Rabindranah Tagore

* Antologia — Myriam de Carvalho @ 5:41 pm

Celebram-se este ano os 150 anos do nascimento deste grande poeta da Humanidade.

 

 

Em Junho de 1912, chegou a Inglaterra, vindo da Índia, com a sua colectânea “Gitanjali” – “Hinos (ou Canções…) de Oferendas”. Yeats ficou de tal modo impressionado pela sua Poesia que prefaciou a edição inglesa, que sairia em Março de 1913. E em Novembro desse mesmo ano, Tagore foi o primeiro não-europeu a ser laureado com o Prémio Nobel.

Foi traduzido para Francês, por André Gide; para Russo, por Boris Pasternak.

Faleceu em 1941.

Para com Tagore, eu usaria o conceito de Poeta, ou Poesia, no seu mais lato sentido: foi um perspicaz ensaista; como educador, fundou uma universidade; foi um opositor ao terrorismo que na sua época assolava a Índia; no meio das divisóes religiosas, e embora se tenha convertido ao cristianismo, foi um laico. Por último, é de referir que na sua Ficção, demonstrou uma compreensão da problemática da Mulher, muito à frente do seu tempo.

Notas retiradas de:

http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2011/may/07/rabindranath-tagore-why-was-he-neglected

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Aqui deixo um seu hino, à Mulher.

*

A Mulher Inspiradora

 

Mulher, não és só obra de Deus;

os homens vão-te criando eternamente

com a formosura dos seus corações,

e os seus anseios

vestiram de glória a sua juventude.

 

Por ti o poeta vai tecendo

a sua imaginária tela de oiro:

o pintor dá às tuas formas,

dia após dia,

nova imortalidade.

 

Para te adornar, para te vestir,

para tornar-te mais preciosa,

o mar traz as suas pérolas,

a terra o seu oiro,

sua flor os jardins do Verão.

 

Mulher, és meio mulher,

meio sonho.

*

Da antologia portuguesa – Coração da Primavera

Textos escolhidos, traduzidos e dispostos ritmicamente por MANUEL SIMÕES

Editorial A. O. – Braga – 1981 (2ª edição)

Col. “Deus Escondido” – 4

Pág, 27 da Antologiaág, de O Jardineiro

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Publicado aqui, em 25 de Maio de 2011


 


Árvores de Joanesburgo

* Contos — Myriam de Carvalho @ 10:27 am

Caminho de braço dado com o sol e o céu azul. Mas conservo as mãos frias e os dedos dos pés contraem-se em cãibras de gelo e impaciência.

Por mais que pense não faz sentido. Viver no fim do mundo, por exemplo, como pode ser tudo tão diferente. País no fundo do fundo dos continentes. Olho em volta, e invariavelmente e sem dar por isso me pergunto como vieram os europeus construir suas vidas no fim do mundo. Fugidos das guerras de religião. Em naus de desespero, para o cabo onde termina a esperança. E os que vieram depois. Na mira do ouro, dos diamantes, da cana-de-açúcar, ou simplesmente dos vastos espaços. Só percebo que vieram parar a esta ponta do mundo, aqui onde o mundo acaba, onde os oceanos  se encontram e varridos pelos frios e agressivos ventos do sul, se consorciam.

Foi porém aqui que dizendo simplesmente adeus ao passado ou forçados a voltarem-lhe definitivamente as costas, a esperança se renovou. Somos, todos, imigrantes. Órfãos de pátria, de chão. Não por nos termos deslocado no espaço mas porque não esquecemos o passado, não o enterrámos numa cova na areia deserta de uma enseada ou na curva estranha de um desconhecido rio.

Não devo falar na primeira pessoa do plural. Devo falar só por mim. E por todos os que como eu querem conciliar dois espaços numa mesma secção do tempo, como uma só e mesma vivência.

Céu azul, azul forte e não menos luminoso, não menos fosforescente que o do meu Algarve natal. Cheio. Pleno. O poeta afrikaans Herman Charles Bosman dizia algo como “Olhando este céu azul, esta bandeira que flutua, sei por que razão os nossos pais se bateram”. Contra este céu as copas das árvores se recortam. Carvalhos, plátanos, pinheiros vários, árvores europeias, árvores de Joanesburgo.

Carvalhos, plátanos, pinheiros. Árvores europeias. Emblemas do passado. Transpuseram os fossos do mar e da distância para virem iludir o vazio da orfandade ou da saudade. Porque quem veio, o coração grávido de cuidados e de penas ou ambições e as mãos e a mente detentoras de tecnologias de modelação da natureza, destruiu o mundo indígena, a fauna, a flora – até as gentes, meu Deus… –, transplantando para aqui o horizonte que anteriormente fora o seu.

Árvores de Joanesburgo, aqui mais frondosas, mais pujantes, mais ricas que no solo original. Árvores trágicas. Árvores de Joanesburgo.

Joanesburgo, Inverno de 1998

Publicado na Rev NEO, Nº 5, Universidade dos Açores, 2002

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Publicado por Myriam Jubilot de Carvalho, em 20 de Maio de 2011.

 

Um poema de NIZÂR KABBÂNI

* Antologia — Myriam de Carvalho @ 7:59 pm

Nesta nossa época de “guerras de culturas” – em nome da Paz, aqui trago hoje este Poema de um poeta árabe contemporâneo.

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Nizâr Kabbâni –  (1923-1998) é um poeta sírio, um dos poetas mais célebres do mundo árabe contemporâneo.

Publicou várias recolhas da sua Poesia, todas centradas no tema do Amor.

Poema da página 148, recolhido em:

Anthologie de la littérature árabe contemporaine

Préface de Georges Henein

3º volume: LA POÉSIE – par Luc Norin et Edouard Tarabay

AUX ÉDITIONS DU SEUIL, 1967

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ORIENT

Brisées les jarres

Les jarres de couleurs

Notre rendez-vous

Est dans les nuages

Sous les fenêtres de l’Orient.

.

Notre voyage

Dans les ports de turquoise

Et sur les stores bleus

De l’Occident.

.

Avec les parfums

Notre couche voyage

Rose

Changeante aux horizons.

.

Nourrissons-nous

Aux surplis de la rose

A tout ce que la nuit recèle

De rythmes et d’amour.

.

Tu m’as brûlé

Tu es partie

O toi menteuse dis

Est-ce là ton plaisir?

.

Ma vie s’offre à

Une taille verte

A de riches moissons

A de riches saisons.

.

Ma vie attend

Une fille. Elle va venir

Comme vient la lumière

Luxueuse.

.

Elle n’est pas arrivée

Mais j’atteste son ame

Et sur mes veines

Je la sens marcher.

.

O toi beau repantir

Me voilà prisonnier

A gémir d’un amour

Terrible, que je sais.

.

O descends

Sur mon aire affamée

Oh sois nuage sois pluie

A mon horizon altéré.

*

Como desconheço a Língua Árabe, ignoro qual ou quais os constrangimentos que o trabalho da tradução ofereceu ao tradutor francês. Assim, esta minha versão para Português não passará de uma tentativa, uma aproximação ao Poema original, que ofereço a quem não domine a Língua Francesa.

ORIENT                                                                   ORIENTE

Brisées les jarres                                                   Quebradas as jarras

Les jarres de couleurs                                            As jarras de cores

Notre rendez-vous                                                 O nosso encontro

Est dans les nuages                                               Decorre nas nuvens

Sous les fenêtres de l’Orient.                                  Sob as janelas do Oriente.

Notre voyage                                                       A nossa viagem

Dans les ports de turquoise                                   Nos portos de turquesa

Et sur les stores bleus                                           E sobre os estores azuis

De l’Occident.                                                       Do Ocidente.

Avec les parfums                                                  Com os perfumes

Notre couche voyage                                             Nosso leito viaja

Rose                                                                    Rosa

Changeante aux horizons.                                      Inconstante no horizonte.

Nourrissons-nous                                                  Porque não mantermo-nos

Aux surplis de la rose                                            De corolas de rosa

A tout ce que la nuit recèle                                    De tudo o que a noite encerra

De rythmes et d’amour.                                         De ritmos e de amor.

Tu m’as brûlé                                                        Tu queimaste-me

Tu es partie                                                           Tu partiste

O toi menteuse dis                                                 Ó mentirosa, diz,

Est-ce là ton plaisir?                                               Que prazer te deu?

Ma vie s’offre à                                                      A minha vida oferece-se

Une taille verte                                                      A uma cintura verde

A de riches moissons                                              A ricas searas

A de riches saisons.                                                A ricas promessas.

Ma vie attend                                                         A minha vida espera

Une fille. Elle va venir                                             Uma jovem. Ela vai chegar

Comme vient la lumière                                          Com o luxo

Luxueuse.                                                              Da luz.

Elle n’est pas arrivée                                               Ela não chegou

Mais j’atteste son ame                                            Mas vislumbro a sua alma

Et sur mes veines                                                   E sobre as minhas veias

Je la sens marcher.                                                 Sinto-a caminhar.

O toi beau repantir                                                  Ó remorso inútil

Me voilà prisonnier                                                  Aqui estou prisioneiro

A gémir d’un amour                                                Gemendo de um amor

Terrible, que je sais.                                                Terrível, só eu sei.

O descends                                                             Ó desce

Sur mon aire affamée                                              Sobre a minha eira ansiosa

Oh sois nuage sois pluie                                           Sê nuvem sê chuva

A mon horizon altéré.                                               No meu horizonte alterado.

*

Publicado por Myriam Jubilot de Carvalho (25 de Maio de 2011).

 

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