Bandeira azul

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 10:46 am

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O mar,  ao longe, além das dunas e destes círculos multi-colores dos guardassóis

O brasido da areia

O escalda-pés das passadeiras de cimento, cardos, chorões, e ralas espigas

Acostadas aos barracões de madeira, bicicletas de aluguer

A bandeira azul flutua contra o céu

Papagaios acrílicos brincam no ar

Corre nas veias da praia a leve aragem do início do entardecer

Amplos, vastos como o horizonte, contemplam-me vigilantes, ansiosos, absorventes, teus olhos de cera, agora felizmente, finalmente inofensivo

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Sobre a imagem, ver em:

Olhares

http://olhares.sapo.pt/a-bela-praia-da-manta-rota-foto616607.html

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© Myriam Jubilot de Carvalho

Manta Rota, Agosto-2001

Publicado em “Poetânea” (a primeira), Hugin, 2003

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Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 27 de Setembro de 2009

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Sete paisagens

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 6:25 am

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SETE PAISAGENS

 

Um avião, cada vez mais longe

brilhando, branco, sob as nuvens esbranquiçadas.

As gaivotas, pontos brancos, boiando

na ondulação branca do Rio.

Os silos, a Trafaria,

toda a Costa, ao longe, em minúcias de prédios brancos.

Marcando o horizonte, a negrura do pinhal.

E o Rio, esse eterno marulhar

na gama completa da paleta fria.

Quem diria, ó Primavera –

Este ventinho cortante e húmido,

nem a areia aqueceu.

Não muito longe, sozinho, erecto nessa nesga de Sol fugidio…

…o farol do Bugio,

o farol do Bugio

***

A noite desfaz-se em água.

Há pouco, campânula difusa, quente, asfixiante dos inícios de Verão, as nuvens, baixas, absorviam as luzes da cidade.

Subia, em crescendo, o ruído soturno dos carros.

Passou uma aragem. Suavemente. Levou consigo a campânula de luz.

Cessaram os pregões do circo, os altifalantes da feira pagã.

Neste Verão exterior aos cânones do tempo, a noite desfaz-se em água.

Em silêncio,

pulsa, sufoca, o coração do Universo

***

Outono,

As copas das árvores. Respondendo ao apelo da aragem perpassante pelas ruas, deixando-se afagar. Afago flutuante, libertação das folhas amarelecidas.

Os canários. Respondendo-se uns aos outros, cantando nos quintais em magnificat. Ignorando os muros que os separam.

Mergulharam na névoa os paralelipípedos desengraçados, debotados, ensurdecidos, amassados. Pelo rugir dos cifrões.

Velas de fragatas conciliando no Tejo

Velas imemoriais

Formas esquecidas

Para dores iguais

***

Metáfora do futuro – a folha, o deserto,

sob o foco inquiridor

dos teus ritmos binários

Voltas e voltas à pista – onde está o

novo grito? – ostinato cantabile

Na falta de papel –

onde morrer?

***

A toada louca dos canaviais

aqui. Onde o vento ora geme, ora clama “A princesa

tem orelhas de burra! A princesa tem orelhas de

burra.” Morrer nesta curva. Desta estrada, aqui. Onde as

palavras nascem do meu corpo como as flores, da

laranjeira, como as maçãs da macieira, como as

uvas do pinhal. Aqui, onde não sei sementes que

me fecundem. Nem adubos, que me acrescentem. Aqui,

onde o

vento, indolente, continua a toada “A princesa

tem orelhas de burra! A princesa tem orelhas de

burra.”

Falar. Escrever! Terá seu preço?

Enlouqueço. Com este vento, invejoso. Que ora

geme, ora clama “A princesa tem orelhas de burra!

A princesa tem orelhas de burra”

***

O dia vai chegando ao fim. As melodias das

ondas tomam a forma dos toucados da noite.

Pintei os olhos, os lábios. O rosto. E as

unhas.

Respiro. Respiro profundamente. Antes de

olhar em volta.

Ah, o perfume. Faltava o

perfume. Das horas. Da balança.

Amanhã.

A criança

***

As tuas mãos são a seiva do meu corpo.

As tuas mãos. Extasiadas do voo das árvores, dos bailados do vento, do viajar sem fim das águas de  todos os rios. As tuas

mãos. Comovidas do iníquo abandono das gentes sem condição. Cansadas, magoadas, feridas. Perdidas as unhas de escavar na esperança. Caladas, fechadas,

ressequidas.

As tuas mãos. Que apanham as sementes dispersas pelo chão e as guardam e disseminam, in memoriam dos frutos não colhidos.

Bandeja de fogo

As tuas mãos

são o ventre do meu corpo

Conjunto publicado no volume XVI

da “Viola Delta”

Outubro – 1991

Edições MIC

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Publicado aqui, em 26 de Setembro de 2009

 

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