos céus.

Nas nossas buscas encontrámos um relato que muito nos impressionou. Relato pungente. Sobre certa mulher. Certa mulher que acusada de feitiçaria, foi justiçada sob os seus ramos. Só é referido, nesses relatos, que se tratava de uma “bela mulher” e pela forma reverente, quase diríamos supersticiosa com que foram redigidos, convenço-me que serão muito posteriores à sua morte.

Ela tratava com igual êxito as chagas purulentas e as febres incuráveis. Apanhava malvas campestres pelos baldios, punha-as em infusão durante três dias durante os quais piedosamente jejuava e rezava. Depois, quando a chamavam, enquanto aos infelizes dava o chá a beber e desveladamente mudava compressas e pensos, os doentes conversavam com ela confessando-lhe aspirações e culpas, remorsos e medos que ela ouvia e calava em segredo. Dizem pois esses registos, ipsis verbis, que a “sua medicina era mais eficaz que as sanguessugas e as sangrias dos físicos d’el-rei”.

Até que, por alturas de certa epidemia de febres que os relatos não especificam, o vigário, noite dentro, a mandou chamar. Os arquivos não nos dão pormenores, a não ser que de madrugada, ela saiu correndo, as tranças descompostas, assustada, de casa dele.

Foi pouco depois que o boato alastrou. As criadas do vigário, mãe e filha, asseguravam que ao ver o crucifixo que o padre tinha à cabeceira da cama, toda ela se eriçara e lhe tinham aflorado os pés de cabra, aos pés e fogo, aos olhos. Que o padre a expulsara, tendo-lhe recusado as mezinhas.

O boato era por natureza imparável. Breve atingiu os ouvidos de quem de direito. A mulher deixou de ser chamada a acudir a partos e moribundos. Aliás, foi quase de seguida procurada por pressurosos beleguins e atirada para velha e estreitíssima cela onde vários seres, descorados, esqueléticos, desesperados, aguardavam…

Imaginamos a cena. Ninguém tinha já forças para reagir. Ela não se queixou. Alguém terá conseguido perguntar-lhe qual a acusação de que tinha sido alvo. Ela não terá respondido. Sabe-se, isso sim, que quando a nojenta ração era distribuída, ela pouco comia e que abençoando-a, a distribuía pelas companheiras. Meses passados, foi chamada aos primeiros interrogatórios. Tomou então conhecimento de que o vigário a  acusava implacavelmente  de bruxaria. Acusação que ela não confirmava nem contestava.

Pelo que foi registado que ela induzira a criadita vigilante mas ingénua a deixá-la penetrar na casa vicarial e a tentar a cura do padre. Pois, temendo alguma denúncia sobre as suas práticas que, nos sermões, ele qualificava de infames, pensara enfeitiçá-lo, seduzi-lo se possível, e ganhar enfim a sua protecção. Foi igualmente registado que o fenómeno dos pés de cabra e do fogo nos olhos se repetira no momento em que o inquiridor lhe apresentava o crucifixo.

De uma vez em que a conduziram à cela, uma das companheiras agonizava. Vigilantes, os carcereiros espreitavam. Ela acariciava-lhe o rosto desfeito de revolta. E a velha morria em paz.

Mas não foi necessário o testemunho dos carcereiros. Duas das condenadas, querendo aliviar suas penas, denunciaram a imposição das mãos sobre a fronte da moribunda. Só se sabe que foram transferidas dali e é sobre a mulher que o relato continua.

Em suas homilias, o vigário ameaçava com o fogo eterno todos quantos tinham gozado das curas fabulosas da mulher. Por isso, não referindo o como, os relatos apresentam-na de um momento para o outro nas mãos da justiça popular.

Por entre a algazarra e as pragas, a forca foi armada nos ramos nudosos da grande árvore, segundo o registo, confirmado pela tradição, conforme investigámos. Para lá a arrastaram. Nem as negras vestes rituais lhe concederam. Nem nenhum sinal exterior que indicasse qual a pena. Sem que sequer um frade a acompanhasse e lhe acolhesse uma última prece. Arrastada, descalça, vaiada, agredida com varapaus e canas pelos mais assanhados, atada como a levavam, nem um gesto de auto-protecção podia esboçar. Aqui, os velhos papéis encontram-se muito deteriorados. Dir-se-ia que algum líquido fora deslizado sobre eles, diluindo as letras numa larga mancha irregular. Conseguimos no entanto reconstituir a história agarrando-nos a uma ou outra palavra sobrevivente, a um ou outro traço que logrou conservar alguma nitidez. Subiram-na ao catafalco.

Com custo, endireitou as costas maltratadas. Os mais próximos ouviram-na debilmente pronunciar:

– Porque não valia a pena, nunca me defendi. Mas agora que chegámos à hora da verdade, quem quiser ouvir, ouça! Na noite fatal, foi o padre quem me mandou chamar, pela filha. Ele havia posto carmim na cara, muito carmim: para simular a febre. Simulando o delírio, quis seduzir-me. Só tive tempo de lhe perguntar se não lhe chegavam a governanta e a filha. Mas ele lançou-se-me aos pés, num desvario, repetindo que eu era mais bela que a Virgem…

As vaias não abrandaram, nem quando lhe desataram os membros. A mulher cruzou as mãos sobre o peito. Parece que nem mesmo quando lhe retiraram o estrado de debaixo dos pés afrouxou a posição das mãos. Julgamos poder perceber que ao expirar, toda a árvore se desnudou.

Deixaram o corpo exposto todo o resto do dia e toda a noite. Afirma, agora, o autor do relato que o corpo balouçante brilhava mais que o luar e que nessa noite os mochos não piaram.

Somente na manhã seguinte o vigário foi informado. Foi nessa altura que ele adoeceu, de facto. Assaltou-o imensa febre, e dela veio a morrer.

O corpo da mulher foi lançado à vala comum. Pouco tempo depois, nasciam sobre o local moitas de malvas campestres.

Primeiro à socapa, depois abertamente, o povo começou a colhê-las para as suas mezinhas e, assim é contado, quanto mais eram colhidas, mais pujantemente cresciam. Com a água em que elas ferviam, toda a maleita se curava.

O registo termina afirmando  que “à medida que a moita das malvas crescia, ganhava força a opinião de que a mulher fora justiçada indevidamente”… Hoje mesmo, ao visitarmos o velho cemitério da cidade, há muito abandonado e já com grande parte das paredes por terra, procurámos onde teria ficado a tal mulher. Encontrámos por fim um canto onde floresciam débeis moitas de malvas silvestres, invulgarmente aromáticas. Dela ficaram a lenda e o aroma, embora ninguém lhe tenha retido o nome.

Afastei-me da história da velha árvore. Foi sob ela, ainda devido ao seu impressionante porte, que se celebraram as vésperas pelo êxito dos dois batalhões sucessivamente saídos da cidade para irem engrossar os exércitos liberais.

Mais recentemente, foi sob ela que foram baptizados em grande aparato os filhos dos últimos titulares do Castelo.

Actualmente, nos seus ramos fortes, brincam crianças.

É a árvore da vida e da morte, do sonho e da esperança. Por isso a adoptámos, em segredo. Ela é a nossa mãe. Se alguma decisão nos angustia, esperamos pela calma da noite. Quando já todos os noctívagos abandonaram o jardim, chegamos nós. Sentamo-nos sobre as raízes amaciadas pelo desgaste do tempo, aninhando-nos na base do seu triplo tronco. Ele passa-me suavemente o braço pelos ombros. Contemplamos o céu, prescrutamos o brilho das estrelas. Não precisamos de falar. É lá longe, nesses pontos cintilantes que povoam o firmamento, que nós pertencemos. É lá que decorrem o nosso diálogo, e o nosso destino. É lá que são esclarecidas as nossas dúvidas.

Ainda sob a assinatura de Fátima Oliveira, este conto foi publicado em:

* – “NAVE – Suplemento Cultural do (jornal) Correio Beirão””,

                                                          nº 9, de 31-07-1992

* – “Subsídios Para A História Da Poesia Do Algarve – séc. XI-XX”, pág 1026

Coordenação de Manuel Neto dos Santos

Edição dos jornais “Voz de Silves” e “Gazeta de Lagoa”, 2000

* – E é hoje, dia 13 de Novembro de 2011, publicado aqui no blogue

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Al-Mutamid

* Alandalus,* Antologia — Myriam de Carvalho @ 4:22 pm

 

 

O voo dos cortiçóis

Duas versões deste pungente poema de Al-Mutamid.

A primeira, recolhida da antologia “Ajimez – Antología de la Lírica Andalusí – Poesia” (pág 40):

 

Lloré al paso volador de las perdices,

libres, sin cárcel, sin grilletes.

Mas no por envídia lloré – Dios me libre –

sino por añoranza de su imagen.

Sueltas, no con su gente dispersa, ni con

el pecho apenado, ni con los ojos llorosos por sus hijos muertos.

 

Suerte! No os separéis de la bandada

no probéis la lejanía de los vuestros;

No acabéis como yo: con el corazón aturdido

al zurrir la puerta carcelera o retumbar la cerradura.

Esto no es invento de mi ingenio,

sólo describo la humanidad de siempre.

Mi alma ya sólo anhela la muerte.

Otro querrá la vida con los pies engrillados.

Dios proteja las perdices y sus volantones,

ya que el agua y la sombra han traicionado a mis vástagos.

 

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A segunda versão, recolhida da obra “Al-Mu’tamid”, de Adalberto Alves (pág 97):

 

Chorei quando vi passar

Livre sobre mim voando

O bando dos cortiçóis.

Nem grades nem grilhetas os detinham.

Não foi por inveja que fiquei chorando…

Apenas nostalgia de ser livre

Sem sentir dispersas

As próprias entranhas

E sem filhos mortos

Que ao pranto me obrigassem.

Felizes aves,

Nunca se apartaram do bando,

Não conhecem a ausência da família,

Não passam a noite,

Como eu, de coração inquieto

Ao ranger da porta da cela

Ou ao chiar do ferrolho.

Mas tais sobressaltos não são meus

Fazem parte da humana condição.

Desejo vivamente só a morte.

Outro, quem sabe, se sujeitaria

À vida com grilhetas, mas eu não!

Alá, proteja os cortiçóis

E também as suas crias

Pois às minhas, desventuradamente,

Abandonaram-nas água e sombra.

 

*

Esclarece Adalberto Alves que “O bando de aves descrito nesta poesia tem sido invariavelmente traduzido por perdizes ou pombas, o que é errado. O qatã (Pterocles alchata) avistado pelo Poeta através das grades da prisão em Agmat é o cortiçol que também existe na planície alentejana.”

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Bibliografia:

Ajimez – Antología de la Lírica Andalusí – Poesia”

de Miguel Jose Hagerty

– Biblioteca de la Cultura Andaluza – 12

Edición: E. A. U. S. A.

Granada, 1985

– É uma antologia bilingue –

– Al-Mu’tamid de Beja

de Adalberto Alves

Câmara Municipal de Beja, 1985

 

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Post aqui publicado em 5 de Novembro de 2011

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Ash-Shilbîa

* Alandalus,* Antologia — Myriam de Carvalho @ 11:02 am

Uma Poetisa do Algarve muçulmano

Em “O Meu Coração é Árabe”, antologia da Poesia do Al-Gharb Al-Andalus, de Adalberto Alves –

– de Ash-Shilbîa, diz Adalberto Alves:

“Uma das particularidades do Islão hispânico é a relevância da mulher na sociedade do seu tempo, onde não faltam, por exemplo, apreciáveis poetisas. Ash-Silbîa gozou de grande prestígio na Silves almôada, como veremos pelo poema de que se dá versão. Trata-se de um protesto apresentado ao soberano Ya’qûb al-Mansûr pela carga fiscal que oprimia a cidade, protesto esse que obteria provimento.”

*

de chorarem os palácios é chegada a hora

pois as próprias pedras se lamentam.

ó tu que vais onde a clemência mora, esperando pôr fim às mágoas que atormentam,

diz ao Príncipe quando chegares às suas portas:

pastor! olha as tuas ovelhas quase mortas

que ficam sem prado para pastar;

deixaste-as à mercê de muitas feras.

um paraíso, minha Silves, eras.

tiranos te lançaram ao fogo do inferno

o castigo de Alá parecendo desprezar:

porém, nada é oculto para o Eterno.

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in “O Meu Coração é Árabe”

Assírio & Alvim

Colecção documenta poética / 7

página 277

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Post aqui publicado em 4 de Novembro de 2011

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