Ana Mafalda Leite

* Antologia — Myriam de Carvalho @ 12:05 am

Da bela obra de Ana Mafalda Leite, presente no IV Encontro dos Escritores Moçambicanos na Diáspora, transcrevo apenas um pequeno mas muito belo poema, só como amostragem a aguçar o apetite –

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Anoiteço Devagarinho

 

escuto o vento

converso com o silêncio

 

dobro o tempo

 

anoiteço devagarinho como anoitecem as árvores

um murmúrio de vozes um bater de asas sem motivo

os renques das buganvílias cintilam nas trevas a claridade fixa

dos estames

 

porque é que o que aconteceu na infância permanece tão vivo?

 

o rumor das folhas da chuva de oiro chamando

a íbis sagrada

 

chamando este poema

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in: O Amor essa Forma de Desconhecimento

alcance editores, Maputo, 2010

pág 74

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Foi aqui publicado em 30 de Junho de 2011


 

Independência de Moçambique

* Antologia — Myriam de Carvalho @ 11:09 pm

CELEBRAÇÃO DA INDEPENDÊNCIA DA REPÚBLICA DE MOÇAMBIQUE

 

Fez hoje, dia 25 de Junho, 36 anos que foi oficialmente reconhecida a independência da República de Moçambique.

O Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora celebrou a data com três dias de um Encontro que reuniu poetas, escritores, e estudiosos da Literatura moçambicana. O encontro culminou esta tarde, com um recital de Poesia, para o qual se pediu que cada participante se cingisse a três poemas apenas.

Foi interessante ver que a temática dos poemas escolhidos pelos participantes recordava as causas que levaram à luta pela independência, e todos os sofrimentos que esta por sua vez implicou. Como se todos nos tivéssemos combinado sob o lema  daquela conhecida frase – para que o Mundo não esqueça!

Mas para esta circunstância particular, é difícil escolher 3 poemas! Com que critério?

Escolher Poetas – não sei. Como, num manancial tão rico? Escolher Poemas? A mesma coisa.

Tentei então resolver o meu problema – Seleccionei 3 temas – E organizei-os de modo a formar um todo temático, com unidade própria, uma composição a três andamentos.

 

– Assim, de Noémia de Sousa, escolhi MAGAÍÇA – que nos fala dos que vão ser escravos nas minas de ouro de Johannesburg, bem como da indiferença de quem aproveita do seu suor e sofrimento.

 

– Em segundo lugar,  de José Craveirinha,  escolhi APARÊNCIAS– que nos fala da coragem moral e psicológica do Resistente, do Lutador,  e de como a consciência da sua dignidade  lhe dá força para a tudo resistir e lhe faz encarar com um sentimento de superior ironia, os chefes de brigada que o torturam.

 

– Por último, fecho esta brevíssima selecção com SONHO DE MÃE NEGRA, de Marcelino dos Santos – que é, assim estou convencida, o sonho de todas as mães, qualquer que seja a latitude onde nasceu, ou o tempo histórico que lhe caiba viver.

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Ao contrário do último poema, composto em sons suaves e andamento doce, a fazer-nos ouvir uma canção de embalar, não é fácil dizer os dois primeiros: Nestes, os Poetas utilizaram sons duros – ou seja, através da sucessão das oclusivas, os dois primeiros poemas fazem de nós a pele dura do tambor, sendo as palavras as baquetas que a percutem, a fazer-nos assumir o conhecimento e a denúncia das realidades e sofrimentos de todo um Povo, em determinada época ainda recente.

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Eis então os poemas:


 

MAGAÍÇA

A manhã azul e ouro dos folhetos de propaganda

engoliu o mamparra,

entontecido todo pela algazarra

incompreensível dos brancos da estação

e pelo resfolegar trepidante dos comboios.

Tragou seus olhos redondos de pasmo,

seu coração apertado na angústia do desconhecido,

sua trouxa de farrapos

carregando a ânsia enorme, tecida

de sonhos insatisfeitos do mamparra.

 

E um dia,

o comboio voltou, arfando, arfando…

oh nhanisse, voltou.

e com ele, magaíça,

de sobretudo, cachecol e meia listrada

e um ser deslocado

embrulhado em ridículo.

 

Às costas – ah onde te ficou a trouxa de sonhos, magaíça?

trazes as malas cheias do falso brilho

do resto da falsa civilização do compound do Rand.

E na mão,

magaíça atordoado acendeu o candeeiro,

à cata das ilusões perdidas,

da mocidade e da saúde que ficaram soterradas

lá nas minas do Jone…

 

A mocidade e a saúde,

as ilusões perdidas

que brilharão como astros no decote de qualquer lady

nas noites deslumbrantes de qualquer City.

 

APARÊNCIAS

 

Amigos!

Apesar das aparências

estarem de acordo com as circunstâncias

não sou eu quem morre de medo.

 

Antes

Durante

E após os interrogatórios

(Inclusive nos quotidianos trajectos de jipe)

a minha língua é que se torna de papel almaço

E minhas desavergonhadas rótulas de borracha

Coitadas é que tremem.

 

Ao bom evangelho dos cassetetes

ouvir avoengos pássaros bantos

cantarem algures nos ombros

velhas melodias de feridas.

 

E depois

à sedutora persuasão das ameaças

pela décima segunda vez humildemente

pensar: Não sou luso-ultramarino

SOU MOÇAMBICANO!

 

Será suficiente esta confissão

Sr. Chefe dos cassetetes

da 2ª. Brigada?

 

SONHO de MÃE NEGRA

 

Mãe negra

Embala o seu filho

E esquece

Que o milho já a terra secou

Que o amendoim ontem acabou.

 

Ela sonha mundos maravilhosos

Onde o seu filho irá à escola

À escola onde estudam os homens

 

Mãe negra

Embala o seu filho

E esquece

Os seus irmãos construindo vilas e cidades

Cimentando-as com o seu sangue

Ela sonha mundos maravilhosos

Onde o seu filho correria na estrada

Na estrada onde passam os homens

 

Mãe negra

Embala o seu filho

E escutando

A voz que vem do longe

Trazida pelos ventos

 

Ela sonha mundos maravilhosos

Mundos maravilhosos

Onde o seu filho poderá viver.

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school-mozambique

 

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Apenas uma pequena nota para facilitar a compreensão da totalidade do poema Magaíça:

Magaíça era o emigrante que, como atrás deixei dito, ia trabalhar para as minas de ouro de Joanesburgo;

Mamparra, podemos entender como o rústico, pessoa rústica

Nhanisse, a entender como deveras, na verdade

Compound (palavra inglesa) – os acantonamentos, ou “reservas”, reservadas aos mineiros, na África do Sul = barracão, camarata

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A FOTO:

http://www.voxeurop.eu/pt/content/article/254081-licoes-que-africa-nos-ensina

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Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

 

Dia 25 de Junho de 2011

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Gandhi

* Antologia — Myriam de Carvalho @ 10:25 am

Frase de Gandhi, no final da sua vida

 

– Vou demonstrar a Muçulmanos e Hindus que todos os demónios do mundo só existem nos nossos corações, e que é aí que todas as batalhas devem ser travadas.

– E que tipo de guerreiro foi o Senhor nessa batalha? – pergunta-lhe a jornalista que o estava a entrevistar.

– Oh, não fui lá muito bem… É por isso que sou tão tolerante para com os outros canalhas

Frase de Ghandi – no final do filme produzido e realizado por um outro pacifista, Sir Richard Attenborough, em 1982. O papel de Gandhi coube a Ben Kingsley, ele próprio filho de pai indiano e que tinha sido baptizado como Krishna Bhanji.

Na sua longa carreira, o mesmo Attenborough filmaria Cry Freedom, em ’87.

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Temos a voz de Gandhi no YouTube:

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Publicado aqui, em 23 de Junho de 2011


Yehudá Ha-Leví

* Alandalus,* Antologia — Myriam de Carvalho @ 9:57 am

Yehudá Ha-Leví

Apresento este Poeta a partir de

“Nueva antologia poética” – tradución, prólogo y notas de Rosa Castillo – Colecção Poesia Hiperión, 309 – Ediciones Hiperión, 1997

 

No seu prólogo, diz Rosa Castillo que este Poeta, a quem denominavam como El Castellano nasceu em Tudela, não mais tarde de 1075, e morreu não antes de 1140.

Yehudá Ha-Leví, para além da sua prática da medicina, cultivou várias temáticas líricas, desde a amorosa à religiosa, louvou a amizade, preocupou-se com a brevidade da vida, falou da sua viagem a Jerusalém, falou do Cosmos, ergueu hinos à Criação. Segundo Harold Bloom, Yehuda Há-Levi foi o último grande poeta dentre os poetas hebraicos da Espanha Muçulmana.

Hoje transcrevo apenas um poema de amor. É na sua poesia de amor que mais claramente observamos a influência da Poesia Árabe através de numerosas imagens. No entanto o Poeta não esquece a sua raiz bíblica, que é constante, qualquer que seja o tema tratado.

 

 

Apresento então o poema da pág 19:

 

Graciosa gacela, tu hermosura me sedujo

y tu crueldad me cativo.

Desde que la partidase interpuso entre los dos,

no encontre nada igual a tu beldad.

Me quedaré junto al manzano de frutos rojos

cuyo aroma es el de tu belleza y tu juventud,

su forma la de tus pechos,

y su brillo purpúreo el de tus mejillas.

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Publicado aqui, em 21 de Junho de 2011


Não Feches as Asas

* Antologia — Myriam de Carvalho @ 12:02 pm

 

Volto a apresentar um poema de Rabindranah Tagore, de que gosto muito.

Novamente, da antologia publicada em Portugal:

Coração da Primavera

na pág 31, poema de O Jardineiro;

Textos escolhidos, traduzidos e dispostos ritmicamente por MANUEL SIMÕES

Editorial A. O. – Braga – 1981 (2ª edição)

Col. “Deus Escondido” – 4

Não Feches as Asas

Ainda que a noite chegue lenta,

apagando as canções;

ainda que os outros pássaros

tenham ido dormir

e estejas cansado; ainda que o medo rumine na sombra

e se cubra o rosto do céu,

meu pássaro, escuta-me

e não feches as asas!

 

Não. Não são as sombras do bosque,

é o mar que se levanta

como negra serpente;

não é a dança do jasmim em flor,

mas o fio da espuma…

 

Onde está a verde praia cheia de sol?

Onde está o teu ninho?

Meu pássaro, escuta-me

e não feches as asas!

 

A noite solitária

atravessou-se no teu caminho

e a aurora dorme

atrás dos montes sombrios.

As estrelas sustêm a respiração

e contam as horas.

A lua débil

bóia no céu profundo.

Meu pássaro, escuta-me

e não feches as asas!

 

Nem a esperança nem o temor são teus!

Não há para ti palavras

nem gritos, nem lar, nem ninho.

Tens apenas duas asas

e o céu sem caminhos!

 

Meu pássaro, escuta-me

e não feches as asas!

*

Publicado aqui, em Junho de 2011

 

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