Três Poemas de António Osório

* Antologia — Myriam de Carvalho @ 7:37 pm

 

De António Osório, três poemas,

in “A Luz Fraterna – Poesia Reunida”  (1965 / 2009)

Col “Documenta poética”  / 137

Assírio & Alvim, 2009

 

 

O PÃO DAS PALAVRAS

 

Fortuna dos cegos, dos órfãos, dos loucos, dos fuzilados.

Fortuna de quem sofre  no circo pelos acrobatas, pela  perseverança  dos palhaços, pela apoteose final, a que ninguém se furta, nem mesmo os trapezistas, ciosos de aplausos como de festas os cães.

“Má fortuna” confessada a de Camões, prova terrível contra o destino. (A miséria dos homens não é o destino, mas a sua imperfeição).

Fortuna dos que não morrem em vida. Dos que passam por dentro e pelo fundo da sua tristeza, e vão além. Dos que  se contentam  com o  súbito pão  das palavras.  Dos  que não  causam dano  nem semeiam  culpa. Dos  que  poderiam apresentar-se limpamente diante de Deus.

 

OS LÍQUENES

 

Os botânicos sonham  com os seus  herbários. Incluem-se  numa alínea da descoberta do mundo, no inventário onde inscrevem as suas  orgulhosas migalhas. Com olhos de criança e de cientistas.

O  poeta  e  botânico  Camillo Sbarbaro  procurou  pelo  mundo  ínfimos  e resistentes seres, os líquenes. Tão tenazes na boca de um vulcão como implantados num muro sem luz.

E são mais fortes que nós – reagem a todas as adversidades. Porém afastam-se das cidades, porque a proximidade dos homens e da sua respiração os polui.

 

A PALAVRA INFELIZ

Deram-lhe  um  nome  mesquinho.  É  a  árvore  que mais tem sido humilhada. Esplêndida, das primeiras na Primavera a encher-se de folhas, que ao longo dos ramos finíssimos  caem  como  cabelos  soltos  de  uma  jovem  mulher, e tocam inclusive na água que caminha, escorrente, por cima da terra.

Na minha Aldeia ponho-a, só ou com o seu par, atentos, crescendo lado a lado, nos lugares de mais distante visão, de maior aconchego ou de completa beleza.

Procuro  apará-la  de  modo  a ficar debaixo dela, ouvindo-a estremecer com a invisível chegada do vento, e beneficiando no Verão daquela sombra reconfortante.

Pois  deram-lhe,  ignaros,  o nome ridículo,  incomodativo,  de “chorão”! Ninguém suporta ao pé de si, perpétuo, um “chorão”! Mas eu quero-lhe, e muito, porque o seu  desconhecido  nome é o de “salgueiro-da-babilónia” (salix babylonica), e para os Gregos era um dos símbolos perenes da Poesia.

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pp 366 e 367; e 589, respectivamente.

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Publicado aqui, em 30 de Abril de 2011



Shalom

* Contos — Myriam de Carvalho @ 5:24 pm

À Professora Doutora Natália Maria Lopes Nunes, com admiração e amizade

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Shalom

“Quatro cerros tem Alte

que a cercam em redor:

Galvana, Francelheira,

Castelo, e Rocha Maior”

 

Nasci ao bater da primeira badalada do primeiro dia do mês de Maio. A lua brilhava em todo o esplendor do seu círculo plenamente cheio. A abóbada celeste parecia, nessa noite, o interior de um imenso ovo de poalha luminosa. E eu ressurgia na terra para, desta vez, fulgurar no centro dessa imensa luz.

Como sabem, em noites de intenso luar, poucas são as estrelas que vemos povoando o céu. No entanto, ouvia-se o seu coro polífono, um antiquíssimo hino. Louvavam a renovação da Natureza, os seus belos frutos, o seu eterno despontar. Era assim que naquela noite, no âmago de toda aquela medula de energias, eu ali estava novamente para provar, apenas, que a Natureza permanece em toda a pujança do seu vigor.

Nasci sob o aspecto cinzento de um cogumelo.

Só muito raramente a minha espécie faz a sua reaparição sobre a Terra, mediante condições especiais de húmus que nos propiciem o habitat essencial. Mas eu nasci, mais uma vez, no centro de um tufo de musgos secos na sombra das estevas, num canto abrigado pelas raízes salientes e rebentos espontâneos do que restava do último carvalho dos muitos que em tempos idos tinham habitado a várzea, e ainda lhe dava o nome pelo qual era conhecida – a Várzea do Carvalho. No sopé de uma cercadura de montes áridos de nodosas veias calcárias rompendo o solo de barro encarniçado mas, mesmo assim, povoado das árvores de pequeno porte próprias do sul, a Várzea do Carvalho, sulcada pela ribeira bordejada de canaviais que sussurravam secretas áreas sefarditas e mouras quando o vento lhes agitava as folhas esguias, era uma planicie fértil, semeada pelas mãos persistentes de alguns pequenos lavradores. Mas não era para mim.

A particularidade que torna raros os seres como eu reside no facto de sermos sensíveis e pensantes. Trazemos o destino inscrito na empreita dos nossos genes; por isso nos basta um único pé a prender-nos à terra. Mas somos seres sensíveis. E pensantes.

Ansioso por ver cumprido o meu destino, encolhia-me quanto podia, temendo ver–me pisado. Ao luar, luzia à sombra pegajosa e fria das estevas a minha pele luminosa. Foi então que vi aproximar-se Aquele por quem eu esperava, vindo das fontes do tempo  sem início e sem fim. Estranho porte. Magro e alto. Curta barba negra, longos cabelos anelados. Pequenos óculos redondos de armação de arame flexível. Não vestia de escuro, como os camponeses, mas sim um conjunto bege claro, um tanto usado, calças lisas e casaco príncipe de gales, as mangas protegidas por cotoveleiras de carneira fina. Suspenso do ombro esquerdo, amplo saco de couro já usado.

Vinha cansado de me procurar pelos cerros, e pelo vale. Por isso, ao acercar-se das raízes do carvalho, o Homem sentou-se sobre a raíz que me ocultava. Independentemente de qualquer volição minha, o meu brilho redobrou. E ele viu-me!

Debruçou-se, maravilhado, sobre mim. Retirou do saco a sua grande lupa e observou-me cuidadosamente, murmurando aquelas palavras gregas tão conhecidas, “Héurêkha! Héurêkha!”. Tirou os óculos para ver melhor. Limpou o suor que entretanto lhe cobriu as fontes. Finalmente, pronunciou as palavras que desde sempre me tinham sido destinadas. “Tu, Rosa Dourada dos Jardins do Éden! Que tudo quanto jaz oculto, brilhe à grande luz do dia”. Em seguida, muniu-se da sua pá e levantou cautelosamente o torrão que me prendia, evitando rasgar os musgos que me rodeavam. E o meu brilho aumentava,  aumentava sempre,  forçando-o a  semi-cerrar os  olhos castanho-escuros.

Dei por mim liberto do solo, embora preso ao volumoso torrão de terra, alimento das minhas raízes. Cautelosamente, colocou-me sobre meia folha de papel de prata, depositando-me assim no fundo do enorme saco. Repôs sobre a cabeça o chapelico tirolês.

Placidamente, dirigiu-se até ao carro que esperava ao lado da estrada e conduziu-me a uma zona a montante daquela onde nasci, por onde a ribeira corre em ravinas igualmente estranguladas pelos cerros, mas agora belamente ladeada de canaviais, romanzeiras, um ou outro salgueiro debruçado sobre as águas cantantes. Num plano mais elevado que o nível da ribeira, o pessoal dali tinha aproveitado um breve terreno plano para fazer florir um pequeno pomar de laranjeiras, onde  os frutos amarelos, quando já formados, acenavam ao ar e mostravam ao sol que lhe tinham copiado a cor.

O Homem orientou-se mesmo para a borda da ribeira, onde o terreno ainda é húmido mas de difícil acesso devido às pequenas rochas que o povoam, e onde os gaiatos não vão pisar quando saem nus dos seus banhos naturais, prolongando o prazer arremessando punhados de terra enlameada uns contra os outros.

Escolheu um sítio. Retirou-me do saco.

Colocou o torrão que continuava a servir-me de berço junto ao caule de um lírio roxo que ali crescia espontaneamente. O Sol começava a subir, o céu começava a clarear. Também o lírio roxo era sensível e pensante. Por isso as nossas raízes puderam aprofundar-se e receber frescura e energia umas das outras: a minha capa começou a estalar e um novo caule desabrochou no meu corpo e se foi erguendo no meio do coro obssessivo das cigarras. Pequenos espinhos surgiram no meu tronco, folhas verde-seco nasciam a espaços regulares. Um pequeno botão se formou na extremidade do meu caule. Ao meu lado, o lírio roxo, esplendoroso, crescia também e a sua flor roxa ganhava forma. Tudo acontecia como estava determinado. O Homem contemplava-nos. Colocou sobre o chão uma pequena toalha, sentou-se. E esperava.

Era tradição da zona onde nasci, celebrar-se o Primeiro de Maio com viva romaria.

Assim, desde o nascer da manhã, presenciei a chegada de muita, muita gente que se ia instalando e alastrando pelos montes até não caber mais. Como num anfiteatro grego. Gente geralmente trajada de negro, baixa estatura, olhos cor de turquesa, ou azeitona, ou azeviche. Pele crestada, gretada, ressequida pelo sol, pelo frio, pela insuficiência da alimentação tradicional limitada aos pobres recursos da região, pelos rigores do trabalho rural, o pescoço a revelar as veias salientes, os rijos corpos ossudos, magros. A meio da manhã, já eu podia admirar um grosso mar ondulante de guarda-sóis negros pois os parcos ramos de bailarina das amendoeiras, os troncos contorcidos de tragédia das figueiras, as ramadas cerradas das oliveiras que dão a luz ao mundo ou as titânicas copas das alfarrobeiras, todas essas ramadas desse arvoredo ralo e quiçá atrofiado pelo solo rochoso e o ardor do sol  não chegavam como abrigos. Cada família, cada grupo trazia o seu farnel preparado a pensar nas muitas horas que ali seriam vividas, libertas das penas do trabalho do campo e das incertezas das colheitas. Porque aquele era o dia imemorial que conheciam de mais sagrado..

E toda aquela multidão disciplinada, respeitosa, esperava.

Cá em baixo, a ribeira que no seu percurso era alimentada por algumas fontes, era aqui enriquecida pela Fonte Grande, a mais caudalosa dentre elas, um enorme olheiro rodeado e protegido por várias rochas. Quatro ou cinco grossas nascentes formavam uma funda piscina onde nadavam minúsculos peixes e uns bicharocos negros semelhantes a aranhões. Aí, a junta de freguesia fazia apoiar um palco. Depois da hora do almoço, quando o calor começasse a abrandar, dançava o rancho folclórico os velozes corridinhos estonteantes, o baile mandado, as canções tradicionais ao som das gaitas de beiços e dos  acordeons ritmados pelos batimentos das pandeiretas e ferrinhos. E dos pés dos tocadores e dançarinos. E tudo isto ecoando pelas encostas dos quarto cerros!

Entretanto, o astro rei ia prosseguindo o seu percurso na direcção do ocidente, mantendo-nos sob o seu império, avolumando o coro das cigarras.

A seguir à actuação do grupo, soltavam-se as energias. Os tocadores eram incansáveis e quem queria, vinha dançar sobre o sólido palco. E lá continuavam os corridinhos! E os bailes mandados! E sempre, e mais, os corridinhos, a escovinha.

Até que a aragem cessou. Abelhas e vespas iam e vinham de corola em corola. E eu assistia à metamorfose que se operava dentro de nós os dois: pétalas! Pétalas que iam engrossando o botão que se formara na extremidade do meu caule.

Ao entardecer, quando o calor deixava de queimar e as sombras dos girassóis começavam a espreguiçar-se sobre o solo e a música dos acordeons voltava a subir, transportada nas velas da brisa, do meu botão amadurecido eclodiu, enfim, deslumbrante, esplêndida rosa dourada, raiada de belas estrias sanguíneas, escaldantes como o magma.

Abelhas e vespas rodopiavam em torno de mim e do lírio roxo. Revimo-nos multiplicados nos espelhos das suas asas. Já não éramos só uma rosa e um lírio, mas uma multitude de pequenas rosas e lírios, abertos em plenitude, esvoaçando e zumbindo no luminoso anil do entardecer.

A noite vai caindo suavemente. A romaria vai terminando. O luar vai voltar. Sei que o meu ciclo foi cumprido e que o meu fim chegará à última badalada da meia-noite. Mas não podemos deixar de nos interrogar como teriam sido as nossas vidas se o nosso Amigo tivesse desistido de me encontrar…

Porque das outras vidas não guardo recordação alguma e, quanto às próximas, nada poderá ser antecipado…

Alte, 1º de Maio de 1988

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Foi publicado em:

“Revista Literária Sol XXI”, Nº 4

Março de 1993

Publicado aqui, em 30 de Abril de 2011

 

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